Cultura e história

FRANS POST RUINAS DA MATRIZ DE OLINDA

Conheça a história do jesuíta Manuel de Morais: o padre traidor

Para algumas fontes holandesas, uma das grandes perdas para as forças luso-brasileiras foi a passagem para o lado dos invasores do jesuíta paulista Manuel de Moraes, quando da tomada da Paraíba em 30 de dezembro de 1634, pelas tropas comandadas pelo coronel Chrestofle d’Artischau Arciszewski, segundo assim descreve o autor das Memórias Diárias: “O padre Manuel de Moraes com um lenço em um pau foi render- -se ao inimigo, tão esquecido das obrigações de sua profissão, que a este juntou o maior, que foi casar-se depois em Amsterdã, sendo sacerdote e pregador apostólico, e abraçar a seita de Calvino!” Era esse jesuíta um grande conhecedor da língua dos indígenas, revelando-se posteriormente autor do Dicionário da Língua Tupi e de História da América, cujos originais receberam mais tarde elogios do filólogo Hugo de Groot. Exercia papel da maior importância entre as forças da resistência, como comandante das milícias indígenas a quem ensinara as técnicas da guerra de guerrilhas. Dele testemunhava, em 1631, Matias de Albuquerque: “pelejava com tão notável zelo e ardis como se fora sua profissão a guerra e milícia”. Por sua vez, era visto por fontes holandesas na Paraíba para onde se transferiu, como “a maior autoridade sobre todos os selvagens daquela região”. Mestiço, descrito por uns como mulato e por outros como mameluco, ele vivia há sete anos entre os indígenas e, mais recentemente, se encontrava empenhado em ministrar táticas de guerra volante. Dentre os seus aplicados alunos figurava o futuro herói da restauração e futuro dom, Antônio Filipe Camarão, que vem a ser seu sucessor no comando daqueles batalhões. Constrangido por ter perdido a função de capitão geral dos índios para o seu aluno Antônio Filipe Camarão, o padre Manuel de Moraes aproveitou a rendição da Paraíba para aderir à causa dos holandeses, renunciando sua fé católica e tornando-se um pregador luterano. Caindo nas boas graças do comandante Arciszewski, o padre ganhou notoriedade ao renunciar à teologia católica, tomando-se de paixão pelos ensinamentos da igreja reformada. Sua inesperada adesão, logo se transformou em propaganda da igreja reformada: “Padre torna-se protestante”. Foi o padre Manuel de Moraes de logo enviado aos Países Baixos a fim de melhor aprimorar seus estudos teológicos. Na Holanda, logo aprendeu a língua local e em pouco tempo veio a casar-se com a jovem Margaretha van der Heide, irmã do mestre dos pesos de Gelderland. Fixando moradia em Amsterdã, transformou-se de guerrilheiro em pregador devotado, conhecido por suas preleções nos púlpitos dos templos contra a doutrina e dogmas da igreja católica romana. Ainda nesta cidade escreve alguns textos científicos e, por causa do falecimento de sua mulher, transfere-se para Leiden onde se matricula na universidade local em 27 de julho de 1640, apresentando-se como Lusitanius Licenteatus Theologiae. Nesta cidade ele tenta a publicação do seu Dicionário da língua Tupi e de sua História da América. Sua vida afetiva, porém, toma novas cores quando do seu casamento com a jovem Anna Smits, uma das mais belas jovens de Leiden, que logo se tornou enfeitiçada pelo seu charme de mulato brasileiro. Apesar de sua aparência de homem “feio, preto, cara de chim”, segundo depoimento de Dona Anna Paes, “veio ele a se casar na Holanda com uma das moças mais formosas do país”. O segundo casamento, ao que parece, pouco durou, pois o padre apóstata se transfere para Amsterdã e lá tem um encontro secreto com o Núncio Apostólico, junto ao Reino dos Países Baixos, “onde se mostrou arrependido de sua escapada protestante e confessou seus pecados ao representante do papa que lhe deu absolvição”. Deixando na Holanda mulher e filhos, bem como amigos de prestígio como o historiador Jan de Laet, que tece elogios a sua inteligência, o padre Manuel de Moraes volta a sua terra a fim de explorar o corte de pau-brasil em área que lhe fora arrendada pela Companhia. Após algum tempo, João Fernandes Vieira, sabedor do retorno do padre apóstata o manda prender e logo que este chega à sua presença é acometido de grande arrependimento: “prostrou-se aos seus pés e com copiosas lágrimas, que lhe corriam sem cessar, lhe pediu encarecidamente que lhe desse uma palavra em seu aposento, com mostras de grande arrependimento, para que fosse um de seus soldados e assim se eximir do castigo que temia”. Abandonando a causa dos flamengos, tornou o padre aos exércitos dos insurrectos servindo com ardor, ao lado de João Fernandes Vieira, à causa da Insurreição Pernambucana, sendo o seu nome anotado por Diogo Lopes Santiago quando da batalha dos Montes das Tabocas, na qual participou exortando os soldados e rezando em voz alta suas orações, até a vitória final em três de agosto de 1645. Após o sucesso das tropas insurrectas em Tabocas e Casa Forte, foi o padre Manuel de Moraes enviado por João Fernandes Vieira à Lisboa, com a missão de narrar a D. João IV os feitos obtidos pelos exércitos da terra contra os holandeses. Durante essa temporada foi ele preso pela Inquisição de Lisboa e ali respondeu a processo, cujo teor vem a ser publicado na Revista do Instituto Histórico Brasileiro (v. LXX, Rio de Janeiro 1908). Da leitura de suas páginas se depreende que o religioso apresentou a seu favor “um perdão do Papa para sua apostasia ao catolicismo”, assegurando em seu depoimento “ter sido ele o único jesuíta preso a quem as autoridades nos Países Baixos haviam proibido de regressar ao Brasil, por temerem que levantasse o gentio contra o governo do Recife”.

