Arborização, parques e outras soluções de infraestrutura verde podem reduzir a exposição a fenômenos extremos, mas dependem de políticas contínuas e prioridade para áreas mais expostas aos riscos climáticos.
*Por Rosália Vasconcelos
A arborização dentro das urbes precisa sair dos projetos paisagísticos para começar a integrar todas as áreas de um planejamento urbano, seja para tornar menos penosa a caminhada em um dia de calor ou para reter parte da água diante de fortes chuvas. Embora as legislações recentes tenham avançado bastante neste sentido, ainda estamos distantes de uma transformação real que integre as árvores como infraestrutura urbana capaz de tornar as cidades mais saudáveis, resilientes e humanas.
Dados do Censo 2022, sobre as características do entorno dos domicílios, mostram como as árvores ainda estão muito longe do planejamento público. Em Pernambuco, por exemplo, a falta de árvores já pode ser medida em milhões de pessoas. Mais da metade dos moradores considerados pela pesquisa, em áreas urbanas, vivem em ruas sem árvores.
Na soma dos municípios que compõem a Região Metropolitana do Recife, essa proporção chega a cerca de 56,95%, o que representa mais de 2,1 milhões de moradores, segundo cálculo publicado a partir dos dados do IBGE. Na capital, mais da metade da população mora em vias sem árvores ou com apenas uma. A presença de uma mata próxima ou um parque cercado não substitui a sombra no caminho cotidiano de quem mora numa rua descoberta.

O retrato ganha urgência diante do calor previsto para os próximos meses. Um relatório do Climate Impact Lab, da Universidade de Chicago, estima cerca de 750 mortes adicionais relacionadas ao calor em Pernambuco até fevereiro de 2027. Para o Brasil, a projeção é de 13,3 mil mortes no mesmo período. São estimativas modeladas, comparadas à média dos meses correspondentes entre 1996 e 2025, que combinam relações entre temperatura e mortalidade observadas em milhares de regiões com previsões sazonais.
A Organização Meteorológica Mundial informa que o El Niño está estabelecido e deve se intensificar até o pico, previsto para dezembro de 2026, alterando padrões de temperatura e chuva. O fenômeno não produz os mesmos efeitos em todos os lugares e não é a única causa do aquecimento. Mas a mudança do clima eleva a temperatura de fundo sobre a qual esses eventos atuam. Todos esses dados põem em evidência uma pergunta para as cidades e os gestores urbanos: como distribuir sombra, áreas verdes e proteção térmica com planejamento, continuidade e prioridade para quem está mais exposto?

Urbanistas lembram que as árvores urbanas não vão frear um fenômeno planetário, mas ajudam a reduzir a exposição local ao calor e a preparar bairros para extremos climáticos. “Precisamos superar a lógica da árvore isolada. Uma árvore produz sombra localizada, mas uma sequência de copas produz uma infraestrutura climática. O objetivo [da arborização enquanto política pública] deve ser construir continuidade de sombreamento, principalmente nos percursos de pedestres, ciclovias, corredores de transporte público, escolas, equipamentos de saúde e áreas de maior vulnerabilidade térmica”, afirma a CEO da Civia Inovação e Urbanismo, Evelyne Labanca.
A discussão não se resume a plantar árvores no passeio. Calçadas estreitas, acessibilidade, drenagem, iluminação e segurança de pedestres precisam ser consideradas em conjunto. A escolha de espécies e o preparo do solo também contam. Em alguns trechos, será necessário ampliar canteiros, criar faixas verdes, rever vagas de estacionamento ou instalar jardins de chuva. Em outros, a solução pode passar por combinar árvores com áreas permeáveis, sem bloquear a circulação nem comprometer outros aspectos da infraestrutura.
“Durante décadas, projetamos nossas ruas distribuindo espaço para automóveis, estacionamento, postes, redes aéreas e subterrâneas, sinalização, mobiliário e calçadas. A árvore, muitas vezes, ficou com o espaço residual. Depois dizemos que não cabe arborização. Portanto, o problema não é simplesmente falta de espaço. É como escolhemos distribuir esse espaço. Em vez de perguntar apenas onde cabe uma árvore, deveríamos começar a perguntar: que transformação urbana é necessária para que a árvore caiba?”, provoca Labanca.
A arquiteta e urbanista Élida Dias, especialista em arborização urbana, reforça que o espaço disponível para árvores não pode ser tratado como sobra depois que todos os demais usos foram definidos. “O planejamento da arborização precisa adotar diretrizes alinhadas ao potencial de plantio, redesenhando perfis de ruas com calçadas alargadas e canteiros contínuos, priorizando espécies de pequeno e médio porte com raízes adequadas, além de introduzir jardins de chuva e microflorestas urbanas nos espaços públicos que ainda estão vazios”, pontua Élida.

