Seleiros de Pernambuco: Ofício que Transforma é o tema da feira este ano, em homenagem àqueles que trabalham com o couro. A diretora-geral de Promoção da Economia Criativa da Adepe conta como serão as atividades no evento voltadas para essa tipologia e revela as novidades programadas para esta edição, como a Comitiva Internacional de Compradores, que visa estimular os negócios dos artesãos no mercado exterior.
À frente de sua quarta Feira Nacional de Negócios de Artesanatos (Fenearte), a diretora-geral de Promoção da Economia Criativa da Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (Adepe) Camila Bandeira buscou sempre por novidades e inovação. Nesta 26ª edição do evento, ela permanece inquieta e enxergando a cultura como um negócio capaz de proporcionar a transformação social. Tranquila e serena, como quem sabe o que quer, ela demonstra a firmeza e a sutileza necessária ao tocar esse transatlântico em alto mar que é a Fenearte.
A maior feira de artesanato da América Latina volta a movimentar Pernambuco entre os dias 8 e 19 de julho, no Pernambuco Centro de Convenções, em Olinda, reunindo, mais uma vez, milhares de artesãos, artistas populares e empreendedores de diferentes regiões do Brasil.
Em entrevista a Yuri Euzébio, Camila fala da feira deste ano, do processo de escolha do couro como tema que norteia a edição, da comitiva de compradores, e dos desafios e belezas de coordenar, nos últimos 3 anos, esse evento gigante, cuja expectativa de público neste ano é superar o recorde de 340 mil visitantes registrado no ano passado em 2025

Como foi o processo de escolha do tema Seleiros de Pernambuco: Ofício que Transforma e por que esse tema?
A gente tem tentado, nos últimos anos, fazer um recorte dentro desse universo gigante, plural e diverso do artesanato no Estado. Dentro dessa diversidade, a gente busca dar um recorte sempre numa tipologia, numa materialidade, como a gente fez com as louças, por exemplo, com um território, e não com uma pessoa especificamente, e sim com um grupo de artesãos que trabalham com aquele ofício, com aquela materialidade. E aí, no caso do couro, isso calhou muito bem, porque tem uma representatividade muito grande. O couro está presente em todo o Estado, praticamente. É muito forte no Agreste, no Sertão.
É uma coisa que, até do ponto de vista iconográfico, remete muito à gente. Quando se pensa no sertanejo, no vaqueiro, no forrozeiro, vem o couro muito presente. É essa coisa também da transformação, né? As pessoas que trabalham com o couro transformam resíduos de couro em peças, indumentárias, em proteção, em abrigo, porque é aquela proteção ali dos vaqueiros, dos cangaceiros, mas também carregam a função da proteção do abrigo, mas também carregam a arte, do manual, do trabalho feito à mão. E é isso, iconograficamente representa muito Pernambuco.
Ofício que transforma, porque a gente transforma o couro nessas peças. Seja para proteção, seja para abrigo, seja para decoração, seja para moda. São muitos os usos que o resíduo do couro proporciona, como também essas pessoas – os artesãos e as artesãs que trabalham com esse material – têm as vidas transformadas a partir desse ofício. Trabalham, dependem disso, vivem disso, se sustentam, sustentam toda uma comunidade, uma família a partir desse ofício.

