“A Seleção é um patrimônio da cultura brasileira e acho que é cada vez mais importante o povo interferir nas questões da CBF”
Xico Sá analisa o futebol a partir das emoções que o jogo provoca

Mesmo com a melancólica e precoce eliminação para Noruega, pior resultado do Brasil em Copas desde 1990, a Seleção Brasileira comoveu os brasileiros e uniu torcedores e até não torcedores, de todas as idades, crenças e faixas etárias rumo ao tão sonhado hexa. Apesar da derrota, o futebol mostrou, mais uma vez nesta Copa, que é  um dos grandes ativos do que significa ser brasileiro e que a Seleção Brasileira é capaz de unir o povo, mesmo em um momento tão polarizado.

O jornalista e escritor Xico Sá é um profundo conhecedor e observador das miudezas do esporte bretão, e acompanhou de perto toda a comoção e os jogos do maior evento do futebol mundial. Arguto, bem-humorado e sagaz, Xico analisa o poder da Seleção Brasileira e a importância do futebol para o povo brasileiro com a estirpe de quem cresceu fascinado com a Seleção do tri, em 1970.

Em entrevista a Yuri Euzébio, Xico fala do impacto do esporte na vida do brasileiro, da formação da identidade do País com o futebol como um elemento norteador, do patrimônio cultural que é a Seleção Brasileira de Futebol, das mudanças no seu estilo de jogar, da união do brasileiros em torno dela e do efeito devastador das bets no esporte.

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Para começar, eu queria saber para você, por que o futebol comove tanto as pessoas?

Cara, futebol tem essa magia, há mais de um século é assim. Eu acredito que tem uma coisa mágica porque o próprio jogo é movido muito pelo acaso, ele tem uma capacidade de surpreender incrível. Tanto que você começa antes de qualquer grande competição, como foi agora com a Copa, a dizer: “essa Copa da Fifa é vendida, essa Copa isso, essa Copa aquilo”. Mas, aí, a bola muda tudo, porque a capacidade que o futebol tem – o esporte no geral, mas eu creio que o futebol é especial nisso –  de gerar novos heróis, novos vilões, personagens, quebra de recorde. 

Então, começa a ser gerada uma série de personagens que alimentam o imaginário popular e funcionam. Eu acredito que funciona até meio como um grande teatro, tem essa força, essa fantasia, de ser lúdico, de contar uma história. Eu acho que vira entretenimento, espetáculo, vira tudo isso pela capacidade que ele tem de a cada meia hora ter um novo herói, ter um novo vilão. O perdedor chora, o Carnaval da vitória, então, gera muitas emoções, não é? Muitas histórias e emoções.]

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E por que que o futebol está tão umbilicalmente ligado à identidade brasileira?

A gente até demora, historicamente, a ter essa liga, porque o futebol chega e ele vem como esporte inglês. Durante muito tempo, quando ele chega ao Brasil, era um esporte de elite, para brancos, era um esporte proibido para os pretos no Brasil. As classes populares, os pretos participam só depois, quando ocorre um movimento rebelde no Vasco da Gama, em seguida no Bangu e outros clubes de subúrbio no Rio de Janeiro, que conseguem revolucionar e fazer do futebol um esporte de massa e popular. Mas no começo havia resistência. 

Quando há essa quebra, aí sim, o esporte passa a ser para todos, principalmente de 1930 em diante o futebol já tem essa ligação da identidade nacional, do esporte jogado por brancos, pretos, pobres, ricos, suburbanos da elite por todo o mundo. E aí ele vai ganhando uma cara de brasilidade, é associada à nossa música, associado às festas populares. A Copa representa muito essa ideia, você tem o futebol transformado em festa popular.

