Presidente revela problemas para manter funcionamento da instituição e diz estar aberto a parcerias. Destacou que pretende tornar o instituto mais conhecido. Ele também defendeu mudar o nome do feriado do dia 6 de março de Data Magna para Dia da Revolução Pernambucana de 1817, para aumentar o conhecimento da população sobre esse período histórico.
Preservar a nossa memória e o patrimônio cultural do Estado é a missão do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP). Localizado no coração do Centro do Recife, é o mais antigo instituto histórico regional do País e um verdadeiro guardião do passado pernambucano, com um acervo riquíssimo que atravessa séculos de história e cultura.
À frente do espaço, atualmente, está o historiador George Cabral, doutor pela Universidade de Salamanca e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que planeja novas ações para reavivar o local carente de recursos para manter o acervo.
Ele defende a integração com instituições públicas e privadas, além de lutar pela valorização da história de Pernambuco nas escolas. Em entrevista concedida a Yuri Euzébio, George Cabral reflete sobre a importância do instituto, os projetos desenvolvidos no espaço e o seu funcionamento. Também analisa o valor da memória para os pernambucanos e o processo de formação do povo brasileiro.

Como surgiu o instituto e quais os trabalhos que desenvolve?
O Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano é uma associação cultural privada sem fins lucrativos, fundada em 1862 por um grupo de 27 sócios fundadores. Desses, havia uma comissão menor de cinco integrantes, liderada por Joaquim Pires Machado Portela. Ele era um intelectual e exerceu cargos na administração pública em Pernambuco e no Rio de Janeiro. Chegou a ser uma espécie de secretário da Educação aqui. Havia desde 1840 o desejo em Pernambuco de se fundar uma associação que cuidasse de preservar e estudar a história do Estado, porque em 1838 foi fundado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
E esse Instituto começou a contar uma história do Brasil que deixava Pernambuco num lugar incômodo: ou silenciava, ou colocava o Estado como uma província separatista. Havia uma série de questões que não refletia o pensamento e o sentimento dos pernambucanos. Então desde 1840 tentou-se organizar uma associação inspirada no Instituto Brasileiro, mas que colocasse um discurso contrário àquele que se fazia no Rio de Janeiro e mais atento às nossas questões locais.

Qual o acervo do espaço?
O acervo museológico conta com peças de extrema importância para nossa história, como por exemplo, a espada do capitão José de Barros Lima, o Leão Coroado, que foi a arma que fez eclodir a Revolução de 1817. Temos também a primeira prensa do Diário de Pernambuco. Um canhão holandês de 1629, usado aqui durante a invasão holandesa.
No acervo documental são cerca de 400 metros lineares de documentos manuscritos, entre eles o Livro de Tombo dos Bens dos Jesuítas, de 1759, que contém o registro das propriedades da Companhia de Jesus quando de sua expulsão do Brasil. Este códice recebeu título de Memória do Mundo UNESCO. O acervo bibliográfico contém cerca de 12 mil volumes, incluindo obras raras dos séculos 17, 18 e 19.

Esta é a terceira vez que o senhor atua como presidente do instituto. O que você pretende fazer nesse mandato?
Sou sócio do instituto desde 2007. Um grande desafio nesta gestão é manter a casa funcionando e preservando seus acervos. Há um acervo museológico, um bibliográfico, um arquivo gigantesco que é consultado por pesquisadores do Brasil e do mundo. Isso pode parecer pouco, mas não é porque temos recursos muito limitados.
O dia a dia da casa é suprido pelas contribuições dos sócios. São 50 sócios efetivos que têm a obrigação de contribuir e mais alguns sócios de outras categorias que contribuem voluntariamente. Uma alternativa são as parcerias com os poderes públicos. No momento, estamos tramitando a implantação de um convênio com o Governo do Estado que vai destinar recursos para contribuir na manutenção da casa e das suas atividades. Também estamos abertos a parcerias com instituições privadas, com qualquer ente que esteja sensível ao tema da história de Pernambuco e possa contribuir conosco.
Nossa intenção é reabrir, em breve, o Museu do Instituto com uma reformulação e uma exposição mais contemporânea, mais preocupada em ter um tom que dialoga melhor com a sociedade atual, com as nossas demandas de hoje. Também pretendo retomar a publicação da revista do instituto, que foi interrompida durante a pandemia, e expandir as parcerias com instituições de ensino e instituições semelhantes ao instituto. A minha preocupação é tornar o instituto cada vez mais conhecido dos pernambucanos e das pernambucanas.

