Índice de Estigma revela que 40% dos entrevistados já sofreram discriminação e que 53,2% têm dúvidas ou desconfiam do sigilo de seu diagnóstico nos serviços de saúde
Quatro em cada dez pessoas que vivem com HIV ou AIDS no Recife sentem culpa ou vergonha em razão do diagnóstico. A mesma proporção relata ter sofrido discriminação ao longo da vida por sua condição sorológica. Os dados fazem parte do Índice de Estigma em relação às Pessoas Vivendo com HIV/AIDS, divulgado em 4 de novembro pelo Consórcio Nacional de Pessoas que Vivem com HIV. O levantamento, realizado pela ONG Gestos — Soropositividade, Comunicação e Gênero e pela PUC-RS, com apoio do Unaids, investiga os efeitos do preconceito na vida cotidiana, na saúde mental e no acesso aos serviços de saúde.
Estigma afeta saúde mental e relações pessoais
Os impactos da discriminação também aparecem nos indicadores de saúde mental. Entre as pessoas entrevistadas na capital pernambucana, 49,1% apresentaram sintomas de ansiedade e 34,7%, de depressão. Uma em cada quatro afirmou ter se afastado de familiares ou amigos por viver com HIV. O levantamento identificou ainda que sete em cada dez pessoas escondem seu estado sorológico, enquanto uma em cada quatro decidiu não manter relações sexuais nos últimos 12 meses em razão do diagnóstico.
Sigilo nos serviços de saúde preocupa entrevistados
A confiança no atendimento de saúde é outro desafio identificado pela pesquisa. No Recife, 53,2% dos participantes não têm certeza ou sabem que seu diagnóstico não é mantido em sigilo pelos serviços de saúde, percentual superior à média nacional de 46,1%. Além disso, 5,8% afirmaram ter deixado de procurar atendimento nos últimos 12 meses por viver com HIV. “Esse dado não significa necessariamente que o estado sorológico não seja mantido em sigilo, mas fala sobre o vínculo entre o usuário, o serviço e os profissionais de saúde. A confiança no profissional de saúde e no serviço é construída por relações que não se encerram na lógica da saúde”, disse Gustavo Passos, oficial de Igualdade e de Direitos do UNAIDS no Brasil.
Discriminação também atinge o mercado de trabalho
Os efeitos do preconceito alcançam as relações familiares e a vida profissional. Uma em cada quatro pessoas entrevistadas relatou ter sofrido discriminação dentro da própria família, enquanto 7,9% afirmaram ter perdido o emprego ou uma fonte de renda por viver com HIV. Para Thiago Jerohan, assessore de projetos da ONG Gestos, o enfrentamento desse cenário exige iniciativas que ultrapassem o atendimento médico. “Precisamos pensar políticas locais sobre HIV/AIDS para além do acesso aos antirretrovirais e às consultas. O estigma — uma pauta de que a sociedade civil nunca para de falar — parece muito abstrato, mas ainda é a principal barreira para a qualidade de vida das pessoas que já vivem com HIV/AIDS e também para ampliar o acesso à prevenção no Recife. Já está mais do que na hora de olharmos para isso com o olhar não só da saúde mas dos direitos humanos, da cultura e da educação”, avalia Thiago Jerohan, assessore de projetos da ONG Gestos.
Pesquisa também identifica redes de solidariedade
Apesar das situações de preconceito, o levantamento registra iniciativas de apoio entre pessoas que vivem com HIV ou AIDS. No Recife, 38,6% dos entrevistados ofereceram apoio emocional ou financeiro a outras pessoas com o diagnóstico, enquanto 15% participaram de organizações ou campanhas de enfrentamento ao estigma. O Índice de Estigma utiliza uma metodologia internacional baseada em entrevistas realizadas por pessoas vivendo com HIV com seus pares. A edição brasileira foi realizada em 2024 e publicada em 2025, reunindo 1.275 participantes de sete cidades: Recife, Manaus, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Porto Alegre. Os resultados divulgados para a capital pernambucana apresentam um recorte local desse levantamento.
