Atriz fala sobre sua trajetória nas artes cênicas, a participação em O Agente Secreto, os desafios da profissão e a importância daspolíticas públicas para a cultura pernambucana.
No fim dos anos 90, Fabiana Pirro trocou uma consagrada carreira de modelo para mergulhar na atuação e na arte da palhaçaria. Hoje com mais de 30 espetáculos e personagens, dirigida por importantes nomes do teatro e cinema brasileiro, a atriz já consolidou o seu nome no panteão de grandes atrizes de Pernambuco com um trabalho múltiplo como atriz, palhaça e produtora.
Desde os 15 anos ela trabalha com arte, já foi para São Paulo construir a vida, não aguentou de saudades e voltou para o Recife. Sua presença elegante, calma e simpática marcam uma série de filmes e espetáculos ao longo de 26 anos de carreira. Começou na atuação fazendo comerciais de TV e depois de um encontro com o diretor pernambucano João Falcão, o “bichinho da interpretação” a pegou de vez.
Em entrevista ao repórter Yuri Euzébio, da Revista Algomais, Fabiana fala sobre os desafios da vida de atriz, seu começo de carreira e a colaboração com Kléber Mendonça Filho em O Agente Secreto. A atriz também reflete sobre a importância das políticas públicas para a área da cultura e como foi a experiência de apresentar o Pernambuco em Perspectiva.

Revista Algomais – Você, como atriz nordestina, como é que você avalia a importância das políticas públicas para a cultura e quais as suas expectativas desse setor tão forte para economia criativa nos próximos anos?
Fabiana Pirro – Eu, enquanto nordestina, acho que a importância das políticas públicas são exatamente para que não precisemos arrumar as malas e ter que ir para outro Estado. Porque, por exemplo, nos anos 1990, quando eu comecei na moda, era irreal morar no Recife. Porque se você não fosse para São Paulo, não fosse para Nova Iorque, não funcionava. E as políticas públicas são feitas para isso, para estimular, para injetar dinheiro, para pensar junto conosco e em vez estarmos sempre nessa debandada do nosso lugar de força, do nosso chão.
Lógico que isso é ótimo, passar temporadas fora, mas sabendo que você pode voltar para casa e ter o que trabalhar, o que produzir e tudo isso são as políticas públicas que fazem também pelo artista. Estamos mostrando para o mundo a nossa força enquanto nação, enquanto Nordeste. Eu estou muito feliz assim, muito esperançosa, que vamos trabalhar bastante, que nosso cinema vai alcançar o mundo, que o nosso teatro vai continuar sendo incentivado, porque o cinema é uma grande indústria e o teatro é artesania pura. E que, por ser tão delicado, precisa de incentivos, porque nem sempre conseguimos fazer se não tiver. Eu estou acreditando bastante nessa equipe do Governo Federal para cultura. Espero que o nosso Governo em Pernambuco também invista cada vez mais em para levarmos nossa arte para o mundo, mas sem precisar ter que sair daqui para isso.

Revista Algomais – Você falou que começou na moda, eu queria entender como é que foi seu começo? Como é que você começou como atriz e quais as mudanças que você viu?
Fabiana Pirro – Eu comecei bem novinha, com 15 anos eu já estava viajando, já estava desfilando, fotografando nos anos 1990. Foi um período em que a moda veio forte junto com o Movimento Manguebeat. Eu sou fruto de Eduardo Ferreira, que é um grande estilista, um grande criador que desde sempre levou a nossa moda para o Sudeste, para o mundo, junto com a música, com a estética do mangue, com toda essa modernidade que o Manguebeat trouxe. Então, comecei com 15 anos e trabalhei com uma agência de São Paulo.
Mas depois de um tempo eu quis voltar, passei dez anos trabalhando como modelo. Mas, já trabalhava com televisão, fazia comercial com João Falcão aqui, Casa Araújo ali. E chegou uma hora em que queria me desafiar mais e com essa vontade de voltar para o Recife, fazer as coisas aqui porque sempre sentia muita saudade da minha cidade. Eu sou muito recifense, eu sou muito pernambucana. E calhou de João Falcão estar fazendo um grupo do A Ver Estrelas, que era uma galera que estava saindo da universidade. Irandhir Santos, Arilson Lopes, Nicole Pestana, Ana Luiza Aciolly. Entrei nesse grupo, vindo de São Paulo, da moda, e junto com o João, tinha a Livinha Falcão, que era assistente dele, Magdale também. Aí montamos esse grupo junto com o pessoal da Bahia, que fazia A Máquina, que tinha Wagner Moura, Lázaro Ramos, Vladimir Brictha… A Ver Estrelas foi a minha primeira peça oficial mesmo. Antes eu já fazia também participação na Paixão de Cristo. O teatro desde o começo me encantou. No A Ver Estrelas viramos uma família. Até hoje nos encontramos. Então, são 26 anos dedicados à produção e ao teatro diariamente.

