Construção sustentável ganha espaço e transforma exigências do setor

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A sustentabilidade, há alguns anos, começou a ocupar um novo lugar na construção civil. Mais do que um diferencial associado à imagem dos empreendimentos, os critérios ambientais e sociais passaram a influenciar decisões de projeto, facilitar o acesso a financiamento e até mesmo refletir no interesse de compra dos consumidores. Atentas a esse movimento, a Tecomat Engenharia e o Instituto Engenheiro Joaquim Correia (IEJC) têm ampliado a atuação voltada à construção sustentável e à qualificação dos profissionais do setor, em um momento em que novas regras e exigências tornam o conhecimento técnico cada vez mais determinante para projetar e construir.

Para Pedro Gois, gerente executivo do setor de desempenho e sustentabilidade de edificações da Tecomat Engenharia, o movimento guarda semelhanças com uma transformação vivida pelo setor décadas atrás. Certificações de qualidade, antes utilizadas pelas construtoras como diferencial, gradualmente se tornaram requisitos para determinadas operações e para financiar projetos. Agora, ele identifica trajetória semelhante na agenda ambiental. “Eu acredito que em pouco tempo não vai ser mais uma condição diferencial, vai ser um requisito mesmo para poder acessar esse tipo de financiamento”.

A mudança vai além da adoção de soluções mais conhecidas, como eficiência energética ou gestão da água. De acordo com o gerente da Tecomat, a construção sustentável incorpora hoje aspectos como conforto térmico e acústico, iluminação natural, origem dos materiais, mobilidade, integração dos empreendimentos com o entorno, redução das emissões de carbono e impacto social. Essa preocupação já aparece nas preferências dos consumidores. 

Pedro Gois
Pedro Gois destaca o avanço dos critérios ambientais como requisito para projetos e financiamentos.

Em pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) e pela Brain Inteligência Estratégica, 66% dos entrevistados consideravam importante e estavam dispostos a pagar mais por energia solar no imóvel e 56% aceitariam pagar mais por tecnologias para reutilização da água da chuva. Além disso, 57% manifestaram preferência por espaços arejados e integrados à natureza. Ao mesmo tempo em que esses critérios avançam, cresce a necessidade de engenheiros, arquitetos e outros profissionais compreenderem como incorporá-los desde a concepção dos projetos.

CERTIFICAÇÃO PARA PROJETOS SUSTENTÁVEIS

Um dos sinais dessa transformação está no Selo Casa Azul + Caixa, certificação que considera diferentes dimensões dos projetos, da qualidade urbana e do bem-estar à eficiência energética, gestão da água, produção sustentável, inovação e impacto social. Na prática, os critérios alcançam tanto a concepção dos empreendimentos quanto sua relação com a comunidade e a experiência dos futuros moradores.

As exigências também vêm sendo ampliadas. Segundo Pedro, na versão mais recente do guia do Selo Casa Azul + Caixa, alguns requisitos de paisagismo que antes eram optativos passaram a ser obrigatórios. O mesmo ocorreu com o carbono incorporado, relacionado às emissões associadas aos materiais e ao processo construtivo. Para ele, as mudanças sinalizam o peso crescente da agenda ambiental nas decisões do setor. 

O selo também começa a aproximar sustentabilidade e viabilidade econômica. Embora a certificação não seja obrigatória, Pedro Gois explica que empreendimentos que atendem aos critérios podem pleitear condições diferenciadas no momento da contratação junto ao banco. Não existe uma bonificação fixa associada automaticamente à certificação, mas há possibilidade de negociação de benefícios, inclusive relacionados às taxas de juros. 

No Recife, os incentivos também chegam à legislação urbanística. Pedro destaca que a atualização da Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo passou a estimular práticas sustentáveis e a reconhecer certificações como o Selo Casa Azul + Caixa. Segundo ele, empreendimentos certificados podem obter bônus construtivo de até 7,5% na área privativa, ampliando a área comercializável.

Em parceria com o Instituto Engenheiro Joaquim Correia, a Tecomat passou a reunir as competências das duas organizações para atender às novas demandas da construção sustentável. Enquanto a empresa já atuava na avaliação de aspectos como desempenho térmico, acústico e lumínico das edificações, o Instituto acumulava experiência na formação profissional e em projetos de inclusão produtiva ligados à construção civil. 

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A parceria resultou em uma atuação integrada para apoiar as construtoras no processo de adequação aos critérios do Selo Casa Azul + Caixa, combinando suporte técnico, tecnologia e capacitação. A Tecomat atua na análise dos requisitos de sustentabilidade e desempenho, na organização das evidências e na adequação dos projetos, com o apoio de uma plataforma digital. O Instituto Engenheiro Joaquim Correia complementa o trabalho na dimensão social, com ações de qualificação profissional, inclusão produtiva e relacionamento com as comunidades do entorno dos empreendimentos. A proposta é acompanhar as diferentes etapas necessárias à certificação, da análise técnica às contrapartidas sociais previstas pelo selo.

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PARA IMÓVEIS SUSTENTÁVEIS: MAIS CAPACITAÇÃO E EMPREGABILIDADE SOCIAL

Para Juliana Rodrigues, diretora de ensino do Instituto Engenheiro Joaquim Correia, a sustentabilidade na construção também passa pela capacidade de aproximar qualificação profissional e oportunidades concretas de trabalho. Nos projetos desenvolvidos pelo Instituto, a formação é planejada em parceria com construtoras que tenham demanda por mão de obra, permitindo que o aprendizado teórico e prático esteja conectado às necessidades do mercado. 

“Não há sentido em a gente treinar sem uma oportunidade real de emprego para essas pessoas. Treinamento por treinamento não é a nossa visão. A visão é realmente trazer a mudança de vida para essas pessoas”, afirma. Segundo Juliana, os projetos de formação já alcançaram cerca de 1,4 mil pessoas e registram taxa de contratação superior a 55%, além de uma participação feminina próxima de 40%.

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Juliana Rodrigues explica que formações oferecidas estão conectadas às demandas do mercado.

A metodologia segue uma ideia atribuída por Juliana ao professor Joaquim Correia, que sintetizava a formação na expressão “saber e saber fazer”. Por isso, os cursos combinam conteúdos teóricos, como segurança do trabalho e ética profissional, com aprendizado específico e atividades práticas realizadas em canteiros de obras de construtoras parceiras. 

A dimensão social, segundo Juliana, não se restringe à formação de novos trabalhadores e pode estar presente em diferentes etapas do empreendimento. As iniciativas podem envolver desde a qualificação de pessoas das comunidades e da mão de obra que atua na construção até ações direcionadas aos futuros moradores, relacionadas ao uso e à gestão do empreendimento. “Existe a comunidade e pessoas em situação de vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, um setor que sofre com a escassez de mão de obra. Ao investir no social, você contribui com a comunidade e também ajuda o setor a atrair pessoas para trabalhar na construção civil”, resume Juliana.

Entre novas exigências do consumidor, tendências do mercado e um mundo em intensas transformações tecnológicas, o caminho da sustentabilidade constrói novos desafios, mas também oportunidades na construção civil. Em todos os caminhos, há uma forte demanda por capacitação de mão de obra e formação de novos profissionais.

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