*Por Manu Siqueira
Eu me separei oficialmente em 2012. Digo oficialmente porque, antes disso, o meu casamento já estava acabado. Mesmo partindo de mim o pedido de separação, passei dois anos de luto. Após esse período, digamos, de organização interna, percebi que, para conhecer gente nova, eu teria que entrar em aplicativos, o que, na época, me causava um grande desconforto.

Depois de criar coragem, somente em 2015 consegui tal feito, durante uma viagem. Quando dei match com um estrangeiro que passava uma temporada no local das minhas férias, eu já estava na minha poltrona do avião, preparando-me para decolar de volta ao Recife.
Semanas depois, ele veio até ao Recife para me conhecer pessoalmente, após apenas uma ligação e alguns e-mails trocados. Achei essa atitude muito legal, e me transmitiu certa confiança. O encontro não virou namoro, mas me rendeu bons momentos, maravilhosas lembranças e uma amizade que dura até hoje. Esse primeiro match abriu uma porta gloriosa, repleta de esperança, para outros encontros que aconteceram em situações parecidas, em Salvador, no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Buenos Aires.

Foram vivências bacanas para a época e que renderam boas histórias para contar às minhas amigas depois. Todos os encontros foram marcados em lugares públicos, com todo o cuidado e todas as paranoias possíveis. Quero dizer ainda que, como celebrante de casamentos, tem sido cada vez mais comum, de uns tempos para cá, realizar cerimônias de casais que se conheceram nesses aplicativos. Como eu sempre digo, o amor não se encontra em uma esquina qualquer. Portanto, encontrar um par em aplicativo não é regra; é uma exceção daquelas bem boas e raras, mas que acontecem.

Pois bem, para quem leu até aqui, sinto informar que, a seguir, não tenho boas notícias. Saí dos aplicativos de relacionamento em 2018. Depois veio a pandemia, e o mundo parou. A vida foi retomando seu curso aos poucos e, cada vez mais, eu sentia desânimo em voltar para essa vida de encontros digitais. Sim, é extremamente cansativo.
No final do ano passado, durante as férias, aderi novamente a um aplicativo, em Minas Gerais. Eu realmente tenho um olhar refinado para seleção e critérios de escolha para um date. Dos muitos homens que apareceram, só consegui dar match com dois ou três; não lembro ao certo. Nenhum deles tomou a iniciativa de puxar conversa comigo. O único que me interessou de verdade desfez o match depois que mandei um “oi”. Sim, mulheres, vocês já sabem: são esses tipos de homens que estão espalhados aos montes por aí.

Até agora, você deve estar se perguntando por que eu não tive nenhum encontro aqui no Recife. Tive, sim. Um cara passou o encontro inteiro falando da ex. Isso aconteceu em 2015 e, atualmente, eu jamais permitiria que se repetisse. E este ano também tive experiências virtuais, mas, felizmente, não encontrei ninguém pessoalmente. A crescente taxa de feminicídios me colocou em uma posição de enorme cautela, levando-me a analisar criteriosamente tudo.
Virtualmente, conheci um verdadeiro canastrão. Aquele tipo que se faz de intelectual, mas mente, é escorregadio e tão burro que deixou comentários “quentes”, elogiando corpos de mulheres que eu sigo e admiro. A esse eu dei uma corda enorme. Dei todas as esperanças possíveis de que iríamos nos encontrar e talvez até namorar. Mas ele acabou se enforcando na própria corda que recebeu e, depois disso, eu simplesmente sumi. Não há sensação mais libertadora que apagar uma pessoa da sua vida. Tornar-se inacessível. Coibir qualquer tipo de acesso a você.

O outro rapaz, coitado, ainda morava com a mãe. Fizemos uma videochamada, e foi quando descobri um detalhe importante: homens mentem a idade em aplicativos de namoro. Esse parecia, no mínimo, dez anos mais velho do que nas fotos. Isso me incomoda demais. O fato de não ser honesto, sabe? Nem preciso dizer que sumi também, né?
Mulheres, aqui vão algumas curiosidades que consegui perceber nesses 15 dias em que suportei estar nos aplicativos. Além de os homens mentirem a idade, eles não costumam fazer assinatura dos aplicativos. E, sim, enquanto morremos de medo de fornecer nosso número de telefone, eles já colocam os deles na bio. A maior parte, eu diria que 90%, dos homens que estão nos aplicativos hoje se declara cristã e politicamente de direita. Quando você faz um filtro tirando essa opção, não sobra quase nada. A maior parte dos homens tem fotos segurando algum tipo de bebida alcoólica, e uns 70% acham uma ótima ideia postar foto em frente ao espelho da academia.
Homens também usam filtros. Muitos. E uma grande parte exibe fotos de boné ou chapéu para esconder a calvície. Teve um que colocou apenas fotos feitas com inteligência artificial, em diferentes lugares do mundo. Mas também descobri, conversando com um paquera, que muitas garotas de programa estão nos aplicativos e que essa é uma grande questão para eles, pois a maioria procura sexo gratuito, e não pago.
É isso. Estou fora dos aplicativos desde fevereiro, sem prazo, nem paciência, para voltar. Mas, se você ficou sem esperanças lendo este texto, eu lhe digo: tente. Vai que você se transforma em uma exceção, e eu ainda possa celebrar o seu casamento no futuro. Quem sabe? Afinal, como diz uma grande amiga minha: quem não arrisca, não ama. Boa sorte!
*Manu Siqueira é jornalista



