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Recuperação judicial ou extrajudicial? A escolha do instrumento jurídico começa pela compreensão do passivo

*Por Bruno D´Ambrósio Nas últimas semanas, a recuperação extrajudicial voltou ao debate público após alguns casos envolvendo grandes empresas que buscaram reorganizar suas dívidas por esse caminho. Episódios pontuais, no entanto, nem sempre representam o funcionamento real do mercado de reestruturação empresarial no país. Quando se observa o cenário de forma mais ampla, os dados ajudam a colocar essa discussão em perspectiva. Segundo o Indicador de Falências e Recuperação Judicial da Serasa Experian, o Brasil registrou 1.405 pedidos de recuperação judicial em 2023. Em 2024, esse número saltou para 2.273 solicitações, uma alta de aproximadamente 62%. No mesmo período, a recuperação extrajudicial manteve participação bastante reduzida. Foram cerca de 90 pedidos em 2023 e aproximadamente 140 em 2024. Mesmo com crescimento próximo de 55%, trata-se de um volume ainda pequeno quando comparado à recuperação judicial. Os números indicam um movimento relevante. O ambiente econômico tem ampliado a necessidade de reestruturação empresarial e, na prática, a recuperação judicial continua sendo o principal instrumento utilizado pelas empresas para reorganizar passivos e preservar suas operações. A diferença entre esses instrumentos não é apenas jurídica. Ela é estrutural. Na recuperação judicial, a empresa negocia suas dívidas dentro de um processo supervisionado pelo Judiciário. Credores são reunidos em um ambiente único de negociação e a empresa passa a contar com proteção contra execuções e bloqueios enquanto reorganiza suas obrigações. Essa proteção cria condições mínimas para que negociações complexas ocorram sem comprometer a continuidade das operações. A recuperação extrajudicial segue uma lógica diferente. O acordo precisa ser previamente negociado com credores antes de sua homologação judicial. Durante esse processo, os mecanismos de cobrança continuam ativos, o que exige uma situação financeira menos pressionada e um ambiente de negociação mais estável. Na prática do mercado, muitas empresas chegam à mesa de negociação já sob forte pressão de caixa. Nesses casos, a proteção jurídica oferecida pela recuperação judicial tende a ser determinante para preservar a operação e viabilizar uma renegociação coletiva minimamente estruturada. Por essa razão, a recuperação extrajudicial costuma aparecer em contextos mais específicos, geralmente envolvendo empresas de maior porte ou estruturas de dívida mais concentradas. Quando o passivo é pulverizado ou a pressão financeira é mais intensa, a recuperação judicial tende a oferecer um ambiente mais previsível para a reorganização. Por isso, antes de discutir qual instrumento jurídico utilizar, o passo mais importante é compreender a real situação financeira da empresa. O tamanho do passivo, a capacidade de geração de caixa e o perfil dos credores são fatores que definem o caminho mais adequado. Na reestruturação empresarial, o diagnóstico do passivo orienta a escolha do instrumento jurídico, conferindo mais segurança e previsibilidade às decisões. *Bruno D´Ambrósio é especialista em reestruturação empresarial

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Marília Arruda: “Precisamos criar centros de enfrentamento climático nas cidades brasileiras”

*Por Marília Arruda Os mais recentes acontecimentos na Zona da Mata Mineira confirmam meu sentimento de que, já faz tempo, estamos falhando assustadoramente diante da crise climática, infelizmente fingindo que alertas bastam. A crise climática não é mais previsão científica remota, é realidade cotidiana. As consequências dos eventos extremos estão se repetindo com violência crescente, colapsando territórios e ceifando vidas. E, mesmo assim, seguimos reagindo como se cada tragédia fosse surpresa. Não são mais inesperadas, vão acontecer! Alguns avanços importantes foram feitos. Existe investimento do Governo Federal, sobretudo por meio do Cemaden  (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais). Mas fico me perguntando, para que serve um alerta via SMS ou o toque de uma sirene se as pessoas não sabem o que fazer? De que adianta avisar sobre o risco se não há treinamento, rotas definidas, protocolos claros e comunidades preparadas? Alertas isolados salvam muito menos vidas do que a preparação adequada. Isso é adaptação climática, e as cidades precisam se adaptar. Essa questão virou consenso técnico, discurso político e pauta de conferência. Mas ainda não é prioridade real na agenda dos governantes. Existe orçamento estruturado, continuidade administrativa e planejamento de longo prazo? Ou seguimos presos ao ciclo da descontinuidade política, em que cada gestão desmonta o que a anterior iniciou? O Plano de Adaptação Climática brasileiro foi aprovado ano passado, na teoria, mas, na prática, pouco saiu do lugar. E por quê? Porque nosso sistema político tende a valorizar cargos comissionados passageiros e a negligenciar servidores de carreira que desenvolvem conhecimento técnico continuado. Faltam investimentos em formação continuada, institucionalidade, compromisso com a permanência das políticas públicas. Temos também a Política Nacional de Educação Ambiental que, em 2024, incluiu a crise climática como elemento obrigatório nos currículos escolares. Todavia, pouco tem sido feito e posto em prática.  Enquanto isso, os desastres se intensificam e nós continuamos atuando amadoristicamente: os gestores, a sociedade civil, as comunidades e até os pesquisadores. Quando o caos chega, e ele tem chegado com cada vez mais frequência, ninguém se entende. Escolas são improvisadas como abrigos, multiplicam-se campanhas emergenciais, vaquinhas virtuais surgem às milhares. O brasileiro é, sem dúvida, solidário, mas profundamente desorganizado. Doações se acumulam sem coordenação e, depois, vem a triagem tardia de roupas, móveis, alimentos, água, colchões… Sempre a mesma improvisação. Se sabemos que vai acontecer, por que continuamos atuando como se fosse inesperado? A crise climática, não resta mais nenhuma dúvida, não é eventual, é estrutural. Portanto, a resposta também precisa ser estrutural. É uma questão de lógica elementar. Nenhum, repito, nenhum, gestor público no Brasil estruturou até hoje um CEC (Centro de Enfrentamento Climático) – nome que criei com minha vontade de salvar o mundo e combater a crise climática. Um equipamento permanente, ativo o ano inteiro, dedicado exclusivamente à preparação e à resposta organizada aos eventos extremos (em um local seguro, livre de alagamentos e deslizamentos, evidentemente). E o que seria isso? Um centro que receba doações contínuas previamente organizadas, que mantenha estoque estratégico, equipe treinada, preparada psicologicamente para atuar sob pressão. Que funcione em parceria permanente com a Defesa Civil, formando lideranças comunitárias, capacitando escolas, treinando servidores e, sobretudo, preparando as comunidades mais vulneráveis, as que sempre pagam o preço mais alto pela crise climática. Treinar rotas de fuga, simular evacuações, ensinar protocolos, organizar redes de resposta, deixar engatilhado o que hoje só é pensado quando a água já invadiu as casas ou o barranco já desceu. Na hora do desastre, não haveria dispersão de esforços, haveria coordenação. Não haveria improviso, haveria planejamento. Não haveria desespero desorganizado, haveria comando, estratégia e capilaridade para alcançar simultaneamente os territórios afetados. Poderia ser o local ideal para abrigar as pessoas desalojadas e desabrigadas em tempos de crise, sem parar o ensino das escolas. Nele pode funcionar uma cozinha solidária que durante todo ano teria funcionalidade e, até mesmo, um espaço de capacitação para pessoas interessadas.  Isso não é utopia, é uma política pública responsável que valoriza vidas! Adaptar cidades não é apenas fazer obra necessária de drenagem e reconstruir o que foi perdido. Deve ir muito mais além disso: formar pessoas, estruturar instituições, criar cultura de prevenção. É tratar a crise climática como política de Estado e não apenas como indispensável pauta corretiva após cada tragédia dramaticamente divulgada. Não podemos mais continuar romantizando a solidariedade emergencial enquanto negligenciamos a organização prévia. A crise climática exige maturidade institucional e coragem política. Exige menos improviso e mais estrutura. Não precisamos ser amadores diante de algo que já sabemos que virá. Precisamos decidir se queremos continuar contando mortos ou começar, finalmente, a contar vidas salvas. *Marília Arruda é doutora em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável, pela Universidade de Lisboa, gestora ambiental e criadora do Goles de Ciências Recife.

