Manu Siqueira

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Por que mulheres como Ana Paula Renault, do BBB 26, ainda incomodam tanto?

Por Manu Siqueira Ana Paula Renault não entrou no BBB 26 apenas para disputar um prêmio. Ela entrou carregando algo muito maior. A coragem de ser quem é. E isso ainda assusta muita gente. Jornalista, comunicadora, 44 anos, Ana Paula é uma mulher branca, que nasceu cercada de privilégios e que poderia ter escolhido a zona confortável da neutralidade. Mas não. Ela escolheu pensar, se posicionar. Escolheu defender a liberdade das mulheres de existirem como quiserem. Inclusive a liberdade de decidir se querem ou não ser mães sem precisar se explicar para uma sociedade que ainda insiste em vigiar corpos e escolhas alheias. Ela entende seus privilégios e isso não a faz menor. Isso a faz mais humana. Porque reconhecer de onde se parte é o primeiro passo para não fingir que as injustiças não existem. Dentro da casa do BBB26, uma das coisas mais bonitas foi ver sua amizade nascendo com a Milena, uma mulher de 26 anos, que foi criada em um abrigo e começou a ser babá quando tinha apenas 10 anos. Uma amizade real, sem hierarquia social, sem performance, e com muita troca. E é muito comovente ver duas mulheres se reconhecendo como apenas como gente. Mas isso também incomodou. Porque ainda causa estranheza ver uma mulher instruída tratando outra mulher apenas como igual. Ser inteligente e sagaz, porém, não protege ninguém das dores de amor. E Ana Paula também conhece essas cicatrizes. Já confiou e se machucou. Casou acreditando em um amor e acabou abandonada, tendo que reorganizar não só o coração, mas também as dívidas que ficaram. Depois acreditou novamente e descobriu que estava envolvida com um homem casado, que mentia, que tinha outra vida, outra família, uma esposa. Quando a verdade apareceu, ela não silenciou e expôs o mentiroso na internet. Mas a sociedade parece sempre estar mais interessada em julgar a mulher que não aceita uma mentira do que o homem que mente. E isso aconteceu com ela. Para mim, existe algo de profundamente emocionante em ver uma mulher que não abaixa a cabeça para homens. Que não finge não ouvir. Que mantém o olhar em linha reta. Que não engole desaforo para parecer equilibrada. Ver Ana Paula responder machismo com inteligência, etarismo com posicionamento, misoginia com ironia e desrespeito com firmeza tem algo de reparação histórica para todas nós. Algo que toca em feridas antigas e que reacende, muitas vezes, cenas que já vimos ou passamos na pele. Quantas vezes ficamos caladas para evitar conflitos? Quantas vezes sorrimos para não mostrar que estávamos destruídas por dentro? Quantas vezes engolimos a resposta perfeita que só veio horas depois, no silêncio, enquanto ruminamos a falta de respeito no nosso quarto. Ana Paula não engole. E talvez por isso tantas mulheres se reconheçam nela. Eu me reconheço. Descobri que tenho muito da Ana Paula Renault em mim. Em muitos momentos eu teria reagido igual a ela. Com a maturidade, temos a tendência de ter mais inteligência emocional nos embates, mas claro, que isso não é regra. Adoro agir com ironia e um pouco de deboche também, nas discussões, mas acima de tudo, com coragem. A diferença é que ela disputa um prêmio milionário. Nós disputamos todos os dias algo muito mais básico. O direito de existir sem medo. O direito de falar sem sermos punidas. O direito de reagir sem que isso custe nossa vida. Existe uma violência silenciosa que acompanha mulheres que não se calam. Uma tensão constante. Uma linha invisível entre ser admirada e ser atacada. Mas mesmo assim a gente continua. Mulheres como Ana Paula não incomodam porque exageram. Incomodam porque não romantizam desrespeito. Porque não se dobram para caber em lugar algum. E talvez o que mais emocione não seja a força dela. Seja a humanidade. Porque por trás da mulher firme existe alguém que chorou escondida em um programa para que seus adversários não a vissem em um momento de vulnerabilidade. Existe ainda uma mulher que já se decepcionou, que já teve medo, que já teve que se reconstruir pedaço por pedaço, inúmeras vezes. Talvez seja por isso que a presença dela toque tantas mulheres de forma tão profunda. Porque não é apenas sobre um reality. É sobre se reconhecer. Sobre ver na tela uma mulher real, que sente, que ama, que se revolta, que briga, que se quebra e se remenda. Talvez por isso, seja tão significativo ela ganhar essa edição, enquanto o Brasil sofre uma epidemia tenebrosa de feminicídios. Porque quando uma mulher decide não se calar, ela nunca fala só por ela. Ela fala por muitas. *Manu Siqueira é jornalista