Qual a importância do trabalho dos seleiros pernambucanos e desse trabalho artesanal com o couro, para Pernambuco?
Ele está presente em várias outras linguagens da economia criativa. Pronto, quando eu falei: “Pensa aí no sertanejo, no vaqueiro, no forrozeiro”, tem as indumentárias de couro, tem o chapéu, tem o gibão. E até em outras obras, por exemplo, no audiovisual, que estão bem em destaque no cenário nacional. Por exemplo, Guerreiros do Sol, Cangaço Novo, obras do audiovisual que também estão explorando muito esse contexto do Sertão e o couro muito presente, representando essa questão de visão de mundo divulgada a partir da linguagem do audiovisual.
Na moda autoral, você vai ter desde empreendedores artesãos que trabalham com sandália, com bolsa,com carteira, com acessórios, como a Vitalina e tantas outras da contemporaneidade. O próprio Jailson Marcos que está, inclusive, personalizando a campanha, além do audiovisual, da moda, na música, a gente tem isso com João Gomes, a com Luiz Gonzaga, o chapéu de couro tão representativo de Luiz Gonzaga, e a tradição se mantém até hoje.
Está na cabeça de João Gomes, na música contemporânea, no cantor nacional de maior destaque na música nacional hoje. O couro também tem isso. É da tradição à inovação, é de Luiz Gonzaga a João Gomes. É do audiovisual, passando pela moda e também pela gastronomia. A gente tem a presença muito forte do couro, trazendo aí uma história, uma memória afetiva.
E vamos ter exposições trazendo também essa história. O tema da cozinha da Fenearte deste ano é cozinha sertaneja. Vamos buscar lá nas raízes da ancestralidade da cozinha sertaneja a inspiração para fazer a cozinha deste ano, as receitas, os chefs convidados vão vir do Sertão do Estado, a gente vai trazer aboiadores para vir dialogar com os chefs de cozinha, tendo sempre o tema como conceito, como amarração. Por isso é importante a escolha de um tema diferente a cada ano, porque é o tema que nos norteia na definição de toda a programação da feira, passando pelas linguagens, pelas formas de pontuar isso. Vai ter uma exposição também falando sobre a história do couro, seja na cozinha, seja na moda, ou em qualquer linguagem.

Como funciona o Circuito Fenearte e qual a função desse projeto?
O Circuito Fenearte foi pensado em 2023 para atingir alguns objetivos. Entre eles, nós percebemos que o turista que vem para a Fenearte, ou quem gosta de artesanato, de arte popular, passa aqui 23 dias, vê a feira toda e aí ele fica sem a opção de ir em outros lugares, outros espaços, outras programações que ele poderia explorar e usufruir naquele momento. O circuito é pensado para dar outras alternativas de programação cultural, de economia criativa, de visibilidade aos nossos espaços, aos nossos museus, galerias de arte e equipamentos de arte, de cultura, de economia criativa no Estado todo, durante o período da Fenearte. Nós falamos que ele extrapola os muros do Centro de Convenções.
Então, você pode, além de visitar a Fenearte, visitar outros espaços de cultura e economia criativa que estarão com a programação específica durante a Fenearte, uma programação paralela. Na verdade, ela começa antes da feira e se estende até um pouco depois da Fenearte. É um mês aí de programação de circuito, quando a gente leva as pessoas justamente para esse mergulho, para essa imersão, por exemplo, na Feira de Caruaru. Levamos também para Tracunhaém, com transporte gratuito, para ateliês, galerias de arte, como eu falei, museus. É uma programação paralela que começa antes e vai até depois, quando a gente ativa outros espaços de cultura e economia criativa por meio da Fenearte, dando, dessa forma, mais visibilidade para esses espaços, provocando uma programação específica, e retendo o turista aqui.

Nesta edição, uma das principais novidades é a Comitiva de Compradores. Queria que você me explicasse como é que ela vai funcionar.
É uma rodada de negócios internacional, em que vamos receber uma comitiva de compradores. Serão 10 compradores internacionais, em uma parceria inédita com a Amcham porque, afinal de contas, a Fenearte é uma feira de negócios. Queremos fomentar, impulsionar, para que esses artesãos, que essas artesãs façam negócios.Trazer uma comitiva pela primeira vez de forma estruturada em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) vai ser muito bacana porque a gente vai estar ali durante dois dias, os compradores vão e fazer rodadas de negócios com os artesãos que estão na Fenearte, em prol de gerar negócios para eles, estimular nossa internacionalização, exportação.
A gente tem um público muito, muito importante de compradores todos os anos da feira, o Sebrae é parceiro de receber e acolher esses compradores que vêm de outros estados. Mas, de forma estruturada, uma comitiva internacional com 10 compradores de fora do Brasil é a primeira vez que a gente está executando.

