As mudanças climáticas são o tema do mais recente episódio do Programa Pernambuco em Perspectiva, que vai ao ar na TV Tribuna, aos sábados, às 11h30. Os especialistas defenderam a regeneração das florestas e uma economia fundamentada nos ecossistemas locais.
As mudanças climáticas cada vez alteram mais o nosso cotidiano e preocupam as autoridades quanto ao futuro. Os impactos são significativos e afetam desde a nossa saúde até a produção de alimentos. Um estudo divulgado pelo Ministério da Casa Civil, do Governo Federal, aponta que aproximadamente um milhão de pessoas em Pernambuco vivem em áreas vulneráveis aos fenômenos climáticos. O número corresponde a 11,6% dos pernambucanos e coloca o Estado em terceiro lugar entre as unidades da federação com maior percentual de pessoas vivendo em áreas de risco. Ao mesmo tempo, o Estado é pioneiro em relação à legislação de clima, com o Plano Estadual de Mudanças Climáticas de 2011.
Conversaram sobre o tema Fábio Pedrosa, Doutor em Geologia Ambiental e professor na Universidade de Pernambuco e na Universidade Católica de Pernambuco, e Sérgio Xavier, Ex-secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco (Semas) e coordenador do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima. Eles refletiram sobre uma economia fundamentada nos ecossistemas locais pernambucanos, a viabilidade sustentável do Arco Metropolitano e a importância de estabelecer um modelo econômico que leve em consideração a sustentabilidade natural.
Com mediação de Fabiana Pirro e Francisco Cunha, o programa é realizado numa parceria entre a Revista Algomais e a TV Tribuna, com direção de Leo Crivellare e produção de Rafael Dantas e Inácio França. A série de debates abrange temas estratégicos para o futuro do Estado.

Fabiana Pirro – Fábio, olhando para o território pernambucano, onde estão os principais pontos de atenção em relação às mudanças climáticas?
Fábio Pedrosa – Em várias áreas do nosso território. Se olharmos para o Semiárido temos sérios problemas lá. Temos já muitas áreas com desertificação E aqui, na área costeira, temos a questão da elevação do nível do mar, uma das consequências do aquecimento global.
O litoral de Pernambuco já é hoje no Brasil, o que tem mais problemas de erosão costeira. Nós rivalizamos, em termos de área e de extensão, com o litoral do Rio de Janeiro como o mais comprometido. Temos as ondas de calor, temos a questão das periferias das nossas cidades, com nossos morros ocupados por populações mais socialmente vulneráveis. Com os eventos climáticos extremos, essa realidade tende a se agravar, sobretudo para as populações socialmente mais vulneráveis.

Fabiana Pirro – Sérgio, você foi o primeiro secretário de Meio Ambiente do Governo de Pernambuco. Você poderia fazer uma comparação daquele momento com o atual? O que foi agravado?
Sérgio Xavier – Bem, muita coisa foi feita nesse período. Acho que o mundo está acordando para a questão ambiental. Em Pernambuco há um movimento, há muita gente estudando, pesquisando, trabalhando nessas questões. Então, podemos dizer que temos alguns avanços, mas, no geral, a gente está caminhando para um cenário mais complexo. Porque as questões climáticas dependem da temperatura global, de questões que ultrapassam os limites do Estado. Então, dependemos muito que o planeta inteiro reduza a queima de combustíveis fósseis, zere os desmatamentos e comece a regenerar as florestas, mude os modelos econômicos. Esse é o grande desafio: modelos que regeneram em vez de destruir.
Naquela época começamos, durante o governo Eduardo Campos, a fazer unidades de conservação, inclusive as primeiras na Caatinga. Mas, o grande desafio é a transformação da economia, é a chamada transformação ecológica e justa da economia. Os modelos de negócios continuam destruindo. Não temos nenhum modelo econômico, por exemplo, que recupere os rios. Todos os modelos econômicos estão tirando do rio, pressionando o rio, sujando o rio, poluindo o rio. Não só o rio, mas todos os ecossistemas. Então, estamos desenvolvendo algumas ações, fazendo muita pesquisa, juntando diversos setores para definir como seria um modelo econômico que regenerasse, uma economia regenerativa.
O sistema natural tem no seu processo tempos de regeneração. Todos os ecossistemas têm situações de crise, de problemas. A natureza tem sempre alguns impactos, mas tem um tempo de regeneração onde se recupera. Um lago está secando, mas vem um período de chuva e o enche. Mas quando se tira mais do que a natureza pode repor, não tem controle. É o que a economia está fazendo.