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Da cana a Cannes, do Pau-Brasil a Hollywood: Recados do audiovisual para uma sociedade (ainda) colonial

*Por Clarissa Duarte Há tempos constatamos como um traço cultural a “superautoestima pernambucana”. A baiana também não fica por baixo. Estados que costumam representar a “brasilidade” para o mundo, especialmente por meio de suas ricas e múltiplas manifestações culturais. Da capoeira ao cinema autoral, passando pelos múltiplos ritmos como o frevo, o maracatu, o afoxé ou o samba de roda, é exatamente nesta época do ano que vemos esses nordestinos explodirem de alegria e regozijo por serem, sim, responsáveis autênticos por identidades únicas, resistentes e decoloniais, que fazem vibrar o País e o mundo. Paradoxalmente, a consciência dessa riqueza cultural parece se desfazer ou se perder ao longo do ano, quando retomamos nosso cotidiano repletas(os) de dependências globais, de hábitos ambientalmente inconsequentes, em habitações socialmente segregadoras; práticas que esbanjam hostilidade com o que é histórico, coletivo, comum e público. Continuamos a substituir jardins e quintais por concreto, a depender do carro para ir à padaria, a desejar que comunidades pobres se mantenham longe e isoladas de nós (mesmo que delas dependamos). Perpetuamos a segregação entre “casa grande” e “senzala”, não somente por meio da hostilidade dos muros e guaritas que separam o espaço público do espaço privado, mas especialmente quando tratamos a rua e o “antigo” como lixo, o lote e o “novo” como luxo. Eis uma de nossas principais e mais curiosas contradições: amamos a rua e o Centro no Carnaval, mas demostramos detestá-los em um dia banal. Curiosamente (ou não!) muitas das disfunções e incoerências ora descritas foram abordadas, direta e indiretamente, em diversos filmes e documentários do aclamado cineasta recifense Kleber Mendonça Filho, como a segregação socioespacial da cidade, pautada por um modelo subdesenvolvido de desenvolvimento imobiliário, ou pelo massacre da memória urbana pelos tratores de uma construção civil que ainda não aprendeu a empreender e lucrar preservando. Descobrir como virar a chave dessa “crise de pensamento”, de políticas e práticas privatistas, parece ser um dos principais desafios a enfrentar no contexto urbano e político recifense e brasileiro. Neste sentido, o audiovisual aparece como uma ferramenta múltipla, tanto de entretenimento, para divertir e ironizar, mas sobretudo pedagógica, para gerar dissonâncias e interrogações, provocar estranhezas e desconfortos que, mesmo por meio da crítica, nos fazem discutir, coletivamente, temas e pautas que costumamos ignorar. Kleber há tempos enquadra e exibe as incoerências da sociedade e da política pernambucana como um recorte das contradições da sociedade brasileira, uma sociedade de “pobreza rica” e de “riqueza pobre”. Comunidades quase miseráveis que passam o ano fazendo economias para representar sua cultura popular nos quatro dias de Momo, em contraponto a grupos abastados que se orgulham em pagar bem caro para brincar o Carnaval padronizados, fechados e climatizados, bem longe da multiculturalidade e diversidade vivenciada ao ar livre, nas ruas classificadas pela Unesco como “patrimônio cultural da humanidade” ou “cidade criativa da música”. Aliás, num mundo no qual pouquíssimos bilionários decidem quantitativamente o destino da humanidade, e esta apresenta um percentual imenso de oprimidos pela fome, pelas guerras e injustiças climáticas, o Recife passa a ser também visto como um recorte representativo desse Planeta Urbano. Ao “cantar a sua aldeia”, o cineasta pernambucano tornou-se universal, tanto pela urgência de recuperar nossa memória política e cultural como pela emergência de ressignificar o “ordinário” e o “existente” como riquezas imensuráveis, ao passo que “o exclusivo” e “o novo” se reconfiguram como valores questionáveis ou insustentáveis. Ele nos mostra “o melhor do ordinário” e, por meio dessa curadoria, denuncia as desigualdades e hostilidades de uma cidade, de um país, de um continente e de um planeta que clamam pelo fim de ditaduras insanas e precisam despertar para a emergência de sociedades não dependentes de padrões binários como “opressores x oprimidos”, “desenvolvidos x subdesenvolvidos”, “ricos x pobres”, “direitas x esquerdas”. Cannes e Hollywood vêm reconhecer, além de tantos atributos, um potencial simbólico: o da denúncia criativa e sensível pelo cinema, ou o da pedagogia histórico-cultural e política pela arte que imita a vida que imita a arte… Como o pau-brasil à época colonial, o cinema reaparece como identidade pernambucana e brasileira, mas dessa vez reconfigurando-a. O primeiro a fez pela exploração (um bem levado de nós), o segundo pela imaginação (uma narrativa única que levamos para o mundo). Esse sucesso e reconhecimento precisamos enxergar não apenas como uma “massagem no ego”, mas também como um “tapa na cara”. Acordemos!! Ou melhor, “despertemos!”, como escreveu Edgar Morin. Essa obra que ora concorre a nada menos do que a quatro estatuetas de ouro é “apenas” mais um grito de um “ativista político, cultural e patrimonial” que há muitos anos vem denunciando a “crise de pensamento” da sociedade pernambucana (e brasileira) que segue perpetuando hábitos escravagistas, opressores e segregadores bem diante dos próprios olhos, debaixo dos próprios pés, cotidianamente… Só não enxerga quem não quer! Afinal, é mesmo muito mais confortável “não olhar pra cima”, não problematizar nossa história e seguir ampliando o sentimento de orgulho pernambucano, normalizando nosso “modo antiurbano de ser”, nos fechando em carros, shoppings, clubes e muros, acobertados pela incontestável desculpa da insegurança e calor crescentes. Jamais paramos para pensar o quão recente é o período da escravidão no nosso País, liderado por estados como o nosso. A força da supervalorização da “propriedade privada (nova)”, versus a superdesvalorização do “espaço público (preexistente ou histórico)”, parece estar ainda muito viva… os condomínios atuais refletem claramente casas-grandes de outrora… e as ruas, verdadeiras ágoras da vida urbana, seguem hostilizadas como as senzalas e subestimadas como os canaviais. Finalmente, quando o Carnaval acaba, seguimos nossa vida (extra) ordinária, assistindo silenciosos várias casas e pequenos prédios memoráveis serem demolidos, ou ameaçados, como em Aquarius… vários muros subindo e dispositivos de segurança privada sendo instalados, como no Som ao Redor… Continuamos a ver as ruas do nosso Centro Histórico e seus icônicos cinemas caindo aos pedaços, murmurando, como em Retratos Fantasmas… enquanto os shoppings, mesmo sob ameaça do mercado virtual, permanecem o espaço urbano artificial mais desejado da população, como em Recife Frio. Tal qual um “pequeno povoado” no Sertão

