Empreender depois dos 60: geração prateada cresce nos negócios em Pernambuco

*Por Rafael Dantas

Pernambuco tem mais de 137 mil pessoas com 60 anos ou mais à frente de um negócio. A chamada geração prateada já representa 11,6% de todos os empreendedores do Estado. Os dados do Sebrae-PE mostram que muitos optaram por não encerrar a vida profissional com a aposentadoria, enquanto outros precisaram se reinventar para complementar a renda na terceira idade. A combinação entre experiência, busca por autonomia e realização pessoal ajuda a moldar um segmento que ganha cada vez mais espaço no ambiente de negócios pernambucano.

Os números se multiplicam em várias histórias de vida e refletem o processo de transformação demográfica que Pernambuco e o Brasil atravessam. À medida que a população envelhece, cresce também o número de pessoas que enxergam na maturidade uma oportunidade para criar novos negócios ou dar novos rumos à carreira.

“Embora muitas pessoas iniciem um negócio para complementar a renda ou permanecer economicamente ativas após a aposentadoria, percebemos um movimento cada vez maior de empreendedores que enxergam essa fase como uma oportunidade de realizar projetos, transformar conhecimento acumulado em negócios e encontrar um novo propósito”, destaca Andréa Viana, gestora de Projetos no Sebrae/PE. “O empreendedorismo 60+ deixou de ser apenas uma alternativa diante da necessidade. Hoje ele representa também uma escolha consciente de quem deseja continuar produzindo, inovando e contribuindo com a sociedade.”

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O empreendedorismo 60+ deixou de ser apenas uma alternativa diante da necessidade. Hoje ele representa também uma escolha consciente de quem deseja continuar produzindo, inovando e contribuindo com a sociedade. Andréa Viana

A força desse público nos novos empreendimentos não é explicada apenas pelo envelhecimento da população, mas também pela mudança no perfil dos profissionais que chegam aos 60 anos. Segundo Georgina Santos, da TGI Consultoria, essa geração tem demonstrado maior disposição para permanecer ativa e assumir novos desafios. “Hoje é bem mais comum que antes os profissionais 60+ mostrarem que estão no jogo e como protagonistas. Eles têm disposição e energia para trabalhar, são receptivos a mudanças e inovações”, afirma. Para ela, a experiência acumulada também se tornou um diferencial. “A maturidade profissional e o conhecimento de vida têm ajudado a ensinar a nova geração que está chegando ao mercado.”

A maioria dos empreendedores seniores em Pernambuco é formada por homens (66,2%). Em relação à escolaridade, apenas 14,5% têm ensino superior. O maior percentual desse grupo (48,3%) possui apenas ensino médio incompleto.

UM NEGÓCIO PARA A TERCEIRA IDADE E COM PROPÓSITO DE VIDA

A história de Beatriz Moraes, 67 anos, traduz essa percepção. Após quatro décadas trabalhando na área de vendas e pós-vendas de uma gigante das telecomunicações, ela decidiu que a aposentadoria não significaria o fim da vida profissional. Aos 63 anos, transformou sua principal habilidade, o relacionamento com as pessoas, em um negócio voltado justamente para esse público que cresce rapidamente no Brasil: os idosos. Assim nasceu o Vou com Bia, serviço de acompanhamento que leva clientes a consultas médicas, sessões de fisioterapia, compras, passeios e outras atividades.

A ideia surgiu quando ela percebeu que muitos idosos ficavam isolados em casa porque as agendas de filhos e netos já não coincidiam com as suas. “O idoso não gosta dessa coisa de ser dependente de ninguém”, resume Beatriz. “Você sai de casa, se socializa, vê o mundo e volta com outra bagagem de informações. O idoso já se sente diferente.” 

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Aos 63 anos, Beatriz Moraes fundou a Vou com Bia, serviço de acompanhamento que leva clientes idosos a consultas médicas, sessões de fisioterapia, compras, passeios e outras atividades. Muitos gostam que ela leve sua cadelinha, Mel.

Ela é enfática ao dizer que não faz apenas transporte. Com um sorriso no rosto, ela faz questão de oferecer presença e convivência, acompanhando os clientes durante toda a atividade. Muitos gostam que ela leve sua cadelinha, Mel, que é companhia garantida dos amantes dos animais.

