PEQUENAS INDÚSTRIAS, GRANDES DESAFIOS NO AGRESTE: Mesmo com faturamento recorde e expansão de empresas locais, setor teme impactos do fim da “taxa das blusinhas” e cobra redução de tributos, melhorias na infraestrutura e mais qualificação de mão de obra.
*Por Rafael Dantas
O Brasil veste muita roupa made in Pernambuco. O Polo de Confecções do Agreste, formado principalmente por pequenas e médias empresas, faturou R$ 18,6 bilhões em 2025 e movimenta intensamente a geração de empregos na região. Enquanto o Estado ainda figura entre as maiores taxas de desemprego do País, o setor enfrenta dificuldade para encontrar trabalhadores para atuar nas suas fábricas. Esse ambiente aquecido acompanha com apreensão o fim da chamada “taxa das blusinhas”. A medida facilita a entrada de produtos asiáticos no mercado brasileiro e reduz a fatia de consumidores do polo pernambucano. Ao mesmo tempo, os empresários e trabalhadores locais convivem com desafios históricos como a infraestrutura viária e o abastecimento d’água, além da escassez de mão de obra.
Os números da Secretaria da Fazenda de Pernambuco em 2025 mostram que os negócios do polo cresceram 19,2% em relação ao ano anterior. Foram R$ 3 bilhões a mais de faturamento que em 2024, mesmo em um período em que a economia brasileira cresceu menos e foi muito afetada pelo endividamento. Todo esse desempenho coincide com o período em que a “taxa das blusinhas” esteve em vigor.

“O mercado está em franca expansão e Pernambuco se coloca entre os maiores do País. Nosso produto é comercializado em todas as regiões do Brasil porque tem preço, qualidade e capacidade de produção. Mas, sem incentivos, estaremos enterrando a indústria de confecção”, alertou Pedro Miranda, diretor-presidente do NTCPE (Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecções em Pernambuco).
O avanço dos importados no mercado brasileiro já vinha acelerando antes mesmo do fim da “taxa das blusinhas”. Dados do IEMI (Instituto de Estudos e Marketing Industrial) mostram que a participação de peças importadas no consumo interno de vestuário passou de 12,9% em 2021 para 22,2% em 2025.
A preocupação do setor é para o fato de que o fim do imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 (feitas em plataformas como Shein, Shopee e AliExpress) criaria uma concorrência desigual. O empresário e integrante do Conselho Consultivo da CDL de Santa Cruz do Capibaribe, Bruno Bezerra, ressalta que a indústria nacional vive um cenário de forte assimetria competitiva. “As empresas brasileiras enfrentam alta carga tributária, juros elevados, excesso de burocracia em todas as esferas de governo, logística cara e obrigações trabalhistas pesadas, enquanto empresas chinesas operam com carga tributária muito menor, mínimos encargos trabalhistas, forte apoio estatal, fácil acesso a avanços tecnológicos e custos gerais bem mais baixos”.

A crítica é reverberada também pela empresária Rafaela Arruda, diretora da Peixote Kids. A retirada das taxas sobre importados amplia ainda mais a desigualdade competitiva entre empresas brasileiras e plataformas internacionais. “Quando produtos importados entram com menos encargos, o desequilíbrio competitivo aumenta e enfraquece a produção nacional”, afirma. Sediada em Santa Cruz do Capibaribe, a marca de moda praia infantil produz cerca de 10 mil peças por mês, atende lojistas de diversas regiões do País e emprega aproximadamente 50 colaboradores diretos.

As consequências esperadas são a redução de uma fatia importante do consumo, que tende a seguir para o produto importado, e a consequente diminuição dos investimentos e de postos de trabalho na região. Para se ter uma ideia do impacto da instituição dessa medida em 2024, um levantamento da CNI (Confederação Nacional da Indústria) indicou que a “taxa das blusinhas” preservou 135,8 mil empregos no País e manteve R$ 19,7 bilhões em circulação na economia brasileira.
ALTERNATIVAS PARA ENFRENTAR A MUDANÇA

Mesmo com o impacto estimado pela indústria, o imposto nunca conquistou apoio popular. Um estudo realizado pela Atlas/Bloomberg apontou que 62% dos brasileiros consideram o tributo como principal erro da gestão Lula. Diante desse contexto desafiador político e econômico, o pleito dos empresários da confecção não é pelo retorno do imposto, mas por uma isenção de cargas tributárias para a indústria nacional. Uma alternativa que baratearia também o produto brasileiro.
Para Arnaldo Xavier, CEO da Rota do Mar, a principal preocupação do arranjo produtivo pernambucano não é impedir a entrada de produtos estrangeiros, mas construir uma política de igualdade tributária que permita às empresas brasileiras competirem em condições semelhantes, sem prejuízo para a indústria local e para os empregos gerados na região. “Se tira a taxa de um concorrente nosso, tira a nossa também e, consequentemente, a população vai ganhar, porque a gente vai vender também mais barato. O que a gente quer é igualdade, só isso”, resume Arnaldo Xavier.

