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Francisco Cunha

É urgente uma criação de uma secretaria estadual para cuidar da Transnordestina

No que diz respeito ao trecho pernambucano da Transnordestina, o Estado corre atrás do prejuízo desde que começou essa história, divulgada lá atrás pela concessionária da Malha Nordeste, de um novo traçado para a ferrovia, há mais de 20 anos.

Primeiro, desapareceu do desenho novo o trecho de Petrolina a Salgueiro, vital para a estruturação de um eixo logístico integrador do Estado, de oeste a leste; segundo, o novo traçado era completamente diferente do da centenária Ferrovia Central de Pernambuco e requeria milhares de custosas (em tempo e dinheiro) desapropriações em todo o trajeto; e terceiro, a novidade mais estranha de todas, a construção começaria do meio do caminho em direção aos três destinos (Eliseu Martins no Piauí, Pecém no Ceará e Suape em Pernambuco).

Esse terceiro aspecto (o começo da construção pelo meio do caminho) causou especial espanto. Afinal, com isso, se perderia o enorme ganho de colocar em operação a ferrovia logo à medida em que ela ia sendo construída. Ou seja, se a construção tivesse começado, por exemplo, a partir de Suape, a operação já poderia iniciar logo que ela chegasse na primeira localidade relevante para recepção ou emissão de carga. Pelas contas de Maurício Pina e Fernando Jordão, dois dos principais especialistas pernambucanos em logística ferroviária, se o que já foi construído da Transnordestina em Pernambuco tivesse começado em Suape, os trilhos já teriam chegado em Belo Jardim, local da fábrica das Baterias Moura e as cargas de produtos acabados já poderiam estar chegando no porto, assim como as matérias-primas já poderiam estar sendo transportadas do litoral para o local de produção. Sem falar dos combustíveis produzidos pela Refinaria Abreu e Lima, que têm consumidores em praticamente todo o percurso.

Como isso não foi feito, o que temos hoje em Pernambuco são centenas de quilômetros de trilhos assentados, abandonados e indo do nada para lugar nenhum. Um custo de capital absurdo. Uma insanidade completa!

Como se não bastassem esses desatinos, a construção foi sofrendo paralisações e atrasos sucessivos que já montavam mais de 20 anos sem que a ferrovia chegasse a lugar nenhum. Isso, até que, entre o Natal e o Ano Novo de 2022, aos 45 minutos do segundo tempo do governo passado, explode a bomba maior contra Pernambuco: na calada da noite, o trecho pernambucano da Transnordestina foi simplesmente retirado do contrato de concessão sob a alegação de que os dois destinos (Pecém e Suape) inviabilizavam economicamente o projeto. Sim, cara pálida, se isso é verdade, porque, então, não foi retirado o trecho cearense que é mais de 80 quilômetros maior do que o pernambucano?

Transnordestina Trilhos

Depois de uma reação indignada que envolveu uma parcela da sociedade organizada pernambucana, conseguiu-se que o trecho, sorrateiramente retirado do contrato de concessão, fosse assumido pelo governo federal que o incluiu no Orçamento da União e no Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), ainda que com recursos limitadíssimos (menos de 10% dos custos estimados para o trecho completo) e uma defasagem de cronograma de cerca de 10 anos em comparação com o trecho cearense cuja execução corre célere em direção a Pecém com fartos recursos liberados pela Sudene.

Mas o drama encenado, apesar dessas e de muitas outras estripolias ao longo desses mais de 20 anos de porradas na moleira pernambucana, não para por aí. A mais recente cena aterradora para com o futuro do Estado foi protagonizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Mês passado, a corte de contas, por intermédio de decisão do ministro Jhonatan de Jesus, determinou a suspensão de novos compromissos financeiros para a Ferrovia Transnordestina em Pernambuco até que o Ministério dos Transportes e a Infra S.A. realizem estudos de viabilidade técnica e econômica do trecho Salgueiro-Suape antes de avançar com os investimentos públicos.

Parece comédia mas não é. Trata-se de uma série trash de terror cujo mocinho é o Ceará e o bandido Pernambuco, que lança incessantemente novas temporadas subsequentes, todas arrepilantes, desde quando estreou a primeira com o argumento do novo traçado da ferrovia.

É por essas e por muitas outras que defendo, de forma enfática, dada a importância capital do tema, que seja criada uma secretaria especial de estado só para tratar da Transnordestina em Pernambuco. Sim, não dá para ficar cuidando do assunto ad hoc, sempre que uma nova assombração dá o ar de sua graça. Não dá para apenas agir reativamente só quando aparece um fato novo porque o roteirista da série é muito criativo e está sempre pensando nos próximos passos e em novas assombrações, enquanto reagimos, quando reagimos, às assombrações e aos passos passados.

O ideal seria lançar uma nova série com novo enredo e o papel dos protagonistas invertido mas, aí, já seria pedir demais, pelo menos por enquanto, dada a história de papéis subalternos que temos desempenhado ao longo de tanto tempo em relação a essa questão crucial para o futuro de Pernambuco. Por ora, o que dá para fazer é colocar um responsável por respirar (24 horas por dia, sete dias por semana) a Transnordestina em Pernambuco, com acesso direto ao gabinete governamental do Campo das Princesas e aos principais de Brasília.

O refrão “Quem sabe faz a hora não espera acontecer” já vai completar 60 anos de cantado. E nós, os pernambucanos, em relação à Transnordestina, estamos há pelo menos 20 anos esperando acontecer. Já é mais do que hora de mudar isto porque continuamos, ainda hoje, infelizmente, correndo atrás do prejuízo. E que prejuízo!

*Francisco Cunha é consultor empresarial, sócio da TGI e assina a coluna Última Página na Revista Algomais

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