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Sex and The City

O que aprendemos com o final da série “Sex and The City”

Por Manu Siqueira Sim, este texto contém spoiler. Se você ainda não assistiu ao enredo final de “And Just Like That”, trama derradeira de Sex and The City, e não quer saber o que acontece, melhor não ler as próximas linhas. Essa série, desde o início, durou, em tempo real, 27 anos. Uma vida inteira, né? Formou milhares de fãs no mundo todo. E ela tem muito a nos fazer refletir, especialmente, nessa trajetória final, com as personagens já na casa dos 50 anos. Mantendo as características pessoais de cada uma, a primeira lição da série é que as amizades acabam. Samantha Jones, ícone amadíssima, não está mais presente nas reviravoltas e aventuras das amigas em Nova York. Pode ser dilacerante, mas pessoas que amamos se afastam e temos que aprender a conviver com isso. A série mostra que mesmo distantes, as amigas lembram de Samantha com certo carinho e ternura. Isso é o que verdadeiramente importa. Amizades que marcam a gente, ficam com a gente, mesmo que a pessoa já não faça mais parte das nossas vidas. Miranda se separa de Steve Brady e começa a viver, pela primeira vez, uma paixão homoafetiva. A série mostra que mulheres experientes estão mais abertas a usufruir de vivências sem se importar com a opinião alheia. E isso a Miranda faz com louvor. Ela paquera, se envolve, se frustra, se entrega, se impõe, se sente viva. E termina a história vivendo um amor cheio de cumplicidade e parceria, sem espaço para preconceito. Charlotte envelheceu com o mesmo pensamento romântico da família perfeita e estruturada que a série demonstrou, por inúmeras vezes, não existir. A parte boa é que, após vários relacionamentos ruins, ela encontrou um marido que é parceiro, gente boa e divertido.Mas como a vida não é cor-de-rosa com babados floridos, como a Charlotte sempre idealizou, essa parceria também tem momentos difíceis e problemas sérios como o enfrentamento de um câncer. Mas acaba tudo bem no final. Agora vamos a Carrie, a incansável Carrie Bradshaw. Digo incansável porque a protagonista nunca desistiu do amor. Nunca! Aguentou desrespeitos absurdos como ser abandonada no altar no dia do seu casamento com aquele que ela considerava ser seu grande amor, Mr. Big. E, mesmo assim, casou com ele depois. Na nova série, Carrie fica viúva do Big. Ele sofre um infarto no banheiro e só dá o suspiro final, quando ela chega em casa. O ponto alto disso, penso eu, é que, durante uma conversa, a Carrie indaga a si mesma se o que ela viveu com o Big foi um grande amor ou um grande erro. Então, se ela própria se pergunta, acredito que provavelmente, ela tenha caído em si e descoberto que pode ter sido um erro irreparável a relação entre os dois. Mas se alguém acha que Carrie para por aí, se engana. Em busca de um amor que preencha o espaço deixado pelo marido, Carrie decide ressuscitar um antigo namorado, o Aidan. Um cara que ela já havia traído, inclusive. Ela manda um e-mail, ele responde e marcam um encontro, quase 20 anos depois do término. Quem dera que na vida real tudo fosse assim, tão fácil, rápido e prático. Mas a realidade é que Aidan agora tinha dois filhos adolescentes que moravam com ele. Um filho carinhoso e compreensivo, e o outro, extremamente problemático, que surge para corromper a paz do casal recém-formado de novo. Essa relação traz duas reflexões: muitas vezes o passado precisa ser mantido lá, sem quaisquer ativações no presente. Ao mesmo tempo em que, algumas histórias mal acabadas, às vezes precisam emergir para serem finalmente finalizadas. E parece que foi isso que aconteceu. Aidan veio com um combo pesado demais para uma mulher que procurava apenas um namorado. Além de morar em outra cidade, tinha um filho violento e por ter sido traído no passado, nunca conseguiu lidar com a falta de confiança em Carrie. Fim. Ufa! Foi angustiante ver esse enredo de novo na série. Uma relação altamente exaustiva. Por fim, Carrie se envolve com o seu vizinho, o Duncan. Justamente o que Aidan teve ciúmes. E é nesse contexto que eu acho que a série poderia ter dado aquela virada de chave empoderadíssima que o público merecia. Carrie já flertava com o vizinho, um escritor sedutor, mesmo quando estava namorando à distância com o Aidan. Aqui, nesse “frame” de história, acho que a Carrie poderia ter apenas tratado o vizinho charmoso como um colega de trabalho, já que ambos estavam se ajudando nas suas escritas individuais. Era para a Carrie saber distinguir bem que a paz dela era inegociável, e que, ferida ainda pelo término do namoro, ela não preencheria novamente o seu vazio existencial na cama do vizinho. Uma grande tolice que ela já deveria ter aprendido. Mas não aprendeu. Quando no seu livro, ela finaliza as páginas dizendo que “não estava sozinha, estava por conta própria”, ainda sinto uma Carrie triste por não estar em um relacionamento. Por mais que na cena final da série, mostre a atriz com um modelito de alta costura, seus inseparáveis saltos, e uns rodopios tímidos, em casa, com sua gatinha de estimação, tentando ensaiar uns passos de felicidade, há no ar certa melancolia. Depois pensei que estava sendo injusta. Aquele era apenas o primeiro passo para essa luta incansável pela liberdade de ser uma mulher sozinha, independente e feliz. Aí, rodopiei junto com ela. *Manu Siqueira é jornalista