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“Todo mundo sente uma empatia quando olha as fotos de Wilson Carneiro da Cunha”

Bia Lima, arte-educadora e neta do célebre fotógrafo, autor de imagens icônicas do Recife, realiza pesquisa sobre o trabalho do avô para estudar sua estética, além de digitalizar e abrir o seu acervo ao público. Ela procura pessoas que tenham fotografias dele guardadas em casa. A queles que costumam se interessar por fotos antigas do Recife, certamente já se depararam com uma fotografia de Wilson Carneiro da Cunha. Algumas são icônicas como a que mostra a demolição da Igreja dos Martírios. Os que têm acima de 60 anos devem guardar na memória o Kiosque do Wilson, na Rua Nova, uma maneira criativa que ele – por sugestão da mulher Conceição – resolveu implantar para vender seus registros. A rua fervilhava no Recife dos anos dourados, quando o Centro da cidade vivia um glamour, com novas avenidas, luzes e letreiros. Era “Hollywood pura”, como o fotógrafo costumava dizer. Suas fotos são como crônicas imagéticas da capital pernambucana e mostraram ao longo dos anos as transformações urbanas, inclusive as que apagaram o brilho glamouroso do Centro. Agora, sua neta, Bia Lima, pesquisa o trabalho do avô fotógrafo e mostra um outro lado dos seus registros, a partir do acervo de fotos da família. Nesta conversa com Cláudia Santos, ela fala de hábitos inusitados de Wilson como estar sempre com a câmera fotográfica, até quando ia para a padaria. Sua paixão por preservar a memória do Centro nãos se resumia aos cliques: ele colecionava objetos das demolições do Centro, como placas de rua, altares de igreja e até postes. Formada em artes visuais e licenciatura em artes, Bia herdou do avô o gosto pela fotografia, é professora em escolas e está pedindo às pessoas que tenham fotos de Wilson para entrarem em contato com ela de modo a contribuir com a pesquisa. Quem foi Wilson Carneiro da Cunha e como ele virou fotógrafo? Ele foi fotógrafo a partir da década de 1940, mas só ficou conhecido e começou a ganhar dinheiro com o ofício na década de 1950, quando abriu o Kiosque do Wilson. Como ele viroufotógrafo? Essa pergunta também fiz para minha tia Olegária. Ela disse que ele conhecia um amigo que tinha uma câmera e foi quem apresentou a fotografia para ele. Meu avô começou a fotografar, mas de uma forma muito intuitiva. Ao longo do tempo, com a prática, foi pegando experiência. Logo ficou bem conhecido porque o Kiosque ficava na Rua Nova, um lugar muito frequentado. Ele era uma pessoa muito extrovertida, com um temperamento bem comunicador. Ele se casou com minha avó Conceição, logo tiveram minha tia Olegária e mais quatro filhos, muitos seguiram a carreira na área das artes, acho que por incentivo do pai. Ele também trabalhou para jornais. Ele era freelancer ou contratado? Eu sei que ele trabalhou para muitos jornais. Mas na época não se creditava as fotos, por isso muitas fotografias dele publicadas não tiveram crédito. Ele também era fotógrafo da polícia e tinha vários crachás que lhe davam acesso a eventos, como quando o presidente Juscelino Kubitschek esteve aqui. Como surgiu a ideia do Kiosque? Minha avó era fascinada pela cultura europeia e meu avô pela norte-americana. Eles eram colecionadores de muitos objetos e minha avó colecionava muitas revistas e, numa delas, viu uns quiosques de revistas que existiam na França. Então, sugeriu a meu avô instalar um quiosque desses no Recife, mas para exibir as fotos dele. Colocaram o nome com K porque é a forma como se escreve em francês. Ele também tinha um estúdio num prédio na rua Dias Cardoso, mas montou o Kiosque para que o público tivesse acesso ao seu trabalho de forma mais espontânea e também para tornar a fotografia mais acessível a um número mais ampliado de pessoas. Na época, nem todos tinham condições de tirar uma foto. Ele comentou que, antigamente, não era permitido às mulheres entrarem sozinhas em qualquer prédio. Mas, ao passar na rua, elas poderiam parar e olhar as fotos no Kiosque. Como você classificaria as fotos de Wilson? Ele fotografava temas muitos díspares: das ruas do Recife, passando por famosos, casamentos, a população miserável… Escrevi esse projeto porque tomei conhecimento do acervo dele que está na Fundação Joaquim Nabuco e que tem um recorte bem específico de fotos mais históricas, que falam muito sobre o urbanismo do Recife, as transformações da cidade, as pessoas em situação de rua. Como eu tinha também um acervo privado, observei que havia um outro recorte mais familiar de Wilson, que é o do pai, do marido, mas que também se caracterizava por um registro inusitado, dos flagrantes, do instantâneo como ele chamava. Ele fotogravava cenas cotidianas, o filho chegando da escola, por exemplo. Tinha um olhar muito curioso para essas coisas inusitadas do dia a dia, mas também tinha uma maneira de fotografar de forma ensaiada, ao colocar uma narrativa por trás da foto ou criar um cenário. Ou seja, ele tinha essa visão ensaística e também gostava do inusitado e do flagrante. Mas era realmente uma pessoa que gostava de registrar. Até quando ia para padaria, estava sempre com a câmera no pescoço, não a tirava por nada, era como se fosse o terceiro braço dele. Leia a entrevista completa na edição 198.2 da Revista Algomais: assine.algomais.com