O próprio Plano de Arborização do Recife defende a ampliação da cobertura arbórea, especialmente nos bairros com déficit de árvores. Estudos realizados na UFPE também apontam a necessidade de um sistema arbóreo mais contínuo e distribuído pela cidade, segundo as urbanistas ouvidas pela reportagem. Os levantamentos revelam uma desigualdade de acesso ao verde na escala da calçada.
A ausência pesa de modo diferente sobre quem caminha até o ponto de ônibus, espera transporte, trabalha na rua, acompanha uma criança à escola ou tem uma casa que retém calor. Em uma cidade quente, sombra é conforto, mas também é condição para usar o espaço público. Ou seja, quanto menos verde, menores são as condições de acesso e permanência no espaço público.
No plano federal, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) tem reunido iniciativas para ampliar a cobertura vegetal nas cidades. O Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU) estabelece metas até 2045, enquanto o ArborizaCidades prevê investimentos em projetos municipais voltados ao plantio de árvores.
Para Maurício Guerra, diretor de Meio Ambiente Urbano do MMA, essas iniciativas precisam caminhar juntas com outras políticas: “É fundamental integrar a arborização às demais políticas urbanas. Essas ações precisam estar presentes no planejamento de mobilidade, saneamento, habitação e obras, por exemplo”.
Arborização pode reduzir até 5ºC a temperatura do ar
As árvores reduzem a incidência direta do sol por meio da sombra e ajudam a resfriar o ambiente pela evapotranspiração. Também protegem pavimentos e fachadas do aquecimento direto. O efeito varia conforme o porte e a densidade das copas, a espécie, a umidade, a ventilação, o horário e a forma dos edifícios. Por isso, os números de temperatura precisam indicar o que foi medido: o ar, a superfície do solo ou a sensação térmica de quem está na rua.
Renato Bochicchio, professor associado da Universidade Federal do Paraná (UFPR), acompanha projetos socioambientais e de arborização urbana desde 2006. Ele estima que, em escala urbana, uma redução média de 1 a 2 graus Celsius na temperatura do ar já é expressiva. Sob copas adultas e bem desenvolvidas, a diferença local pode baixar entre 3 e 5 graus durante eventos de calor.
Mas o professor faz uma ressalva: “são faixas gerais, não uma promessa para qualquer rua. A taxa de redução depende de muitos fatores, como a quantidade de sombreamento produzida, os níveis de poluição no local, a umidade, a altitude e o horário das medições”. Mas, segundo ele, sempre trará benefícios climáticos.

Um estudo publicado na Revista Brasileira de Ciências Ambientais, em 2024, identificou diferenças significativas de temperatura na capital pernambucana. Intitulada “Sensoriamento Remoto Aplicado a Parâmetros Biofísicos e Cobertura do Solo para Identificar Ilhas de Calor Urbanas no Recife”, a pesquisa encontrou uma diferença de até 5,2 °C na temperatura de superfície entre áreas mais densamente urbanizadas e aquelas com maior presença de vegetação.
Maurício Guerra lembra que o resultado desse estudo não significa que uma árvore, sozinha, reduza a temperatura nessa proporção. O resultado está relacionado justamente ao conjunto de características de uma área bem arborizada. “Esse efeito (de redução de calor) depende de várias características, como a quantidade de árvores, o tamanho das copas, a espécie utilizada e características das ruas e dos edifícios”, afirma Maurício.

Essa distinção é importante para avaliar políticas públicas. Uma medição de superfície feita por satélite não equivale à temperatura do ar à altura de uma pessoa. Tampouco um ponto sombreado representa toda a cidade. O que as evidências indicam é que a vegetação pode produzir microclimas mais amenos, reduzir a radiação recebida por pessoas e edificações e tornar atividades ao ar livre mais agradáveis e, sobretudo, saudáveis.
A copa também intercepta parte da chuva, enquanto raízes e solo permeável favorecem a infiltração e retardam o escoamento. Esses processos podem aliviar a pressão sobre a drenagem, mas não impedem automaticamente episódios de enchentes. Bochicchio defende que árvores, parques, áreas úmidas, jardins de chuva e solos permeáveis sejam planejados junto a galerias, canais e reservatórios.
“Um dos exemplos é a cidade de Curitiba. Em 2013, foi elaborado um projeto no conceito ‘cidades-esponja’, repensando a infraestrutura da cidade com relação à água. Os rios foram renaturalizados, áreas foram transformadas em parques que a população poderia usufruir e foi possível armazenar água nos períodos chuvosos”, cita Renato.
A arborização presta ainda outros serviços: cria abrigo e alimento para aves e polinizadores, contribui para a conectividade entre áreas verdes, retém parte de poluentes, como o gás carbônico, reduz ruídos e pode diminuir a demanda por refrigeração em edifícios. Estudos também associam o contato com áreas verdes à atividade física e ao bem-estar mental. Esses benefícios não são automáticos nem iguais para todos. Dependem da localização, da conservação e do acesso público a esse patrimônio verde.
Uma política de arborização que sobreviva às gestões
O Brasil passou a ter um plano federal dedicado exclusivamente à arborização urbana. Lançado durante a COP30, em novembro de 2025, o Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU) foi estabelecido pela Portaria GM/MMA nº 1.639, de março de 2026. O documento reconhece árvores como infraestrutura das cidades e fixa metas até 2045: elevar de 45,5% para 65% a parcela de moradores com pelo menos três árvores no entorno de casa; acrescentar 360 mil hectares de cobertura vegetal em áreas urbanas; e garantir que todos os municípios tenham instrumentos de planejamento para arborização.