Revista Algomais – Como foi participar de O Agente Secreto, esse fenômeno com tanto reconhecimento internacional?
Fabiana Pirro – Foi uma honra, uma sorte e uma alegria estar na hora certa, no lugar certo, para fazer parte desse elenco. Meu primeiro filme foi Cinema, Aspirinas e Urubus, em 2002. Entrei no cinema pernambucano e brasileiro por Marcelo Gomes e já participei de vários outros filmes. Trabalhei com Lírio Ferreira, Cláudio Assis, Marcelo Lordello, Pedro Severien… Tenho esses anos de trabalho no cinema, fazendo participações e sempre querendo trabalhar com Kleber. Nunca tinha feito nada com ele. Cheguei a fazer um teste para Aquarius, mas não rolou.
Quando Kleber disse: “Olha, Fabiana, é uma personagem com tempo de tela pequeno, é uma diária, mas ela é muito importante porque está logo no início do filme e é uma cientista, sabe? Trabalha com os tubarões. Então, eu quero você”, disse sim na hora.
É louco isso, porque o alcance dos filmes de Kleber e a força dessa parceria com Emilie são incríveis. Sabemos muito bem que, sem produção, não se faz nada. Emilie é de uma força enorme e, junto com a criatividade de Kleber, forma uma dupla perfeita.
É um filme muito político, que retrata uma época, mas, ao mesmo tempo, está o tempo todo dizendo: “Olha como as coisas são”. Eu gosto muito. Já assisti a tudo de Kleber e o acho genial. Para mim, enquanto atriz, foi um luxo ter participado de O Agente Secreto?

Revista Algomais – Fabiana, como você vê o cenário do teatro aqui em Pernambuco?
Fabiana Pirro – Eu acho que está crescendo, está em ebulição, porque o teatro é um termômetro da sociedade neste exato momento. Tem muita gente fazendo muita coisa boa, companhias, grupos que se juntam também com o circo, o teatro-circo. Nos anos 1980, tinha muita coisa boa acontecendo. O próprio João Falcão, com o Aramis Trindade, com Magdale Alves, eles tinham um grupo. E outros grupos existiam, como o Vivencial, que vinha dos anos 1970. Nos anos 1990, também tinha muita coisa acontecendo, mas muita gente saiu do Recife. Aí eu volto a essa história de dizer que, se todo mundo que é bom sai, aqui vai ficar faltando. E o que aconteceu foi essa migração, foi esse êxodo cultural que deixou uma lacuna aqui.
O que eu sinto é que, quando eu entrei, nos anos 2000, tinha muito isso: “Você vai fazer teatro?”. Porque, nos anos 1990, já tinha ficado esse lugar meio vago. E eu sempre digo que o teatro não vai morrer nunca, porque o teatro é primitivo. Ele não precisa da máquina, ele só precisa do homem, da mulher. Nós sempre precisamos nos vestir de bicho para caçar um bicho. Sempre existiu teatro de sombras nas cavernas. Tudo isso é o ser humano precisando se expressar, não é? E o teatro é a junção de várias artes. E tudo se resume no ser humano. Quem segura mesmo o estandarte ali, quem segura aquela carroça, é o ser humano no teatro.
Mas ele tem os seus silêncios. Então, quando eu entrei, tinha muito isso de que teatro aqui não existe. Existe, claro que existe! E aí você vai percebendo as pessoas saindo da universidade, do curso de artes cênicas, pessoas já das antigas que continuam nas suas pesquisas, o próprio Teatro Popular, que é uma riqueza absoluta.
Então, assim, muita gente está sempre fazendo, mas aí a gente volta para a história das políticas públicas, que vem com essa retomada do Baile Perfumado e tudo nos anos 1990, com os incentivos. Hoje, Recife é um polo cinematográfico. E o teatro, às vezes, é um dinheiro muito mirrado para tanta gente fazer tanta coisa. Mas tem muita gente nova fazendo coisas incríveis. Tem o Magiluth, tem o Coletivo Angu de Teatro, tem o pessoal da Combogó das Artes. Tem muita coisa acontecendo.

Revista Algomais – Fabiana, qual é a parte mais difícil de ser atriz que a sociedade não costuma enxergar?
Fabiana Pirro – Eu acho que é não desistir, mesmo com toda a instabilidade. A instabilidade é muito grande, às vezes é muito dolorosa. A arte nunca deu segurança. Não é uma profissão segura. Por isso que eu acho que existe uma lei natural mesmo, uma peneira natural que seleciona quem aguenta, sabe? Passa quem se reinventa também, porque eu acho que é isso: ficar esperando as coisas acontecerem não adianta. Você tem que se produzir, não pode esperar.
Então, acho que o que muitas vezes o povo não vê, e é muito difícil, é a sobrevivência diária. Porque parece até que subir no palco e dar o texto é a parte mais fácil. Difícil é você realizar, produzir, sensibilizar patrocinadores, porque também não pode ficar só esperando pelos editais. Eu não espero por nada, nem por ninguém. Vou fazendo. Por isso que tenho três monólogos e um grupo de teatro-circo, que é As Violetas da Aurora.
Estou sempre me juntando, me reinventando. Agora mesmo estou fazendo parte do Museu Clarice Lispector, estamos levantando dinheiro para fazer a reforma do casarão. Tenho a moda, que foi uma grande escola para mim. Também faço figurino, faço cenário, essa parte de direção de arte, que eu amo. Faço cinema. Então, é isso: você tem que ter muita garra para produzir. Isso ninguém vê. A pessoa pensa que a vida de artista é literalmente assim: acordar às 11 horas, decorar um texto, escutar Maria Bethânia… Tem gente que pensa que vivemos assim.
E não é. Acordamos todo dia cedinho, sentamos na frente do computador, nos juntamos com quem também quer trabalhar. Temos que ter a disciplina de treinar, porque também precisamos do corpo em atividade. Então, é uma profissão em que não dá para ter preguiça.

