Surda: A diferença é a questão

*Por Liliane V. Longman

Falar de inclusão da comunidade surda sem conhecer sua história é reduzir uma questão cultural, social e política a um mero problema de adaptação com os intérpretes de libras. É ignorar que cerca de 92% das crianças surdas nascem em famílias ouvintes e que, para muitas delas, é na comunidade surda ou na escola bilingue que acontece o encontro mais decisivo de suas vidas: o encontro com sua língua natural, com sua identidade e com o sentimento de pertencimento. Toda cultura nasce de uma língua.

Toda língua carrega uma forma singular de habitar o mundo. Se reconhecemos o direito dos povos originários de preservar suas línguas e culturas e ter escolas bilingues, por que ainda relutamos em reconhecer as pessoas surdas como pertencentes a uma comunidade linguística ? Por que insistimos em enquadrar a diferença nos limites da normalidade, quando é justamente a diversidade que sustenta a riqueza da experiência humana? Em nome de quem – e de que projeto de sociedade – se negam escolas bilíngues para surdos?

surda diferenca 2

Escrevo também a partir da minha própria história. Sou mãe de pessoas surdas. Vivi de perto a dor da oralização imposta. Vi o preço que muitas crianças pagaram e pagam ainda quando lhes é negado o direito à própria língua, à própria cultura e à possibilidade de construir uma identidade sem precisar renunciar a quem são.

Com o tempo, compreendi que a surdez não é uma deficiência à espera de correção. É uma diferença humana que encontra, na língua de sinais, uma das mais extraordinárias expressões da inteligência, da sensibilidade e da comunicação. Uma língua gestual-visual que amplia nossa compreensão sobre o próprio significado de linguagem e revela que existem muitas maneiras de perceber, sentir e interpretar o mundo.

É justamente essa experiência que o filme Surda nos oferece. Sua beleza não está apenas na qualidade estética, mas na verdade que sustenta cada cena. O filme nos desloca da posição confortável de quem observa para nos colocar diante do desafio da alteridade. Pela primeira vez, talvez, muitos espectadores experimentam a sensação de não compreender plenamente o que acontece, de ocupar o lugar de quem vive cotidianamente como minoria linguística, de quem tantas vezes é invisibilizado por uma sociedade organizada para os ouvintes.

Surda filme

Mais do que despertar empatia, o filme nos confronta. Faz perceber o nosso preconceito. O quanto nossas políticas públicas continuam marcadas pela lógica ouvinte, que insiste em decidir sobre a vida dos surdos sem reconhecer sua voz, sua língua e sua experiência. Negar ou fragilizar a escola bilíngue não é apenas uma decisão pedagógica; é uma decisão política. É negar o direito de uma comunidade de transmitir sua língua, sua memória, sua cultura e sua história às novas gerações.

Talvez o maior mérito do filme seja justamente este: lembrar-nos de que inclusão não significa tornar o outro semelhante a nós. Significa reconhecer sua diferença como legítima e compreender que nenhuma sociedade será verdadeiramente democrática enquanto exigir que alguns abandonem sua língua, sua cultura ou sua identidade para serem aceitos.

A humanidade não se fortalece quando elimina as diferenças. Ela se torna mais rica quando aprende a conviver com elas. E talvez ainda tenhamos muito a aprender com aqueles que, mesmo vivendo em um mundo que insiste em não os ouvir, nunca deixaram de nos ensinar novas formas de linguagem, de encontro e de humanidade.

Lilian

*Liliane V. Longman é professora e mestra em Políticas Públicas. Sócia fundadora da Geração XMais e autora do livro Memórias de Surdos.

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