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5 histórias de bons dates para você voltar a acreditar no amor

*Por Manu Siqueira “A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”, já dizia Vinícius de Moraes. Quem é mulher, está disponível para relacionamentos e tem mais de 40 anos sabe que, talvez, hoje em dia, haja mais desencontros do que bons encontros pela vida. Portanto, quando isso acontece, é importante celebrar e aproveitar, ao máximo, o momento. Fiz uma listinha de micro-histórias de amor para te inspirar neste início de ano. Amor à distância Dizem que estar perto não é algo físico. E eu concordo muito com isso. Porém, relacionamentos à distância não são para todo mundo. Há aqueles que não os suportariam, inclusive. Há dez anos, uma amiga pernambucana estava em São Paulo, a passeio, e deu match com um homem bem mais velho do que ela em um aplicativo de paquera. Marcaram de se encontrar. Ela me contou que, assim que colocou os olhos nele, já sabia que iria rolar uma química boa. E rolou. E essa química continua rolando, mesmo ela morando no Recife, ele em São Paulo, e ambos se encontrando presencialmente a cada três meses. Penso que relacionamentos à distância podem ser tão intensos quanto os presenciais. Eles se falam todos os dias, fazem videochamadas, cozinham e almoçam juntos através das telas. Sim, é preciso ter muita afinidade. Ela me conta, aos risos, que, além de uma boa conexão de internet, é necessária uma conexão real entre o casal, e isso se constrói com muita conversa, companheirismo, parceria, respeito, empatia e amor. Sem isso, dificilmente uma relação sobreviveria, seja morando na mesma rua ou em cidades diferentes. Um amor italiano Depois de passar alguns anos indo para a Itália nas férias, uma amiga foi apresentada a um italiano. A paixão foi quase imediata, mas a distância e o idioma eram grandes empecilhos. Apaixonados, decidiram namorar à distância e ficaram quase dois anos sem se encontrar presencialmente. Ela me conta que foi muito difícil para o casal controlar a ansiedade, a saudade e a vontade de sentir o cheiro, o beijo e o toque físico. Mas a espera valeu demais. Ela aprendeu o idioma, foi pedida em casamento em uma viagem que fizeram a Paris e hoje mora em Monza, na Itália, com o amor da sua vida. Eu tive o prazer de celebrar essa história em 2023. Um amor de vizinho Outra história bem curiosa é o amor que surgiu entre uma médica e seu vizinho, um administrador de empresas. É a típica história de que, às vezes, procuramos tão longe o que está muito mais perto do que imaginamos. Ela conta que tinha acabado de voltar de uma viagem entre amigas. Uma viagem perfeita. Estava feliz, radiante, emanando luz. Acredito muito que esse tipo de vibração possa ajudar a abrir novas possibilidades. Pois bem, a paquera começou no elevador. Depois, o gatinho dela, cupido dessa história, insistia em entrar no apartamento do tal vizinho, provocando uma aproximação entre os dois. Aí começou a pandemia. Ela, nos plantões e vivenciando aquele estresse, se surpreendeu quando, um dia, chegou em casa e encontrou, na porta, um pudim feito pelo vizinho, acompanhado de uma cartinha desejando que ela estivesse bem naquele momento insano que todos estávamos vivendo. Como pequenos gestos podem surtir um efeito imenso na vida do outro, né? Essa atitude gentil e empática abriu as portas para que eles vivenciassem um relacionamento bonito e saudável. Amor no trabalho Às vezes, o amor nos chega de uma forma muito surpreendente. A partir de um fora, surgiu um grande amor, acredita? Ela trabalhava em uma empresa e percebeu que um colega não comia a mesma comida que todo mundo no refeitório. Foi até ele e, tentando puxar papo, perguntou o motivo. Recebeu uma resposta atravessada. Ele se sentiu invadido, pois era hipertenso e não queria que as pessoas soubessem. Ela ficou com muita raiva da forma rude como foi tratada. Tempos depois, em uma viagem de trabalho, ela se perdeu do grupo em que estava e encontrou apoio e acolhimento justamente nessa pessoa. Dessa vez, ele foi tão atencioso, educado e gentil que ela ficou perplexa. Logo depois, ele saiu da empresa e a convidou para jantar. Estão juntos há 21 anos. Date de uma noite O cinema está recheado de filmes assim: paixões intensas, avassaladoras, que passam pela vida dos personagens como um raio ou, talvez, como um sol, iluminando o caminho para outras relações. Se você ainda não assistiu a Uma noite apenas, de 2010, com Keira Knightley, veja. Pois bem, dates bons, intensos e cheios de vida podem durar apenas alguns dias, algumas horas ou uma noite inteira. Um colega conheceu um homem bastante interessante pelo aplicativo. Era Carnaval, e ele era turista. Estava em um camarote, enquanto o meu amigo subia e descia as ladeiras de Olinda. Com sinal de internet péssimo e algumas cervejas quentes, chega uma mensagem. O paulista se declarava e dizia que precisava muito dele no camarote. Meu amigo largou tudo e foi para lá. Nem preciso dizer que os dois viveram uma paixão estarrecedora naquela noite. Quem quer demonstra, vai atrás, manda mensagem e mostra o que quer. Quem não quer, às vezes, nem precisa falar, pois as próprias atitudes já dizem tudo. Às vezes, em uma única noite, vivemos o que muitos não vivem em uma vida inteira. No meio de tantos desencontros, detox e celibatos, essas histórias nos lembram que o amor não perdeu a delicadeza nem a capacidade de surpreender. Ele pode chegar tarde, vir de longe, estar pertinho, no trabalho, em uma noite qualquer ou no elevador de casa. Às vezes dura uma vida inteira, às vezes apenas o tempo necessário para nos transformar. Mas quase sempre cumpre um papel essencial: o de nos reconectar com a coragem de sentir novamente, e com a certeza de que, enquanto houver abertura e verdade, o amor sempre encontra um jeito de acontecer. *Manu Siqueira é jornalista