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2 Salao de Beleza MAMAM

2º Salão de Beleza abre exposição com mais de 70 artistas no MAMAM 

O 2º Salão de Beleza, assim como em sua primeira edição, tem como proposta realizar uma crítica à ausência do Salão de Artes de Pernambuco, espaço criado em 1942 e que era importante para o incentivo e a formação das artes visuais do Estado. No intuito de chamar atenção para essa ausência, movimentar, especialmente o circuito jovem da arte pernambucana e possibilitar um diálogo entre diferentes gerações de artistas.   A exposição ficará até o dia 29 de outubro e você poderá conferir obras de artistas como Alsal, Diogum, Sil Karla, Rômulo Jackson, Tereza Perman e muitos outros.  O 2° Salão de Beleza é um projeto artístico de Izidoro Cavalcanti e conta com o incentivo do SIC – Sistema de Incentivo à Cultura / Fundação de Cultura Cidade do Recife / Secretaria de Cultura / Prefeitura da Cidade do Recife e apoio do MAMAM.   MAMAM  De terça a sábado, das 12h às 17h.  Rua da Aurora, 265 – Boa Vista, Recife.  Entrada Gratuita 

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poco panela festival

Panela do Jazz terá 10 horas de programação gratuita neste sábado

Evento gratuito retorna ao Poço da Panela no dia 10 de setembro e mescla música, artes cênicas, gastronomia, ações educativas, preservação ambiental e economia criativa O Panela do Jazz finalmente retorna para o nascedouro depois da interrupção forçada de dois anos por conta da pandemia da covid-19. E o regresso será repleto de atrações para marcar a consolidação de um dos eventos mais significativos da cena musical nordestina, com quase 10 horas de programação neste sábado. Trio 3-63, formado por Andrea Ernest Dias, Marcos Suzano e Paulo Braga, Louise Wooley Quinteto e o duo Cristóvão Bastos & Rogério Caetano estão entre as atrações da maratona, que será encerrada com Henrique Albino & O carnaval dos espíritos, show especial criado em homenagem ao maestro pernambucano Moacir Santos (1926-2006), um dos principais nomes da nossa música, celebrado nas atividades do festival neste ano. O retorno ao bucólico e tradicional bairro do Poço da Panela será híbrida, com transmissão online simultânea através do YouTube e a chancela dos selos de Evento Neutro e o Sou Resíduo Zero. As atrações começam logo cedo, a partir das 15h, com um encontro de palhaçadas, com apresentações dos palhaços Gardênia e Peripécia, Palhaços Gambiarra e Mingau, A Trupe Carcará e o Palhaço Mixuruca para receber o público, no polo gastronômico, até as 18h. De graça, na rua, plural, incorporador de múltiplas linguagens e atento à importância de estimular a economia local e valorizar nossos artistas, mas também grandes nomes da música nacional. “O Panela do Jazz tem como princípio a relação com a cidade, as pessoas do bairro, os produtores locais, a economia criativa. A programação deste ano reúne artistas talentosos de vários locais e reverencia a música afrobrasileira, em diálogo com a homenagem ao grande Moacir Santos”, resume o idealizador e diretor-geral do evento, Antonio Pinheiro. O palco será armado no pátio em frente à Igreja de Nossa Senhora da Saúde e as imediações serão tomadas pelas barracas da arena gastronômica e pela Feira Livre do Poço. Foram selecionados cerca de 30 expositores de moda, artesanato, acessórios, itens infantis e haverá até um brechó. “O que priorizamos na curadoria foram os produtores responsáveis por produzir o próprio trabalho, foi uma seleção difícil, diante de tantos inscritos”, explica Cecília Montenegro, idealizadora da Feira Livre do Poço. ATRAÇÕES O multi-instrumentista Nino Alves dá a largada musical, às 16h, com o espetáculo “ExperimentaSons”. Acompanhado por Betinho Lima (bateria), Lucas Romeiro (guitarra e violão) e Efraim Rocha (contrabaixo), ele explora instrumentos não convencionais, como tigelas de vidro, molhos