Francisco Cunha – No caso de Pernambuco, que é um estado que tem a maioria do seu território no Semiárido, o mais populoso do mundo, quais são os grandes desafios em relação às mudanças climáticas?
Fábio Pedrosa – Pernambuco e a Paraíba são os dois estados com pior disponibilidade hídrica per capita no Brasil. Já tem aí algumas áreas se desertificando. Além disso, do ponto de vista geológico, nós temos mais de 80% do nosso território no que a geologia chama de embasamento cristalino. São rochas muito antigas e duras. Rochas magmáticas, metamórficas, praticamente impermeáveis. Ou seja, é muito difícil tirar água dessas rochas, a não ser que encontremos, com muita dificuldade, fissuras, fendas, fraturas. Além de ser uma água em pouca quantidade, é salobra. Eu não consigo fazer um poço artesiano, por exemplo, em muitos municípios importantes do Agreste.

Fabiana Pirro – Sérgio, acompanhando as discussões nacionais de enfrentamento às mudanças climáticas, que lições de outros locais podemos trazer para Pernambuco?
Sérgio Xavier – As lições podem ser nossas para o mundo. Acho que não encontramos hoje muitas soluções que são fáceis de copiar. Aliás, esse é o nosso desafio, é o nosso problema. Temos uma economia que geralmente é desenvolvida em outros lugares, modelos que são criados fora do Brasil e esses grandes modelos, que certamente têm muitas empresas grandes por trás, são empurrados e definidos para funcionar em qualquer lugar. Esse é exatamente o grande problema.
E a lição que podemos dar é simples: precisamos mudar esse paradigma. A economia precisa ser fundamentada nos ecossistemas locais. Os ecossistemas devem ser a referência para você desenhar os novos modelos econômicos e os modos de vida locais também devem ser referência.
Temos hoje o contrário: uma economia e modelos de negócios criados fora que atropelam os ecossistemas e as comunidades tradicionais. Os indígenas, por exemplo, tão sofrendo com garimpo, que é um modelo de negócio que não foi criado por indígena. Assim como o desmatamento. O que você imaginar de problema, de violência, tem sempre um modelo de negócio que não foi criado no território. Criar os laboratórios de economia regenerativa nos territórios é como a gente cria modelos econômicos que consideram que a economia precisa se encaixar nos ciclos biogeoquímicos. Esse é o grande problema da humanidade hoje.
Nós temos dois sistemas: um sistema que provém tudo, que é o sistema natural, que você tem tudo para viver, e outro criado pelos seres humanos, que é o sistema econômico, que destrói esse sistema natural. Estamos vivendo esse conflito. Precisamos criar modelos econômicos que se encaixem nas forças da natureza, nos ciclos das águas, no ciclo do carbono, no ciclo do nitrogênio e todos os outros ciclos naturais.
As florestas, quando são destruídas, ainda podem ser replantadas. Isso é o que precisamos fazer agora: ter uma economia em que todo projeto econômico tem um compromisso de deixar mais do que o que tinha antes. Temos que replantar, ampliar a base verde. Se não fizermos isso, vamos ficar cada dia com dificuldade mais crítica porque há uma coisa chamada “ponto de não retorno”. É aquele ponto que por mais que você faça, não tem mais como recuperar. Por isso é urgente. É uma emergência climática que estamos vivendo e a solução é uma nova economia. Não adianta plantar árvores aqui, fazer unidade de conservação ali, se o monstro econômico continua do jeito que está hoje, destruindo tudo, inclusive gerando conflitos sociais e aumentando desigualdades.