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Vamos sorrir. Sorriam!

Por Manu Siqueira O mundo mudou. Nosso país mudou. Eu e você também mudamos. Não é exagero nem frase pronta, é apenas a constatação do que temos vivido. Fomos criadas acreditando em utopias. Achávamos que o futuro seria sempre melhor que o presente, que o progresso era bom (para o bolso de quem?), que a vida iria, em algum momento, entrar nos eixos. Mas hoje lidamos com distopias que jamais imaginamos encontrar. O ódio que se espalha como uma praga, a violência que invade o cotidiano sem pedir licença, tudo isso dá a sensação de que, em algum ponto do caminho, fracassamos como humanidade. Ainda assim, 2025 não foi um ano de uma cor só. A vida segue multifacetada, furta cor. Tivemos encontros que reacenderam afetos, famílias que voltaram a se reunir depois de longos afastamentos, amizades que renasceram com mais maturidade, amores que floresceram. Vimos o cinema nacional lotar salas com histórias nossas, com sotaques nossos, traduzindo a alma brasileira com frescor, talento e potência. Assistimos artistas recuperarem espaço e projetos culturais e sociais ressurgirem com força. Mas, claro, enfrentamos abismos. O aumento dos casos de violência contra as mulheres é um deles, talvez o mais doloroso. Eu repito porque isso precisa ser dito sem descanso: parem de nos matar. Não suportamos mais perder mulheres enquanto homens continuam perpetuando a violência sem punição. O Brasil não pode seguir normalizando o inaceitável. Em meio a tudo isso, a arte, como sempre, me salvou, e espero que tenha te salvado também. Recentemente ouvi Lenine, que lançou “Foto de Família”, com participação de Maria Bethânia e letra de João Cavalcanti. A música me lembrou que ela é sempre uma espécie de bússola afetiva. Em um dos versos mais bonitos, ele canta que o amor é uma espécie de vacina. E é mesmo. O amor que protege. O amor que transforma, guarda e cuida. O amor que desinfeta o que a violência toca, que repara o que o autoritarismo tenta quebrar, que reacende a chama quando a desesperança assombra. Se existe uma força capaz de nos manter de pé, essa força é, sem dúvidas, o amor. E vamos precisar dela. 2026 é ano de eleição. Ano de disputa, de transformação, de combate ao medo com coragem. Que a esperança nos acompanhe e que a alegria, essa sim revolucionária, esteja presente em cada escolha que fizermos, individual ou coletivamente. Que sigamos, portanto, felizes, atentos e fortes. Vamos sorrir. Sorriam! *Manu Siqueira é jornalista

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O que faz teus olhos brilharem?

