População pendurada em dívidas: quando o crédito fácil vira armadilha

*Por Rafael Dantas

Maria (nome fictício), 55 anos, é funcionária pública. Nunca foi muito organizada com as finanças, mas se viu numa “bola de neve” no final do ano passado. Mesmo com o salário reduzido pelo desconto do crédito consignado, ela estava pagando o cheque especial, o cartão de crédito e tendo ainda as parcelas de dois empréstimos tomados em instituições financeiras. A conta já não fechava. “Eu fiquei desesperada. Tinha que escolher o que iria pagar e já estava com dificuldade com a conta da energia elétrica”. 

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Após buscar dinheiro com parentes e ter crises de ansiedade, o pesadelo começou a se diluir em uma campanha de renegociação de créditos. As restrições financeiras continuam, mas agora ajustadas num difícil equilíbrio doméstico. A frustração foi acentuada ainda porque ela não comprou nada muito relevante para sua casa. Ajuda aos parentes e o fácil acesso aos recursos para fechar as contas do mês a levaram para uma avalanche de dívidas.

A história de Maria é muito semelhante à de milhões de lares. De acordo com pesquisa do Fecomércio-PE (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Pernambuco), o endividamento atingiu 80,9% dos recifenses, em março deste ano. Dessas famílias, 26,8% declararam ainda estar com contas em atraso. Esse cenário não é apenas local. Os dados da pesquisa da CNC (Confederação Nacional do Comércio) estão apenas um pouco abaixo, atingindo 80,5% dos brasileiros.

Esse cenário reprime o consumo, aumenta a insatisfação das famílias e eleva o risco do crédito. Um quadro que pode apontar para uma pressão a mais na altíssima taxa de juros. Um paradoxo é o fato desse fenômeno acontecer no momento em que o País tem um desempenho forte nos principais indicadores macroeconômicos. O Brasil registra recorde na ocupação de postos de trabalho (49 milhões de empregos formais, segundo o Ministério do Trabalho), baixo desemprego (5,8%, segundo o IBGE, em fevereiro), além do salário médio mais alto da série histórica (R$ R$ 3.652, também de acordo com o IBGE).

CAUSAS DO ENDIVIDAMENTO

Sandro Prado
O cartão de crédito é a principal arma colocada na mão da população. Essa facilitação para pessoas que não têm educação financeira foi um perigo. A maioria está endividada por besteira, por motivos fúteis.” (Sandro Prado)

Para explicar esse fenômeno há desde problemas antigos dos brasileiros, como a falta de educação financeira, até  fatores mais recentes. A chegada das fintechs, com maior facilidade de acesso à bancarização, e o crescimento avassalador das bets ajudam a diagnosticar o problema, de acordo com o professor da Universidade de Pernambuco Sandro Prado.

Os dados mais recentes do Relatório de Cidadania Financeira 2025, elaborado pelo Banco Central, apontam que 96,4% da população adulta brasileira está bancarizada. No Nordeste, o percentual é apenas um pouco menor, com 96,2%. A popularização do Pix, como principal meio de pagamento, e a facilidade de obter um cartão de crédito, mesmo sem sair de casa, ajudam a explicar esse avanço. “Hoje o acesso ao crédito é muito fácil e muito rápido. Isso é muito sedutor”, destacou o economista Sandro Prado.

Os dados do Banco Central do Brasil mostram que o brasileiro mantém, em média, 6,7 relacionamentos com o sistema financeiro (entre bancos tradicionais, fintechs ou cooperativas). O número representa um avanço significativo em relação a 2021, quando cada pessoa bancarizada tinha vínculo com cerca de quatro instituições.

 “O cartão de crédito é a principal arma que foi colocada na mão da população. O problema é que essa facilitação para pessoas que não têm educação financeira foi um perigo. A maioria das famílias estão se endividando por besteira, por motivos fúteis”, afirmou Sandro Prado.

