Situada no antigo sítio, em Olinda, onde morou o jornalista correspondente de guerra Murilo Marroquim, pousada atrai turistas de outros estados e países e até do Recife por sua arquitetura e espaço arborizado. Os donos contam como ergueram a hospedagem e anunciam que estão construindo um outro hotel num engenho

Quem chega ao coração do sítio histórico de Olinda se depara com inúmeras belezas naturais, históricas e arquitetônicas. Em meio a tudo isso, um casarão se destaca ao lado dos principais monumentos da cidade, a Pousada Sete Colinas. É uma construção moderna que está instalada em uma enorme área verde preservada, cercada de árvores centenárias. O hotel é um oásis perdido e um refúgio na Cidade Alta.
À frente do espaço há 28 anos, dois olindenses que conhecem profundamente as delícias e as belezas da cidade: o casal de arquitetos Ione Mota e João Fernando Marroquim falam com simplicidade sobre todos os assuntos. Não parecem se importar com os holofotes, preferem a discrição e a calmaria típica de uma tarde nas ladeiras de Olinda. Mesmo morando hoje em Vitória, do Espírito Santo, não perdem o “original Olinda lifestyle”.
Em entrevista concedida a Yuri Euzébio por videoconferência, Ione e João Fernando refletem sobre o surgimento da pousada, a arquitetura do espaço, que também abriga o museu sobre o correpondente de guerra Murilo Marroquim, a vocação turística de Olinda, as diferenças da Sete Colinas e a preocupante situação atual da cidade histórica.

Para começar, eu queria saber de vocês, quando e como começou a história da pousada?
Ione – A pousada surgiu da necessidade de ocupar aquele terreno. Ali era a casa dos pais de Fernando, que tinham aquele sítio. São 15.000 m² de área dentro da cidade. Só que quando os pais de Fernando compraram eram jovens, e se usava aquela parte do fundo para brincadeiras do filhos, para reuniões e tal.
Depois, como eles ficaram mais velhos e os filhos saíram, aquela área ficou separada da casa e sem ninguém tomar conta. Uma parte dos muros caiu e começaram a invadir a casa. O pessoal roubava numa rua e se escondia dentro do sítio. Aí, o prefeito José Arnaldo fez a proposta de desapropriação daquela área, mas a casa e o terreno já tinham passado para o nome de Fernando.
Os moradores estavam reclamando, e ele não tinha recurso para concretizar a ideia de fazer um parque que juntasse a área ao quintal da Biblioteca Pública de Olinda. Ele disse que se a gente desse uma destinação interessante, cuidasse e fizesse uma construção que fosse de interesse para a cidade, ele poderia suspender a desapropriação. E foi o que a gente fez. Achamos que o hotel era a coisa mais interessante do ponto de vista de manter recursos, e somos arquitetos, então não tivemos dificuldade de fazer o projeto.
E quando foi esse começo?
Fernando – Em 1998 o hotel começou a funcionar, ainda precariamente, só uma parte no Carnaval. Depois a gente abrigou um grupo que foi fazer um filme e ampliamos um pouco. Recebemos o pessoal do Abril Pro Rock, foram os nossos primeiros clientes. E o hotel nem estava funcionando ainda. A gente estava em obra no segundo bloco. Mas já tinha piscina, restaurante. Depois disso, ampliamos, fomos fazendo melhoramentos, fomos ocupando as áreas.

Qual a relação de vocês com Olinda?
Ione – Nós somos de lá. Fernando foi para lá com 8 anos, eu nasci em Olinda. Eu estou com 77 anos. Moramos até 1973, quando nos formamos. Eu morava nos Milagres. Nós nos conhecemos para fazer o vestibular de arquitetura, estudávamos juntos e fizemos arquitetura juntos. Depois João foi para Brasília, estudar na UnB. Em seguida, fomos para o Rio, depois para São Paulo, depois para a Argélia, depois para o Rio, paramos em Vitória, que era uma cidade que estava se consolidando e tinha poucos arquitetos. Abrimos um escritório de arquitetura e trabalhamos muito. Tanto que a gente, no começo do funcionamento do hotel, nem nos dedicamos muito, íamos lá todo mês para ver as coisas como é que estavam, manter o padrão, mas com a vida profissional foi toda aqui em Vitória.
Quando nos formamos, fomos morar em outros estados. Fui estudar em São Paulo, Fernando foi trabalhar em Brasília. Depois a gente foi para a Argélia, trabalhar com Oscar Niemeyer, no escritório que ele tinha lá, depois voltamos para o Rio. Enfim, a gente não voltou para ficar em Olinda.
Fernando – Em Olinda, vimos todas aquelas casas caírem. Eu sinto muito, porque acho que a cidade não está nos seus melhores momentos. Quando começamos a fazer o hotel, Olinda estava numa época muito boa. O grupo de moradores animados, em conjunto com a prefeitura. O prefeito era Germano Coelho, uma pessoa extremamente envolvida com a história de Olinda e hoje nos preocupa esse descaso.
A cidade está muito malcuidada. Está se permitindo fazer qualquer coisa ali dentro. Parece que não se tem muito controle. Até o pessoal da Associação dos Moradores saiu da representação na Prefeitura. Está todo o mundo muito desanimado e eu acho que Olinda tá precisando de uma revigorada. Um lugar tão bonito, tão peculiar merece que gente vá morar lá e não só visitar.