de chaves e alguns itens confeccionados por ele, como xilopet/petfone, feito de garrafas pet afinadas com ar. O trompetista pernambucano Márcio Oliveira sobe ao palco às 17h, com um time de sete músicos, para executar faixas do premiado álbum “Encabeçando” e fazer releituras de Moacir Santos. O repertório vibrante mergulha em vários ritmos de matriz africana e pernambucana e enaltece a produção musical afrobrasileira. A pianista e compositora paulista Louise Woolley toca às 18h10 com seu sexteto, formado por Alex Buck (bateria), Bruno Migotto (baixo), Jota P. Barbosa (sax), Diego Garbin (trompete) e Livia Nestrovski (voz). O grupo apresenta as composições do terceiro álbum, “Rascunhos”, surgidas a partir do projeto “Música nova”, comissionado pelo Savassi Festival, de Belo Horizonte. A simbiose entre o piano de Cristóvão Bastos e o violão de sete cordas de aço de Rogério Caetano, às 19h10, foi indicada ao Grammy Latino e conquistou o Prêmio Profissionais da Música no ano passado. Os dois virtuosos são compositores, arranjadores e parceiros de grandes nomes da cena nacional, como Chico Buarque e Aldir Blanc (Cristóvão) e Yamandu Costa e Hamilton de Holanda (Rogério). Questionamentos, percepções e sensações de Anne Costa, Bárbara Regina, Jefferson Figueirêdo e Neris Rodrigues estão na performance político-anárquica-reflexiva “Utópicas curvas”, às 20h20. A criação coletiva propõe retratar maneiras sagazes e a mandinga de se forjar no movimento que a rua dá e expressar as dificuldades encontradas enquanto artistas em uma sociedade que cerceia as artes. No retorno à programação musical, o Trio 3-63 propõe programas dedicados à escuta das múltiplas frequências da criação musical brasileira a partir das 18h10. A flautista Andrea Ernest Dias, o pianista Paulo Braga e o percussionista Marcos Suzano unem suas experiências em palcos e estúdios da música popular, da música de câmara e da música sinfônica para embalar o legado dos grandes instrumentistas brasileiros. Com virtuosismo, qualidade lírica e harmonias pesquisadas, exaltam a atualidade da música instrumental e o cosmopolitismo dos sons brasileiros. A multiartista Gabriela Sampaio estreia no festival com seu primeiro trabalho solo, “Meu canto é sagrado”, no qual embala de forma singular os ritmos e cânticos da cultura popular afrobrasileira e indígena, como o ijexá, às 22h. Ela reverencia a ancestralidade nagô e presta homenagem ao maestro Moacir Santos, junto com ogãs e yabás do terreiro Ilê Obá Aganjú Okoloyá, Márcio Oliveira e Beto Xambá. A multi-instrumentista pernambucana Lara Klaus enche o palco em show no qual apresenta uma diversidade de ritmos e diferentes combinações de percussão e bateria, aliadas ao piano, baixo e guitarra, às 22h40. Ela, que já tocou em grandes palcos do mundo, como do Montreux Jazz Festival, e conquistou prêmios internacionais, mostrará músicas autorais e algumas releituras, acompanhada por Paula Bujes (violino e rabeca), Laís de Assis (viola), Nana Milet (percussão), Joana Xeba (percussão), Thiago Rad (guitarra), Romero Medeiros (piano) e Rogê Victor (baixo elétrico e acústico). Um dos principais focos da edição, os sons de matriz africana são merecidamente homenageados na apresentação do Afoxé Oyá Alaxé, às 23h40. O grupo foi fundado há quase duas décadas no Ilê Obá Aganjú Okoloyá, no bairro de Dois Unidos. A escolha destaca também a importância da produção musical dos terreiros de candomblé nagô, relevantes pontos de resistência social e cultural. O encerramento está marcado para a meia-noite, com um show especial montado para o festival em tributo a Moacir Santos. O show “Henrique Albino & O carnaval dos espíritos” faz referência ao quarto álbum ao homenageado do festival, o terceiro dele gravado nos Estados Unidos. Henrique Albino

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EngenhoMorenos Foto Jose Luiz Mota Menezes 1

