Energia solar em Pernambuco: o desafio agora é transformar potencial em competitividade
Complexo Colinas. Foto: Everaldo Drone
Complexo Colinas. Foto: Everaldo Drone

Pernambuco reúne condições privilegiadas para ocupar um espaço ainda maior no mercado brasileiro de energia solar. A disponibilidade de recursos naturais, a localização estratégica no Nordeste e a capacidade de atrair investimentos formam uma base importante para o setor. Mas o desafio agora vai além da abundância de sol: precisamos transformar essa vantagem em energia competitiva e desenvolvimento econômico.

A energia solar deixou de ser uma aposta de futuro para ocupar um espaço relevante na matriz elétrica brasileira. Por sua disponibilidade, a fonte solar é e sempre será a mais abundante do mundo, além de ser a mais rápida de instalar, características que reforçam seu papel estratégico na transição energética. O Nordeste, por sua vez, é o berço da energia renovável no Brasil, reunindo condições naturais privilegiadas para impulsionar essa transformação. Com a expansão, porém, surgiram novas questões. Já não basta construir usinas; é preciso garantir que a energia produzida seja aproveitada e comercializada em condições competitivas.

A experiência da Kroma Energia em Pernambuco ajuda a dimensionar esse potencial. Em Flores, o complexo solar São Pedro e Paulo tem capacidade instalada de 101 megawatts-pico (MWp), enquanto o complexo Colinas, localizado entre Garanhuns e Brejão, alcança 130 MWp. Os dois empreendimentos demonstram a capacidade do Estado de atrair investimentos em geração renovável, movimentar fornecedores e criar oportunidades econômicas também no interior.

O crescimento do setor, entretanto, esbarra em desafios de infraestrutura. Quando a rede elétrica não consegue absorver toda a energia disponível, as usinas podem ser obrigadas a reduzir ou interromper a produção, fenômeno conhecido como curtailment. Para o investidor, isso significa que parte da energia que poderia ser gerada deixa de se converter em receita.

Enfrentar esse problema exige planejamento integrado, ampliação da transmissão e coordenação entre a expansão da geração e o crescimento da demanda. Também precisamos avançar no armazenamento de energia, que permite guardar parte da eletricidade produzida durante o dia para utilizá-la em outros períodos. Não basta instalar novos parques solares: é necessário garantir condições para que a energia chegue ao consumidor.

A previsibilidade regulatória é outro fator decisivo. Projetos de geração exigem investimentos elevados e são planejados para operar durante décadas. Incertezas sobre regras, conexão à rede e comercialização afetam o financiamento e a disposição de investir. Um ambiente de negócios consistente depende de normas transparentes e segurança para decisões de longo prazo.

Nesse contexto, a abertura do mercado livre de energia representa uma oportunidade. Nesse modelo, consumidores habilitados podem escolher seus fornecedores e negociar condições de contratação, como preço e prazo. A partir de novembro de 2027, a abertura está prevista para consumidores industriais e comerciais de baixa tensão; em novembro de 2028, deverá alcançar os demais consumidores, incluindo os residenciais.

Essa ampliação pode aproximar geradores e consumidores e criar oportunidades para o fornecimento de energia renovável a indústrias, estabelecimentos comerciais e empreendimentos logísticos. Para Pernambuco, é uma possibilidade de estimular novos negócios e ampliar a demanda por energia limpa. O avanço, contudo, dependerá de informação aos consumidores, contratos adequados a diferentes perfis de consumo e planejamento do sistema elétrico.

Também há espaço para projetos que combinem diferentes fontes de geração e integrem produção, armazenamento e consumo. Essas soluções podem aumentar a flexibilidade do sistema e contribuir para uma oferta de energia mais confiável.

Os benefícios dos investimentos devem alcançar a economia local. O desenvolvimento de fornecedores, a qualificação profissional e a participação de empresas pernambucanas na cadeia produtiva ajudam a ampliar os efeitos dos empreendimentos para além da geração elétrica.

O próximo ciclo da energia solar exigirá mais do que ampliar a capacidade instalada. Infraestrutura, eficiência operacional e acesso ao mercado serão determinantes para a competitividade. Pernambuco tem recursos naturais e projetos para avançar. A oportunidade está em transformar esse potencial em novos negócios, produtividade e desenvolvimento econômico.

Rodrigo mello

*Rodrigo Mello é o CEO da Kroma Energia.

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