Curador e programador da mais icônica sala de cinema do Recife, ressalta a importância desse “templo do audiovisual” para a vida cultural dos pernambucanos. Também defende a necessidade de políticas públicas perenes – e não restritas à gestão de um mandato – para preservar os cines de rua e fomentar produções cinematográficas.
No último dia 6 de maio, Pedro Severien completou um ano como curador e programador da sala de cinema mais querida de Pernambuco: o São Luiz. Nesses 12 meses, ele conseguiu implantar sua visão de cinema na programação do templo da sétima arte pernambucana, além de uma série de ações em diálogo com os realizadores e cinéfilos. Diretor de cinema, professor, curador e ativista, Severien enxerga o espaço como uma janela de diálogo permanente com a comunidade do audiovisual de Pernambuco.
Um gigante gentil – são quase dois metros de altura – e atencioso, Pedro é mestre em Produção de Cinema e TV pela Universidade de Bristol e doutor em Comunicação pela UFPE, além de diretor de filmes premiados como Canção para Minha Irmã, Loja de Répteis, Todas as Cores da Noite e Fim de Semana no Paraíso. Sua obra reflete sobre cinema e território, com ênfase na relação entre estética e política.
Em entrevista concedida a Yuri Euzébio, Pedro Severien, que também é docente na Unicap, reflete sobre a importância do São Luiz que, como cinema de rua, proporciona uma experiência diferenciada ao público e contribui para valorizar o Centro do Recife. Também analisa o sucesso de O Agente Secreto e a importância do fomento e da permanência de políticas públicas para o audiovisual brasileiro.

Quais os maiores desafios e belezas do trabalho de curadoria e programação do Cinema São Luiz?
A programação do Cinema São Luiz é formulada em diálogo permanente com a comunidade audiovisual pernambucana, que inclui realizadores, festivais, mostras e cineclubes, além de distribuidoras locais e nacionais, mas também com propostas formuladas pela equipe de programação. Ou seja, a curadoria acolhe solicitações de eventos e sessões especiais, mas tem também uma ação prospectiva, criando uma programação própria, diversa e conectada com temáticas de interesse público, juntando múltiplas linguagens artísticas. Abrange o cinema contemporâneo pernambucano e brasileiro, mas também traz clássicos mundiais e filmes internacionais. A ênfase, no entanto, é na produção pernambucana e brasileira atual. O maior desafio é deslocar o sentido sobre o que é cultura local e o que é universal. A arte tem raízes no território, mas caminha para o mundo. De certa maneira, esse desafio é uma janela de oportunidade. Quando acolhemos nossas múltiplas identidades culturais, abrimos o horizonte para uma ação global.
Para mim essa é também a beleza desse trabalho. O Cinema São Luiz tem uma atuação plural como espaço cultural público e popular. Então, atende ao ecossistema do cinema pernambucano como lugar de pré-estreias e sessões especiais, mas se conecta com diversos grupos sociais com atuação na cultura popular. Essa relação da identidade cultural com o cinema feito em Pernambuco é muito importante e estratégica. Esses grupos são estimulados a ocuparem o São Luiz com suas narrativas e isso tem mobilizado pessoas, gerando um ciclo virtuoso de ocupação, invenção e debate com espectros bem diversos da sociedade. Ou seja, a sala de cinema passa a ser apropriada pelo coletivo e isso levanta a sua vitalidade cultural e artística.
Uma outra dimensão é a conexão com o território do Centro da cidade. O São Luiz é um cinema de rua, de calçada e de rio, está situado de frente para o Capibaribe. Valorizamos a experiência de acolhimento e de imersão nas sessões como acontecimentos sensíveis. Isso faz com que o São Luiz permaneça aceso no imaginário coletivo dos pernambucanos. Este ano a Fundarpe, gestora do espaço, encampou uma ideia criada pela equipe do cinema, o Bloco do Cinema São Luiz, durante o pré-Carnaval. O bloco arrastou uma multidão e entrou para o calendário de eventos da folia pernambucana.