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Superendividamento no Brasil: quando o crédito passa a violar a boa-fé do consumidor

*Por Marina Escorel O Brasil atinge a marca alarmante de 81,3 milhões de negativados. Dados divulgados pela CNDL e SPC, em fevereiro de 2026, demonstram que, mais do que um número, o índice de 84,91% de reincidência de negativação revela um verdadeiro “efeito porta giratória”: o consumidor limpa o nome e, em menos de um ano, retorna ao sistema de restrição. Com 70,5% da renda comprometida, o brasileiro médio passa a viver em estado de insolvência quase permanente. Nesse cenário, a Lei nº 14.181/2021 (Lei do Superendividamento) surge como instrumento relevante de repactuação de dívidas, mas também como mecanismo de reinserção social do consumidor. A proposta da legislação não se limita à reorganização financeira do devedor, mas busca impedir que o endividamento leve à exclusão econômica e social. Os dados atuais reforçam a gravidade do problema. Cerca de 53% dos endividados estão na faixa entre 30 e 39 anos, justamente o grupo que concentra maior capacidade produtiva e potencial de consumo. Isso significa que a parcela mais ativa da força de trabalho encontra-se financeiramente comprometida, afetando não apenas o indivíduo, mas o próprio dinamismo econômico. Paralelamente, dados divulgados pelo Banco Central na Nota para a Imprensa de 25 de fevereiro de 2026 revelam outro aspecto dessa realidade. O crédito ampliado ao setor não financeiro atingiu R$ 20,8 trilhões (162,6% do PIB), enquanto o crédito destinado às famílias alcançou R$ 4,8 trilhões, com crescimento de 11,7% em doze meses. Ao mesmo tempo, o custo do crédito permanece elevado: a taxa média das novas contratações chegou a 32,8% ao ano, alcançando 61% ao ano nas operações com pessoas físicas. O resultado desse cenário é previsível: a expansão do crédito ocorre em paralelo ao aumento do endividamento das famílias, que já atinge 49,7% da renda. Esse quadro evidencia uma contradição relevante. A Lei do Superendividamento estabelece que o tratamento do devedor deve evitar sua exclusão social. No entanto, os dados de 2026 indicam movimento oposto: a negativação passou a funcionar, na prática, como um instrumento de segregação econômica. O consumidor negativado perde acesso a aluguel, serviços básicos e, muitas vezes, até a oportunidades de emprego, formando uma espécie de contingente invisível ao mercado formal. A legislação, inclusive, alterou o Código de Defesa do Consumidor, impondo aos fornecedores — especialmente às instituições financeiras — o dever de implementar mecanismos de prevenção e tratamento do superendividamento, tanto na esfera extrajudicial quanto judicial, além da promoção de políticas de educação financeira. Diante disso, surge uma pergunta inevitável: estão os fornecedores efetivamente cumprindo esses deveres legais? A própria estrutura do endividamento indica um ponto sensível. Bancos e cartões de crédito respondem por cerca de 65% das causas de negativação, o que demonstra que o superendividamento não decorre apenas de imprevistos individuais, mas também de uma dinâmica de crédito amplamente voltada ao consumo imediato. As instituições financeiras frequentemente justificam juros elevados com base no alto risco de inadimplência. Entretanto, sob a ótica dos arts. 4º e  6º, do Código de Defesa do Consumidor, essa justificativa revela fragilidade jurídica. A legislação impõe o dever de educação financeira e prevenção. Ao disponibilizar crédito instantâneo a consumidores que já comprometem parcela significativa da renda, a instituição financeira não atua apenas como fornecedora de serviço, mas assume posição que pode contrariar o próprio dever legal de cautela. Além disso, quando o fornecedor possui acesso ao histórico financeiro do consumidor — por meio de birôs de crédito e mecanismos como o Open Finance — e, ainda assim, concede crédito em modalidades altamente onerosas, como cartão rotativo ou crédito pessoal sem garantia, surge discussão legítima sobre concessão irresponsável de crédito, em possível violação ao princípio da boa-fé objetiva. Às vésperas do Dia do Consumidor, celebrado em 15 de março, a reflexão que se impõe vai além das campanhas comerciais. A Lei nº 14.181/2021 não pode ser tratada apenas como instrumento de “limpeza de nome” após o colapso financeiro do consumidor. Seu objetivo estrutural é prevenir o superendividamento e preservar a dignidade econômica das famílias. Enquanto a expansão do crédito e a rentabilidade do sistema financeiro avançarem em ritmo superior à saúde financeira das famílias, a exclusão econômica continuará sendo uma consequência inevitável. Nesse contexto, o recorde de 81,3 milhões de CPFs negativados revela mais do que um problema individual de inadimplência: evidencia a necessidade de maior vigilância sobre o cumprimento dos deveres de educação financeira, transparência e concessão responsável de crédito previstos no Código de Defesa do Consumidor. *Marina Escorel é Sócia do escritório Robson Menezes Advogados

