Com startups segmentadas, investimentos fora do eixo Rio-São Paulo e a força do Porto Digital, Pernambuco se firma como um dos principais polos de tecnologia financeira do Nordeste.
*Por Rafael Dantas
O segmento das fintechs revolucionou a maneira como os brasileiros realizam pagamentos, investimentos e até as compras mais simples do dia a dia. Após o alvoroço provocado pela fatia de mercado conquistada pelos bancos digitais, como Nubank e Inter, um número crescente de startups passou a se especializar em nichos que dão suporte ao setor. Essas empresas ampliaram a inclusão de novos consumidores e vêm criando soluções para diferentes demandas corporativas. Ao mesmo tempo, também foram alvo de investigações que mancharam a imagem do mercado e levaram à ampliação da regulação por parte do Banco Central. Nesse cenário, Pernambuco reúne experiências relevantes no Porto Digital, que continua atraindo investimentos.
O relatório Panorama Regional das Fintechs, elaborado pela Sling Hub e pela Torq, revelou um movimento de desconcentração dos aportes nesse mercado. Em 2025, o Nordeste captou 9,6% dos recursos (US$ 265 milhões) das quatro rodadas de investimento realizadas. Embora ainda distante do Sudeste, a região superou o Sul e o Centro-Oeste nesse tipo de operação. Pernambuco está entre os estados que vêm se beneficiando desse avanço e atraindo parte desses investimentos.

Segundo o relatório, o Nordeste possui 129 fintechs ativas. Ao todo 30 delas são de Pernambuco, que está a frente da Bahia (23) e bem perto do Ceará (32). O grande case local no segmento foi a Neurotech, nascida no Centro de Informática da UFPE e adquirida em 2022 pela B3, por mais de R$ 1 bilhão. Hoje, integra a Trillia, unidade de dados e inteligência artificial da B3, que mantém no Porto Digital uma operação com cerca de 350 profissionais e atende mais de 6 mil clientes em todo o País. O Estado tem outros players que ganharam tração no mercado nacional e até no exterior, como o Z.ro Bank e a Pague Bem Brasil.

Embora ainda muito concentrado no Sudeste, uma das novidades recentes do setor é justamente o direcionamento de investimentos no Nordeste. De acordo com Thiago Iglesias, Head da Torq, o capital privado está buscando oportunidades fora de São Paulo e Rio porque o mercado nesses centros está saturado.
“O Nordeste registrou a maior mediana de investimentos do País, mesmo com apenas quatro rodadas em 2025, o que mostra que fora do eixo principal também estão acontecendo operações relevantes em escala. O Porto Digital é um ponto fora da curva quando a gente fala de incentivar a inovação e o trabalho com startups na América Latina”, afirmou Thiago Iglesias.

Segundo o executivo da Torq, uma das mudanças mais importantes dos últimos anos é que empreendedores locais passaram a não precisar migrar para os grandes centros para buscar investimento. “Muitas vezes os fundadores do Nordeste precisavam ir para São Paulo para desenvolver seus negócios porque o capital estava concentrado lá. Hoje existe mais apetite para financiar operações fora desse eixo e isso permite que as empresas cresçam nos próprios estados.”
PERFIL DO PORTO DIGITAL
Se os nomes mais conhecidos no segmento são os bancos digitais, o perfil das startups do Estado é focado em operações que têm como cliente outras empresas, segundo a doutora em economia e professora da UniFBV Wyden, Amanda Aires. “Pernambuco tem uma característica muito particular nesse segmento: o Estado não se tornou um polo de fintechs voltadas ao consumidor final, como aconteceu em São Paulo com o Nubank e o PicPay, mas sim um celeiro de tecnologia para o mercado financeiro. E essa distinção importa, porque em muitos aspectos é uma posição mais estratégica e sustentável”.
Brotam, portanto, entre as 540 empresas embarcadas e 24 mil colaboradores do Porto Digital várias empresas que atuam com desenvolvimento de software com interface direta com o setor financeiro, em analytics, antifraude, crédito e segurança. Além das startups, há gigantes do mercado financeiro que também fincaram os pés no Porto Digital, gerando empregos e oportunidades de negócios locais.
“O Porto Digital vive um momento muito forte no setor financeiro. Além de fintechs que nasceram e cresceram no nosso ecossistema, como o Z.ro Bank e a Pague Bem Brasil, estamos atraindo grandes instituições financeiras. A chegada do centro de inovação do Bradesco e da operação do Banco Inter reforça o papel do ecossistema como um ambiente de inovação aberta para o desenvolvimento de soluções financeiras”, destacou o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena.

