Pesqueira do doce, da renda e dos caiporas – Revista Algomais – a revista de Pernambuco

Pesqueira do doce, da renda e dos caiporas

Ela já foi chamada de “A Terra das Chaminés”, “A Terra do Doce e da Renda” e, por último, “A Saída do Agreste”. O Sertão vem logo depois. Todos os títulos fazem jus. Os seus 135 anos parecem estar impressos nos vários casarões e sobrados, alguns do século 18, ainda conservados. Isso nos leva a imaginar o movimento da cidade no início do século 20. O cenário traz uma bela história de um passado glorioso. Vamos conhecer Pesqueira pelo roteiro de Carlos Sinésio Cavalcanti, jornalista, poeta e escritor nascido ali.
A cidade fica a 215 km do Recife. Por ser um local de peregrinação religiosa, nosso ponto de partida começa no Centro da cidade, na Catedral de Santa Águeda, a padroeira , reformada recentemente. O templo recebe elogios dos visitantes. Em seguida, vamos até o Convento São Francisco, construído em 1908. Ali pertinho, temos o castelo de Edvonaldo, obra de estilo indefinido, inacabada, iniciada há mais de uma década. É vista de longe devido aos seus “minaretes” altos e extremamente coloridos. Virou uma curiosa atração turística.
Sinésio nos leva à Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, na Rua Cardeal Arcoverde, onde encontramos o Palácio do Bispo e um museu. A igreja foi a primeira da cidade, erguida em 1802. Visitar o famoso Seminário de São José, por onde passou tanta gente famosa, é quase obrigatório. Vizinho, temos o imponente prédio da prefeitura, que já foi a casa do industrial Antonio Didier, fundador da tradicional fábrica de doces Rosa.
Bem pertinho, também, está o Centro Comercial Rosa, onde funcionou a fábrica de derivados do tomate Rosa. O local abriga, atualmente, o Museu do Doce, com rico acervo em máquinas, fotos e tachos de cobre. O espaço é muito bom para comprar peças de renda renascença nos diversos boxes. Aliás, Pesqueira desenvolveu e deu fama a essa renda que teve na vizinha cidade de Poção o seu nascedouro. Hoje, a renda é exportada para o mundo todo, com sucesso, e até merece festa no mês de setembro. Um dos projetos do governo municipal é construir o Memorial da Renascença.