Como funciona a sociedade no instituto? E como ocorrem essas eleições para os sócios?
Temos os sócios efetivos, que são uma categoria com um número fechado de cadeiras, e o processo de agregação é esse: são pessoas que têm um perfil de produção na área de história, de patrimônio, de geografia, são docentes dessas disciplinas, mas são também pessoas de outras áreas do saber que têm sensibilidade para esses temas. O estatuto exige que haja a indicação por três sócios efetivos e há uma comissão que avalia as candidaturas que depois serão votadas no conjunto do plenário das reuniões. Há também os sócios correspondentes que estão fora da região metropolitana e que fazem com que a nossa rede se expanda para além de Pernambuco.
Como o senhor pensa em tornar o Instituto mais conhecido?
O caminho mais fácil de chegar até o grande público são as redes sociais. Quando implantarmos o convênio com o Governo do Estado, por intermédio da Fundarpe, uma das ações previstas é retomarmos as nossas redes sociais, com produção de conteúdo, com produção de material de interesse para o público.
A gente também tem procurado trabalhar com professores das redes de ensino, estimulando tanto os da rede de ensino pública, quanto da privada, a levarem para lá os estudantes. Também alunos de terceiro grau das faculdades são convidados a visitar o museu, a fazer pesquisa lá, acompanhar as palestras e. dessa forma, a gente vai tornando a instituição mais conhecida, porque é fundamental sensibilizar o público para que haja uma participação maior da sociedade civil.
Podemos ter projetos paralelos voltados para a infraestrutura da casa e para ações educativas que tornem cada vez mais conhecido esse patrimônio, que é um gigantesco. Guardamos ali algumas das peças mais importantes da história de Pernambuco, documentação de extrema importância para a pesquisa histórica. É um acervo importante que esse grupo de abnegados cuida diariamente.

Um projeto bem-sucedido do instituto é o História nas Paredes. Como surgiu, quantas ruas foram contempladas e vocês pretendem retomá-lo?
Ele foi criado pelo vice-presidente Silvio Amorim, que se inspirou nos painéis de azulejo que nomeiam logradouros públicos em Portugal. Aqui expandimos, colocando não só o nome do logradouro, mas também um pouco da história ou da pessoa ou do fato que originou esse nome. Dessa forma, colocamos pílulas de informação pela cidade. São hoje mais de 350 painéis. Nem todos são de ruas e praças, alguns assinalam locais de interesse histórico.
É uma forma prática de disseminar conhecimento histórico. As pessoas passam pelas ruas todos os dias e veem aquele painel bonito, chama atenção. É um texto curto, e assim adquirem conhecimento. São feitos com material resistente, que não atrai os furtos.
Qualquer pessoa que tem interesse em patrocinar um desses painéis é só entrar em contato com a gente. Silvio Amorim faz toda a tramitação: faz a pesquisa histórica, cria o texto, entrega para o artesão que queima as pedras de azulejo. Todo o processo é feito pelo instituto e a gente conta sempre com patrocinadores.

Fale um pouco sobre sua trajetória.
Sou professor de história e historiador. Decidi ser professor de história quando tinha 11 anos, porque fiquei encantado pela disciplina. Fiz a graduação e a licenciatura em História na UFPE, onde também fiz o mestrado. Fiz iniciação científica na área de arqueologia histórica com o professor Marcos Albuquerque. Como ele se aposentou, eu acabei migrando para a história com a professora Socorro Ferraz, que foi a minha orientadora de mestrado e quem articulou para que eu pudesse fazer o doutorado na Universidade de Salamanca, na Espanha.
Ao retornar, entrei para a docência superior, por concurso público, primeiro na Universidade de Pernambuco, no Campus Nazaré da Mata, e logo depois, também por concurso, na UFPE, onde eu estou como docente efetivo há 17 anos. Comecei a dar aulas em escola com 18 anos, já tenho aí mais de 30 anos de sala de aula, sempre na área de história.