Quanto ao projeto arquitetônico da pousada, o que vocês pretendiam de diferente na época?
Ione – Quando a gente começou a fazer o projeto, a legislação permitia que a gente construísse somente 5% do terreno, quer dizer, é muito pouco. Também não podia ser o nível acima da rua de trás, que é a Travessa de São Francisco. A gente não podia mexer na topografia do terreno, nem retirar nada da vegetação.
Foi um projeto difícil de fazer porque tinha muita restrição. Havia um trecho do terreno onde os filhos jogavam futebol. Nessa parte, conseguimos fazer os apartamentos sem derrubar nada, porque já estava vazio e era mais no alto. E aí, a gente foi acomodando o projeto. A opção foi trabalhar com os materiais de Olinda, até porque a escala do hotel é muito grande na cidade. Fizemos um grande pavilhão, construções que foram se distribuindo no terreno, usando telhas de barro, alvenarias caiadas pintadas de branco, os cobogós, treliças, enfim, toda uma linguagem que é tanto de Olinda como é do modernismo.
Fernando – Fizemos a opção de fazer um projeto mais simples. Não tínhamos recurso para fazer nada muito sofisticado, mas fizemos dentro dessa linguagem da cidade, usando muita ventilação e iluminação natural. A construção não se impõe na natureza. Você vai andando através das construções. Você está com a vegetação, jardim, árvores, e é aquela coisa feito um oásis na cidade. É tanto que quando você olha lá de cima, não tem tanto esse impacto de uma construção grande que hoje a gente vê. Ao longo dos anos a gente foi plantando mais vegetação. E hoje virou uma selva, aparece passarinho, macaco, vários bichos.

Essa integração com a natureza, era algo que vocês almejavam, foi planejado?
Ione – Quando a gente começou a funcionar, o que mais encantava as pessoas era a vegetação, o quintal com árvores que hoje quase não se vê mais. Temos sapoti, pitomba, que não fazem mais parte do cotidiano. São árvores de quintais, não são árvores frutíferas de consumo. Ninguém mais planta jenipapo para comer, nem planta pitomba.
Vimos que isso era uma coisa interessante, que valorizava o hotel e continuamos a plantar. Somos de Olinda e fomos acostumados a andar na cidade, a ver os quintais de Olinda. E na hora que a gente teve um quintalzão daquele, a gente foi plantando também. E se em se plantando tudo dá, então lá hoje a gente tem uma área bastante arborizada e bem diversificada. Mas não tem nada muito paisagisticamente pensado. O pessoal vai se hospedar e leva uma muda.
A parte da recepção do restaurante, quando começamos a construir, estávamos lá dentro durante a obra e víamos aqueles passarinhos e o vento passando dentro da construção, aí desistimos de fechar com portas e janelas. Vamos deixar tudo aberto. Então, nenhuma das nossas áreas de uso comum são fechadas. Têm as treliças para o vento passar, mas não têm nem porta, nem janela, é tudo aberto. O vento passa, os bichos passam. Nós usamos as soluções que são as dos trópicos.

Quais outros diferenciais da pousada Sete Colinas?
Ione – Se você for falar do ponto de vista de hotel, ninguém tem uma área como a nossa, pelo tamanho. A gente tem possibilidade de ter estacionamentos, que a maioria das casas e hotéis de Olinda não têm. Temos uma piscina enorme que realmente é um dos atrativos ali na Cidade Alta.
E tem a própria cidade, Olinda para quem é recifense é também um atrativo, um passeio para um espaço urbano diferenciado, mais tranquilo. Recebemos muitos estrangeiros também, principalmente da Europa, além do pessoal das artes – atores, músicos – porque como é um hotel pequeno, é diferente. Você fica lá, pouca gente sabe, você está meio que protegido. Se o ator vai para um hotel grande, desce no elevador, cheio de gente, ele é assediado.

