A iniciativa marca os cinco anos da organização e busca ampliar o acesso ao tratamento para famílias em situação de vulnerabilidade no estado.
Instituição que nasceu em uma garagem e hoje atende mais de 17 mil famílias une torcedores de Sport, Santa Cruz e Náutico em iniciativa que transforma a rivalidade dos gramados em solidariedade, garantindo tratamento gratuito, acompanhamento médico e inclusão social de crianças com Transtorno do Espectro AutistaCinco anos atrás, a Aliança Medicinal dava seus primeiros passos de forma modesta, funcionando em uma garagem e atendendo poucas famílias que buscavam uma alternativa para melhorar a qualidade de vida de crianças e adultos por meio da cannabis medicinal. O que começou como uma mobilização de mães, pacientes e profissionais da saúde tornou-se uma das maiores associações brasileiras dedicadas ao acesso terapêutico à cannabis, reunindo hoje mais de 17 mil famílias atendidas, uma rede com mais de mil médicos prescritores e uma estrutura consolidada para produção dos medicamentos.
A comemoração do quinto aniversário da instituição, realizada nesta semana, foi marcada por um novo passo nessa trajetória. A entidade lançou oficialmente a Aliança das Torcidas, projeto inédito em Pernambuco que reúne torcedores de Sport, Santa Cruz e Náutico em torno de uma causa comum: financiar o tratamento com cannabis medicinal para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Muito além da assistência médica, a proposta busca transformar uma das maiores paixões do pernambucano em instrumento de inclusão social. Em vez de alimentar a rivalidade entre clubes, o projeto aproxima torcidas para mostrar que a disputa termina quando o assunto é saúde, acolhimento e qualidade de vida.
A primeira etapa da iniciativa contempla nove pacientes, três representantes de cada torcida. Os beneficiados foram escolhidos pelos próprios grupos de torcedores de pessoas autistas, que identificaram famílias sem condições financeiras de custear o tratamento. A Aliança Medicinal será responsável pelas consultas, acompanhamento clínico e fornecimento gratuito dos medicamentos.
O lançamento também simboliza um novo momento institucional da associação. Depois de conquistar, há três anos, autorização judicial para funcionamento, produção e desenvolvimento dos medicamentos, a entidade obteve neste ano uma sentença favorável da Justiça Federal que fortalece sua segurança jurídica e assegura maior estabilidade para ampliar o atendimento.
Segundo o presidente da Aliança Medicinal, Ricardo Hazin Asfora, esse crescimento foi construído de forma gradual, sempre motivado pelos resultados observados na vida dos pacientes.
“A gente começou literalmente em uma garagem ajudando algumas mães que precisavam desse tratamento. Hoje atendemos mais de 17 mil famílias e contamos com mais de mil médicos prescrevendo cannabis medicinal. O maior combustível da Aliança são os relatos de mudança na qualidade de vida dessas pessoas”.
Para Hazin, o novo projeto representa uma evolução natural do trabalho desenvolvido pela instituição. A intenção não é apenas oferecer gratuitamente o medicamento, mas demonstrar que pessoas com deficiência podem ocupar todos os espaços da sociedade, inclusive ambientes tradicionalmente considerados desafiadores, como os estádios de futebol.
Ele explica que a iniciativa nasceu justamente da necessidade de ampliar a inclusão de crianças autistas em atividades de lazer e convivência social.
“A rivalidade precisa ficar apenas dentro dos gramados. Fora deles, precisamos estar unidos pela inclusão. Quando conseguimos inserir essas crianças dentro das torcidas e dos estádios, mostramos para toda a sociedade que elas pertencem a esses espaços”.
A diretora médica da Aliança Medicinal, Rafaela Espósito, afirma que o projeto une duas áreas que raramente dialogam de maneira organizada: saúde e esporte. Segundo ela, o objetivo é utilizar a força das torcidas como instrumento para ampliar o acesso ao tratamento.
