Data centers: Pernambuco deve transformar exigência ambiental em vantagem competitiva

A infraestrutura que sustenta a inteligência artificial está sendo construída agora, e boa parte dela vem para o Nordeste. A ByteDance já ergue um complexo no Porto do Pecém, no Ceará, com investimento estimado em R$ 200 bilhões. A Casa dos Ventos estrutura na região outro empreendimento de grande porte.

Há razões objetivas para isso. Sol e vento em escala industrial, energia a custo competitivo e os cabos submarinos que ligam o Brasil ao mundo, que chegam pelo nosso litoral. Pernambuco tem as mesmas condições e Suape reúne quase todas: porto, área industrial consolidada e infraestrutura energética. Cabe perguntar em que termos vamos recebê-los. É boa hora, porque a resposta técnica já existe.

Um data center de 300 megawatts, porte dos maiores projetos anunciados no País, demanda o equivalente ao consumo elétrico de uma cidade de dois milhões de habitantes. É bastante energia, mas trata-se de insumo que se planeja. Com contratos de compra de longo prazo e subestação própria, esses empreendimentos entram no sistema sem pressionar a rede que abastece a população. Aí, a matriz limpa do Nordeste e de Pernambuco passam a valer dinheiro.

Data Centers PE 2

A água costuma preocupar mais, com razão numa região que conhece a escassez. Ocorre que a tecnologia avançou rápido. Já operam no Brasil data centers de grande porte refrigerados inteiramente a ar e com circuito fechado de água, com indicador WUE igual a zero. O que importa é dimensionar esse consumo e seu custo ainda na fase de projeto, quando há como ajustá-lo.

Com calor e ruído acontece algo parecido. Refrigeração eficiente, telhados de alto albedo, vegetação no perímetro e o posicionamento correto de geradores resolvem a maior parte das questões, e custam pouco quando entram no desenho inicial.

O calor, aliás, guarda uma oportunidade que ainda não exploramos. Essas instalações produzem continuamente calor de baixa temperatura, hoje simplesmente dissipado, e os processos térmicos de dessalinização trabalham nessa mesma faixa. Suape fica no litoral, o Semiárido convive com déficit hídrico e universidades daqui já dominam essa tecnologia.

Um data center costeiro poderia, portanto, usar o calor que descarta para produzir água. A ideia exige estudos de engenharia e viabilidade econômica, mas é esse tipo de inovação que Pernambuco deveria perseguir. Deixaríamos de enxergar o empreendimento apenas como consumidor de recursos para pensá-lo como infraestrutura capaz de combinar processamento digital, energia renovável e produção de água.

O licenciamento ambiental é onde essa escolha se concretiza. A Lei Geral do Licenciamento Ambiental, de 2025, criou modalidades mais ágeis, bem desenhadas para empreendimentos de baixo impacto. Projetos de grande porte pedem outro tratamento, com outorga de água pelo consumo real, avaliação de efeitos térmicos e acústicos e diálogo antecipado com as comunidades vizinhas.

Nada disso cria barreira ao investimento. Estabelece as condições para que ele aconteça com segurança. O investidor sério não procura ausência de regras, procura regras claras e previsibilidade. Sabemos quais são os impactos e existe tecnologia para mitigá-los.

A definição precisa vir agora. Em julho, o Conselho Nacional do Meio Ambiente solicitou normas específicas para o setor, e elas virão mais exigentes. Pernambuco pode se antecipar, identificando áreas adequadas, planejando infraestrutura e definindo critérios técnicos antes que os projetos batam à porta.

Nosso Estado tem energia renovável, infraestrutura industrial e conectividade. Pode oferecer também capacidade técnica e previsibilidade ambiental. Não precisamos escolher entre desenvolvimento e sustentabilidade. Podemos usar a sustentabilidade para viabilizar um novo ciclo de desenvolvimento.

Mauro Buarque

*Mauro Buarque é CEO e cofundador da Método Ambiental, consultoria de licenciamento ambiental sediada no Recife

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