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O Recife sabia como planejar seu futuro desde 1987, mas não fez

Publicação lançada pelo governo de Pernambuco em 1987 antecipou desafios ambientais, urbanos e institucionais da metrópole que seguem sem solução. *Por Romero Maia Precisa-se de tanta energia para desejarquanto para planejar. Eleanor Roosevelt Um ano antes do mestre do urbanismo mundial, Peter Hall, escrever seu clássico livro “Cidades do Amanhã”, o governo de Pernambuco lançava a obra pioneira “A Cidade do Amanhã”, em 1987, com dados, pesquisa histórica e análises prospectivas sobre a Região Metropolitana do Recife (RMR). Esse “amanhã” imaginado na obra é o que permeia o “hoje”, dia de mais um aniversário da cidade que não pode reclamar que não sabia o que fazer do seu futuro. O livro começa com um resgate precioso da obra histórico-geográfica do professor catedrático, referência nacional da UFPE, Manuel Correia de Andrade, dos anos 1970, na qual ele destrincha o processo de florescimento e de espraiamento de toda a metrópole recifense. Para isso, utilizou como base trabalhos de grandes nomes nativos, como Mário Sette e Gilberto Freyre, dos anos 1940 e 1950. E antes mesmo disso, vale frisar, o pioneirismo do Recife no Nordeste registra-se desde os trabalhos de Domingos Ferreira, nos anos 1920, e das teses já metropolitanas do professor Antônio Baltar. É justamente de meados do século XX que se somam os estudos do lendário padre Lebret acerca do desenvolvimento regional e a implantação de indústrias que serviriam ao pensamento metropolitano em Pernambuco. Seus trabalhos foram publicados pela Condepe, comissão instituída pelo governador Agamenon Magalhães. Para se ter uma ideia, uma das principais consequências dos esforços do padre Lebret foi a criação do Porto de Suape, em 1978, comprovando que, havendo ação política continuada, trabalhos intelectuais têm poder transformador e orientador de megainvestimentos estruturais. Entendendo que a forma como a cidade se comportava só podia ser dirigida pensando em termos de rede, ainda nos anos 1950 foram apresentadas as diretrizes de um plano regional para o Recife, com proposta específica de delimitação da área metropolitana, antes mesmo de a Constituição de 1988 descentralizar a gestão metropolitana da União para os estados. O primeiro esboço consta no livro e segue a fotografia abaixo: Esse foi o primeiro passo de aplicação do saber local em territórios de prefeituras que não podiam mais confiar em decisões isoladas, pois já eram parte de um conjunto maior. Olinda e Recife passam a ser vistas não apenas como cidades irmãs, mas como duas faces de uma mesma moeda: uma única rede de decisões partilhadas. Mas foi a criação da Fundação de Desenvolvimento da Região Metropolitana do Recife (Fidem) que, de fato, gerou o embrião da formação de competências para o processo de gestão metropolitana no estado, a partir de 1975, ainda que já houvesse, em suas bases, estudos realizados pela Sudene no final dos anos 1960. Uma vez sinalizado o que poderia ser considerado a RMR, o documento nos apresenta a política de desenvolvimento metropolitano integrado e, pela primeira vez, registra as linhas do que queremos ser hoje, em 2026. O documento entendeu a tendência de afluência populacional durante a década de 1990 para a RMR, mas que logo em seguida apresentou um leve refluxo que persiste até o censo mais recente, como pode ser visto pelos percentuais da população pernambucana residente em cada uma das delimitações de territórios metropolitanos: A política proposta já começava de maneira visionária ao tratar, logo de partida, da questão ambiental, referida como controle da poluição, especialmente no cuidado com os rios que marcam profundamente a identidade e a geografia das cidades da região e são especialmente sensíveis à concentração populacional. O que requer também reforma no sistema de esgotamento sanitário, item que também foi sublinhado pela publicação. Além disso, as diretrizes previam aspectos institucionais e a criação de sistemas de administração especializados para a gestão do desenvolvimento humano, da sustentabilidade e da mobilidade muito antes de esses termos serem amplificados pela mídia. Tudo isso consta nessa publicação de indiscutível pioneirismo e valor histórico. Vale salientar que o Estatuto da Metrópole no país como um todo só foi sancionado em 2015. A publicação foi resultado de uma ação visionária e surgiu de um esforço da antiga Fidem, incentivada pelo governador Gustavo Krause e levada adiante pelo urbanista Paulo Roberto de Barros e Silva, à frente de uma equipe de pesquisadores nordestinos de referência, como Ermelinda Gonçalves, Cláudio Porto, Humberto Magalhães, Pedro Motta, entre outros. Trinta e nove anos se passaram, e a comemoração de aniversário poderia ser feita tendo esse documento como base para uma nova estratégia metropolitana. Só que dessa vez com a coordenação do ente estatal e monitoramento orçamentário integrado, com suporte técnico da Secretaria de Planejamento e Gestão. Uma ação de Estado, e não dependente de candidaturas. Isso requer exclusivamente burocracia concursada e trabalho com gestão de projetos de longo prazo, dos quais novos eleitos aos cargos majoritários são somente informados que terão que dar continuidade orçamentária. Como foi dito, a decisão governamental não pode mais ignorar a rede urbana e a condição metropolitana. Chegamos até aqui, por outro lado, sem que nenhuma das questões centrais previstas em 1987 tivesse seus encaminhamentos estratégicos realizados a contento. Evidências presentes disso neste aniversário são o metrô extremamente limitado, perigoso e sucateado, e a cobertura de saneamento que apenas atinge cerca de 40% da população da RMR. E isso se deve mais à falta de coordenação entre as lideranças políticas dos anos 1990, que esqueceram de tirar o futuro do papel, do que ao legado do planejamento da gestão pública que estava lá ao lado o tempo todo à disposição. Um presente de aniversário para o hoje poderia ser retomar e atualizar iniciativas que aumentem as chances de outros aniversários fazerem mais jus ao nosso passado. Especialmente em 2037, quando o Recife fará 500 anos, e Olinda já terá seus 502. Mas para envelhecer com dignidade é preciso saber se as elites metropolitanas já entenderam o que devem fazer conjuntamente sobre um planejamento de longo prazo baseado em evidências, ou se ainda vão protelar pôr em prática “A cidade do