O plano se inspira na regra 3-30-300: ver ao menos três árvores da residência, alcançar 30% de cobertura arbórea em cada bairro e morar a até 300 metros de uma área verde. As metas nacionais, porém, só produzem mudança quando viram orçamento, equipes e projetos municipais.
Uma das iniciativas federais para apoiar essa implementação é o ArborizaCidades, edital do Fundo Nacional do Meio Ambiente voltado a projetos que reduzam o calor urbano. O edital recebeu propostas de 388 municípios: 10 foram selecionadas no resultado preliminar divulgado no último mês de setembro, com previsão de cerca de R$ 20 milhões para os projetos.
Para o diretor de Meio Ambiente Urbano do MMA, o desafio é fortalecer a capacidade local e integrar as políticas. Além de o plantio precisar conversar com mobilidade, saneamento, obras, habitação e drenagem, também são necessários viveiros e fornecimento estável de mudas adequadas aos ecossistemas, inventários atualizados, metas de plantio e monitoramento. O número de mudas distribuídas ou plantadas não revela quantas sobreviveram, cresceram e passaram a oferecer sombra.
Pernambuco tem programas de restauração e produção de mudas, entre eles o Plantar Juntos, lançado em 2024 com meta anunciada de plantar quatro milhões de árvores nativas da Mata Atlântica e da Caatinga. A iniciativa contribui para a recuperação da vegetação, mas não equivale, por si só, a um plano de arborização das ruas: escolher áreas, espécies e métodos depende das necessidades urbanas de cada cidade e de cada bioma. A política estadual, porém, prevê o apoio aos municípios que desejem iniciar seus projetos de arborização urbana, através de orientação técnica, fornecimento de dados, articulação com viveiros e outros tipos de parcerias.
No Recife, há instrumentos legais e técnicos anteriores ao PlaNAU. A Lei Municipal nº 16.680, de 2001, prevê planejamento, plantio e monitoramento. A Lei Municipal nº 18.938, de 2022, atualizou regras para plantio, poda, supressão e compensação. E o Manual de Arborização Urbana do Recife orienta espécies e condições de plantio. A prefeitura da capital pernambucana também mantém a plataforma CAJU, com registros georreferenciados de mais de 274 mil árvores, segundo Evelyne Labanca. “O desafio é transformar esse conjunto em metas públicas por bairro, com prioridades para áreas quentes e menos arborizadas”, pontua a urbanista.
A legislação sobre telhados verdes também mudou recentemente. A Lei nº 18.112, de 2015, que obrigava a instalação em determinados empreendimentos, foi revogada com a entrada em vigor da nova Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo, em dezembro de 2025. A lei atual inclui telhado verde entre as soluções que podem compor a Taxa de Contribuição Ambiental exigida dos lotes, ao lado de piso permeável, jardineiras, fachadas verdes, preservação ou plantio de árvores e outras medidas. O telhado verde pode responder por até metade da taxa obrigatória. A diferença importa: a cidade não manteve a obrigação antiga nos mesmos termos, mas incorporou coberturas vegetadas a um conjunto mais amplo de qualificadores ambientais.
O Recife também tem iniciativas de parques e corredores verdes, embora a maioria se concentre em áreas nobres, onde uma parcela de verde já compõe a infraestrutura urbana. A principal dessas iniciativas é o Parque Capibaribe, concebido como um sistema de intervenções ao longo de 30 quilômetros do rio, com ações previstas em uma faixa de até 500 metros a partir de cada margem.