Outra proposta que ganha força no debate é a criação de critérios diferenciados para produtos com forte vocação produtiva nacional e elevada capacidade de geração de empregos no Brasil. Nesse contexto, representantes do setor defendem um tratamento tributário mais estratégico para segmentos industriais consolidados, como o de confecções. “É fundamental construir uma diferenciação mais inteligente: produtos que o Brasil fabrica e que geram empregos, como roupas, deveriam ter maior proteção. Já produtos que o País praticamente não produz, como alguns componentes eletrônicos, acessórios e dispositivos tecnológicos, poderiam ter carga menor”, exemplificou Bruno Bezerra.
Nesta semana, empresários do setor estão em articulação com o Governo do Estado e com parlamentares na Câmara dos Deputados e no Senado Federal para construir alternativas que reduzam o impacto no polo. “Infelizmente são dois pesos e duas medidas e de forma desfavorável para quem gera emprego e renda no Brasil. As entidades estão se mobilizando e tentando conciliar a classe política, que não quer adotar posicionamento impopular próximo de uma eleição. Mas alguns parlamentares estão tentando moderar a medida e mexer um pouco nesse projeto de lei que zera taxas”, explicou João Bezerra, empresário em Caruaru e diretor da Unidade Regional Agreste da Fiepe (Federação das Indústrias) e presidente do Sinditêxtil-PE (Sindicato Têxtil de Pernambuco).

DESAFIO DA INFRAESTRUTURA
Além das questões tributárias, um dos grandes gargalos do polo é a logística. Com uma operação de “Copa do Mundo” a cada final de semana, as estradas que conectam Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruaru aos seus clientes de todo o País são insuficientes. Engarrafamentos quilométricos, obras que demoram décadas para serem concluídas e a insegurança são fatores ressaltados por Allan Carneiro, diretor da marca infantil Zizinha Kids e ex-síndico do Moda Center por quatro anos.
“A infraestrutura demora muito para chegar na região. Foi feito o término de um trecho da duplicação da BR-104, de Caruaru até Pão de Açúcar, na entrada de Santa Cruz, uma obra que começou há quase 20 anos. Ainda falta o contorno de Toritama para ter uma via duplicada. A cada quatro anos entregam uma pitada. Em alta temporada, o consumidor demora cinco horas para chegar no Moda Center”, criticou Allan Carneiro.
Outro problema crônico da região é a falta de abastecimento de água. O setor de confecções, inclusive, é um grande consumidor. Os empresários consideram que os recentes investimentos na Adutora do Agreste reduziram a escassez nas torneiras, mas ainda é insatisfatório. “ É um problema crônico dos últimos 50 anos. Eu diria que a parte de estradas, que era um gargalo muito forte, está sendo contemplada agora. Precisamos ainda de mais segurança nas estradas e nas feiras”, afirma Arnaldo Xavier.
MÃO DE OBRA ESCASSA