O nicho encontrado por Beatriz acompanha a tendência de envelhecimento da população. Mas, para ela, o trabalho só faz sentido porque une propósito e qualidade de vida. “Eu quero uma coisa que me dê prazer, que eu possa sentir que fiz algo bom por quem está do meu lado”, afirma. “Não estou levando um pacote. Estou levando uma pessoa, um ser humano que tem uma história de vida.”

EMPREENDER PARA SAIR DE CASA

Deixar o mercado de trabalho é o sonho de muitos profissionais. Cansados da rotina intensa e do estresse, muitos trabalhadores imaginam o dia em que não terão mais patrão nem horário para levantar. Omero Galdino passou anos acreditando que essa nova fase da vida seria sinônimo de descanso. “Eu sempre dizia que, quando me aposentasse, não ia fazer nada, ficar o dia todo no sofá de pernas para o ar”, lembra. A experiência, porém, durou pouco. Aos 64 anos, ele aceitou o convite do irmão para ajudar a catalogar uma coleção de moedas e acabou encontrando um novo caminho profissional.

O hobby virou negócio. Hoje, aos 67 anos, divide a rotina entre a loja Coroa Real Numismática, em Rio Doce, e a Artes & Moedas, no Alto da Sé, em Olinda, onde comercializa moedas, cédulas para colecionadores e artesanato. O empreendimento une uma paixão antiga pela numismática à convivência diária com clientes de diferentes partes do Brasil.

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De hobby, a coleção de moedas virou um negócio para Omero Galdino, que junto com a mulher e o irmão, toca as lojas Coroa Real Numismática e a Artes & Moedas, em Olinda, onde comercializa moedas, cédulas para colecionadores e artesanato.

Para manter o negócio competitivo, Omero precisou se adaptar ao ambiente digital. Enquanto a venda de artesanato depende do movimento de turistas no Alto da Sé, a comercialização de moedas e cédulas ganhou alcance nacional pelas redes sociais e deve crescer ainda mais com o lançamento de um site. Mais do que uma fonte de renda, porém, o empreendedorismo passou a ser uma forma de manter a mente ativa. “Um ou dois meses em casa e a cabeça fica pirando. Você conversa com as pessoas, conhece gente de outros estados, aprende coisas novas”, relata. 

O negócio também aproximou a família. Omero divide o empreendimento com o irmão Diércio Galdino, 69, policial militar reformado e colecionador de moedas há décadas, enquanto a esposa, Josélia Lúcia Galdino, 60, participa da rotina da loja e da banca no Alto da Sé. Juntos, eles se revezam entre o atendimento aos clientes, a compra de artesanato e a comercialização de peças para colecionadores. É praticamente uma cooperativa familiar que divide a vida e os negócios.

Beatriz e Omero possuem negócios justamente nos setores com maior presença de empreendedores na terceira idade. O comércio lidera com 32,2% de participação, enquanto 31,5% estão nos serviços, segundo os dados do Sebrae-PE. Apenas 16,4% estão na indústria, enquanto 15,3% empreendem na agropecuária. O menor percentual está na construção, com apenas 4,6%.

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Outro dado que assemelha as trajetórias de ambos é o fato de trabalharem por conta própria (87,3%). Em Pernambuco, apenas 12,7% dos empreendedores seniores são empregadores. 

BARREIRAS E FORÇAS DO PÚBLICO

Os empreendedores 60+ possuem muitas dificuldades em comum com as outras gerações. Porém, há uma muito específica: o etarismo. Mesmo com o avanço da conscientização do lugar da pessoa idosa na sociedade, essa barreira persiste, segundo Andréa Viana. “Ainda existe o etarismo, principalmente quando se associa inovação apenas à juventude. Mas a inovação não depende da idade e, sim, da capacidade de aprender continuamente”.

Além do preconceito, a consultora do Sebrae afirma que muitos empreendedores seniores enfrentam desafios relacionados à transformação digital, ao acesso a tecnologias e ao marketing digital. O caso de Omero, por exemplo, é um ponto fora da curva por estar avançando justamente nesse segmento online para encontrar os clientes espalhados pelo País.