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A gente sem Oscar, mas nada discretos

Por José Ricardo de Souza Infelizmente, o Oscar deste ano não foi favorável ao cinema brasileiro. Apesar de cinco indicações, não trouxemos nenhuma estatueta, ao contrário de 2025 quando “Ainda Estou Aqui” ganhou como melhor filme estrangeiro. Apesar disso, ainda temos motivos para comemorar. O longa “O Agente Secreto” está cumprindo bem seu papel. Despertou o interesse pelo cinema pernambucano, estimulou o turismo no centro da cidade do Recife, levou para a tela grande imagens de lugares que fazem parte do cotidiano dos pernambucanos. Não se trata apenas de assistir ao filme, mas de se ver nele representando, seja pela paisagem mostrada ou pela narrativa que lembrou dos ataques dos tubarões na Igrejinha de Piedade, da morte do menino Miguel, e da lenda icônica da perna cabeluda. O filme dialogou com temas diversos, que vão desde a questão da repressão durante a ditadura civil-militar até a nostalgia de um Recife que infelizmente não existe mais. Nunca falamos tanto de cinema em Pernambuco. Foram dezenas de publicações, de reportagens nos jornais a capas de revista, até um Globo Repórter só nosso teve, além é claro das inúmeras resenhas, postagens, artigos, etc. Nem vou citar as dezenas de prêmios nacionais e internacionais que “O Agente Secreto” conquistou. Faltou o Oscar? Sim. Merecia pelo menos o de Melhor Filme Estrangeiro e de Melhor Ator (a atuação do Wagner Moura foi impecável). Mas vamos dar a César o que é de César: o Oscar é uma competição, como outra qualquer. Alguém vai ganhar, outros vão perder. E a vida segue igual às fitas de rolo dos antigos filmes que passavam no Cine São Luiz. Pelo menos de uma coisa temos certeza: foi a maior torcida em linha reta desde que o Oscar foi inventado. Valeu Kléber Mendonça Filho. Você e todos que fizeram esta obra foram gigantes e merecem todas as nossas homenagens. Perdemos o Oscar, mas continuamos com molho de sempre: libertários, rebeldes e festivos! *José Ricardo de Souza é professor da rede pública estadual de ensino, historiador e escritor. Membro da Academia de Letras e Artes da Cidade do Paulista (ALAP) e do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP). Criador do projeto Muita História pra Contar. @josericardope01 nas principais redes sociais.

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Elas não pedem licença: elas descobrem, sequenciam e reinventam a ciência brasileira

Por Lucyane Mendes Silva No imaginário coletivo, o cientista ainda carrega um estereótipo antigo: jaleco masculino, voz grave, autoridade incontestável. A realidade, felizmente, é outra. Nos laboratórios brasileiros, mulheres têm conduzido descobertas decisivas, liderado equipes multidisciplinares e redefinido o papel do país no cenário científico internacional. Durante a pandemia de Covid-19, uma biomédica baiana tornou-se símbolo dessa virada histórica. Jaqueline Góes de Jesus, mestre e doutora em Patologia Humana e Experimental, integrou a equipe responsável pelo sequenciamento do SARS-CoV-2 no Brasil poucos dias após a confirmação dos primeiros casos. Em meio ao medo coletivo, foi uma mulher nordestina quem ajudou o país a enxergar, em nível molecular, o vírus que mudaria o mundo. O gesto foi técnico, mas também político. Mostrou que a excelência científica nasce da formação sólida, do investimento público e da diversidade. Mostrou que mulheres não ocupam a ciência por concessão — ocupam por competência. Hoje, outras pesquisadoras seguem avançando em áreas igualmente complexas. No campo da regeneração neural, cientistas investigam a polilaminina, estrutura biomimética derivada da laminina, proteína fundamental da matriz extracelular envolvida em adesão celular, diferenciação e crescimento axonal. Trata-se de um território que exige domínio em biologia molecular, engenharia tecidual e neurociências. Entre as referências brasileiras em genética e terapias inovadoras está Mayana Zatz, médica geneticista e professora titular, cuja trajetória consolidou pontes entre pesquisa básica e aplicação clínica. Pesquisadoras com formação em Medicina, Biomedicina, Genética e Neurociências têm sustentado debates rigorosos sobre inovação terapêutica, sempre ancorados em evidência científica.É preciso dizer com clareza: ciência não é espetáculo. Não é milagre. É método, repetição, validação e revisão por pares. E mulheres estão em todas essas etapas: desenhando protocolos, coordenando ensaios, analisando dados e publicando resultados. Ser mulher na ciência brasileira, contudo, ainda implica enfrentar assimetrias: menor acesso a financiamento, menor visibilidade em cargos de liderança, maior cobrança. Muitas conciliam produção acadêmica com maternidade, gestão e ensino. Persistem onde antes lhes disseram que não era lugar.Mas é.Quando uma pesquisadora sequencia um vírus em tempo recorde, ela salva vidas.Quando outra estuda proteínas capazes de reorganizar neurônios, ela expande horizontes terapêuticos.Quando tantas outras ocupam bancadas, salas de aula e centros de pesquisa, elas alteram o curso da história silenciosamente.Neste Dia das Mulheres, não celebramos apenas trajetórias individuais. Celebramos uma transformação estrutural. A ciência brasileira tem rosto feminino — diverso, nordestino, periférico, plural.Elas não pedem licença.Elas publicam.Elas lideram.Elas descobrem.E, ao fazerem isso, reinventam o futuro. *Lucyane Mendes Silva é biomédica e pesquisadora, pró-reitora de Pesquisa, Extensão e Internacionalização da Wyden e gestora dos Programas de Internacionalização da Wyden.