Francisco Cunha – O semiárido, da forma como ele se expressa há milhões de anos, tem nele próprio um conhecimento que é de como conviver com escassez hídrica e com temperaturas elevadas. O mundo todo hoje precisa dessa tecnologia ou desse conhecimento. Pernambuco poderia tirar proveito desse fato que é um problema?
Fábio Pedrosa – É necessário. Estamos falando de modelos econômicos. Quando vamos para uma das definições originais de economia: a gestão racional dos recursos, a gestão da escassez. Quando pegamos a questão literal: o Oikos da economia é o mesmo Oikos da ecologia. Essas duas [palavras] têm o mesmo prefixo. Oikos é a casa, só que são abordagens diferentes. E é interessante notar como temos essa dificuldade de perceber a enorme relação. A economia está dentro dos sistemas ambientais. E o nosso Estado, quando viajamos para o interior, para o Semiárido, percebemos justamente isso. Como a natureza soube se adaptar a essa escassez hídrica.
Precisamos aprender a olhar mais para essa natureza. Esse conhecimento ancestral que temos aqui há milênios. Precisamos valorizá-lo. Aprender com eles que sabem lidar com essa escassez.

Francisco Cunha – Sérgio, nessa necessidade de mudar a forma como se aborda a utilização dos recursos e ao mesmo tempo, essa oportunidade que o Semiárido oferece, o que Pernambuco poderia inovar em relação a essa questão?
Sérgio Xavier – Pernambuco pode ser um grande exemplo dos novos modelos econômicos do Século 21. Vamos dar o exemplo do Semiárido. É uma região que pode ter uma indústria que não precise de água. Nós temos um déficit hídrico e vai ficar pior com o aquecimento global, com ondas de calor, com aumento da temperatura e a desertificação.
Deve-se planejar um modelo econômico que considere que temos vento e sol, que não precisa de água e que se pode criar uma indústria de geração de energia, que inclusive pode alimentar processos de geração de hidrogênio verde no litoral. O planejamento tem que ser pensado em relação às vocações ecológicas de cada lugar, não são só as vocações econômicas no modelo do Século 20. O semiárido, mesmo seco, tem muito sol, muito vento, então cabe ali uma indústria que inclusive poderia ajudar a regenerar as áreas de Caatinga. Os próprios projetos já poderiam vir com modelos de regeneração. Esse projeto poderia rapidamente reduzir a desigualdade, incluir as pessoas, capacitá-las, criar realmente um novo modelo.
Os modelos de negócio são desenhados pelos investidores, pelas empresas e tudo mais, que geralmente olham para a questão financeira, o lucro. Agora, vai ser necessário a gente desenhar isso com visão social, visão ambiental, com a universidade presente, com a ciência e com o conhecimento ancestral, que são as nossas últimas conexões da humanidade com os ciclos naturais.
As pessoas estão subestimando esse conhecimento. A gente vai chegar num momento, se não conseguirmos reverter o aquecimento global, que a única esperança é viver ali como os nossos ancestrais indígenas, os povos originais aqui do Brasil e do mundo inteiro, que sabem conviver numa floresta ou numa ilha em harmonia. Em resumo: o novo modelo exige um planejamento que parte de ecossistemas, das vocações ecossistêmicas. Você tem que definir o que é que tem naquela região que pode se transformar no modelo econômico harmônico com os ciclos da natureza e possível de regeneração também. E criar um plano de capacitação.
Você deu um exemplo muito bom. O semiárido pernambucano e do Nordeste tem muito conhecimento de como lidar com a seca. Esse conhecimento pode ser transformado em modelos de cadeias econômicas com uma visão mais integrada, mais colaborativa, pensando o conjunto e não aquela coisa que cada um empreende do jeito que dá, do jeito que pode. Isso já passou, já era. Essa competição não é mais viável no mundo que precisa de colaboração urgente para a gente se salvar.