E como foi a seleção desses compradores?
Nós passamos para a APEX a relação de todos os artesãos que estarão na Fenearte este ano, buscando priorizar sempre que possível os de Pernambuco, mas a gente abre também para todos os outros estados. A Fenearte é dividida em: coordenação executiva da feira e coordenação de conteúdo [cujo coordenador] é Lúcio Omena. Ele ajuda nessa curadoria, identificando quem são aqueles artesãos que terão mais capacidade de entrega, de fechar um negócio internacional. Porque sabemos muito bem que nossos artesãos têm dificuldades nessa área.
Qualquer artesão do mundo inteiro tem essa dificuldade, porque é uma atividade artesanal, cada peça é única, diferente da outra, então você encomenda uma, a outra não necessariamente vai vir da mesma forma, não segue ali um padrão de embalagem. Fora isso, tem um grande gargalo que é a questão da taxação. Aí, a gente entra, enquanto o Fenearte, com uma pessoa, um consultor, que vai facilitar esses trâmites burocráticos para o artesão, para o empreendedor. A Apex faz esse cruzamento e a gente identifica, prepara e ajuda a escolher aqueles artesãos com maior capacidade de entrega para participar das rodadas.

Você pode me falar quais são as principais novidades da área de música, gastronomia e moda para esta 26ª Edição?
Na área de música, a gente vai ter mais de 70 atrações todos os dias com shows, e mais de um show por dia, priorizando a cultura popular, mas também trazendo shows da música contemporânea. Nós fazemos um mix ali bem bacana. Na área de gastronomia, como eu te disse, a gente tem o tema cozinha sertaneja, dialogando com o tema da Fenearte como um todo. Vamos trazer os chefs do Sertão, que vão ensinar as receitas típicas da região, resgatando aí nossa ancestralidade, nossas origens.
E na área da moda, além dos desfiles nos dois sábados da feira, continuamos com o Desafio Mape, em que a gente desafia cursos de moda, de design de todas as universidades do Estado para competirem e ao final, os ganhadores, além deles levarem um prêmio em dinheiro, eles têm a oportunidade de ter uma consultoria, uma mentoria com um grande estilista, que este ano vai ser Mellk Zda, como prêmio para o grupo que ganhar.

Queria que você falasse dos desafios de inovar e fazer uma feira que já é consolidada, ao mesmo tempo que existe uma certa pressão dos pernambucanos por uma edição maior e melhor todo ano.
A Fenearte é uma política pública continuada desde 2000 e a cada ano ela cresce e se fortalece enquanto política pública, isso é importante demais para o setor, para a cadeia produtiva do artesanato. Muitos artesãos e artesãs dependem do que vendem na Fenearte para sobreviver por meses, até durante um ano. Por isso que todo mundo quer estar na Fenearte, cada vez mais pessoas querem entrar na feira porque tem essa questão da relevância econômica na vida das pessoas. Só para se ter uma ideia, no ano passado, em 2025, a gente bateu o recorde de movimentação financeira de todos os anos. Foram R$ 163 milhões de movimentação financeira injetados na economia pernambucana.
Mas também tem uma importância não só econômica, a feira tem uma relação de afeto com as pessoas. Eu acho que é isso, todo pernambucano, ou ama a Fenearte, ou gosta, ou já ouviu falar, ou conhece.Mas não tem quem não saiba que a Fenearte acontece ali todos os anos, em julho. As pessoas se preparam para ir para a feira, as pessoas vão mais de um dia para a feira, vão para comprar, para consumir e vão também para ter a oportunidade de estar lá conversando com o mestre, conhecendo pessoalmente, entendendo, olho no olho ali, o que está por trás daquela história, daquele saber fazer, daquela peça. Isso é muito mágico também.
Quando chegamos em 2023 para melhorar uma coisa que já é boa foi um desafio gigante e a cada ano a gente tenta superar os números do anterior, superar esse impacto e a experiência também de quem visita a feira porque isso é além do recorde de movimentação financeira, a gente teve um recorde de público, que foram 340 mil pessoas circulando no ano passado nos 12 dias de evento e a feira teve uma satisfação de 99,1% das pessoas entrevistadas. Foi o desafio de aumentar, ampliar, gerar mais conforto para as pessoas, uma vivência mais positiva, todo mundo satisfeito. Então, nós cuidamos desde a estrutura, a entrada maior com mais bilheterias, ingressos sendo vendidos antecipados, isso evita fila, evita tumulto, aumenta a percepção de qualidade do visitante.