A decoração foi feita por vocês?
Ione – Usamos vários móveis antigos que tínhamos, também compramos coisas. Desenhamos alguns móveis, a ideia também não era fazer cópia do estilo colonial, havia coisas originais e havia coisas simples, despojadas, mas que se adequassem ao lugar. Temos lá um acervo grande de quadros de pintores brasileiros e principalmente pernambucanos da época do Ateliê Coletivo, que foi um movimento em Olinda na década de 1960. O pai de João era um jornalista muito conhecido, Murilo Marroquim. Ele e a mãe de João davam muito apoio a esse grupo e compraram muitas obras dele. Temos um acervo enorme de obras de arte.
Os jardins estão cheios de esculturas do Thiago Amorim, que é um pouco mais jovem, são peças grandes, ele não tinha onde guardar e foi deixando lá no hotel. Hoje temos uma exposição permanente lá de obras do Thiago, tanto de peças mais esmaltadas, mais sofisticadas, que ele começou a fazer há menos tempo, como os trabalhos mais antigos, da época em que ele começou a trabalhar.

O pai do João, Murilo Marroquim, foi um jornalista famoso na sua época. Como vocês se preocupam em manter o legado dele vivo no museu dentro da pousada?
Ione – Sim, o pai do João Fernando foi o Murilo Marroquim, um jornalista que trabalhava no Jornal do Commércio e na época da 2º Guerra Mundial ele ficou nos Diários Associados, que tinha a revista O Cruzeiro muito conceituada, e foi para Inglaterra cobrir a guerra. Ele ficou lá até o final da guerra. Acompanhou e fazia reportagens para o Brasil. Era um grupo pequeno de jornalistas brasileiros que foram e ele foi um desses. Ficou em Londres na época.
Dona Célia, a mãe de Fernando, foi com ele. Ela ficou em Londres também e trabalhou na BBC. Então, Murilo acompanhava o exército britânico e depois da guerra ficou bastante conhecido. Ele fez muitas entrevistas e reportagens com os estadistas, principalmente nos países que tinham tido mudança política por conta da guerra. Ele foi o primeiro jornalista ocidental que entrevistou Mao Tse-Tung na época da Revolução Chinesa. Ele entrevistou também Tito da Iuguslávia, enfim, tem uma série de entrevistas dele na guerra que nós estamos recuperando, aqui junto com a família, pra gente deixar lá no gabinete dele. Depois da guerra, ele ficou nos Diários Associados por muito tempo, depois foi acompanhar a política em Brasília.
Ele era amigo de Juscelino [Kubitschek] e ficou trabalhando no Correio Braziliense, junto com grandes jornalistas, como Carlos Castelo Branco. Depois, trabalhou no Senado na parte de imprensa. Por fim ele voltou para o engenho em Ipojuca. A nossa preocupação, quando a família deixou para Fernando a casa, aquela área toda onde a gente construiu o hotel, era justamente manter a memória dele viva. Tem uma história muito bonita de um grande jornalista pernambucano ali. Por isso que a gente se esforça em manter a casa, que a gente chama de casa-museu.
Como é o movimento de ocupação da pousada?
Ione – Olha, a ocupação não é constante. Temos o período de férias, o período de verão, o período do mês de agosto que vem gente de fora, porque é a época de férias na Europa. Julho, agosto e setembro, o tempo começa a ficar melhor no Recife, as pessoas saem mais para passear. Esse público só vai quando tem tempo bom para ficar andando na cidade e ir para a piscina.
Fernando – Essa mudança para o público local aconteceu depois da pandemia. As pessoas começaram a fazer viagens curtas. Depois de passar um ano e tanto dentro de casa, as primeiras viagens que as pessoas fizeram foram para proximidade, então gerou um movimento que a gente não tinha. Não existia esse pessoal que vinha passar o final de semana em Olinda.
Agora, a gente conta com esse público local, do Recife, de final de semana. Mas, temos uma ocupação boa, a capacidade do hotel hoje é de 47 apartamentos, a gente tem capacidade entre 90 e 100 pessoas. Temos seis suítes, cinco quartos luxo, que são esses com varandas maiores e temos os outros que são os quartos padrão, e temos também três salões de reunião, onde recebemos eventos corporativos, eventualmente também eventos familiares, casamento, etc.
São quantos colaboradores?
Fernando – Em torno de 30 pessoas, porque a gente tem o restaurante que funciona, mas é mais para público interno. Só no restaurante tem mais de 10 pessoas, e tem a parte de hospedagem, são quatro camareiras, cinco recepcionistas, tem seis da administração, o que tem muito é pessoal de manutenção. Temos que ter gente que sobe em coqueiro, que tira coco. Tem o pessoal todo de jardim, então são sete funcionários entre jardineiro, piscineiro e outras coisas mais, são serviços gerais que a gente chama. E tem os antigos funcionários, que estão desde a fundação do hotel. Temos profissionais que estão lá há 28 anos.

