À frente do Museu da Cidade do Recife, o historiador busca aproximar a instituição da população. Em entrevista à Algomais, apresenta seus planos para o espaço, defende uma visão mais diversa da história da cidade e destaca a importância da memória para compreender o presente e o futuro.
Empossado em junho deste ano como diretor do Museu da Cidade do Recife, o historiador Dirceu Marroquim assumiu a missão de retomar a proposta original da instituição e fortalecer seu papel como espaço de pertencimento dos recifenses e de preservação da memória e do patrimônio material e imaterial da cidade. Licenciado em História pela UFRPE, mestre pela UFPE e doutor em História Social pela USP, ele retorna a uma instituição que marcou sua trajetória profissional.
A relação de Dirceu com o museu começou ainda na época de estudante, quando atuou como estagiário. Desde então, manteve uma ligação próxima com a instituição, participando da curadoria de exposições e chegando à presidência da Associação dos Amigos do Museu (AMUC). Sua trajetória também inclui uma passagem pela gestão pública, como secretário executivo de Cultura do Recife.
Em entrevista ao repórter Yuri Euzébio, da Revista Algomais, Dirceu fala sobre os desafios à frente da instituição, os planos para aproximar o museu da população e a contribuição de sua experiência na gestão cultural para essa nova etapa. O historiador também reflete sobre a importância da preservação e da disseminação da memória para compreender o presente e construir o futuro da cidade.
Revista Algomais – Quais os principais desafios de assumir a gestão do museu da cidade?
Dirceu Marroquim – Apesar de ter assumido a gestão em junho, eu já conhecia muito bem a realidade do museu porque eu fui estagiário aqui, depois fui curador de muitas exposições com Betânia Correia de Araújo, antiga diretora, depois fui Presidente da Associação de Amigos. Algum tempo depois, eu volto para como Diretor. De certo modo, eu estou voltando para casa e encontrando velhos problemas que são desafiadores de um equipamento que tem uma complexidade grande de manutenção.
Ao mesmo tempo, um equipamento que está em um contexto territorial em profunda transformação. Então, de um lado está o bairro de São José, que tem uma dinâmica de comércio muito intensa, mas que gera, em alguns aspectos, uma certa insegurança para o Forte das Cinco Pontas. Temos muitos relatos desse desafio da aridez, de chegar para o forte, pois apesar de estar na área central da cidade nem sempre o caminho para cá é o mais amistoso. E por outro lado, é um desafio integrar esse equipamento a um outro lado da cidade, que está se transformando também.
Temos o desafio de integrar o museu ao espaço urbano e de construir um equipamento que, de certo modo, represente a cidade do Recife, porque é para isso que ele existe. É também trazer para a população reflexões, construções e debates que façam com que as pessoas se sintam parte dessa cidade e sejam provocadas a pensar o Recife de outro modo.

Revista Algomais – Como foi esse começo da sua relação com o museu?
Dirceu Marroquim – O museu foi muito importante na minha vida profissional. Eu comecei trabalhando na biblioteca, no acervo, e me lembro de que, quando estava aqui no estágio, sempre fui buliçoso em documentos. Certa vez, fui a um galpão de uma obra onde estava guardada parte do material do museu. Quando mexi nesse material, encontrei, por exemplo, um álbum de Alexandre Berzin, que era um grande fotógrafo. Consegui identificar, na época, que o álbum era de Berzin porque havia visto, por acaso, um exemplar igual na Fundação Joaquim Nabuco.
Encontrei aqui o livro de assinaturas do Mercado de São José, de 1875, com a primeira assinatura de Joaquim Nabuco. E essa sensação de descoberta, à medida que eu encontrava um documento e conhecia cada detalhe do acervo do museu, foi, de certa forma, uma descoberta do historiador que eu poderia ser. Foi também uma oportunidade de conhecer melhor o Recife em que eu estava vivendo. Comecei a entender essa cidade de uma maneira mais complexa, com suas territorialidades.
E aí encontrei uma documentação que virou minha dissertação de mestrado. Ou seja, o museu me deu o título de mestre, porque foi a partir daqui que consegui fazer minha dissertação. Quando era mais novo, já me imaginava fazendo parte de um museu da cidade do Recife, mas parecia uma coisa muito distante. Com o tempo, estive em posições até mais altas do que estar à frente do museu. Foi uma opção minha vir para cá, um desejo meu. Acabei abrindo mão de outros lugares para estar aqui, como um compromisso com esse equipamento que me formou.