Livro conta a história do açúcar que gerou riqueza e arte em Pernambuco

(Da Cepe) O arquiteto Fernando Guerra mergulhou na história do açúcar no Nordeste ao escrever uma tese acadêmica para a Universidade Federal de Pernambuco. Trabalho realizado, ele transformou a pesquisa em livro, que será lançado pela Cepe Editora no próximo sábado (10/09), às 10h, em evento aberto ao público no Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico, sediado no Centro do Recife. Açúcar: Riqueza e Arte em Pernambuco apresenta ao leitor os frutos da produção açucareira na arquitetura civil e religiosa, nos ritos, nas tradições e na religiosidade da população. Com 164 páginas, o título remonta às grandes navegações empreendidas por Portugal no século 15, passa pelo surgimento das primeiras cidades no Brasil, quando o país era uma colônia lusitana, e se estende pelo século 19. “No período colonial, a arquitetura brasileira era uma cópia da arquitetura portuguesa. O modelo das edificações – igreja matriz, casa do administrador, casa de câmara e cadeia e a Santa Casa de Misericórdia – como se vê na Sé de Olinda, é português”, diz Fernando Guerra. A riqueza e a arte resultantes do ciclo da cana-de-açúcar no Nordeste, ressalta Fernando Guerra, que é professor na Universidade Federal de Pernambuco, são visíveis em igrejas e casarões de antigos engenhos de açúcar. Ele cita a Igreja dos Santos Cosme e Damião, em Igarassu, na Região Metropolitana do Recife, construída no estilo arquitetônico maneirista, registrado no Brasil de 1530 a 1580. “O maneirismo é uma das primeiras manifestações de arte erudita trazidas para o país.” De acordo com ele, Pernambuco e a Bahia foram os primeiros a receber influência do maneirismo nas edificações. O estilo “manifesta-se no Nordeste do Brasil ao constituir-se numa expressão artística de transição para o Barroco, destacando-se as cidades pernambucanas de Igarassu, de Olinda e do Recife; e Porto Seguro e Salvador, na Bahia. Um pouco mais tarde, se formariam núcleos no Rio de Janeiro e em São Paulo”, escreve Fernando Guerra, na publicação. A arquitetura portuguesa traz para o Brasil os azulejos coloridos e azuis com fundo branco que ainda são vistos em fachadas e na área interna de edifícios religiosos em várias partes do país, diz o historiador. Ele também destaca cinco engenhos pernambucanos que chamavam a atenção pela produção de açúcar, pela beleza das edificações, pelos móveis e pelas obras de arte que possuíram ou ainda têm. Um deles é Monjope, que está definhando em Igarassu, no Grande Recife. “Foi um legítimo representante do período áureo do ciclo da cana-de-açúcar em Pernambuco. Cem escravos produziam uma média de dez mil arrobas de açúcar por safra, tornando-o um dos mais importantes do estado.” O livro está dividido em sete capítulos e aborda também conflitos decorrentes da produção açucareira, o período holandês no século 17 e o declínio dos engenhos a partir da criação das usinas. ”O grande valor da economia açucareira do Nordeste nos séculos passados tornou-se indispensável para a compreensão da realidade atual da nossa região. Até os nossos dias, o açúcar é o produto mais importante da economia do Nordeste do Brasil e o maior condicionante de sua estrutura política e social, além de ter valor cultural, inclusive com importância para a culinária local, regional, nacional e no exterior”, avalia o pesquisador.

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Nino Alves

Espetáculo ‘Nino Alves-ExperimentaSons’ tem apresentação gratuita no Recife 

Iniciativa faz parte de uma turnê, inédita, em comemoração aos 20 anos de carreira do multiartista pernambucano, Nino Alves, na qual une criatividade, música instrumental, percussiva e melódica não-convencional Neste fim de semana a capital pernambucana será palco de um evento especial, que envolve uma atmosfera musical rica em timbres e possibilidades sonoras.  Trata-se da estreia da turnê ‘Nino Alves- ExperimentaSons’ – evento dedicado à música regional pernambucana na qual une criatividade, música instrumental, percussiva e melódica não-convencional. A iniciativa, pioneira, promete colocar o público infantil e adulto para dançar e cantar sem parar, visa celebrar os 20 anos de carreira do multiartista pernambucano, Nino Alves. No Recife, o palco da festa acontece neste sábado (10), dentro do Festival Panela do Jazz, no Poço da Panela, às 16h.  A programação, ofertada gratuitamente ao público, conta com incentivo da Fundarpe e do Governo do Estado, por meio dos recursos do Funcultura.  O espetáculo, que mescla música instrumental com poesias e canções no repertório, tem como proposta transmitir às crianças, adolescentes, jovens e adultos a percepção e contemplação da música local e regional, a partir dos sons extraídos de sucata e diversos tipos de materiais. “Quero mostrar ao público, por meio desse trabalho musical, o ressignificado que, juntos, podemos dar aos objetos do nosso dia a dia, que poderiam estar em desuso ou até mesmo ferindo a natureza pelo descarte incorreto” diz o artista.  No palco, Nino Alves fará uma mistura de elementos que vão resultar em vários ritmos a partir de seus instrumentos musicais para lá de criativos. Entre eles:  PETfone e o Garrafão Falante, construídos pelo próprio artista. Há, ainda, dentro dessa infinidade musical, outros componentes sonoros, como sementes, serra de marcenaria, cabaças, tigelas de vidro, molhos de chaves, catracas de moto e bicicleta.  “Com a junção desses ingredientes vamos levar para o palco uma vasta possibilidade musical capaz de dar ritmo e musicalidade aos gêneros já conhecidos do nosso repertório raiz, a exemplo do coco de roda, frevo, baião, maracatu, entre outros”,finaliza.  Além do Recife, nesta primeira temporada, o projeto também vai contemplar outras cidades do estado. Na sexta-feira (16), a programação desembarca no Espaço Cultural Mauro Mota, em Nazaré da Mata, a partir das 20h30. Também atuando na manutenção das dinâmicas culturais e musicais, por cada cidade e região que passar, Nino Alves receberá no palco artistas convidados. Estão confirmados para a estreia no Panela do Jazz os percussionistas Nego Henrique e Iran Silva (Recife); e o multi-instrumentista Henrique Albino (Recife). Já em Nazaré da Mata, os convidados  são: o compositor e cantor Baixinho dos Oito Baixos (Vicência); a trombonista Larissa Michele (Aliança), e o maestro Guilherme Otávio (Nazaré da Mata).  FORMAÇÃO O projeto, além da rodada de shows itinerantes, também vai percorrer escolas públicas das regiões contempladas com a programação artística: Nazaré da Mata, Garanhuns, Arcoverde e Recife. Em cada uma delas, Nino Alves ministrará um workshops com estímulo à criatividade musical. A ação consiste em trocar ideias com os participantes para criação de instrumentos com objetos que podem ser encontrados em casa. Aliado a isso, o artista irá trabalhar, dentro do ciclo de formação, a importância de valorização às músicas regionais, como um elemento de apropriação cultural, que precisa ser preservado e cultivado pelo público. 