DO PORTO DIGITAL PARA O BRASIL E PARA O MUNDO
Quem subiu todos os degraus de aceleração dentro do Porto Digital e se consolidou nesse segmento foi a Pague Bem Brasil. A empresa desenvolveu uma plataforma de gestão de cobrança e recuperação de crédito baseada em WhatsApp, inteligência artificial e atendimento humano, destinada a médias e grandes empresas. Um dos focos da startup está no combate e na prevenção da inadimplência entre os credores e devedores. Após superar o chamado “vale da morte” das startups, a companhia encontrou seu modelo ideal de negócio e está escalando hoje no mercado nacional a partir de uma parceria com a gigante TOTVS.
Com a nova parceria, a Pague Bem Brasil prevê triplicar o faturamento em 2026. A empresa pretende alcançar o valor de mercado de R$ 105 milhões até 2028. “Hoje a empresa está num momento de maturidade comercial. Com a parceria da TOTVS, a gente ganhou uma força comercial incrível”, afirmou o fundador e CEO Álvaro Leal.

Outra empresa que já não é aposta há um tempo é o Z.ro Bank. Neste ano, a fintech decidiu focar no segmento B2B (business to business) e abriu um escritório em Zurique. Comandada por Edísio Pereira Neto, a empresa nasceu como banco digital multimoedas com o propósito de facilitar a vida das pessoas para que pudessem mover dinheiro com mais facilidade e confiança, retirando o atrito que existia entre o mundo cripto e o tradicional. “Evoluímos muito com mais de 1 milhão de usuários até nos tornarmos uma instituição com licença própria, autorizada pelo Banco Central. Após isso, desenvolvemos tecnologia financeira inovadora para grandes empresas e essa nova vertical passou a ser responsável por mais de 95% da receita da nossa instituição”.
O novo momento não é mais de concorrência pelo usuário final, disputando com gigantes, mas na infraestrutura de pagamentos. A aposta é de inclusive colaborar com as grandes corporações. “Encerrar o segmento B2C (Business to Consumer) foi uma decisão de foco, não de recuo, escolhemos ser a camada de tecnologia e liquidação para que outras empresas possam mover dinheiro com segurança e foi isso que nos levou ao ousado projeto de exportar nossa tecnologia do Recife para o mundo. Conseguimos uma licença para atuar como uma instituição autorizada na Suíça e este ano iniciamos operações na Argentina, Chile, Peru e México”, afirmou Edísio Pereira Neto.

DESAFIOS DO SEGMENTO EM PERNAMBUCO
O segmento das fintechs não é para amadores. Quem investe e se consolida nele são empresas que tiveram robustez para atravessar os desafios econômicos, tecnológicos e regulatórios dos primeiros anos, além de grande concorrência. Nesse contexto, Amanda Aires aponta que existem quatro nós enfrentados pelo setor.
O primeiro é o custo do capital. “Com a Selic no patamar atual, quase metade das fintechs está se financiando com capital próprio porque o mercado de crédito e o venture capital encareceram muito. Isso limita o crescimento e força uma postura de eficiência que nem todas estavam preparadas para adotar”.
Ela avalia que o segundo é a promessa não cumprida de democratização do crédito. Isso porque, apesar de chegarem com o discurso de baixar os juros, grandes players praticam taxas no rotativo que chegam a 889% ao ano. O terceiro ponto levantado pela economista é o aperto regulatório. “O Banco Central passou de uma postura de incentivo à inovação para exigir governança formal: capital mínimo, compliance, prevenção à lavagem de dinheiro e sede física. Para as fintechs sérias é um custo absorvível, mas para as menores que operavam em zona cinzenta, pode ser o fim do caminho”.
O último desafio levantado por Amanda Aires é a pressão tributária. O aumento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) das fintechs, de 9% para 15%, elevou a carga de impostos sobre o setor e reduziu suas margens de lucro.