Revista Algomais – Você pode falar um pouco sobre as suas ideias para o espaço?
Dirceu Marroquim – Esse museu, quando foi criado no começo dos anos 1980, tinha uma missão muito clara, muito específica, que estava associada ao Instituto da Cidade, ou seja, ao Instituto de Planejamento. O museu era o braço responsável por falar sobre a cidade, sobre o planejamento urbano. E, quando falamos disso, estamos tratando da construção de um acervo, por exemplo, de cartografia, de fotografia. Estamos falando do tipo de documentação que possibilita subsidiar o planejamento da cidade.
Com o passar do tempo, houve uma desvinculação do museu enquanto fonte para o planejamento da cidade e ele foi se tornando um equipamento cultural por si só, sem uma função maior dentro da forma de pensar o espaço urbano do Recife. O meu intuito hoje, entendendo historicamente essa vocação do museu que se perdeu durante um tempo, é de que precisamos retomar essa vocação do museu como intérprete do Recife. É um equipamento que existe para interpretar a cidade. É claro que durante muito tempo, até muito recentemente, essa interpretação era feita de um lugar muito específico. O que é que eu quero dizer com isso? Que eram narrativas construídas sem gente.
Então, imagine que o Recife, onde 60% da população é formada por pretos e pardos, que não se sentem reconhecidos numa exposição. Há um monte de marchas com trabalhadores, com indígenas, só que isso não é posto como eixo central, conceitual da cidade. Porque quem faz a cidade é gente. O que trazemos hoje para o centro do conceito curatorial do Museu da Cidade do Recife é fazer com que esse espaço seja habitado por gente. E como é que isso se dá?
De maneira expositiva, temos desenhado a próxima exposição, mas ainda não tem data para abertura. A ideia é de que a gente traga a cultura popular para o centro do museu da cidade. São sujeitos que tiveram suas vidas deslocadas do centro urbano, que foram para as periferias, que foram ocupar o Fundão, a Mangabeira. Não deixamos de falar de cidade, não deixamos de falar de transformação urbana, não deixamos de falar de território, mas estamos tratando sobretudo de quem faz essa cidade. Criamos também uma frente de comunicação mais efetiva com a rede social. Estamos fazendo postagens que privilegiam as pessoas, estamos falando sobre ofício, sobre a dinâmica das pessoas na vida da cidade, estamos falando sobre presença indígena no acervo do museu, estamos lançando outros olhares e convidando as pessoas para ocupar esse espaço.

Revista Algomais – Ainda nesse sentido, existe alguma possibilidade de ter uma maquete da cidade do Recife dentro do espaço?
Dirceu Marroquim – Nós temos um espaço que é muito reduzido. É um forte do século XVII e temos acervo e temos uma área expositiva que é a maior parte do museu. Nós temos algumas maquetes no forte, mas são maquetes muito pequenas e restritas. A nossa ideia é que a gente tenha efetivamente uma exposição maior, um recurso tecnológico, se o museu tiver mais espaço.
Se a área do museu crescer com essas transformações, nós pensamos que há a necessidade de ter uma exposição que conte essa história do Recife de A a Z e, claro, com suporte pedagógico. Uma maquete seria absolutamente fundamental. Mas uma maquete que não seja estática, que permita construir os volumes dessa cidade que se transforma e trazer algo mais interativo, para que as pessoas possam imaginar essas transformações. Tem uma experiência que eu imagino muito ser realizada no Recife, que é um projeto chamado Imagine Real. Eles construíram uma representação da evolução urbana do Rio de Janeiro, disponível em um site, que é muito interessante e bem-feita.
Eu sempre penso em fazer algo semelhante no Recife, com uma maquete que represente a cidade e seus volumes geográficos. Eu quero entender como é que os maracatus se localizaram geograficamente, por exemplo, poder ver Dona Santa saindo de São José, outras figuras da cultura popular se deslocando, como é que Os Lenhadores saíam… Enfim, é construir uma maquete aberta, com diferentes camadas de informação.

Revista Algomais – Dirceu, de que maneira sua experiência como secretário executivo de Cultura do Recife o auxilia nessa nova função?
Dirceu Marroquim – O grande ganho de ter sido secretário executivo de Cultura do Recife é que você conhece muita gente. Você sabe como é que a máquina se estrutura, sabe quem são as pessoas que vão resolver os problemas. Então, com a minha vinda para cá, o museu ganhou também uma rede de contatos já estabelecida.
Como secretário executivo, eu precisava lidar com diversas secretarias, precisava falar com diversas pessoas para tratar de assuntos administrativos. Como eu continuo tendo excelentes relações dentro do poder público, é mais orgânico construir esse caminho. Isso é essencial para desobstruir percurso burocrático, de mandar um ofício que depois vai passando por várias pessoas. Hoje nós já ligamos dizendo assim: “Rapaz, como é que você está? Tudo bem? Vou mandar um ofício e tal…”
O museu, de certo modo, ganha mais celeridade nas suas demandas. Mas, ao mesmo tempo, ele ganha um lugar institucional mais sólido dentro da Prefeitura do Recife. Essa experiência na Secretaria Executiva me trouxe precisamente a frieza de colocar a bola no chão. Eu sou péssimo de futebol, mas uso metáforas futebolísticas. É a frieza de botar a bola no chão. Toda vez que tem um problema, a gente bota a bola no chão e diz assim: “Vamos resolver por aqui, vamos fazer isso ou aquilo.”