O projeto pode conectar espaços públicos, áreas verdes e percursos de mobilidade , como já acontece com o Parque das Graças. Essa integração também precisa alcançar ruas residenciais, rotas de ônibus e caminhos até escolas e unidades de saúde. A combinação dessas diferentes escalas é que aproxima a vegetação da vida cotidiana.
Plantio é começo, não resultado
A continuidade das políticas públicas de arborização urbana é um dos pontos centrais para Inês Domingues, arquiteta e urbanista que trabalha com adaptação climática. Uma muda precisa de cuidado nos primeiros anos, com rega, tutoramento, manejo e reposição quando não sobrevive. Sem equipe responsável e acompanhamento, os governos municipais e estaduais podem anunciar milhares de plantios sem saber quantas árvores chegaram à idade adulta e sem, de fato, consolidar uma infraestrutura arbórea. A copa que oferece sombra e os serviços que ela presta levam tempo para se formar.
As cidades também precisam evitar perdas desnecessárias de árvores adultas. Obras, podas mal executadas e supressões autorizadas podem comprometer um patrimônio ambiental construído ao longo de décadas. Plantar uma muda em outro lugar não recompõe a sombra perdida no local da supressão. Por isso, programas públicos precisam registrar tanto os plantios como a sobrevivência, a condição das árvores existentes, o aumento de cobertura de copa e a distribuição dos benefícios pelo território.
“Plantar é a parte mais visível e fácil de anunciar. Difícil é garantir que a muda vire árvore adulta e que não seja perdida por uma poda mal feita, uma obra ou uma supressão justificada porque vai ter compensação”, afirma Domingues.

Além disso, a prioridade territorial tem implicações sociais. Domingues alerta que parques e intervenções paisagísticas podem elevar o valor dos imóveis e pressionar moradores de baixa renda se não vierem acompanhados de medidas de proteção. Bochicchio também relaciona a arborização das vias ao direito à cidade. Ele defende que por ser equipamento público, a sombra precisa chegar a pessoas de diferentes classes e bairros. “Um projeto que melhora a paisagem, mas desloca quem já vive ali, distribui de forma injusta seus ganhos”, pontua.
A geografia do Recife torna essa questão visível. O Plano Diretor e a Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo podem orientar a ocupação, a permeabilidade do solo e a qualificação ambiental. Cabe aos programas de arborização traduzir esses objetivos em árvores cuidadas nas ruas e em áreas públicas bem conectadas. Essa combinação desloca a política do ato isolado de plantar para a organização de um sistema: inventariar o que existe, identificar lacunas, proteger árvores adultas, selecionar espécies adequadas, reservar espaço no projeto viário e manter o plantio.
A própria rua pode ser redesenhada para isso. Calçadas mais largas em pontos estratégicos, canteiros contínuos, jardins de chuva e árvores compatíveis com as redes aéreas e subterrâneas são algumas das alternativas. E, no caso do Recife, a legislação urbanística já prevê soluções ambientais como arborização viária, preservação de árvores, plantio nos lotes, telhados verdes e superfícies permeáveis. O cumprimento de regras em empreendimentos privados não substitui o investimento no espaço público, onde a sombra está disponível a quem não tem quintal nem cobertura verde.
A medida de sucesso, portanto, não deve parar na contagem de mudas. É preciso saber se as árvores sobreviveram, onde a copa cresceu, quantas pessoas ganharam sombra nos percursos cotidianos e quais bairros continuam expostos. Essa informação pode orientar o orçamento do ano seguinte e corrigir a concentração histórica de áreas verdes em regiões mais valorizadas. Um inventário aberto e atualizado também permite que a sociedade acompanhe podas, supressões, compensações e manutenção. “Sem esses dados, números de plantio dizem pouco”, diz Domingues.
A urgência do calor exige um conjunto de medidas de adaptação: ambientes de resfriamento, proteção de trabalhadores expostos, drenagem preparada para chuvas fortes, áreas verdes acessíveis e árvores mantidas por décadas. A arborização não substitui políticas de habitação, saúde, saneamento ou redução de emissões. Ela conecta essas agendas no espaço onde as pessoas vivem. “A solução mais adequada, portanto, não é escolher entre infraestrutura verde e infraestrutura convencional, mas combiná-las”, reflete Renato Bochicchio.
Em Pernambuco e na sua região metropolitana, onde a maioria dos moradores ainda encontra pouca sombra nas ruas, a decisão é também sobre como repartir o conforto urbano. Uma árvore plantada em uma calçada adequada e cuidada até formar copa pode mudar a experiência de um trajeto. Um corredor verde pode ligar parques e abrir espaço para caminhar. Um jardim de chuva pode reter parte da água. Para que esses efeitos deixem de depender de iniciativas pontuais, as cidades precisam tratar a arborização como infraestrutura pública: planejada, financiada, mantida e distribuída com justiça.
*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)