Uma realidade bem regional que ajuda a explicar o emaranhado financeiro das famílias, que as leva para o endividamento e a inadimplência, é o tipo de relação de trabalho. O economista da Fecomércio-PE, Rafael Lima, ressalta que o Estado tem uma composição mais elevada da mão de obra atuando no mercado informal. “A taxa de informalidade em Pernambuco é muito elevada, acima dos 45%. Esse trabalhador não tem previsibilidade de quanto vai receber para pagar as dívidas que contraiu”, destacou Lima. “Quando entra no rotativo do cartão de crédito, muitas vezes vira uma bola de neve completa.”

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A informalidade em Pernambuco é acima dos 45%. Esse trabalhador não tem previsibilidade de quanto vai receber para pagar as dívidas que contraiu. Quando entra no rotativo do cartão de crédito, vira uma bola de neve”. (Rafael Lima)

A taxa de juros elevada no País, associada às inúmeras opções de crédito pré-aprovado e até para negativados, ajudam a formar uma tempestade perfeita. As restrições de renda da população, mesmo com a taxa média salarial mais elevada, e a dificuldade clara de organizar as finanças pessoais ganhou nos últimos anos um vilão a mais: o desperdício de parte do orçamento com o vício nas apostas esportivas, as famosas bets.

O NOVO VILÃO PARA O ORÇAMENTO FAMILIAR

bets jogos

A força das bets está derretendo o frágil bolso das famílias mais pobres do Brasil. Estudo da Consumer Insights, da Worldpanel by Numerator revelou que 13% do orçamento das classes C, D e E foi para essas plataformas de apostas esportivas, no terceiro trimestre de 2025. Outra pesquisa recente, realizada pela Quaest, revelou que 29% declararam ter costume de fazer apostas esportivas na internet. 

Fred Leal, presidente do CDL Recife e do Sindilojas Recife, avalia que o avanço das bets está ligado a uma frustração crescente com a renda do trabalho. Segundo ele, muitos brasileiros não enxergam no dia a dia uma possibilidade real de melhorar de vida ou enriquecer, o que acaba alimentando a busca por atalhos. “O dinheiro que era para o consumo normal de casa, está indo para bets. No jogo, ele sonha que pode realizar alguns desejos que não consegue com o trabalho”, afirma. 

Fred Leal CDLRecife
Para Fred Leal, o avanço das apostas online está ligado à frustração do trabalhador com a sua renda. “O dinheiro que era para o consumo de casa, está indo para bets. No jogo, ele sonha que pode realizar desejos que não consegue com o trabalho”

O problema apresentado por Fred aparece na rotina de Daniel (nome fictício), 25, morador do Recife, que vez por outra se enrasca com as bets. Ele já não tem mais cartão de crédito aprovado para jogar. Quando era entregador de aplicativos, destinava parte da renda às apostas na tentativa de ganhar mais; quando perdia, pedia dinheiro a amigos para continuar. Ao entrar em um emprego formal, a insatisfação com a renda e os atrasos de pagamento agravaram o vício. “Eu sei que isso me faz mal, mas nunca tive orientação em casa. E não tenho nada. Nem tenho esperança de que algo vá melhorar”, desabafa.

Nesse contexto, as apostas surgem como uma promessa de ganho rápido, ainda que ilusória, desviando recursos do consumo e agravando o endividamento das famílias. Dinheiro que sai do varejo, leva as pessoas à inadimplência. Ou seja, uma parcela do salário se dilui entre os juros do sistema financeiro e do vício das apostas.  

daniel endividado

Apesar dos impactos negativos sobre a economia real, é pouco provável um endurecimento das regras para as bets. As apostas esportivas online foram legalizadas no governo de Michel Temer, com a Lei nº 13.756, de 2018, mas sem regulamentação efetiva. Já na gestão de Jair Bolsonaro, mesmo com prazo para organizar o setor, nada foi concluído, mantendo um cenário de fiscalização frágil e crescimento desordenado.

“Foi um absurdo permitir os jogos online, as bets. Existe muita gente se endividando por causa desses jogos eletrônicos. Hoje as pessoas jogam com o cartão de crédito, nem precisam do dinheiro em papel, também acessam de casa rapidamente”, criticou Sandro Prado. “Isso virou uma praga difícil de controlar agora.”