Para sobreviver a todos esses desafios e ainda à concorrência global, o caminho para escalar novos negócios locais, segundo Álvaro Leal, é a segmentação. Quanto mais sofisticada e segmentada a solução, maior a chance de sobrevivência e crescimento das fintechs pernambucanas. “As fintechs são cada vez mais especializadas. Hoje há uma oportunidade enorme no setor para quem consegue identificar uma dor específica do mercado e desenvolver uma solução para resolvê-la”, afirmou Álvaro Leal.
ABALO NO SEGMENTO
Mas nem todo o avanço do setor ocorreu sem sobressaltos. O crescimento acelerado e a entrada de novos agentes também abriram espaço para distorções que colocaram o segmento sob escrutínio das autoridades. Apesar de surfar na onda da digitalização e do aumento da base de clientes nos últimos anos, o segmento enfrentou uma forte desconfiança após a Operação Carbono Oculto. Deflagrada no ano passado, ela revelou que algumas fintechs operavam como “bancos paralelos” do crime organizado.
Em resposta aos casos revelados pelas investigações e ao aumento da preocupação com a integridade do sistema financeiro, o Banco Central endureceu as exigências para os provedores de tecnologia que atendem instituições financeiras. A regulamentação passou a exigir maior capitalização, estruturas formais de governança, auditorias independentes, reforço nos controles de segurança cibernética e gestão de riscos, além de ampliar o monitoramento contínuo dessas empresas.
“Uma única fintech movimentou R$ 47 bilhões em quatro anos fora do radar da Receita. Na segunda fase, identificou-se que seis fintechs teriam movimentado R$ 26 bilhões ligados ao PCC. Os próprios órgãos investigadores foram claros: não se trata de uma acusação ao setor como um todo, mas de casos pontuais com alto grau de sofisticação criminosa. O problema é que o impacto reputacional é coletivo”, afirmou Amanda Aires.
Embora tenha aumentado o grau de exigências para quem permanece no segmento, há aspectos considerados necessários pelos empresários. Edísio Pereira Neto afirma que o impacto no segmento foi real e é legítimo. Porém, defende que o problema precisa ser compreendido com precisão. “Infelizmente banalizaram o tema fintech. Antigamente uma organização criminosa controlava os valores com papel e caneta, hoje, por motivos óbvios, eles usam um aplicativo próprio que se disfarça de fintech. Isso não é uma fintech, é apenas uma forma digital de controlar o crime”.
Diante disso, o CEO do Z.ro Bank avalia que foi fundamental que o Bacen elevasse o nível de exigência regulatória e de capital. “No passado, o BC optou por facilitar algumas exigências justamente para promover a inovação do mercado financeiro. Deu certo, o Brasil se tornou um dos maiores polos de inovação financeira, sendo referência mundial. Infelizmente, toda tecnologia é usada para o bem e para o mal. A pergunta que fica é se o caminho correto é culpar a tecnologia e proibi-la ou punir os verdadeiros culpados?”, problematiza o empresário.
Para Iglesias, a elevação das exigências do Banco Central deve reduzir o número de novas fintechs, mas tende a fortalecer as empresas que permanecerem no mercado. “Vai ficar mais difícil abrir uma fintech, mas isso não significa menos inovação. O que devemos ver é o surgimento de empresas mais robustas, com mais governança e mais capacidade de escalar.”
FUTURO DO SETOR

Ao que tudo indica, ainda há um forte horizonte de desenvolvimento das fintechs pernambucanas e de todo o serviço ligado ao segmento. Um mar de oportunidades para o universo corporativo e para o consumidor final. Ao mesmo tempo, com mais gente e mais recursos, crescem os riscos.
Para Edísio Pereira Neto, se os últimos anos foram de inclusão e de conquista do consumidor, os próximos serão de maturidade e infraestrutura. Segundo ele, a inovação deve avançar para áreas menos visíveis ao usuário, como a integração de serviços financeiros a plataformas de outros setores, o compartilhamento de dados entre instituições e o uso de inteligência artificial na análise de riscos e na prevenção de fraudes.
“Veremos consolidação: menos disputa por base de usuários e mais especialização em quem opera a engenharia financeira por trás das marcas. Entramos num ciclo de supervisão mais intensa, o que, no fim, é saudável: separa quem construiu tecnologia e governança de quem só surfou a onda”, afirmou o CEO do Z.ro Bank.
Enquanto a disputa pelos milhões de usuários dos bancos digitais continua nas mãos de gigantes do Sudeste, Pernambuco vem encontrando espaço em uma camada menos visível, porém estratégica, da transformação financeira. Em um mercado mais regulado e concorrido, essa especialização pode ser a vantagem capaz de manter o Estado relevante no próximo ciclo de inovação do setor financeiro.
*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)