*Por Manu Siqueira Outubro de 2025. Belo Horizonte. Depois de alguns dias de férias colecionando histórias por Inhotim, Ouro Preto, Mariana e Lavras Novas, chego finalmente a BH para conhecer pessoalmente Marina. Marina Mendes, ou Sá Marina, como ela gosta de ser chamada. Virtualmente, já éramos amigas há, pelo menos, seis anos. Marina vivia em Toulouse, na França, onde mostrava seu cotidiano no Instagram e todas aquelas pâtisseries maravilhosas. Eu, que amo doces, tratei logo de segui-la, depois de ver seu perfil compartilhado por uma amiga. Chegamos a ensaiar um projeto juntas, veio a pandemia, o projeto foi engavetado, mas a amizade seguiu firme e forte. Uma série de acontecimentos me levou a querer estar em Minas Gerais este ano. E, claro, com Marina. Esperei ela lançar seu evento, o Origem, para, a princípio, fazer uma surpresa. Passagens compradas e voilà: rumo a esse encontro tão esperado por mim. No local do Origem, uma experiência que reúne os cinco sentidos, Marina desceu as escadas acompanhada por um sanfoneiro, que tocava um forrozinho. A sensação foi de voltar pra casa, pra um aconchego que parece que só o Nordeste tem. Marina, que é baiana, arriscou uma cantoria improvisada, com poemas e causos do homenageado da noite: Ariano Suassuna. Eu não sabia disso. Meus olhos marejaram instantaneamente. Fui vizinha de Ariano no começo dos anos 2000, quando morava em Casa Forte, na zona norte do Recife. A noite, que misturava sons, sabores, cenas e cheiros, ficou ainda mais especial com um convite: trocarmos de lugares e criarmos conexões. Marina, irradiando uma luz tão forte, preparava os pratos ali mesmo, na nossa frente, enquanto nos divertíamos e conversávamos com o recém-conhecido ao lado. Uma noite memorável, longa, gostosa, degustada gole a gole. Em um dado momento, ela lança: “O que faz teus olhos brilharem?” Todo mundo tinha que responder. Eu fui uma das últimas. Fiquei meio em pânico com a pergunta simples, mas profunda. Aliás, aqui em casa, na porta de entrada, tenho uma plaquinha que diz: “Te desejo brilho nos olhos.” Voltando à pergunta, eu não sabia o que responder. Tava meio apavorada. Todo mundo estava dando respostas tão bonitas, e eu simplesmente não sabia o que dizer. Pensei: faz muito tempo que não sinto meus olhos brilharem. Faz tempo que não me jogo em algo novo, que não subo no palco pra cantar com meu cantor preferido, que não tenho um projeto que me deixe eufórica, que não me arrisco em paixões fulminantes, que não descubro uma nova arte. Aquela pergunta me paralisou por um momento. Será que todas nós estamos meio assim? Meio sem brilho nos olhos? Respondi que, mesmo diante da perversidade humana, algo que me faria brilhar os olhos seria voltar a acreditar no ser humano. Voltar a acreditar que um dia a paz vença a guerra e que viver seja só festejar, como bem diz a música. Voltei para o hotel cheia de brilho nos olhos. Dois dias depois, fui me despedir de Marina. Ela me recebeu em sua casa, seu lugar sagrado no mundo. Um espaço tão impregnado dela, não só na decoração e no piso de ardósia, mas também em toda a atmosfera. Café quentinho, coado na hora; bolinho de fubá com coco e pão de queijo com mel para “chunchar”. Ela contou que conheceu Vitinho, seu marido, aos 16 anos, e que pediu muito a Deus para ter uma filha diferente. E teve. Eduarda, uma encantadora menina de 13 anos, é “fora da caixa”. Vocalista de uma banda de rock, ela ama arte, idiomas e natureza. Não faz dancinhas no TikTok nem tutoriais de maquiagem na internet. Está preocupada com o futuro do planeta e com como vamos reverter os males ambientais da Terra. É emocionante vê-la falar da filha! Acho que a vida é, sim, a arte dos encontros. Despedi-me de Marina, no portão da casa dela, com a nítida impressão de que já nos conhecíamos. E o melhor: com a certeza de que uma amizade pode se construir longe ou perto, mas, se ela se constrói dentro, essa nunca mais se esvai. *Manu Siqueira é jornalista

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Sexo depois dos 45 é sobre qualidade e escolhas