Por que a Fenearte tem uma relação tão afetuosa com o povo pernambucano?
Eu tenho alguns palpites porque, na verdade, acho que é uma soma de coisas. Nós somos a maior feira de artesanato da América Latina. Fui pessoalmente conhecer a Expoartesanias, na Colômbia. Eles têm mais tempo de existência, têm mais dias, são 15 e a Fenearte são 12. Mas, não se compara a movimentação financeira que a Fenearte gera com a movimentação deles. Não se compara nem de longe o público da Fenearte com o público deles. Nós somos a maior feira de artesanato da América Latina. E olha, para o pernambucano dizer isso já é por si só, motivo de muito orgulho.
Mas para além disso, é uma política pública continuada desde 2000. Entra gestão, saí gestão, a feira acontece e acontece a cada ano melhor, mais forte, maior, ampliando esse alcance. E aí acho que também é um conjunto de coisas, porque além da Fenearte, temos as políticas públicas das lojas do artesanato, que Pernambuco está disparado na frente de outros estados, por ter a Fenearte, por ter lojas de artesanato funcionando como lojas colaborativas, como fomento para os artesãos pernambucanos terem um espaço de comercialização das suas peças.
A gente tem lojas de artesanato em Bezerros, em Olinda, no Recife. Agora a gente abriu em Fernando de Noronha, em Portugal, no Porto, numa parceria com o Instituto Pernambuco Porto. Fora o artesanato riquíssimo e a diversidade que a gente tem, por si só também.
Pernambuco é um país enorme com vários biomas também. Nós somos bons na cerâmica, a na madeira, no têxtil, na pedra, numa diversidade e aí temos a Fenearte, temos essas outras políticas públicas, temos as lojas, fazemos a gestão do programa de artesanato pernambucano também com a emissão de carteira. É um ciclo de coisas que se somam e que fortalecem essa relação de afeto com a feira e somente indo e vivenciando a feira para sentir o que é essa relação de afeto que a gente está falando.

Só para finalizar, qual a importância da economia criativa para Pernambuco?
A gente emprega na economia criativa, muito mais trabalhadores do que na indústria automobilística. Pernambuco por ser o que é, como eu falei com essa diversidade que a gente tem de biomas naturais, de manifestações culturais, com Carnaval, ciclo junino, isso tudo é economia criativa. Isso tudo gera emprego e gera renda. E gera muito emprego e gera muita renda. Nós temos aí um PIB de 3.6% muito subestimado porque muitos empregos, muitos trabalhos de economia criativa são informais.
Por exemplo, nós temos um grande artista visual que é Kobra, que pinta grandes murais no mundo inteiro, e sabe qual é o Cnae (Cadastro Nacional de Atividades Econômica) dele? Pintor de parede. Então, isso mostra que a gente ainda está muito informal, nós precisamos formalizar, a gente precisa ter dados, porque é uma potência a nossa economia criativa e aí entra artesanato, audiovisual, moda autoral, gastronomia, design, música. Tudo que usa da criatividade, do talento para gerar negócio. Nós temos tudo para sermos realmente um setor muito estratégico para o nosso desenvolvimento econômico.