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MAMAM

Mamam celebra 70 anos do Atelier Coletivo: Memória e imaginação da arte Pernambucana

Sete décadas se passaram desde que um grupo de jovens artistas plásticos pernambucanos revolucionou a forma de realizar trocas estéticas, artísticas, além de experimentações de forma autônoma no estado. Com uma construção que exaltou o modernismo, o Atelier Coletivo, como foi chamado, se tornou um divisor de águas nas produções das artes plásticas em Pernambuco. Para celebrar este marco, O Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (MAMAM) recebe nos dias 15 e 16 de setembro, das 9h às 17h30, o seminário 70 anos do Atelier Coletivo: Memória e imaginação da arte Pernambucana.  Mas o que foi o Atelier Coletivo? Como foi fundado e quais eram seus principais artistas? Para entender melhor essa história precisamos voltar para a década de 50. Quando Abelardo da Hora, inconformado com a forma elitista que as produções artísticas eram produzidas, decidiu criar a Sociedade de Arte Moderna. Neste primeiro momento, com a ideia de dar oportunidade a artistas que não tinham condições de bancar os próprios estudos na Escola de Belas Artes do Recife e de se projetarem no cenário. Porém, somente em 5 de fevereiro de 1952, Abelardo da Hora decidiu criar o Atelier Coletivo, uma extensão do seu projeto inicial, mas que agora tomaria corpo e se tornaria um espaço de trocas, convivência, discussões e de produções individuais e colaborativas, com o objetivo de promover jovens artistas pernambucanos. Ao todo, 21 nomes fizeram parte desse movimento. Podemos destacar: José Cláudio, Wellington Virgolino, Wilton de Souza, Guita Charifker, Gilvan Samico e Corbiniano Lins.            Para debater a importância desse movimento, o Seminário 70 anos do Atelier Coletivo: Memória e imaginação da arte Pernambucana vai trazer na sua programação mesas redondas que pretendem repercutir as ressonâncias que esse experimento teve e tem nos dias atuais, o engajamento do movimento e a vanguarda do modernismo pernambucano. O professor Daniel da Hora, neto do criador do Atelier Coletivo, e também o artista plástico José Cláudio, que este ano completou 90 anos, e que foi um dos integrantes do movimento, são alguns dos participantes que vão estar presentes nos debates.  O evento é uma realização do REC Cultural, em parceria com o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (UFAPE). As inscrições são gratuitas e devem ser feitas no através do link: encurtador.com.br/fhGV4 , ou por meio do link disponibilizado na bio do Instagram @mamamrecife. SERVIÇO: Seminário 70 anos do Atelier Coletivo: Memória e imaginação da arte Pernambucana Dias: 15 e 16 de setembro Horários: Das 9h às 17h30 Endereço: R. da Aurora, 265 – Boa Vista, Recife PROGRAMAÇÃO 15 de setembro – (quinta-feira) ABERTURA:  Casa, oficina e escola: Memórias do Atelier Coletivo Horário: Das 10h às 12h Convidado: José Claudio – artista  Mediação: Júlio Cavani – Autor da Biografia “José Cláudio: Aventuras à Mão Livre”. Mesa 1 Entre o individual e o coletivo: As experimentações artísticas no Atelier Coletivo Horário: Das 14h às 17h Palestrantes: Flávio Weinstein (UFPE), Laura Alves de Sousa (UFPE), Raissa Alves Colaço Paz (UFRPE) 16 de setembro (Sexta-feira) Mesa 2 A “Audácia do Recife”: Engajamento, modernismo e interpretação da cultura brasileira Horário: Das 09h30 às 12h30 Palestrantes: Daniel da Hora (UFPB), José Brito (UFAPE), Paulo Marcondes (UFPE) Mesa 3 O Atelier Coletivo e suas ressonâncias: Os ateliês coletivos da contemporaneidade Horário: Das 14h às 17h30 Palestrantes: Joana D´Arc (UNILAB), Maurício Castro, Iara Izidoro (Coletivo Carni)