Como pesquisador desse período, o senhor acha que o Brasil atual guarda reminiscência da época colonial?
Sim, sem dúvida. A principal marca da formação da nossa sociedade são as consequências da escravidão, uma instituição que dura mais de 300 anos na nossa formação e que deixou consequências negativas para a nossa sociedade. A começar pelo racismo, a desvalorização do trabalho manual, as desigualdades sociais e regionais, então há muita coisa que nós herdamos lá do período colonial que continua presente.
Nós estudamos na escola que o Brasil é subdesenvolvido porque foi colônia de exploração de Portugal. Mas vamos combinar, já faz mais de 200 anos que o Brasil ficou independente. Não é simplesmente uma herança direta. São práticas sociais, são concepções de sociedade que ficaram arraigadas na gente e que até hoje repercutem. A sociedade brasileira até hoje mantém muitos mecanismos de reprodução da desigualdade social. Não é nada fácil para quem nasce nas camadas menos privilegiadas, é muito difícil conseguir avançar, porque existem barreiras que são quase intransponíveis. Quando falo isso, penso, por exemplo, um jovem de periferia, do interior que tem dificuldade para acessar ainda, apesar de todos os avanços, a oportunidade que deveria ser ofertada igualmente para todo mundo.

Pernambuco é um lugar contraditório em relação à história. O pernambucano é muito orgulhoso de sua história. Ao mesmo tempo, desconhece muita coisa. Como o senhor explica essa dicotomia?
Temos umas peculiaridades da história que são únicas nossa, nenhuma outra área do Brasil passou por um processo de guerra tão complexo como Pernambuco. Quando da invasão holandesa, nenhuma outra área do Brasil passou por um processo de independência tão radical como em Pernambuco, com tantos movimentos revolucionários republicanos, tão radicais. Isso, de certa forma, nos dá uma forma de nos encararmos diferente do restante do Brasil. Mas, de fato, esse orgulho de ser pernambucano não é acompanhado por um conhecimento da história.
Muitas vezes não é acompanhado por uma valorização do patrimônio histórico e cultural de Pernambuco. Fico chocado, às vezes, de ver pessoas socialmente privilegiadas, com condições de viajar o mundo e que saem daqui para aprender com patrimônio histórico e cultural na Europa, por exemplo, enquanto promove aqui a destruição de patrimônio histórico e cultural ou não valoriza ou ignora. Temos também uma base educacional que sempre nos colocou em segundo plano. Quando eu digo nos colocou, me refiro à história de Pernambuco.
Se você pegar boa parte do material didático produzido para as crianças na escola, para os jovens no ensino médio, eles dedicam um espaço muito limitado para Pernambuco. O Governo do Estado determinou a inclusão de carga horária para a história de Pernambuco na rede estadual. Isso vai incentivar outras redes a também valorizarem, que é para ver se dos pequenos, a gente vai incutindo o conhecimento sobre tudo o que foi feito aqui de pioneirismos em Pernambuco.