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Josefina Campos

O Agente Secreto: reverberações psíquicas em três dimensões

Filme de Kléber Mendonça Filho mobiliza memória, identidade cultural e símbolos locais que dialogam profundamente com o público *Por Josefina Campos Sendo “O Agente Secreto”, de Kléber Mendonça Filho, um filme tão plural na oferta de imagens e significados, qualquer análise sobre sua repercussão no público exige observar elementos centrais de suas cenas e de sua narrativa. Ambientada nos anos 1970, a obra propõe desde o título uma provocação: afinal, quem é o agente secreto da história? A pergunta atravessa toda a trama. Seria o protagonista Armando/Marcelo, pesquisador foragido que tenta escapar de eventos traumáticos do passado? Ou seriam aqueles que lhe oferecem abrigo e proteção, como Dona Sebastiana, Elza e o Sr. Alexandre? A própria ideia de “agente secreto” se abre para múltiplas interpretações. Em determinado plano simbólico, até mesmo a Perna Cabeluda, figura lendária do imaginário recifense, surge como metáfora. Uma presença misteriosa que ecoa o clima de vigilância e medo da época. Nesse sentido, a expressão poderia remeter também aos agentes da repressão da ditadura, militares ou aliados do poder econômico, que operavam nas sombras em defesa da chamada “ordem”. O título do filme, portanto, já nasce como uma metáfora aberta. Outro aspecto marcante da obra é o paradoxo entre ação e silêncio. Embora tenha elementos de thriller político, o filme se constrói com muitas pausas, lacunas e zonas de obscuridade. Em diversos momentos, a narrativa flerta com o onírico, povoada por simbolismos e ambiguidades. Os personagens falam pouco, mas expressam muito por meio de gestos, olhares e silêncios. Esse tipo de construção convida o espectador a preencher sentidos e mobiliza camadas profundas da experiência emocional. Para compreender esse processo de envolvimento psíquico, é possível recorrer a um conceito da psicologia analítica de Carl Gustav Jung: a chamada função transcendente. Trata-se de um movimento psíquico no qual conteúdos inconscientes são tocados, emergem e se tornam disponíveis à consciência, favorecendo uma maior integração da personalidade. A arte frequentemente produz esse efeito, ampliando o senso de si mesmo. O “O Agente Secreto”, pela densidade de suas imagens e lacunas narrativas, parece estimular esse processo com especial intensidade. Um dos eixos centrais da trama é a questão da identidade. Personagens precisam ocultar quem são para sobreviver, adotando nomes falsos. Armando busca pistas sobre sua origem materna. Já Fernando, o médico, carrega marcas profundas em seu próprio processo de formação identitária, atravessado pela ausência dos pais. Paralelamente, jovens pesquisadoras investigam conexões que permitam compreender melhor a memória sociopolítica daquele período. Em meio a apagamentos e silêncios, típicos das ditaduras, há também aqueles que, simbolicamente, “dão o sangue” para preservar a memória. A dimensão da identidade também se expressa com força no plano cultural e geográfico. O filme está profundamente enraizado no território de Recife e de Pernambuco, algo que gera forte identificação com o público local. Elementos simbólicos da cultura regional aparecem de forma orgânica ao longo da narrativa: o Cinema São Luiz, verdadeiro protagonista geográfico do filme; a referência aos ataques de tubarão na capital pernambucana; a presença da La Ursa, figura tradicional do carnaval; e a citação da mangaba, fruta típica da região. A trilha sonora também reforça essa identidade cultural. Em uma cena emblemática de suspense, surge a música “A Briga do Cachorro com a Onça”, executada pela Banda de Pífanos de Caruaru, referência incontornável da cultura musical pernambucana. Um dos momentos mais impactantes do filme ocorre durante o carnaval em frente ao Cinema São Luiz. Na cena, alegria e tensão se entrelaçam, vida e morte convivem, e os paradoxos do enredo se condensam em uma sequência visualmente poderosa. O frevo toma conta da rua, com participação dos Guerreiros do Passo, grupo reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Recife. O resultado é um clímax emocional que mistura memória afetiva, festa popular e drama histórico. Essa forte presença de símbolos locais também provoca uma reação coletiva entre os recifenses. Ao ver sua cidade, seus costumes e sua cultura projetados para o mundo, parte do público reage com orgulho e entusiasmo, algo que já se apresenta em manifestações populares como bonecos gigantes representando Kléber Mendonça Filho e Wagner Moura, além de blocos carnavalescos inspirados no filme e até a presença da lendária Perna Cabeluda no Galo da Madrugada. É o orgulho recifense, como se costuma dizer, “em linha reta”. Os personagens também contribuem para esse retrato simbólico da cultura nordestina. Dona Sebastiana aparece como a clássica “mainha” que resolve qualquer problema, seja um conflito doméstico ou um embate com a autoridade. O Sr. Fernando surge como o trabalhador bonachão, apaixonado por futebol e pelos rituais simples da vida cotidiana. Já o delegado Euclides encarna uma figura ambígua de poder, mistura de cordialidade e autoritarismo, lembrando os velhos “capitães do mato” da história brasileira. São personagens que ecoam tipos sociais reconhecíveis no imaginário coletivo da região. No plano nacional, o impacto do filme também passa por dois fatores importantes. O primeiro é a revisitação de um período histórico marcado pela repressão da ditadura militar. Ao trazer à tona experiências vividas entre silêncios, mentiras e violência institucional, o filme funciona como um lembrete: isso aconteceu com o país. A narrativa revela o alcance da vigilância estatal ao mostrar que a perseguição não recaía apenas sobre militantes políticos, mas também sobre cidadãos comuns, como o protagonista, um pesquisador acadêmico. Recontar essa história tem um valor simbólico profundo. A ausência de memória histórica consistente pode gerar, no imaginário coletivo, uma espécie de dissonância psíquica. Uma lacuna entre realidade e narrativa oficial. Recuperar essas experiências ajuda a recompor esse tecido simbólico e fortalece a consciência coletiva sobre o passado. O segundo fator é o reconhecimento internacional do filme. “O Agente Secreto” vem acumulando prêmios e projeção em festivais ao redor do mundo, ampliando o prestígio do cinema brasileiro contemporâneo. Na corrida pelo Oscar, a produção conquistou quatro indicações importantes: Melhor Filme, Melhor Ator para Wagner Moura, Melhor Filme Internacional e Melhor Direção de Elenco. Agora, resta ao público brasileiro acompanhar e torcer. Mais do que uma disputa por estatuetas, o sucesso do filme reforça