Os pacientes contemplados passaram por uma seleção realizada pelas próprias torcidas organizadas de pessoas autistas, que identificaram aqueles em situação de maior vulnerabilidade e com potencial de responder positivamente à terapia com cannabis medicinal.
Após essa etapa, cada família iniciou avaliação médica individualizada para definição da conduta terapêutica.
“Inicialmente fazemos um acompanhamento muito próximo até encontrarmos a dosagem adequada para cada paciente. Depois entramos na fase de manutenção, sempre observando a resposta clínica e fazendo ajustes quando necessário”.
Rafaela explica que o modelo já havia sido implantado anteriormente no Rio de Janeiro, mas Pernambuco passa a ser o primeiro estado do Nordeste a adotar esse formato de integração entre futebol e assistência em saúde.Embora a ação tenha começado com apenas nove pacientes, a expectativa é que os resultados permitam ampliar o alcance da iniciativa nos próximos anos.”Estamos lançando esse projeto justamente no aniversário de cinco anos da Aliança. Agora vamos acompanhar os resultados para avaliar como essa iniciativa poderá beneficiar cada vez mais famílias”.Para quem vive diariamente a realidade do autismo, a oportunidade representa muito mais do que acesso ao medicamento.A dona de casa Silvia Sayonara, mãe de Maria Glaciela, de 11 anos, uma das crianças contempladas e integrante da torcida do Sport, conta que conheceu o projeto por meio de outras mães do grupo de torcedores atípicos.Até então, ela já tinha ouvido relatos positivos sobre o tratamento, mas nunca conseguiu iniciar a terapia devido aos custos envolvidos.
“Sempre ouvi outras mães falando sobre a cannabis medicinal, mas nunca tive oportunidade de chegar até esse tratamento. Hoje estou realizando esse sonho”.
Silvia também chama atenção para um aspecto muitas vezes esquecido quando se fala sobre autismo: a saúde física e emocional dos cuidadores.
Ela revela que convive com fibromialgia e acredita que o acolhimento oferecido pela associação beneficia toda a família.
“Estou muito feliz. Para cuidar dos nossos filhos, nós também precisamos estar bem. Esse acolhimento significa muito para mim e para minha filha”.
Idealizador da Aliança das Torcidas, o médico Leandro Ferro afirma que a proposta surgiu ao observar, na prática clínica, a melhora apresentada por crianças que passaram a utilizar cannabis medicinal, especialmente nos aspectos relacionados ao comportamento, à interação social e à rotina escolar.
Segundo ele, o tratamento repercute diretamente sobre toda a dinâmica familiar.
“Quando a criança melhora, toda a família melhora junto. Os pais passam a dormir melhor, diminuem a sobrecarga emocional e conseguem reorganizar a rotina”.
Para o especialista, a iniciativa pretende construir um modelo que possa ser reproduzido em outras regiões do país.
“Estamos abrindo uma porta. Começamos com um projeto piloto, mas queremos alcançar todas as famílias que precisam. O mais bonito é ver torcidas historicamente rivais caminhando juntas em favor da qualidade de vida dessas crianças”.
A expectativa da Aliança Medicinal é que o projeto desperte o interesse de atletas, ex-atletas, empresários e patrocinadores dispostos a financiar novos tratamentos. Quanto maior o número de apoiadores, maior será o alcance social da iniciativa e o número de crianças beneficiadas.
Cinco anos depois de nascer em uma garagem, a Aliança Medicinal consolida uma trajetória marcada pelo crescimento institucional e pela ampliação do acesso à cannabis medicinal. Agora, aposta na força do futebol para escrever um novo capítulo dessa história, mostrando que a rivalidade entre clubes pode dar lugar à solidariedade quando o objetivo é transformar vidas.
Serviço
Atletas, ex-atletas, empresários e demais interessados em patrocinar o tratamento de crianças atendidas pelo projeto Aliança das Torcidas podem entrar em contato com a instituição pelo Instagram @aliancamedicinal.