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Colecao Pernambuco na Independencia 5

Cepe entrega primeiros livros da Coleção Pernambuco na Independência

Obras, recebidas pelo governador Paulo Câmara nesta quinta, relatam o processo de separação do Brasil da Coroa Portuguesa a partir de uma perspectiva pernambucana (Fotos: Hélia Scheppa/SEI) O presidente da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), Ricardo Leitão, entregou, na tarde desta quinta-feira (08.09), os cinco primeiros livros da Coleção Pernambuco na Independência 1822-2022 ao governador Paulo Câmara. As obras — que integram as ações da Comissão Estadual para as Comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil — foram editadas pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) e se debruçam sobre o processo de separação do Brasil da Coroa Portuguesa a partir de uma perspectiva pernambucana. A coleção é composta por dez volumes. “Nós precisamos contar e deixar registradas essas lições de 1817, de 1822 e 1824 para as próximas gerações terem acesso às informações, a essas ideias fortes e fundamentais também para pensar o futuro”, afirmou o governador, durante a cerimônia, realizada no Palácio do Campo das Princesas. Segundo o coordenador científico da coleção, George Cabral, os títulos oferecem um olhar contemporâneo sobre o tema e difere da historiografia centrada no Sudeste e em Dom Pedro I, que desconsidera os olhares de outras regiões e estados fora do eixo Rio-São Paulo. “A coleção é um esforço de conjugar leituras contemporâneas sobre o processo da Independência, com textos clássicos e documentos de época”, completou. Das cinco publicações, duas são totalmente inéditas. Escrita pelo historiador Josemir Camilo de Melo, “1821: A revolução liberal em Goiana e a queda do general Luís do Rego” é uma delas. A outra é “Pernambuco na Independência do Brasil: Olhares do nosso tempo”, organizado pelo historiador e ex-presidente do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, George Félix Cabral de Souza. Já “Oliveira Lima: Obra seleta – História” e “A propósito da Independência e do Império: Escritos de Gilberto Freyre”, títulos organizados pelo historiador, diplomata e escritor André Heráclio do Rêgo, trazem antigos textos e estudos introdutórios inéditos. Considerado referência, o livro “Liberais e liberais: Guerras civis em Pernambuco no século XIX”, da historiadora, professora associada do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e escritora Socorro Ferraz, que estava esgotado, ganha edição revisada dentro da Coleção Pernambuco na Independência. Ainda integram a coleção os livros “O patriotismo constitucional: Pernambuco 1820-1822”, do historiador e jurista Denis Bernardo (1948-2012), com edição esgotada no mercado; “Biografia de Gervásio Pires Ferreira”, organizado por Antônio Joaquim de Mello; e “Pernambuco: da Independência à Confederação do Equador”, de Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000). Também fazem parte da compilação uma seleta de Nilo Pereira (organização de George Cabral e Roberto Pereira) e uma obra que reúne documentos de época sobre a história da independência em Pernambuco (organização de George Cabral e Josemir Camilo de Melo). Estiveram presentes à entrega os secretários estaduais Oscar Barreto (Cultura), Fernando Jucá (Ciência, Tecnologia e Inovação), Marcelo Barros (Educação e Esportes), Gilberto Freyre Neto (executivo de Relações Internacionais) e Marcelo Canuto (chefe de Gabinete do governador); o presidente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), Severino Pessoa; e membros da Comissão do Bicentenário. SOBRE A COMISSÃO – A proposta da coleção insere-se no programa de comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil, instituído pelo Governo do Estado. Em julho de 2021, o governador Paulo Câmara publicou o Decreto Nº 50.984, criando uma comissão específica para tratar das celebrações. Ao todo, 19 representantes de secretarias, órgãos e instituições da sociedade civil, a exemplo da Academia Pernambucana de Letras e do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP), compõem o colegiado.