Mas, demora um pouco. Ele não pega logo assim que chega ao Brasil. É um pouco depois que ele se populariza. E ele hoje é a cara da ideia do Brasil, até na forma como é jogado. Gilberto Freyre no prefácio do O Negro no Futebol Brasileiro, [de autoria de Mário Filho] que é um livro clássico, ele já faz um texto mostrando como a presença negra no futebol acaba dando uma identidade brasileira, já começa a ser associado à capoeira, à música brasileira, à riquíssima música negra brasileira. Então, você a partir daí, começa a ter esse caldo todo de cultura dentro do futebol, que forma aqui no Brasil  um esporte muito parecido com o que é o brasileiro, com o que é o jeito brasileiro de existir, de festejar a vida.

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Em tempos tão polarizados e nervosos, conturbados, a Seleção brasileira tem conseguido um feito enorme que é unir o povo. O que é que explica isso para você?

Essa é uma bela história dessa Copa, não é? Eu acho que essa Copa tem servido muito para isso, eu acredito que a própria ideia de vestir as cores do País está deixando de ser um monopólio da extrema-direita no Brasil e passando a ser uma ideia nacional, a ideia do País. Porque são símbolos do País, não são símbolos de um só partido. Não são símbolos de um só candidato, não são símbolos de um lado só. 

Eu acho que é a hora de pegar nossas cores, toda a simbologia brasileira, o hino, a camisa verde e amarela, camisa azul, ou seja, toda essa simbologia ligada à Seleção e mostrar que isso é de todo mundo. Chega disso ser associado apenas à extrema-direita. Isso pertence ao brasileiro que pensa da forma que ele bem quiser. Esquerda, de centro, radical, não radical, do jeito que ele entende o mundo, faz parte dele essa ideia de brasilidade e a ideia dessas cores.

Tem essa riqueza nesse momento e a gente tem que ter sabedoria para fazer um belo uso disso, o futebol como um fator de união nacional, acho que o País se ressente um pouco dessa união que a gente está vivendo agora na Copa.

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Você acha que a bandeira está voltando a ser um símbolo nacional? Os brasileiros estão se reapropriando?

Eu acho que já estávamos em um movimento muito bom, que era a discussão da questão da soberania. De repente, você pega a extrema direita defendendo os Estados Unidos e aquilo ficou meio confuso na cabeça das pessoas, aí veio a Copa e a esquerda, o centro, todas as tendências políticas ideológicas, todos os partidos, todas as cores acabaram adotando muito a Seleção brasileira. 

Então eu creio que a extrema-direita está perdendo o monopólio da ideia de que “só nós somos patriotas”, quando eles correm para os Estados Unidos, para pedir a tarifa com o Trump. A economia do Brasil, a comunicação e a população brasileira não apoiaram, ali eles começam a perder a razão, vem a Copa e eu acho que eles perdem de vez a razão e o uso das cores, essa adoção das cores da Seleção, das coisas brasileiras, passa a ser de novo uma coisa de todo mundo. Chega dessa divisão no sentido de só eu sou patriota, eu sou da direita, eu sou patriota, só eu posso usar.

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Você acha que o Brasil perdeu para a Noruega porque se desviou da sua característica de jogar bola – da ginga, de fazer dribles – que encantou os brasileiros e o mundo e tentou investir em uma estratégia defensiva?

São muitos os fatores que levaram a essa eliminação precoce e vergonhosa. A mudança de estilo de jogo, trocando o modo brasileiro pelo europeu, é um desses motivos. Tivemos apenas 30% de posse de bola contra a Noruega, isso é totalmente contra a filosofia de jogo brasileira que nos levou a cinco títulos. Pecamos também na formação de jogadores que pensem o jogo –  atletas meio-campistas –  que ditam o ritmo das partidas. A mentalidade dos jogadores, mais voltados a projetos publicitários do que esportivos, também contribuiu para nossa derrocada.

CBF

Como é que você explica essa dicotomia entre a CBF, a Confederação Brasileira de futebol, que ainda inspira antipatia, e a Seleção brasileira, que comove muito o povo?