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Pernambuco: uma breve história do Leão do Norte

*Por José Ricardo de Souza A História de Pernambuco, que passou a ser disciplina obrigatória no currículo das escolas da rede estadual de ensino a partir deste ano, é rica em personagens, revoltas, movimentos libertários, e insurreições que até hoje são evocadas quando nos referimos ao estado como sendo o “Leão do Norte“. Os mais entusiastas dizem que o conceito de pátria brasileira foi forjado aqui, nas guerras travadas para expulsar os holandeses, com muito sangue e suor dos indígenas, lusos e escravizados que pegaram em armas contra um inimigo comum. Os pernambucanos nunca foram de baixar a guarda, nem de reconhecer a superioridade daqueles que queriam dominá-los. Nem internamente, como aconteceu na Guerra dos Mascates em 1710, nem externamente quando enfrentou o autoritarismo de D. João VI em 1817 e de seu filho D. Pedro I em 1824. Fomos de lutas épicas: expulsamos os holandeses em 26 de janeiro de 1654 quando eles assinaram a sua rendição no campo do Taborda, demos o primeiro grito de República nas Américas em 10 de novembro de 1710 no antigo Senado da Câmara de Olinda com Bernardo Vieira de Melo, durante a Guerra dos Mascates (feito lembrado por Oscar Brandão da Rocha no seguinte trecho do Hino de Pernambuco “a República é filha de Olinda“), embora esta república tenha sido muito mais inspirada nas repúblicas italianas do que no modelo republicano propriamente dito. A Revolução Pernambucana de 1817 foi um marco na História brasileira por ter sido a única revolta do período colonial que ultrapassou a fase de conspiração e conseguiu de fato tomar o poder durante 75 dias (alguns historiadores falam em 74 dias), sendo inclusive a data magna do Estado – 6 de março, porque nesta data o capitão José de Barros Lima, que ficou conhecido como o “leão coroado”, reagiu a voz de prisão dada pelo militar português Manoel Joaquim Barbosa, matando-o a golpes de espada, o que acabou se tornando o estopim para a revolta. Esta espada encontra-se atualmente na sede do Instituto Arqueológico, Histórico, Geográfico Pernambucano (IAHGP), que fica na Rua do Hospício, centro do Recife. Não escondemos que uma das causas do fracasso do movimento foi a contradição entre libertar os escravos ou manter a estrutura escravista que sustentava os engenhos, o qual fez com que os grandes senhores de engenho retirassem seu apoio à causa revolucionária. Isso sempre será lembrado nas comemorações anuais da Revolução Pernambucana de 1817, cuja bandeira elaborada pelo padre João Ribeiro, até hoje empunhamos com orgulho. Não por acaso, foi escolhida como a bandeira mais bonita do Brasil em algumas votações. Quanto aos mortos de 1817, existem várias estatísticas, e os que morreram foram em sua maioria vítimas da repressão do governo joanino instalado no Rio de Janeiro, que prendeu, condenou e executou personagens memoráveis como: Domingos José Martins (noivo de Maria Teodora Costa, eternizados no romance histórico “A Noiva da Revolução” do escritor Paulo Santos de Oliveira, depois transformado no filme “1817 – A Revolução Esquecida” dirigido por Tizuka Yamazaki), Frei Miguelinho, padre Roma. Foi a primeira vez que se condenaram padres no Brasil, daí esta revolta também ser chamada de Revolução dos Padres. A repressão joanina mandou Frei Caneca para os cárceres baianos, e profanou o corpo do padre João Ribeiro, arrastado de Paulista a Recife, mesmo depois de sepultado na capela do Engenho Paulista. Seu crânio hoje descansa desde 29 de outubro de 2001 numa lápide na Igreja de Santa Isabel, logo na entrada do templo religioso, após passar décadas nas dependências do Instituto Arqueológico, Histórico, Geográfico Pernambucano. Onze meses antes do “Grito do Ipiranga” antecipamos a emancipação política quando Gervásio Pires e Francisco de Paula Cavalcanti assinaram em 5 de outubro de 1821 a Convenção de Beberibe, acordo que reconheceu a autonomia da Junta Governativa eleita em outubro de 1821, formada por brasileiros, que governou Pernambuco de 26 de outubro de 1821 até setembro de 1822. Durante o período imperial, nos levantamos contra o autoritarismo de D. Pedro I na gloriosa Confederação do Equador de 1824, liderada por ninguém menos que Joaquim do Amor Divino Caneca, Frei Caneca, que dizia “quem bebe de minha caneca, tem sede de liberdade“, um dos poucos personagens históricos brasileiros que nenhum carrasco quis executar, sendo morto por arcabuzeamento (naquela época não podemos falar em fuzilamento, uma vez que os fuzis ainda não haviam sido inventados) em vez de enforcamento. Perdermos a Comarca da Bahia em 1824 como castigo (assim como perdemos Alagoas em 1817), mas quem disse que nos acovardamos? Em 1848 os liberais pernambucanos, do Diário Novo, que ficava na rua da Praia lançaram um manifesto ao mundo, cujas pautas lançadas há mais de 150 anos permanecem pertinentes e atuais. A Revolução Praieira até hoje ecoa nos versos de Chico Science quando nas ladeiras históricas de Olinda a multidão em dias carnavalescos canta a plenos pulmões “A Praieira“. E não parou por aí. Tivemos a Revolta Sebastianista do Rodeador (1820), a Pedrosada (1823), a Guerra dos Cabanos (1832), a Revolta da Pedra do Reino (1825), o Ronca da Abelha (1851), o Cangaço (final do século XIX e começo do século XX), as Ligas Camponesas (década de 60 do século XX), etc. Quem tem Frei Caneca, André Vital de Negreiros, Henrique Dias, Felipe Camarão, Clara Camarão, Anna Paes, Branca Dias, Bernardo Vieira de Melo, Padre Roma, Frei Miguelinho, Padre João Ribeiro, José de Barros Lima (Leão Coroado), Antônio Gonçalves Cruz (Cabugá), Gervásio Pires Ferreira, Malunguinho, Lampião, Francisco Julião, e as heroínas de Tejucupapo não flerta com o despotismo, com o fascismo e muito menos com regimes de exceção. Não é por acaso que Pernambuco até hoje é conhecido como o “Leão do Norte“. Somos guerreiros por natureza, rebeldes por ideal, e libertários por essência! *José Ricardo de Souza é historiador, professor da rede pública estadual de ensino e escritor. Sócio honorário do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP) e membro da Academia de Letras e Artes da Cidade do Paulista (ALAP).

