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Francisco Cunha

Agora, a inteligência artificial está falsificando o passado

Sim, a Inteligência Artificial, popularmente conhecida pela sigla IA, é uma coisa notável, inacreditável mesmo. Mas, como tudo o que é novo e, no caso, revolucionário também, demanda muito cuidado no que diz respeito ao seu uso responsável.

A mais nova utilização da IA em termos de imagem, uma tecnologia que tem avançado num ritmo alucinante, diz respeito à releitura de fotografias antigas e, mais do que isso, à criação de vídeos “históricos”. Os resultados têm sido, na avassaladora maioria das vezes, simplesmente trágicos. E, o que é pior, sob a ilusão amplamente disseminada de qualidade.

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Ao se tentar, por exemplo, recriar uma foto antiga com IA, tornando-a mais “bonita”, têm sido perpetrados erros grosseiros que, por falta de preparo de quem está fazendo a demanda à IA, ou seja, tecnicamente escrevendo os prompts, passam sem ser percebidos. 

Depois do erro inicial de acolhimento sem críticas, ou adequada curadoria do que é produzido pela IA, o desconhecimento dos expectadores completa o resto da tragédia com reações do tipo: “lindo”, “maravilhoso”, “fantástico”… Tenho retrucado nos comentários, de propósito, quando vejo as publicações e as reações apalermadas: “lindo mas falso”, “fotografia mentirosa”, “nada disso existiu”… As reações aos meus comentários vão da pura chacota ao ódio destilado: “faz a tua versão e publica”; “invejoso”; “você não sabe de nada”… 

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Desconfio, todavia, que o principal motivo da violência das reações é, sobretudo, ao fato de meus comentários colocarem dúvidas sobre aquilo que parecia maravilhoso, idílico mesmo. Algo do tipo: “quem você pensa que é para ousar desfazer minha ilusão?”; “para derramar o munguzá do meu sonho de perfeição?”. Dá a impressão de que as pessoas querem ser enganadas e ficam iradas quando aparece algum argumento que abale suas falsas crenças e deem a entender que o rei está nu.

No que diz respeito aos vídeos históricos, então, a tragédia é pior ainda porque se cria a figura da mentira animada, em movimento (e em cores), geralmente com narração feita por uma IA com sotaque do interior paulista. 

Uma dessas criações macabras que fez um enorme sucesso foi um vídeo sobre o período da ocupação holandesa no Recife. Muitas pessoas me mandaram no privado, com certeza desposando a convicção de que se tratava de uma reprodução criativa e fidedigna. Nada mais equivocado. Criativa, sim; fidedigna, não. O cenário construído pela IA, a partir de um prompt singelo, sem nenhuma crítica posterior ao resultado produzido, era mais falso do que uma nota de R$ 3,00. Construções de épocas e estilos arquitetônicos completamente diferentes das retratadas, canais e pontes que nunca existiram, barcos caricatos. Um horror! E os expectadores: “lindo”, “fantástico”, “maravilhoso”…

Depois da bagaceira em curso, fico pensando na hecatombe que está sendo contratada com toda essa tralha pictórica armazenada nos mais profundos rincões da internet. Em breve, pela sua profusão, vão superar em quantidade as fotografias originais e inundar a rede mundial de lixo colorido e vídeos falsos. E, aí, uma consulta despretensiosa pelos desavisados vai apresentar o falso como verdadeiro e as pessoas, por desconhecimento da história, vão acreditar e elogiar fazendo prosperar a pantomina falsificada.

Sinceramente não sei o que pode ser feito em termos sistêmicos no que diz respeito a isso porque nem o mais restritivo controle da internet e da IA será capaz de dar conta desse desconcertante desacerto. Afinal, a raiz do problema está na junção de uma ferramenta de grande potência, inclusive gráfica, com o desconhecimento das pessoas em relação à história e a propensão que temos de acreditar naquilo que parece fazer sentido ou em tudo que vai ao encontro daquilo em que acreditamos (o que os especialistas chamam de “viés de confirmação”).

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Na verdade, meu apelo é para os promotores do caos, os demandantes da IA, os formuladores de prompts. Sei que estão imbuídos da melhor das boas intenções. Querem democratizar o conhecimento da história, tornar acessível para o maior publico possível as informações antes acessadas por poucos. Querem contribuir para a ilustração geral. Mas, muito cuidado! Não aceitem os primeiros resultados, exijam mais e mais da IA. Ela é instantânea demais. Tem o pecado original da “pressa que aniquila o verso”. Não tem nenhum senso crítico ou ético. Não passa de um pau mandado apressado que procura satisfazer o seu dono (o demandante) com a primeira coisa que fizer sentido, ainda que ilusório, e o possa encantar. O resultado é na maioria das vezes o ludibrio. Não caia nessa!

Qualquer produção humana (e a da IA o é também, embora possa não parecer), para que seja de qualidade, requer trabalho duro, garimpagem atenta, pesquisa apurada, curadoria séria. Sobretudo a historiográfica! Ninguém se torna historiador ou historiadora da noite para o dia, mesmo que seja com o “auxílio luxuoso de um pandeiro”, como nos fala poeticamente Luiz Melodia. Mal comparando, a IA é como se fosse o pandeiro da canção. Se a gente não souber tocar (e isso exige muito, muito treino mesmo) vamos terminar “atravessando o samba”. E o pior é quando atravessamos pensando que estamos arrasando…

Muito cuidado, muita atenção, muita pesquisa! Não aceitem os primeiros resultados, comparem com o original. Critiquem as primeiras produções da IA, façam novos prompts mais precisos. Forcem a bicha, ela é cínica. Vai reformular e melhorar sem nenhum constrangimento. Peçam a opinião de especialistas. Não se permitam fazer o inverso do que sinceramente pretendem e, assim, espalhar mais desinformação num mundo já tão afetado pela falsidade, pela mentira, pelas fake news. Não seja aquilo que tenta combater!

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Complementarmente, talvez o que pudesse ser recomendado para os espectadores é não passar adiante aquilo que não se tenha certeza de que seja verdadeiro ou, mesmo, de que desconfiamos da fidedignidade. O drama é que a avassaladora maioria sequer desconfia…

De minha parte, o que tenho procurado fazer é denunciar as barbaridades que chegam a mim comentando sobre as impropriedades. Mas sei que se trata de um trabalho de Sísifo. Além disso, tenho tentado qualificar e ampliar o conhecimento sobre a história do Recife cuja integridade atingida me abala mais profundamente. Tenho procurado qualificar as Caminhadas Domingueiras com mais pesquisa e produção historiográfica. E já estou produzindo mais dois livros sobre a história do Recife. Um sobre a história seriada de cinco séculos da cidade, chamado Recife Passo a Passo, em parceria com o historiador Carlos André Cavalcanti, em fase de finalização. E outro, recém-iniciado, sobre os cinco séculos de desenvolvimento urbano do Recife que compõe a mais nova “temporada” das Caminhadas.

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Espero que, por eventual falta de devida atenção, não deixe passar nenhuma barbaridade. Mas, quanto a isso, tenho a tranquilidade da serena curadoria de Carlos André.

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