Por Manu Siqueira Quem se lembra de Sex and the City, de 1998, recorda as quatro amigas – Carrie, Miranda, Charlotte e Samantha – explorando encontros amorosos e sexuais em Nova York, com novas aventuras em cada esquina. Pois bem, com mais de 25 anos de atraso, comecei a maratonar a série na Netflix. É longa, divertida e fácil de assistir. Mas, em 2025, a realidade das mulheres é outra. Para quem está acima dos 45, a busca pelo amor e pelo sexo ganhou novas camadas e desafios. Pesquisas recentes mostram que as mulheres estão fazendo menos sexo, e muitas vezes não por falta de desejo, mas porque não aceitam mais qualquer tipo de relação. Sexo de qualidade virou critério essencial. O cansaço de conhecer pessoas novas por aplicativos de namoro também pesa. O chamado app fatigue já aparece em pesquisas e descreve a exaustão emocional provocada por conversas que não evoluem, perfis falsos e expectativas frustradas. Muitas mulheres relatam a canseira de deslizar para a direita e para a esquerda sem encontrar conexões verdadeiras. Na contramão disso, já celebrei casamentos de casais que se encontraram e se apaixonaram em aplicativos de paquera. Sim, é raro, mas acontece. Também conheço histórias bonitas de encontros casuais, mas intensos e verdadeiros, que nasceram em viagens, quando parece que deixamos os receios de lado e olhamos o outro com os olhos encantados de turista. No entanto, no cenário atual, não adianta ter quantidade se o prazer do sexo e da companhia não estiver presente. Com a maturidade, muitas mulheres entendem que desejo, carinho, respeito, comunicação e conforto são pontos inegociáveis. Enquanto em Sex and the City amor e sexo se misturavam em histórias intensas, hoje muitas mulheres optam por outros caminhos. Algumas buscam relações estáveis, outras preferem encontros casuais, e há ainda quem escolha viver o prazer sozinha ou explorar movimentos como o celibato voluntário e o detox de homens. Esses movimentos revelam uma tendência em expansão: a relação amorosa deixou de ser o centro da vida de muitas mulheres, que agora ocupam esse espaço com prioridades pessoais, profissionais e de bem-estar. A reflexão que fica é simples e profunda: o que realmente importa depois dos 45 não é a frequência, mas a qualidade. Vale se perguntar o que se busca de fato, se é amor, sexo ou ambos, e se as experiências atuais estão trazendo prazer verdadeiro ou apenas repetindo convenções sociais. O mundo mudou muito desde as aventuras de Carrie e suas amigas, e hoje as mulheres estão livres para reinventar o próprio roteiro. Sexo depois dos 45 pode ser intenso, transformador e libertador, mas só quando é escolhido com consciência e desejo genuíno. *Manu Siqueira é jornalista

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Parei de beber e foi a melhor escolha que fiz

Por Manu Siqueira Janeiro de 1992. Férias. A Ilha de Itamaracá, reduto de adolescentes naquela época, fervilhava com shows, paqueras e pele bronzeada. Era a apresentação do grupo de pagode Raça Negra, na Praça do Pilar. Eu, com 14 anos, acompanhada de duas primas, experimentei bebida alcoólica pela primeira vez. Era uma caipirosca, docinha, que logo me deixou tonta. Lembro que não gostei da sensação de estar tonta, mas insisti. O menino que eu paquerava no show, que devia ter uns 16 anos, exibia com orgulho um litro de uísque importado e as chaves do carro do pai. Essa era a realidade da juventude de classe média/alta dos anos 90. Assim como nos anos 60, em que fumar era sinônimo de charme e sedução, beber nos anos 90 era uma condição sine qua non para ser aceito em qualquer grupo. Lembro que, ao longo da minha infância, todos os almoços na casa da minha avó materna tinham como base muito afeto e música, mas, sobretudo, muita bebida alcoólica também. Muita! Resultado: frequentes discussões, gente sem limites e alguns traumas instalados. Essa dinâmica reverberou na minha vida adulta, refletindo em escolhas e relacionamentos muitas vezes equivocados. Eu conseguia perceber os danos emocionais causados pela bebida, mas gostava de beber. Gostava da sensação de me sentir solta, livre, mais receptiva ao outro. Após um longo relacionamento, comecei a selecionar criteriosamente com quem eu bebia e diante de quem eu me permitia ficar vulnerável. Passei a ponderar os riscos e a conta não fechou. Aos poucos, e escolhendo muito bem com quem eu queria estar, a bebida foi naturalmente perdendo espaço na minha vida. A maturidade também contribuiu muito para essa decisão. Informação e autoconhecimento ajudam, e muito. Começar a beber é uma escolha. Parar de beber também é. Não estou falando aqui de quem é viciado, que fique claro. O alcoolismo é uma doença. E pode acometer o homem mais lindo, a mulher mais rica, ou o jovem mais miserável. Não se trata disso. O que quero dizer é que parei de beber e estou descobrindo um novo jeito de estar nos lugares, de me relacionar, de curtir os momentos em sua plenitude. Sem névoa. Sem ressaca. Este não é um texto para te convencer a parar de beber. É um convite à reflexão:E se eu parar de beber, ainda assim terei motivos para ser feliz? *Manu Siqueira é jornalista