Fabiana Pirro – Existem grandes projetos de Pernambuco em discussão que têm grandes dilemas ambientais. Gostaria de começar pelo Arco Metropolitano. Há saídas para uma viabilidade sustentável? O que vocês dizem?
Fábio Pedrosa – Saídas existem, são necessárias. Existe uma APA, a Área de Proteção Ambiental Aldeia-Beberibe. É a maior área contínua de Mata Atlântica ao norte do Rio São Francisco. Ela está aqui no entorno da região metropolitana. Além disso, há toda uma importância da amenização climática, da biodiversidade, que é endêmica também. Temos nela importantes áreas de recarga de aquíferos que abastecem, sobretudo, a capital do Estado, cujas áreas de recarga, uma parte delas, está dentro dessa APA de Aldeia Beberibe.
Então, é necessário que o Arco Metropolitano respeite essa área de proteção ambiental e que o seu traçado seja compatível com essa área de proteção ambiental para que não comprometa nem a biodiversidade, nem comprometa essas áreas de recarga fundamentais para a Região Metropolitana do Recife.
Sérgio Xavier – É preciso ter em mente um novo paradigma para esse Século 21. No passado, o mais importante era a economia e a natureza era um simples fornecedor de insumos. Mas, agora passamos dos limites, destruímos praticamente 90% ou mais de 90% da Mata Atlântica na nossa região metropolitana. Resta ali entre 5% e 10%, e são exatamente essas áreas que têm as reservas hídricas para abastecer toda a região metropolitana.
Então, qualquer projeto que seja feito, principalmente projetos de interesse público, como o Arco Metropolitano, a Escola de Sargentos e outros, precisam usar o paradigma de melhorar o nosso ambiente, os nossos ecossistemas e regenerar a Mata Atlântica.
Mesmo que seja um ou dois hectares, o projeto precisa ser revisto, porque é importante recompor, replantar. Isso gera também economia, emprego, renda, gera modelos novos de atividades econômicas na região metropolitana e fortalece os nossos recursos hídricos, a nossa biodiversidade e a nossa qualidade de vida. Essa deve ser a referência. O projeto vai deixar a natureza melhor ou pior? Vai deixar a qualidade de vida daquela região melhor ou pior? Vai deixar aquela região mais fortalecida, mais resiliente para as mudanças climáticas ou não? Essas são as perguntas.
Porque esses projetos, daqui a 50, 100 anos, ninguém sabe se vão ser úteis ainda. Agora, a mata, ela vai ser útil por milhares e milhares e talvez milhões de anos se a humanidade conseguir sobreviver.

Francisco Cunha – Mas o fundamental dessa coisa toda em relação à APA é não fragmentá-la. Eu acho que isso deve ser a diretriz, não fragmentá-la.
Fábio Pedrosa – Porque todos os benefícios chamados serviços ecossistêmicos que são muitos serão tremendamente prejudicados se ela for fragmentada.
Sérgio Xavier – A fragmentação está na base desse modelo destrutivo. O modelo econômico é um modelo fragmentador, ele fragmenta os ciclos naturais, ele quebra inclusive a harmonia entre as pessoas.
Temos modelos de negócios hoje que tornam as pessoas mais ansiosas, mais polarizadas, mais fragmentadas, sem ter percepção do mundo, sem ter visão sistêmica. A gente está olhando muito para as telas, está ficando hipnotizado com as telas e precisa usar inteligência ambiental, olhar para o ambiente, olhar onde a gente está. Em vez de inteligência artificial, pensar na inteligência natural e perceber que a gente tem muito mais coisas, muito mais conexões interessantes a fazer com a vida do que ficar ali seguindo esses modelos que são altamente degradadores da nossa sanidade mental.