No Governo Lula, o setor foi regulamentado, com a Lei nº 14.790, de 2023, que estabeleceu a exigência de autorização, tributação e fiscalização. O governo também passou a derrubar sites irregulares, mas as bets seguem com muita força no Congresso Nacional e são muito populares, especialmente nas periferias.

REMÉDIOS CONTRA O ENDIVIDAMENTO

Como uma doença persistente, essa crise no orçamento familiar não reage de forma sustentável aos remédios mais comuns adotados pelo poder público. O Governo Federal lançou o Desenrola, um programa específico para renegociar dívidas de pessoas físicas. Apesar dos números exitosos inicialmente, muitas famílias voltaram a se endividar. 

Levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e do SPC Brasil mostrou que 86,41% dos negativados em fevereiro de 2026 já haviam se endividado nos últimos 12 meses. O estudo evidenciou um ciclo persistente. Enquanto a reincidência cresceu 12,49% no período, a recuperação de crédito caiu 7,12%, indicando maior dificuldade para sair da inadimplência.

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O presidente da CDL Recife, Fred Leal, é um crítico das ações realizadas para enfrentar o endividamento. Ele considera que são apenas emergenciais, mas não atacam as raízes do problema. “O varejo vive de crédito e renda. Quando o crédito fica caro e a renda diminui, o varejo se prejudica muito. O Desenrola é inócuo: 85% das pessoas voltaram a dever. O programa incentiva a negociar, mas o consumidor não tem dinheiro para ir em frente.”

Outra medida tomada foi limitar os juros do rotativo do cartão de crédito. A Lei 14.690/2023 estabeleceu que os encargos cobrados não poderiam ultrapassar 100% do valor original da dívida. Na prática, isso significa que o consumidor jamais pagará mais em juros do que o montante inicial devido. Apesar de importante, os efeitos foram baixos. “Limitar os juros ajuda, mas só minimiza o problema”, avalia Sandro Prado.

As medidas para a reversão sustentável desse cenário são mais estruturais, segundo os especialistas. O problema principal é educacional. “A educação financeira deveria estar mais presente no ensino básico. Muitas vezes isso só aparece na universidade ou por fora. Sem isso, o acesso ao crédito vira um problema, não uma solução”, defendeu Rafael Lima.

Sem conhecimentos básicos, a população segue contando com o crédito como parte da renda, pagando uma conta com outra dívida ou mesmo caindo na armadilha de pagar apenas o mínimo da fatura do cartão. Problemas associados geram um dano fatal para a saúde econômica da família. Isso sem falar da falta de cultura de poupar ou de se preparar para a aposentadoria. 

Limitar o crédito é um caminho amargo, mas defendido também por Sandro Prado. “Sou a favor de algumas questões até mais radicais, restringindo crédito. O consumidor não deveria poder pegar [empréstimo ou crédito] em vários bancos como se pode hoje. Não deveria liberar certos valores para uma população que não foi educada para isso.”

Além da redução do crédito, Sandro defende um olhar sobre a qualidade do endividamento. Quando o indivíduo tem uma dívida relacionada a uma casa própria, que vai retirá-lo do aluguel, ou porque está financiando um curso superior, que aumentará sua competitividade profissional, por exemplo, são investimentos saudáveis para a família e para a economia. “O ideal não é apenas reduzir o número de endividados, mas melhorar a qualidade dessas dívidas”, afirmou o economista da UPE.

O processo de educação financeira e tecnológica também precisa alcançar a população idosa, mais exposta aos riscos do crédito digital. Especialistas apontam que parte do endividamento ocorre por meio de familiares, como filhos e netos, que operam aplicativos e contratam crédito em nome dos mais velhos. Para Sandro Prado, a digitalização ampliou o acesso, mas também a vulnerabilidade, deixando muitos idosos mais suscetíveis a comprometer a própria renda, especialmente no crédito consignado.

A proximidade das eleições 2026 e a persistência dos indicadores elevados de endividamento estão pressionando o Governo Federal para a tomada de ações de curto prazo, que devem acontecer nos próximos meses. As ações estruturais, que vão na regulação mais razoável das taxas aplicadas pelo sistema financeiro, no combate mais duro às bets e, especialmente, na educação ampla da sociedade seguem como um desafio com poucas expectativas de serem resolvidos.

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

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