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6 fotos da Rainha Elizabeth no Recife

Hoje, no dia do falecimento da rainha Elizabeth, a coluna Pernambuco Antigamente resgata 5 imagens da passagem da monarca britânica pelo Recife em 1968. Rainha Elizabeth ao lado do então governador pernambucano Nilo Coelho (Foto: Revista Nossa História, no blog Vozes da Zona Norte) Rainha Elizabeth na Avenida Boa Viagem(Foto: Diario de Pernambuco / Hemeroteca da Biblioteca Nacional) Visita ao Palácio do Campo das Princesas(Foto: Diario de Pernambuco / Blog Vozes da Zona Norte ) Pelas Ruas do Recife(Foto: Diario de Pernambuco / Blog Vozes da Zona Norte) Saudações da rainha no Recife(Extraídas de vídeo da TV JC)

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Primeira “luta verbal” de Raimundo Carrero no jornalismo, na década de 60

*Por Rafael Dantas, repórter da Algomais O autor pernambucano Raimundo Carrero lançou ontem (5), no Varejão do Estudante, o seu livro “A Luta Verbal – a preparação do escritor”. Ele defende uma literatura engajada socialmente, incomodada com as disfunções da sociedade em que o escritor está imerso. No entanto, luta de Carrero, que é um dos ícones das letras no Estado e completa 75 anos em 2022, começou ainda no final da década de 60, no Diário de Pernambuco. Selecionamos hoje uma coleção de textos do autor no seu primeiro mês de trabalho no mais antigo jornal da América Latina que segue em funcionamento, uma série de reportagens sobre a Santinha de Alagoa Nova, no interior da Paraíba. Todos os textos foram encontrados no banco de dados da Hemeroteca da Biblioteca Nacional, em cada reportagem há um link direto para a página das matérias. A primeira reportagem assinada por Carrero teve como título Bispo manda padre observar a “santinha”. Era 24 de dezembro de 1969. O presente de natal dos leitores foram os primeiros textos dele narrando uma história que envolvia uma criança, Maria do Socorro Fernandes, que morava em Alagoa Nova. Diversos romeiros chegavam no sítio onde ela morava, pois havia uma crença de que ela falava com Nossa Senhora de Fátima e que teria feito inclusive milagres. Carrero escreve que em suas conversas com a santa, a criança teria pedido remédios para a cura de muitos que a buscavam. A resposta da Nossa Senhora foi a seguinte: “Remédio para os pecadores era reza”. As palavras da menina, que era muito calada, inflamavam a devoção. Apesar da juventude e da falta de experiência no jornalismo, já que se tratava do primeiro trabalho do escritor no jornal, Carrero escuta muitas fontes para contar a história da Santinha. Como uma boa apuração jornalística, na sua primeira reportagem ele ouviu o prefeito, os fiéis, um líder espírita (que declarou se tratar de algo do diabo), um sargento, tentou falar com o bispo em questão, que não respondeu, e finalmente a própria santinha. Ela não queria dar entrevistas, era mais reclusa. Nada que uma grande boneca de presente não abrisse as portas para a reportagem do Diario de Pernambuco. A cobertura continuou no dia seguinte com o título Demônio estaria reagindo às aparições da virgem. A santinha teria sentido um empurrão por alguma entidade enquanto realizava as suas rezas. Além da descrição do relato da criança, Carrero fala sobre o natal na cidade pacata, que devido à movimentação atípica estava iluminada, mesmo sem um festejo oficial. No dia 27 de dezembro de 1969, Carrero anuncia que a Santinha havia indicado a data da aparição de Nossa Senhora de Fátima no interior paraibano. Seria no dia seguinte. A revelação só ampliou as expectativas dos fiéis, que se acumulavam na cidade naquele final de ano. A história da menina vidente seria contada ainda no dia 28 de dezembro: Multidão espera o sinal anunciado para hoje. Havia até a expectativa que a Nossa Senhora levasse para si a criança. Carrero registra uma fala do pai, José Fernandes de Araújo, conformado, caso essa fosse a vontade divina. Os poucos hotéis da cidade ficaram lotados. Um pastor entrevistado disse se tratar de coisa do demônio, com várias citações do apocalipse. Chegavam ao município também pessoas em busca de cura e milagres. A cobertura de encerra no dia 30 de dezembro com a frustração da não aparição da santa: Multidão espera: sinal não veio e santinha adormece!. Segundo Carrero, a espera do evento reuniu 15 mil pessoas. Hoje, mais de cinco décadas após, a estimativa de população total da cidade é de 18 mil pessoas. “O desfile do povo frente a Maria do Socorro Fernandes era quase um culto. Homens e mulheres se misturavam numa idolatria. Vinham em fila, paravam em frente a Santinha, olhavam com olhares de súplica. Uns entregavam cartas e bilhetes contendo pedidos para curar doenças e melhoras de vida”, relatou Carrero na reportagem. Apesar de Nossa Senhora de Fátima não ter dado nenhum sinal, Carrero encerra aquela cobertura indicando um sentimento positivo da população: “Mesmo não aparecendo o sinal, o povo não desanimou. Para a maioria, o grande sinal foi a união da multidão, que durante todo o dia se manteve em paz, não se registrando qualquer acidente.” Da sua primeira reportagem aos livros que o tornaram mais conhecido, um semelhança é a temática da religião. A fé, as percepções de quem está ao redor e as contradições do divino com o real são uma marca da vida de vários personagens de Carrero. Escritor que, antes da literatura, deixou sua marca no jornalismo pernambucano. LEIA TAMBÉM *Rafael Dantas é jornalista da Algomais (rafael@algomais.com)

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