A formalização, que é um desafio de crescimento de negócios em todo o Brasil, também é um problema nesse segmento. De acordo com os dados do Sebrae-PE, apenas 21,1% desses negócios possuem CNPJ. Ou seja, 78,9% estão na completa informalidade.

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Por outro lado, existem forças dessa população que estão sendo muito bem recebidas no mundo dos negócios. Georgina Santos, por exemplo, destaca que “a persistência para chegar aonde se quer, o jogo de cintura para lidar com situações difíceis, a capacidade de ‘engolir e digerir sapos’, e a certeza que o sucesso profissional se constrói com relacionamentos profissionais estáveis” são algumas vantagens dessa geração.

Na avaliação da consultora da TGI, algumas características desenvolvidas ao longo da trajetória profissional acabam se transformando em vantagens competitivas para quem empreende depois dos 60 anos. Georgina destaca, porém, que essa experiência precisa vir acompanhada de atualização constante. “É preciso aprofundamento para ter consistência. Redes sociais não podem ser a base do conhecimento. É preciso ler, ter senso crítico e saber se posicionar.”

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Georgina Santos destaca que pessoas 60+ possuem habilidades que são uteis para o mundo dos negócios, como a persistência para chegar aonde se quer, o jogo de cintura para lidar com situações difíceis e a capacidade de “engolir e digerir sapos”.

Além da capacidade de adaptação, os empreendedores com mais de 60 anos carregam competências cada vez mais valorizadas pelo mercado como credibilidade, experiência, inteligência emocional e visão estratégica. Na avaliação de Andréa Viana, o desafio está em criar ambientes capazes de integrar diferentes gerações, unindo a experiência dos profissionais seniores à inovação trazida pelos mais jovens.

MOVIMENTO PARA FORTALECER O EMPREENDEDORISMO SÊNIOR

O crescimento do empreendedorismo entre pessoas com mais de 60 anos também tem estimulado o surgimento de iniciativas voltadas para esse público. Um exemplo é a Geração Xmais, comunidade criada há seis anos pelas empreendedoras Célia da Fonte Longman, Cecília Freitas e Liliane Longman para incentivar uma nova forma de viver a longevidade. O grupo reúne mais de mil participantes e promove palestras, rodas de conversa, atividades culturais, viagens e ações voltadas para saúde, cidadania, tecnologia e qualidade de vida.

Para Célia da Fonte Longman, o projeto nasceu da percepção de que o aumento da expectativa de vida exige novos significados para essa etapa. “A longevidade não representa apenas um aumento da expectativa de vida. Ela constitui um patrimônio construído pela experiência e pelo conhecimento acumulado ao longo dos anos”, afirma. Ela  defende que envelhecer “não significa encerrar ciclos, mas inaugurar novas possibilidades de convivência, aprendizado, criação e participação social”.

Essa visão também orienta os próximos projetos do grupo. Além da programação permanente, as fundadoras trabalham na criação de um clube de convivência e de um projeto de moradia compartilhada para pessoas idosas, inspirado em modelos que priorizam autonomia, solidariedade e apoio mútuo. “Acreditamos que o grande desafio da longevidade não é apenas viver mais anos, mas construir novos pertencimentos, preservar a curiosidade diante da vida e continuar cultivando sonhos”, resume Célia.

O Sebrae também tem ampliado iniciativas voltadas ao empreendedorismo sênior por meio do Programa Futuridade, ação nacional que incentiva o protagonismo da população 60+ e prepara esse público para empreender. Em Pernambuco, uma das iniciativas é o Platina Talks, criado em 2025 e que terá nova edição em outubro. O evento, realizado em parceria com o Comitê 60+ do Grupo Mulheres do Brasil, busca estimular aprendizado, inovação, networking e novas possibilidades de negócios na longevidade.

O avanço do empreendedorismo 60+ revela uma mudança na forma como a sociedade observa a longevidade e como essa população se enxerga. Apesar de o etarismo ainda ser uma realidade e de parte dessas pessoas ter criado negócios como alternativa para complementar renda, o processo de envelhecer está deixando de ser visto como uma ruptura com a vida produtiva. Surge uma nova percepção sobre essa etapa da vida, em que experiência e conhecimento se transformam em oportunidades de negócios, novos projetos e participação social.

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

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