Eu acho que uma coisa realmente é a CBF, outra coisa é o patrimônio cultural brasileiro que é a Seleção. É um patrimônio da cultura brasileira, das artes brasileiras, vai além do esporte, é o patrimônio da festa de rua do Brasil e a CBF se apropria muito da Seleção, inclusive para ganhar muito dinheiro, para enriquecer muita gente, para desviar muito dinheiro. E se apropria como se fosse um clube que pertencesse só a CBF. Mas, na real é algo maior, é algo que pertence à sociedade brasileira. Nesse sentido, também, eu acho que é cada vez mais importante o povo interferir nas questões da CBF.

Porque eles ganham muito dinheiro e na hora de ser fiscalizado, sempre argumentam: “não, isso não é um time, é um clube da CBF, não é um clube do Brasil”. Na hora de tentar aproximar a Seleção do povo, ele diz : a Seleção é da cultura brasileira”. Eles fazem esse jogo meio dúbio, tentando enganar todo mundo. Mas eu acho que nós da sociedade civil, temos que ter o entendimento da Seleção como patrimônio cultural do Brasil. Como temos o samba, o maracatu, o manguebeat, o tropicalismo e outros, o boi de Parintins, as grandes manifestações artísticas e culturais do Brasil. A Seleção brasileira por si é também uma dessas manifestações. Ela é patrimônio do povo brasileiro. Claro que a CBF faz o gerenciamento ali do dia a dia, custeia as passagens, mas também recebe muito dinheiro por conta disso. Eu acho realmente que cabe a sociedade ter o entendimento da Seleção como um patrimônio brasileiro.

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Xico, nesta Copa tem viralizado muitos vídeos de torcedores na Índia torcendo pelo Brasil, na Jamaica, no Haiti o Brasil parou a guerra. Como é que você explica essa força da Seleção brasileira pelo mundo?

Isso mostra o tamanho que nós temos no mundo e a importância que a gente tem. Eu acho que é uma riqueza cultural que a gente devia explorar até mais, via Itamaraty, via Ministério de Relações Exteriores. Eu creio que agora o Brasil tem a obrigação imediata, depois da Copa, de, por exemplo, fazer um amistoso em Bangladesh. Para que esse povo que ama tanto o nosso futebol possa assistir a Seleção brasileira. 

Eu tenho visto a Copa com um casal amigo nosso aqui, que é indiano e que foi morar no Recife ainda nos anos 70, porque eles foram para a Universidade Federal de Pernambuco para ensinar aí. Eu tenho visto a Copa com eles, porque moram aqui no prédio e eles são a prova viva do que você tá falando, eles têm um amor imenso pela Seleção brasileira e você vai no Líbano a mesma coisa, no mundo inteiro, o Brasil tem uma torcida muito grande no mundo, muito planetária no mundo todo.

Eu acho que a gente devia aproveitar isso até como um produto cultural, que o Itamaraty deveria ter mais cuidado e fazer mais acordos comerciais, artísticos, culturais, esportivos, com esses países que estão adotando o Brasil como seu time na Copa. É uma riqueza extraordinária isso.

Você acha que o modelo de futebol atual, amparado mais em números, em estatística, até em um certo pragmatismo, perdeu um pouco do charme da beleza do esporte e até da identidade brasileira?

Acho que tentam de todas as formas e aí a própria CBF é um pouco culpada, nós da mídia de certa forma também, por fazermos coberturas mais frias, mais estatística, menos comoventes, emocionadas, mais números e menos crônicas esportivas. Mas, na verdade, não conseguimos alterar muita coisa. Eu acho que a riqueza do futebol é tamanha que ninguém vai conseguir esfriar o modo de ver futebol, ninguém vai matar essa festa,  por mais que tentem.

Existe  uma praga agora que eu acho que é pior do que a estatística e a forma como é realizada a cobertura do futebol, que é a praga da jogatina das bets. E isso tem sido um terror, porque acaba deixando muita gente viciada. Tem muita gente adoecida com essa jogatina. Aí eu acho que caberia, de imediato, mais responsabilidade no sentido de diminuir essa carga de jogatina associada ao esporte, porque aí o futebol fica apenas como isca para esse grande cassino que o brasileiro tem na palma da mão com o celular. Esse é outro uso completamente equivocado e errado que se faz do futebol.