Revista Algomais – E como é ser atriz nesses tempos de redes sociais, uma nova vitrine, um novo espaço em que você precisa estar trabalhando, produzindo e divulgando o que faz? Como é lidar com isso?
Fabiana Pirro – Eu acho que é preciso ter a tranquilidade de também preservar o aterramento, aterrar e entender que cada momento é um. Usar a rede social a favor, para divulgar, para mostrar os processos criativos, isso é muito bom, porque dá retorno. Muitas vezes, o pessoal que me acompanha fala: “Nossa, Fabiana, eu fico te acompanhando na internet, assim, tu não para, não é?”. Aí eu digo logo: “As contas também não param”.
Eu não posso parar. É coisa em cima de coisa, mas tudo dentro de uma saúde mental. Hora de treino é treino, hora de divulgar é hora de divulgar. E tem a hora de sair da internet para se trancar e decorar 40 páginas. Tem que ter essa capacidade de dosar. As pessoas também ficam querendo ter acesso a muito da vida das outras pessoas, e não dá. Quando começa a tirar sua energia, você tem que dizer: “Opa, deixa eu voltar aqui para a minha costura, deixa eu voltar aqui para os livros”. Eu tenho meus limites de internet e não tenho muita curiosidade pela vida alheia.
O teatro é o jogo do encontro. Nós marcamos um encontro, a pessoa se arruma, se perfuma e vai para o teatro para se emocionar. Isso é muito nobre, porque o público só quer se emocionar com aquela história, aprender sobre algo novo que, às vezes, a pessoa nem sabe o que é. Aí assiste a um Shakespeare e a cabeça muda. É usar mesmo todas as ferramentas para sensibilizar cada vez mais as pessoas de que o encontro que acontece no teatro é um momento de saúde também.

Revista Algomais – E quando você recebe um personagem novo, Fabiana, qual o primeiro passo que dá para entender como é que é essa composição? Você estuda?
Fabiana Pirro – Sempre. O texto é um mapa. É como se a gente pegasse aquele papel para destrinchar, para encontrar aquele tesouro. Você pega um texto de teatro, de cinema, do que for, e diz: “Tenta entender o que é que essa criatura quer”. Depois que você lê, entende qual vai ser sua função. Aí eu saio do papel, vou para o corpo, vou para os sentimentos mesmo. Não me interessa o que está escrito ali agora, eu preciso é que meu corpo sinta aquelas coisas.
E muitas vezes são sentimentos que já foram visitados, então eu só volto para eles. Se são sentimentos que eu nunca visitei, ótimo, porque é aí que está o meu grande desafio de fazer isso com essa dúvida que nós sempre temos: se vamos fazer uma personagem honestamente ou não, se vamos dar conta. Isso também é muito estimulante, porque não tem jogo ganho.

Revista Algomais – Fabiana, como foi a experiência de trabalhar com a gente, da Algomais, apresentando o Pernambuco em Perspectiva? O que representou para você?
Fabiana Pirro – Foi uma aula. Foi uma experiência riquíssima, porque realmente eu não tinha conhecimento de vários assuntos que foram abordados. E estar ao lado de Francisco, que é uma pessoa de uma generosidade, de uma sabedoria e de uma tranquilidade nos assuntos, sempre visionário, uma coisa quixotesca mesmo, foi muito especial. Existem muitas pessoas sabidas que estão ali para ajudar realmente o governo, ajudar a nossa cidade a crescer.
O projeto inteiro foi ao lado de pessoas maravilhosas, com a direção de Leozinho [Leo Crivellare] e os convidados, que vieram todos com muito entendimento dos seus assuntos. Eu, como apresentadora e aluna ao mesmo tempo, ficava besta prestando atenção, porque, de fato, foi muito produtivo para mim enquanto cidadã.
Aprendi muitas coisas sobre a economia criativa. Nós somos sonhadores, somos pessoas que se encantam com um passarinho cantando. Mas, quando você começa a entender que também está nessa máquina de fazer o dinheiro acontecer, percebe que conseguimos trabalhar com coisas tão delicadas e, ao mesmo tempo, fazer parte da engrenagem desse País e do nosso Estado, que é tão cultural. A partir do momento em que você tem conhecimento do que está fazendo, a coisa ganha mais força e você fica mais empoderada.