TERRA SANTA. O Santuário da Graça passa a ser a parada seguinte. Fica em Cimbres, no Sítio Guarda, a 24 km de Pesqueira. Lugar místico e milagroso, onde Nossa Senhora das Graças apareceu às Marias – Conceição e da Luz – em agosto de 1936. Ambas adolescentes. O fato mereceu profundos estudos da Igreja Católica e a aparição da Virgem não foi imaginação infantil, atestam os religiosos. Desde então, o solo sagrado foi transformado em centro de peregrinações por todas as classes sociais. Artistas famosos, políticos e populares frequentam o santuário, com fé, pedindo ou agradecendo graças. Alcançar a imagem da santa (com dois metros de altura), protegida numa gruta, requer um razoável preparo físico, pois são 306 degraus, além de um percurso a pé. De lá, avista-se quase toda a cidade, e ninguém resiste à contemplação e admiração por tudo que o mirante oferece. E faz frio.
A palavra cimbres significa “armação que suporta pesos em construção civil”, e o local que leva esse nome é o maior reduto indígena do Nordeste. Dista do Centro 18 km em estrada quase totalmente pavimentada, mas carece de alguns cuidados por ser estreita. A Vila de Cimbres já foi poderosa. Sendo zona de transição, sua extensão territorial abrangia todo o Sertão até o fim do Estado, atingindo o Norte de Minas Gerais, segundo o pesquisador José Florêncio Neto, que salvou a documentação comprobatória, durante uma inundação na prefeitura. O local começou a ser povoado em 1654, e rapidamente foram construídos os prédios da Câmara, Cadeia e Ouvidoria, além da Igreja de Nossa Senhora das Montanhas (a imagem primitiva está no altar), considerada a pioneira da região. Em pouco tempo, Cimbres era o centro político e administrativo, inclusive do Sertão. Por isso, chegou ser chamada de Atenas do Sertão. Esses prédios ainda estão de pé e são testemunhas daquela época.
Entretanto, a cidade – conta Sinésio – remonta a 1800, na Fazenda Poço Pesqueiro (daí o nome Pesqueira), localizada no pé da serra, tendo progredido rapidamente. É tanto que, 36 anos depois, a fazenda produtiva passou à categoria de Vila. Mas, somente anos depois, a fazenda e Cimbres ficaram unidas geograficamente com o nome de Pesqueira. Do apogeu, Cimbres passou a mero distrito.
Ainda nessa área, o visitante encontra reservas naturais, matas,trilhas e cachoeiras. O alpinismo não pode faltar diante de tantas serras. O local preferido é a Serra do Gavião, com 755 m. O local serviu de esconderijo para o bando de Lampião no final dos anos 30. A Serra do Ororubá, com suas 24 aldeias indígenas e uma população de 12 mil xucurus (civilizados), tem lagos, açudes, cachoeiras e uma rampa natural para voos livres, usada em campeonatos de asa-delta. “A paisagem ajuda a relaxar. O banho na Cachoeira do Vale das Cascatas, com uma queda de seis metros de altura, emociona”, descreve Sinésio.
Ainda pode ser feito um passeio nas trilhas da Serra de Minas, sugere o nosso guia. Aí temos árvores centenárias, banho de bica e piscinas naturais. A poucos quilômetros, existe a Trilha do Gavião. São 15 km até o topo da montanha, onde moravam os índios pataxós. Uma lenda conta que em cima dessas árvores surgiam tochas sobrenaturais assustando os passantes. Essas assombrações ficaram conhecidas como caiporas – seres noturnos que amedrontavam pessoas e animais. Para acalmá-los, era costume colocar fumo e cachaça nos troncos das árvores. A lenda foi transformada em folclore. Hoje, os caiporas são atrações carnavalescas. Durante os três dias de folia, homens, mulheres e crianças saem às ruas vestidos com estopas e máscaras gigantes pintadas. Aliás, Pesqueira possui um dos mais animados carnavais do interior.

DONA YAYÁ. No início do século 20, Pesqueira era o maior produtor de goiaba da região. A fabricação de doces era forte costume doméstico. Dona Maria da Conceição Cavalcanti de Britto, uma senhora doceira conhecida por dona Yayá, casada com Carlos Britto, resolveu desenvolver uma linha de produção industrial. Comprou tachos a vapor, de procedência inglesa, e mecanizou a produção com a contratação de operários. Em 1904, a fábrica Peixe produzia a todo vapor, sendo a primeira unidade do Nordeste. O sucesso foi tanto que provocou o surgimento de outras fábricas, como Rosa, Tigre, Cica e Maravilha. A concorrência com São Paulo prejudicou todas elas que simbolizavam a prosperidade da região e deram origem ao apelido da cidade: Terra das Chaminés. O desenvolvimento de Pesqueira deve-se, em grande parte, à dona Yayá, uma mulher de visão.
A indústria de doces incentivou, ainda, a construção de um aeroporto, do Jóquei Clube, de uma revendedora de automóveis Ford, além de cinco jornais semanais e outras indústrias espalhadas pelos quatro cantos da cidade.
Atualmente com 65 mil habitantes, Pesqueira se destaca pela produção de renda renascença entre outros segmentos que surgiram, recentemente, a exemplo dos estofados (o segundo polo moveleiro do Estado) e da ração para animais. Oferece bons hotéis, restaurantes e bares, além de um comércio diversificado. É uma cidade que reúne religião, gastronomia, arquitetura, artesanato e eventos culturais. As festas mais tradicionais são a da padroeira, Santa Águeda, a do Doce e da Renda, o Carnaval e a Missa do Sanfoneiro, no meio do ano. Visitar a charmosa Pesqueira é reviver a sua antiga imponência.

(Por Wanessa Campos)

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