Pesquisa desenvolvida na Aldeia Fulni-ô, em Águas Belas, no Agreste de Pernambuco, utiliza cinema como instrumentos de fortalecimento cultural e ensino da língua Yaathe
Em Águas Belas, no Agreste de Pernambuco, crianças da Aldeia Fulni-ô assistem à própria língua reverberar na tela através de uma obra de audiovisual produzida dentro da comunidade. A experiência marca uma tentativa de preservar o Yaathe, considerada a única língua indígena viva do Nordeste brasileiro fora da Amazônia Legal.
Realizado com incentivo do Funcultura, fundo do Governo de Pernambuco por meio da Secretaria de Cultura do Estado (Secult-PE) e da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), o projeto YAATHE transformou o audiovisual em ferramenta pedagógica e de preservação cultural ao desenvolver uma metodologia experimental de ensino da língua Fulni-ô voltada às novas gerações da aldeia.
A iniciativa nasceu da percepção da extinção da língua. Embora o povo Fulni-ô reúna cerca de sete mil pessoas em Águas Belas, apenas aproximadamente 500 ainda falam fluentemente o Yaathe. A língua, que sobreviveu a séculos de colonização, repressão e apagamento cultural, enfrenta hoje o desafio da permanência entre as novas gerações.
Foi a partir dessa urgência que a produtora pernambucana Tempoo, com pesquisa de Mateus Guedes e Fábia Fulni-ô, roteiro e direção de Mateus Guedes, e produção executiva de Ana Sofia, desenvolveu uma pesquisa teórico-prática que reúne cinema, música, design, ilustração e motion graphics em uma experiência educativa construída dentro da própria comunidade indígena.
O principal resultado do processo é uma videoaula piloto criada para auxiliar práticas de alfabetização e letramento em Yaathe. Diferente dos formatos tradicionais de ensino, o material aposta em elementos visuais, trilhas sonoras originais e recursos gráficos para aproximar o idioma do cotidiano das novas gerações Fulni-ô. Todo o desenvolvimento do YAATHE aconteceu em diálogo com lideranças, educadores e pesquisadores indígenas da aldeia.
AUDIOVISUAL NA ALDEIA – Além da produção audiovisual, a iniciativa também realizou ações pedagógicas nas escolas da aldeia como contrapartida social. Foram promovidas aulas experimentais na Escola Indígena Fulni-ô Marechal Rondon, nas unidades de Ensino Fundamental e Ensino Médio, em parceria com Fábia Fulni-ô, Hugo Fulni-ô e Waya Fulni-ô, integrantes da produção local. As atividades foram conduzidas pelo professor Riury Marques de Melo, integrante do corpo docente da comunidade.
A equipe reuniu profissionais indígenas e não indígenas de diferentes gerações e trajetórias, além de incorporar recursos de acessibilidade em Libras. A contratação de trabalhadores da própria aldeia também contribuiu para movimentar a economia criativa local e fortalecer o Coletivo Fulni-ô de Cinema.
“Ao unir arte, tecnologia, pesquisa e educação intercultural, o projeto constrói um modelo experimental de preservação linguística que poderá inspirar futuras iniciativas em territórios indígenas de diferentes regiões do país”,expressa Mateus Guedes, pesquisador, roteirista e diretor do projeto YAATHE.