Eu queria que vocês falassem dessa nova pousada que estão construindo em um engenho.
Ione – É o engenho Gaipió, em Ipojuca, que era da família do Fernando. O pai dele comprou na década de 1950, já não moía, não produzia açúcar, mas fornecia cana para uma usina que faliu.
Fernando – Meu pai fazia parte do grupo da usina e ele ficou com esse engenho. E acabou o engenho sendo desapropriado pelo pelo Iphan com a reforma agrária. Sobrou a sede, onde ficam a casa grande, a igreja, as construções antigas de açúcar. E essa área tem em torno de 90 a 100 hectares que a gente está usando para o hotel. Fizemos uma reserva de Mata Atlântica. Então, são 80 hectares de reserva e 10 que abrange a sede propriamente, onde aproveitamos as construções antigas da área que fazia o açúcar e estamos fazendo aí o apartamento e o restaurante. A gente está recuperando porque a casa grande e a igreja estavam conservadas, já essas outras duas construções, que são parte de produção do açúcar, estavam abandonadas porque não tinham uso. Desde o ano passado, esse engenho passou para propriedade do hotel Sete Colinas e estamos investindo na recuperação, dando uma destinação turística, vamos fazer os apartamentos, restaurantes, administração. Em dois anos, acho que a gente consegue terminar, se a chuva ajudar.
Vocês são um casal de arquitetos que são também donos de um lugar que é referência tanto de pousada quanto turístico. Queria saber dessa relação de vocês com o espaço? O que é que vocês acham mais encantador?
Ione – Chegamos aqui em uma época em que a cidade de Vitória estava crescendo muito com muita demanda de construção de apartamentos. Fundamos o escritório, e quando viemos para cá não tinha nem faculdade. Eu fiz concurso e fui professora do curso de arquitetura da universidade federal daqui. Eu me aposentei há uns 10 anos, e o projeto do hotel, dentro do que a gente trabalha no escritório, é até uma exceção. É especial porque a gente é de Olinda, porque o espaço era nosso, mas é especial pelo tipo de demanda que atende. Um prédio numa área tombada com vegetação, com o carinho de fazer uma coisa que é na cidade que a gente morou.
Fernando – Quando a gente começou a fazer esse projeto em Olinda, ninguém dizia que ia dar certo. Todo mundo dizia: “vocês são loucos, fazer um hotel em Olinda não vai dar certo nunca”. Até o pessoal que fez o projeto de viabilidade econômica tinha dúvida para pegar um empréstimo, dizia “mas isso aí não é muito fácil, vai ser difícil”. Havia esse pensamento totalmente negativo. Hoje em dia, como tudo deu certo, a gente fica satisfeito porque é uma realização que ninguém acreditava e se a gente tivesse ouvido todos os conselhos não tinha feito.

Só para finalizar, hoje, olhando para trás, para vocês valeu a pena tudo isso?
Ione – Semana passada, eu estava em Olinda, aí passou um casal de Alagoas e falou comigo: “Que coisa linda, tem aqui tudo tão conservado, esse mobiliário, essa casa, a história da família, tudo!”. Eles vieram desde que abrimos a pousada, depois trouxeram os filhos, depois vieram para o Carnaval. Enfim, ao longo desses 20 e tantos anos, eles foram lá várias vezes. A pousada virou a casa deles em Olinda. Uma senhora, do Rio de Janeiro, todo ano comemora o aniversário dela na Sete Colinas, em janeiro. Ela leva umas 20 pessoas, convida todo mundo e faz festa, faz bolo.
Fernando – Enfim, há inúmeros hóspedes que já nem se consideram mais hóspedes e se consideram da casa. As pessoas se sentem em casa, nós fazemos questão disso, elas ficam à vontade. Os funcionários gostam de trabalhar lá. Estão sempre bem, de bom humor e a gente tem muita referência boa dos hóspedes em função da equipe. Agora, as pessoas estão reclamando demais da cidade.Nesses anos todos, nunca vimos Olinda tão abandonada.