Mas eu creio que a festa mesmo, a comoção e essa maneira como o futebol é visto, por mais que tentem dar um ar mais estatístico ou mais frio ou mais objetivo, o próprio futebol, o próprio teatro do jogo ali acaba desmentindo todo mundo, porque, como eu falei no começo, acaba trazendo novos heróis, novos vilões. Acaba contando uma história que suplanta qualquer ideia de frieza, até porque nós somos brasileiros, latinos.

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Ainda nesse sentido, qual o efeito das bets no esporte?

Cara, tem sido devastador no sentido de deixar uma nação de pessoas viciadas. É uma coisa que foge da mera aposta esportiva, porque quem entra lá, motivado pelo futebol, acaba jogando o tigrinho, acaba jogando na roleta. É a porta de entrada para todo um universo. As bets vendem muito essa ideia de cassino e você pega todas as emissoras ou tem a sua própria bet ou fazem um uso exagerado, uso doentio de propaganda dessas apostas. Então, eu vejo de uma forma muito negativa. Eu creio que o governo e mais do que o governo, a sociedade civil devem pensar um novo modelo para coibir essa publicização.

Está se discutindo muito a ideia de, assim como o cigarro, proibir a propaganda das bets. Alguns países já estão adotando medidas nesse sentido. Eu não sei a forma que seria correta para o momento, mas do jeito que está, não dá. Assim vai adoecer muita gente. E já adoeceu. Isso é uma coisa muito séria. Acaba dando um prejuízo gigante à saúde pública. Então, alguma coisa precisa ser feita nesse sentido urgentemente.

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Xico, para você, qual a relação entre futebol e sociedade?

É total, estamos 100% interligados, assim como o futebol também é 100%  política, até pelo o roteiro dessa nossa conversa, a gente estava conversando como o futebol faz parte da identidade nacional, de como o futebol é capaz de vender a jogatina, o que é uma parte ruim do futebol. Então, de uma maneira ou de outra está muito interligado na nossa sociedade, não dá para separar.

Por isso a importância de a gente pegar a ideia de Seleção Brasileira como um patrimônio nacional. A ideia de Seleção brasileira, pelo uso da simbologia das cores, como uma ideia de todos os partidos, de todas as políticas, de todas as cores, de todas as vertentes ideológicas. Eu passaria aqui um ano falando de coisas que fazem com que a gente não tenha dúvida que o futebol está muito ligado à sociedade e que o futebol está muito ligado à política, ao nosso dia a dia, não dá para ver apenas como um jogo separado do resto da sociedade, como se fosse apenas “vamos parar aqui ver esse jogo, mas esse jogo não tem nada a ver com a gente”.

Tem sim, até a forma que a gente joga esse jogo, até a linguagem que a gente adota em campo, é parecido com a forma como a sociedade brasileira pensa. Eu acho que cada vez mais a tendência é a gente unir essas coisas e não separá-las.

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Como começou sua relação com o futebol? Você lembra?

Sempre esteve comigo. Foi desde lá do Cariri cearense, ainda pequeno, como um menino qualquer que amava futebol. E foi muito durante a Copa de 70. Muito ligado a Seleção Brasileira de 1970, a festa de rua, a gente ia para uma cidade chamada Nova Olinda, e via os jogos em uma TVzinha, parecia uma caixa de fósforo, na praça pública. Mas, era uma festa de rua, assim comovente, lá no Cariri. 

Depois no Recife, já formado em Jornalismo, fui cronista esportivo e cobri por muito tempo o Sport, o Náutico, o Santa Cruz, como repórter de campo e aí é quando eu tenho uma formação profissional ligada ao esporte. É nessa hora em Pernambuco, no Recife, que eu consolido minha formação profissional de cronista esportivo e a partir daí, nunca mais parei. Sempre, por mais que eu trabalhe um pouco com jornalismo cultural ou jornalismo político, nunca esqueço, sempre estou falando de futebol. Principalmente durante esses eventos como Copa do Mundo, volto a minha velha atividade, que é onde tudo começou e é pra onde eu volto, que é na crônica esportiva.

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