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Se você é mulher, certamente está exausta

*Por Manu Siqueira Este não é um texto fofinho. É um texto-desabafo. E se você é mulher, assim como eu, vem cá me abraçar! Eu também estou exausta. Assim como a maior parte das mulheres que me rodeia. Um dia, eu já fui aquela mulher que se orgulhava de trabalhar no sábado, no domingo ou no feriado. Aliás, toda a minha geração foi educada com base no trabalho duro e árduo e, de preferência, sem reclamações. Mas confesso que, de uns tempos para cá, venho repensando tudo isso. A gente chega a uma certa idade em que não precisa mais provar nada para ninguém — nem para si mesma. Quem trabalha de forma autônoma, como eu, vive sonhando com a possibilidade de tirar uma semaninha de férias. Só uma. Sete dias, apenas. Pois bem, algo razoavelmente simples, às vezes, se torna difícil demais de realizar. Tenho amigas que viajam de férias e continuam trabalhando remotamente. Admiro porque eu, sinceramente, não conseguiria mais, embora já tenha feito isso também. Aliás, há mulheres que não têm outra escolha senão viajar e trabalhar ao mesmo tempo. Que isso fique bem claro, pois aqui não há julgamentos. Penso que o mundo pós-pandemia está mais difícil. Em todos os sentidos. Todo mundo está cansado. E, com as redes sociais, a nossa bateria social parece se esgotar antes mesmo do pôr do sol. Relacionar-se afetivamente virou um fardo. Ninguém está mais disposto a entrar na gangorra emocional que é se envolver com alguém. No trabalho, cada vez mais remoto, idem. Com a polarização política, essa exaustão chegou também aos almoços de família. No São João, me dei o direito de passar alguns dias sem fazer absolutamente nada. Nem preparar almoço, nem limpar a casa, nem ligar para ninguém. Um ócio maravilhoso. Chuva, filme, livro, silêncio e pipoca. Poderia ter passado a semana inteira assim. Mas acabou rapidinho. Quem tiver uma fórmula para a mulher exausta, por favor, compartilhe. Afinal, a mulher que trabalha fora, treina, faz dieta, cuida da casa, dos filhos (quando os tem), dos pais idosos, do marido (que, muitas vezes, não divide as tarefas domésticas) e ainda precisa estar magra e maquiada para ser “atraente”, a fim de que ele não vá para a cama com outra… está, definitivamente, vivendo errado. Ah! E, se for empreendedora, ainda precisa arranjar tempo para produzir conteúdo digital. Vem cá! Me abraça de novo. Vamos impor limites. Ressignificar o que não foi tão bom. Recomeçar. Refazer. Isso pode nos ajudar. *Manu Siqueira é jornalista

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Qual é a sua linguagem do amor?