Qual o maior desafio de valorização de patrimônio em Pernambuco?
O pernambucano vai para Europa, para São Paulo, visita museus, vai se enriquecer culturalmente, e valorizar a história. Mas, localmente, ainda sinto que é pouco frequentado, pouco valorizado. Penso que o primeiro desafio é tratar isso como uma questão de Estado, com políticas permanentes de preservação e, sobretudo, de educação patrimonial, porque as pessoas só valorizam aquilo que elas conhecem. Então, é preciso ter políticas permanentes que possam sobreviver às mudanças de governo. Porque os governos vão e vêm, mas o patrimônio é comum a todos nós e deve continuar existindo.
Um exemplo marcante disso é a situação do sítio histórico de Olinda hoje, que é o único patrimônio mundial da Unesco que temos em Pernambuco. Foi a segunda cidade colonial do Brasil a ser considerada patrimônio. A primeira foi Ouro Preto. Existem mais seis ou sete cidades brasileiras com esse título.
Temos um ativo cultural, um sítio tão privilegiado do ponto de vista de história e de paisagem – porque Ouro Preto não tem mar, nós temos, o que faz com que Olinda seja uma situação única no Brasil. E a gente não vê essa importância refletida nas ações locais. Depois de anos e anos de pouquíssimos recursos estão surgindo iniciativas, mas pontuais, como a reforma do Mosteiro de São Bento e da igreja de São Pedro. É muito triste ver que um local com tanto potencial, com a possibilidade de atrair um público internacional e brasileiro desejoso de consumir cultura, esteja na situação que está. Para mim, a prioridade zero em termos de patrimônio em Pernambuco, diz respeito à situação do sítio Histórico de Olinda.
O senhor acha que a instituição da Data Magna despertou nas pessoas a consciência para conhecer a história de Pernambuco?
Sim, a instituição do feriado foi muito importante. Todo mundo no Brasil conhece ou ouviu falar de Tiradentes, e isso acontece porque há o feriado nacional e a presença dele nos livros didáticos. O feriado é importante para chamar a atenção da população. A lei que criou o feriado instituiu que haja uma semana nas escolas dedicada à rememoração da revolução.
Isso tem que ser implementado em todas as redes de ensino, numa perspectiva crítica. Não é simplesmente a comemoração pela comemoração, mas é a comemoração observando o que é que se discutia naquela época e que a gente precisa repensar até hoje. Menciono sempre a necessidade de a gente passar a chamar o feriado de Dia da Revolução Pernambucana de 1817. O termo Data Magna é genérico.
Existe até uma brincadeira que aconteceu em um perfil do Instagram que começou a chamar o feriado de Gata Maga, quando aquilo estourou até fiquei chateado, porque a gente estava fazendo um esforço danado para popularizar o dia da Revolução de Pernambuco. Mas, depois, foi até interessante, porque aquilo chamou atenção, correu, viralizou.

Professor, o senhor acha acha que instituições de memória em Pernambuco, como o instituto, o Arquivo Público, o Memorial de Justiça do TJ, carecem de maior atenção?
Sem dúvida, manter o patrimônio é uma atividade que não é barata, mas que é necessária. Porque se perdemos nossas bases históricas, nosso lastro de patrimônio histórico, ficamos sem identidade, sem aquilo que nos faz pernambucanos, viramos uma geleia geral. Manter vivo e quando eu digo manter vivo é manter preservado e também acessível esse acervo é fundamental para que continuemos a ser Pernambuco. Porque se perde esse patrimônio nós deixamos de ser, viramos qualquer coisa. É urgente que haja uma sensibilização maior dos nossos gestores.
Vemos o gasto de dinheiro público de milhões em contratações de shows, de eventos que não têm nada a ver com a cultura pernambucana, enquanto instituições culturais, acervos importantíssimos vivem à míngua, alguns com risco de se perder. Então, por um lado, é necessária uma sensibilização dos gestores e uma sensibilização também da do público.

Para finalizar, o que o senhor almeja para o futuro do instituto?
Para o instituto almejamos dispor de instalações melhores. Isso é um plano de médio prazo. A gente está com muito acervo e falta espaço para disponibilizar e armazená-lo da forma ideal. Precisamos dar uma turbinada na nossa sede com uma reforma ampla ou nos instalarmos em outra sede, com mais espaço, em uma área que tenha acessibilidade mais tranquila. Ao mesmo tempo, a gente sabe que tem um papel a cumprir ali naquela área.
O Centro da Cidade tem passado por um processo de muitos anos de degradação e estamos numa área que tem atrativos culturais importantes, como o Cinema São Luiz, a Faculdade de Direito do Recife, o Teatro do Parque, a casa de Clarice Lispector, que eu sonho um dia ver transformada em um memorial. Estamos numa trincheira cultural. Mas, de fato, a gente precisa de instalações mais adequadas à riqueza do nosso acervo e que nos possibilite atender melhor o nosso público. Esse é o nosso anseio de futuro, continuar cuidando desse acervo, continuar estudando, divulgando e, sobretudo, atendendo ao público, porque sem o público nós não fazemos sentido.