Revista Algomais – Então, você acredita que espaços culturais e institutos podem ajudar a fortalecer o centro do Recife? Acredita que fortalecendo esses espaços do centro, fortalece também o ir e vir da cidade?
Dirceu Marroquim – Não tenha dúvida! E, quando olhamos especificamente para os equipamentos públicos, tanto da cidade do Recife quanto do Estado, temos uma concentração muito grande de equipamentos culturais no centro histórico. Isso é um ativo, inclusive do ponto de vista urbanístico. Quando observamos o que Jane Jacobs defendia, percebemos que é preciso ter fachadas ativas para garantir mais segurança. Muros não funcionam. Então, com equipamentos abertos, iluminados, integrados à via pública, com pessoas indo e vindo, associados à iluminação pública ao longo das vias, melhoramos a caminhabilidade e a segurança.
Então, não tenha dúvida de que os equipamentos culturais, como o Museu da Cidade, o Instituto Arqueológico, o Teatro do Parque, a Casa de Clarice Lispector, que ainda não está funcionando, e, em Santo Antônio, o Teatro de Santa Isabel, que também é um núcleo importante, além do Pátio de São Pedro, estabelecem conexões territoriais e são ativos dentro da lógica urbana da cidade. São espaços de respiro. Tanto é que estamos retomando o diálogo para abrir o café administrado pela Associação de Amigos do Museu, porque esses equipamentos precisam ser espaços de permanência.

Revista Algomais – Quais os seus planos para reforçar essa ideia do museu como um espaço de pertencimento da população?
Dirceu Marroquim – A ideia é que façamos com que esse museu faça parte da paisagem do recifense. Não existe pertencimento com o que você não conhece. E por outro lado, se você conhece e não se vê, talvez você não se sinta à vontade nesse espaço.
Então, existe um conceito de uma pesquisadora holandesa, Esther Hibbs, que defende a necessidade de criar um emotional networking, uma conexão emocional entre os espaços museais, o patrimônio e a população. Penso, por exemplo, numa criança da periferia do Recife que entra no museu e vê uma pinha do século XIX. É bonito, mas talvez aquilo não signifique muita coisa para essa criança. A ideia é fazer com que a voz dessa menina esteja no museu, que sua experiência também esteja representada nesse espaço. E isso passa precisamente por tratar a cidade como um espaço complexo.
E não é só o mapa, não é só o elemento de branquitude que impera de certo modo dentro da lógica de pensar uma exposição como essa que está aqui hoje. Então, é romper efetivamente com esse Recife do açúcar, com esse Recife aristocrático e tudo mais, entendendo que a cidade é feita sobretudo de gente que não está nesse estrato social, que não está nessa camada, que de certo modo contou a história por tanto tempo. Nós temos a missão de fazer com que as pessoas se reconheçam nesse Recife.

Revista Algomais – Só para finalizar, queremos saber qual a importância de investir na preservação e na disseminação da memória, para que a sociedade compreenda melhor os desafios do presente e assim possa projetar o futuro?
Dirceu Marroquim – Estamos vivendo um contexto complexo do ponto de vista da informação. Durante muito tempo, as informações chegavam às pessoas e até havia interpretações diferentes, mas não tão radicalmente distintas como vemos hoje, em um mundo tão fraturado. Qual é a missão de um equipamento que tem um acervo de memória?
Eu sempre digo em aula, em palestra, em todos os lugares que eu falo de que, na dúvida, volte para as fontes. Se desconfia de uma informação, entenda as fontes e quando você tem um espaço repleto de fontes, repleto de documentos que narram o passado de perspectiva muito diferente, o desafio desse espaço é tornar essas fontes públicas, amplamente conhecidas, mas com o seu contexto de produção explícito.
Então, quando dizemos isso, podemos pensar, por exemplo, em uma fotografia de um mocambo, numa área de casebres em Santo Amaro. O registro foi feito por um fotógrafo durante o período do Estado Novo e mostra uma parte da cidade que estava sendo apagada para a construção de uma vila operária. Isso faz toda a diferença, porque contextualiza a imagem.
No Museu da Cidade, estamos dando continuidade a um trabalho enorme que já foi realizado. Todos os livros de tombo, que reúnem mais de 25 mil fotografias, estão disponíveis online no site do museu. O que estamos fazendo agora? A gente indexou essas fotos, porque antes você precisava baixar o livro de tombo e percorrê-lo inteiro, sem a possibilidade de fazer uma busca por palavra-chave.
Hoje, já concluímos a indexação de 25 mil imagens. A gente consegue fazer buscas por palavras-chave e ter uma dimensão melhor do acervo. A população também vai poder encontrar essas imagens com mais facilidade. Essa ferramenta ainda não está aberta ao público, mas estamos trabalhando na construção de uma base de dados que permita à população acessar esse acervo.