Por Manu Siqueira Segundo o escritor americano Gary Chapman, as linguagens do amor podem ser expressas de cinco formas: palavras de afirmação, tempo de qualidade, presentes, atos de serviço e toque físico. E eu só fui descobrir isso quando precisei escrever uma celebração e comecei a pesquisar sobre o assunto. Enquanto mergulhava nesse universo, vasculhava também minhas próprias memórias em busca das linguagens do amor que mais me marcaram. Quando eu era bem criança, lembro com nitidez do meu pai chegando com chocolate nas mãos. Sempre! Ainda na rua, ele abria os braços e eu corria alegremente. Como eu gostava daquele abraço…e do chocolate, claro! Na adolescência, minha mãe reunia meus primos e amigos em volta da mesa. Ela mesma cozinhava e servia. Eram intermináveis os almoços, regados a macarronada com milho, ervilha, ovos e um molho de tomate misturado com creme de leite que só ela sabia fazer. Até hoje, em datas comemorativas, mesmo cansada, ela não se nega a ir para a cozinha preparar o almoço da sua pequena família. Crescendo em um ambiente assim, não seria surpresa que eu me tornasse parecida com eles, certo? Mas a verdade é que minha linguagem do amor é mais sortida. Na próxima semana, recebo pela primeira vez, em minha casa, uma amiga muito querida. Ontem, fiz questão de comprar lençóis e toalhas novas. Quero que ela se sinta como uma rainha. Também comprei cogumelos porque sei que ela gosta. Outro dia, uma amiga baiana veio me visitar e tratei logo de comprar uns biscoitinhos sem glúten, já que ela é celíaca. Mais tarde, vou tomar um café com uma amiga que mora em Blumenau. Já comprei chocolatinhos para os filhos dela. Mas nem sempre é sobre comprar ou presentear. Algumas semanas atrás, uma amiga perdeu a irmã. Minha linguagem do amor, naquele momento, chegou nela em forma de texto. Um texto que, tenho certeza, acalentou um pouco a sua alma. Há também uma nova linguagem de amor que considero valiosa demais: a troca de memes. Meu filho e minha nora são craques nisso. Trocamos memes todos os dias. Mas também trocamos receitas e reflexões mais profundas. Isso conecta muito a gente. Aliás, há alguns anos, passei um fim de semana sozinha com meu filho, já adulto, em um hotel fazenda. Estava chovendo, mas, mesmo assim, tomamos banho de piscina, comemos uma comidinha gostosa e, já no quarto, escutamos uma playlist maravilhosa enquanto conversávamos sobre as letras das canções. Sabe quem fazia isso comigo? Meu pai. E tenho certeza de que essa memória ficou cravada em nós, infinitamente. É certo que nem sempre temos dinheiro, nem sempre conseguimos estar perto para abraçar, fazer um favor, empoderar ou passar um tempo feliz ao lado de quem amamos. Mas acho que precisamos treinar o olhar para o outro. A rotina, às vezes, passa por cima da gente e, se não estivermos atentos aos detalhes, não conseguimos gerar conexões e, pior ainda, não conseguimos criar memórias com quem amamos. Escrever um bilhetinho à mão, fazer um jantar sem data especial, mandar uma mensagem só para saber como estão os amigos, oferecer um pão quentinho saído do forno ao vizinho, levar sua mãe à consulta médica e depois dar uma volta, ou almoçar com aquela amiga do coração são pequenos grandes gestos que tornam a nossa vida, e a do outro, muito mais feliz. Tenho certeza! E você? Qual é a sua linguagem do amor preferida? *Manu Siqueira é jornalista

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Não é fácil envelhecer

Por Manu Siqueira A internet está cheia de depoimentos maravilhosos de mulheres 50+ romantizando o envelhecimento. Mas a verdade é que não é fácil envelhecer. É natural. Por isso, em vez de romantizar, eu prefiro normalizar essa etapa que, por sorte, pode acontecer em nossa vida. Sim, envelhecer pode ser enriquecedor para o crescimento pessoal, emocional e intelectual, mas não é uma regra. Há muitas pessoas mais velhas que continuam imaturas, impulsivas e sem compostura. Como dizia Nelson Rodrigues: “Os canalhas também envelhecem.” É sempre bom lembrar. “Os canalhas também envelhecem”, Nelson Rodrigues Envelhecer para as mulheres é ainda mais difícil. Além das cobranças estéticas, lidamos com a queda de hormônios, causada pela menopausa, e que atinge diretamente o nosso bem-estar e a nossa qualidade de vida. Eu ainda não tive saudade da minha juventude. Ou melhor, não lembro! Ah! Outra coisa que a menopausa te dá: esquecimentos corriqueiros. Enfim, acho que ainda não tive saudade da minha juventude, mas sei que esse dia está perto de chegar. E não falo isso com certo amargor. Não! Falo isso com gratidão, pois quero preservar dentro de mim, as incontáveis memórias afetivas que tenho dessa época. Faço isso para que a Manu de ontem, cheia de vida e sonhos, viva diariamente na Manu de hoje, aos 48 anos, e mantenha-se pulsante na Manu de amanhã, aos 75. Tenho uma prima que, sempre que nos encontramos, relembramos as nossas aventuras juvenis. É muito gostoso reviver esses momentos com ela. Sou imensamente grata por ter construído essas memórias lindas e divertidas. Porém, percebo hoje que, por imaturidade, fiz, no passado, várias escolhas equivocadas que hoje me fizeram enxergar exatamente os erros que não quero repetir e nem os tipos de pessoas que quero ter por perto. Foi uma grande e nobre lição! Hoje, sou a melhor versão de quem eu já fui um dia. E, apesar de guardar boas recordações da Manu jovem que curtia o Recifolia e dançava até o sol raiar nas boates do Recife (sem dores na coluna), a Manu de hoje enxerga a vida com muito mais clareza e simplicidade. Tenho interesse pelo profundo, pelo que agrega e pelo o que soma. Somente me interessa o bom e o bem. Para o meu corpo e para o meu espírito. E isso já me é o bastante. Afinal, a gente não pode esquecer que envelhecer é manter-se jovem o máximo de tempo possível. *Manu Siqueira é jornalista

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