O grande desafio apontado pelo diretor da Rota do Mar, no entanto, é a disponibilidade de trabalhadores para sustentar o crescimento do setor confeccionista. Ele afirmou que parte da produção da marca e do setor têm migrado para a Paraíba e até para o Rio Grande do Norte.
Além de perder postos de trabalho para os estados vizinhos, há mais uma pressão para o preço dos produtos fabricados no polo do Agreste, segundo João Bezerra. “Algumas confecções estão precisando trazer peças fora do Estado porque não há mão de obra. É ruim para Pernambuco, porque gera emprego fora e o custo eleva também com deslocamento até próximo a Natal”, avalia o diretor da Fiepe.
O cenário vivido pelo polo, inclusive, contrasta com a realidade de Pernambuco, que mantém a segunda maior taxa de desocupação do País, com 9,2%, segundo a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), do IBGE, referente ao primeiro trimestre de 2026. O índice estadual só é menor que o do Amapá.
O diretor-presidente do NTCPE destaca que Pernambuco tem avançado na qualificação profissional para atender a demanda do setor, inclusive com a expansão do polo para municípios do Sertão e da Zona da Mata. Um dos esforços recentes é a implantação de Laboratórios de Prototipagem em 10 cidades com disponibilidade de trabalhadores, reforçando as estratégias de formação do poder público. “Precisamos cada vez mais de mão de obra. É uma indústria que emprega muita gente e que exige pouca capacitação inicial. Ainda temos municípios do Sertão, da Zona da Mata Norte e Sul com mão de obra disponível”, ressaltou Pedro Miranda.
Os espaços receberão equipamentos e cursos permanentes de capacitação em confecção e prototipagem, em parceria com prefeituras, secretarias de desenvolvimento e associações locais. A iniciativa busca descentralizar a produção têxtil no Estado. “Em Macaparana, na Mata Norte, por exemplo, já funcionam mais de 200 facções trabalhando para o Polo de Confecções”, afirmou. Cidades como Tacaratu, Belém de Maria e Tracunhaém estão entre as que recebem essas estruturas de formação.
INOVAÇÃO PARA COMPETIR

Apesar do cenário tempestuoso, de pressão internacional, o polo segue investindo em expansão, tecnologia e reposicionamento de mercado. A Rota do Mar prepara a inauguração de uma nova fábrica entre setembro e outubro deste ano. Segundo Arnaldo Xavier, a unidade foi projetada com foco em sustentabilidade, inovação e aumento da capacidade produtiva, acompanhando o crescimento do mercado ligado ao universo fitness e wellness, especialmente da nova marca do grupo, a Hausport. “Posso assegurar que é a fábrica de confecção mais moderna de Pernambuco, com vários diferenciais sustentáveis”, garantiu.
Atualmente, a empresa conta com cerca de 400 colaboradores diretos e outros 250 trabalhadores indiretos ligados à cadeia produtiva parceira, totalizando aproximadamente 650 pessoas envolvidas nas operações do grupo. Com a nova unidade, a expectativa é ampliar ainda mais esse contingente, com a contratação de cerca de 30 a 40 novos funcionários ainda neste ano. Além do investimento industrial, a empresa também negocia a abertura de novas lojas no Recife e projeta expansão para mercados como João Pessoa e Fortaleza.
Já a Zuzinha Kids possui um plano de expansão ambicioso para os próximos anos, mesmo diante das dificuldades enfrentadas pelo setor. Com 18 anos de atuação, a empresa familiar possui lojas em Santa Cruz do Capibaribe e Toritama e atende cerca de três mil clientes ativos em todo o Brasil, além de iniciar exportações para o Paraguai. A empresa ampliou a fábrica há dois anos e projeta dobrar de tamanho em até cinco anos. A meta é passar também dos atuais 60 para cerca de 100 funcionários com carteira assinada. O crescimento deve ser impulsionado pelo fortalecimento das vendas online, pela ampliação da atuação em outros estados e pelo avanço gradual no mercado internacional.
“Queremos avançar na exportação. Temos um trabalho estratégico e enxergamos mercado na América do Sul que consome nosso produto e dá para a gente entrar. É uma oportunidade. Vou também até a China para ver o que está acontecendo lá, a estrutura de produção e tecnologia. Precisamos estar atentos, investir em capacitação e treinamento”, conta Allan Carneiro sobre os movimentos para manter a competitividade da marca que produz aproximadamente 300 mil peças por ano.

Além da modernização industrial, empresas do polo têm investido no fortalecimento de marca e na digitalização das vendas. Segundo Rafaela Arruda, diretora da Peixote Kids, competir apenas por preço deixou de ser sustentável no setor. “Hoje buscamos desenvolver coleções com identidade própria, investir em marketing digital e entender o comportamento do consumidor em diferentes regiões do País. O mercado exige posicionamento, experiência de compra e diferenciação”, destaca.
As alternativas costuradas para garantir o fortalecimento do polo são muitas. Em meio ao novelo embaraçado da conjuntura política brasileira e às afiadas investidas das empresas asiáticas no mercado nacional, Pernambuco precisa fortalecer esse amplo ecossistema que garante a atividade econômica em uma das regiões densamente povoadas do Estado e com imensos desafios hídricos e logísticos.
*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)