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Programa de Estágio: Um caminho para o futuro sustentável das empresas

*Por Georgina Santos Início de ano e as oportunidades de estágio tendem a aumentar, seja com a abertura de novas vagas ou a renovação com novas contratações. Essas contratações são acompanhadas de muitas expectativas para ambos os lados – empresa e estagiário. De um lado, as empresas esperam encontrar jovens que se identifiquem com a cultura e o trabalho, que queiram construir uma carreira. Do outro, jovens que buscam um local onde possam mostrar suas competências, se desenvolver e realizar seu projeto profissional.  Entretanto, muitas vezes essas expectativas se transformam em frustrações para os dois lados. Nada saindo como o esperado. E de quem é a culpa? Essa não é bem a questão. Para minimizar os riscos e ter o melhor de uma oportunidade de estágio, vale investir num programa mais estruturado, que é, definitivamente, diferente de contratar um estagiário e colocar para trabalhar na empresa e ir “pegando o jeito” com os veteranos.  O programa de estágio talvez seja a melhor oportunidade para muitos jovens iniciarem suas carreiras profissionais e se inserirem no mercado de trabalho, com menos requisitos de experiências anteriores. Para alguns, é o primeiro contato com o mundo do trabalho, quando podem experienciar as suas áreas de interesse, desenvolver habilidades e se empenharem em seus primeiros projetos nas empresas. Para os estudantes, é a chance de praticar aquilo que aprendem e desenvolverem novos conhecimentos, possibilitando entender como funciona o mundo do trabalho, se identificando com as atividades e traçando suas expectativas. Eles chegam nas empresas com energia para se desenvolverem, “mostrar serviço” e conseguirem efetuar a primeira experiência profissional para dar aquele upgrade no currículo. A ânsia desses jovens é de conseguirem o primeiro passo na vida profissional e conseguir projetar uma expectativa de carreira.  Para as empresas, o programa de estágio é uma grande oportunidade para trazer os jovens estudantes que serão os futuros profissionais. Com menores custos financeiros, a integração dos estagiários, além de auxílio aos efetivos nas atividades, traz novos ares para a equipe: com ideias inovadoras, conhecimentos teóricos recentes e apurados e a avidez de quem inicia. Os estudantes, quando bem estimulados, podem ser de grande incremento na solução dos problemas da empresa e para o avanço tecnológico dos processos, contando com aqueles mais antenados nas novas ferramentas para ganhar vantagem competitiva, o que acaba gerando certa inquietação e desconforto de quem muda e vê a mudança acontecer.  Dessa forma, o investimento no programa deve ser integral, cientes de que a equipe e os líderes precisam orientar e acompanhar cada etapa de forma a “lapidar” o jovem profissional, tanto nas atividades desenvolvidas, quanto nos comportamentos apropriados ao ambiente corporativo. Sem plano de trabalho, atividades definidas previamente ou supervisão, por exemplo, o estágio perde sua potência de desenvolvimento, podendo levar a desmotivação, sendo mais proveitoso quando bem impulsionado e monitorado, com avaliações de desempenho sistemáticas e feedbacks voltados para o desenvolvimento desses estudantes.    Fábio Menezes, sócio da TGI Consultoria há mais de 20 anos, iniciou sua trajetória profissional como estagiário, ao ser questionado sobre a eficiência do programa, ele diz “o Programa de Estágio é um projeto estratégico, essencial para a formação de profissionais alinhados à cultura e aos valores da empresa, com alto potencial de construção de vínculos duradouros (…) É preciso compreender que se trata de um processo de construção (…) Pensar o Programa de Estágio, é antes de tudo, pensar no futuro da empresa”.  O que as empresas estão compreendendo, é que ao investirem em um Programa de Estágio, estão investindo no desenvolvimento de novos talentos, que podem ser profissionais-chave no futuro de suas equipes, e, consequentemente, no crescimento de um futuro sustentável. Ao que indicam os dados, as empresas conseguem efetivar cerca de 58% de seus estagiários (NACE). Ao integrar o estagiário, abre-se uma janela de oportunidade para os dois lados: para o estudante que tem a chance de se desenvolver profissionalmente; e para a empresa que pode aprimorar um profissional dentro de suas necessidades e cultura organizacional, sendo um projeto estratégico de sucessão e fortalecimento cultural. A retenção de profissionais também aumenta com os estagiários, que tendem a passar mais tempo nas empresas que aqueles que já vieram do mercado. Ao dar a oportunidade de desenvolverem suas potências, os jovens profissionais querem trilhar uma carreira na empresa, escalando em projetos e tornando-se os novos líderes, especialmente quando visualizam que há espaço e estímulo para crescimento. Portanto, investir no programa de estágio é também investir, a longo prazo, no desenvolvimento de novos profissionais estratégicos para o futuro da organização.  Empresas que enxergam o estágio apenas como apoio operacional contratam para o presente, aquelas que o estruturam como estratégia constroem o próprio futuro. Por isso, na TGI Consultoria, acredita-se que o futuro das empresas começa muito antes das posições de liderança, ele começa na primeira oportunidade. Estruturar um Programa de Estágio com intencionalidade é plantar as sementes da cultura, da inovação e da sucessão organizacional. É formar profissionais que não apenas executam, mas que compreendem, pertencem e evoluem junto com o negócio. *Georgina Santos é consultora e sócia da TGI

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