Como funciona o seu dia a dia?
Temos uma política de estarmos permanentemente abertos para receber solicitações de pauta. Respondo mensagens de produtores e distribuidoras todos os dias. E isso é muito importante, porque mantém essa janela de participação social ativa. Em paralelo, acompanho os lançamentos nacionais e internacionais, lendo publicações especializadas. Mas também formulo propostas junto com a equipe de programação e produção da sala, além de assistir a filmes todos os dias praticamente.
Uma sessão no São Luiz não é apenas uma exibição de um filme, é um acontecimento cultural. Por isso, trabalhamos cada filme mobilizando o público, acolhendo os realizadores e equipe, promovendo debates e ações que potencializam a experiência na sala. Para isso, tenho uma reunião de programação todas as terças com Marcela Cavalcanti, produtora do cinema, quando organizamos o material de divulgação. Publicamos a programação todas as quartas, junto com todos os cinemas de Pernambuco e do Brasil.
Essa regularidade é importante, pois coloca o São Luiz no mesmo calendário das salas comerciais. Nas quartas, supervisiono o tráfego de cópias junto com a equipe de projeção, que inclui Arthur, Miguel e Samara. Nas quintas, toda a equipe se reúne sob a coordenação de Gustavo Coimbra, gestor do cinema, para montar o letreiro e as vitrines, e todos os filmes são testados pela equipe de projeção. Enquanto isso, reservo as quintas e sextas para reuniões com produtores e acompanho o fluxo administrativo das bilheterias e processos com a secretária do cinema, Joyce Suellen.
Nos finais de semana apresento sessões e conduzo debates. Essa presença e intervenção durante as sessões faz parte da minha perspectiva de que uma curadoria deve adicionar sentidos e contexto aos filmes exibidos. Mas esse acolhimento é feito também pela equipe de bilheteria e recepção. Eliane Muniz e Mary, que controlam a entrada na sala, são fundamentais. Elas conversam com o público, tiram dúvidas sobre os filmes e observam de perto todas as interações. Um cinema público e popular deve abrir horizontes estéticos, ao mesmo tempo que mobiliza grupos sociais historicamente excluídos de processos de autoria e protagonismo nas imagens.

Você percebeu uma nova geração que frequenta e descobriu o São Luiz com o sucesso de O Agente Secreto?
Acho que O Agente Secreto articulou e mobilizou o imaginário sobre a nossa história e sobre o Recife ser propriamente esse lugar de imaginação, porque ele é muito fiel na reconstituição histórica, mas os detalhes que ele aborda são muito inventivos. Ou seja, é um olhar criativo também para essa história. Isso é muito bom, porque mostra que a gente tem essa pluralidade de experiências, tanto na nossa identidade cultural, quanto dos fatos históricos que ele aborda. Isso tudo tem sido muito bom para o São Luíz, porque o cinema é um espaço público e popular, ou seja, gerido pelo Governo do Estado. A gente teve uma conquista desde que o Cinema São Luiz foi estatizado em 2009, porque ele se tornou uma política de Estado, não é uma política de governo, de uma determinada gestão. As gestões podem até mudar, mas ele continua como esse espaço cultural central para o desenvolvimento do ecossistema do audiovisual pernambucano.
É como se o filme tivesse imantando o próprio espaço de um valor cultural adicional. Ou seja, esse valor passa a ser reconhecido. O valor já existe. Está lá. A gente sabe que aquela é uma sala histórica, não só porque ela é uma sala antiga. Mas, porque ela continua produzindo a história do cinema brasileiro e pernambucano. Ela é uma sala de formação do olhar, de experimentação, de linguagem. É uma sala de grande público do cinema popular brasileiro. E isso é muito bom porque esse tipo de valor acontece quando ele é compartilhado, ou seja, a gente valorizar o espaço público, histórico, cultural, como um espaço de experiência coletiva. É lutar contra uma maré de fragmentação, de isolamento a partir das redes sociais, de consumo, de multitela.
Com isso, também houve uma redescoberta ou revalorização do Centro da cidade?
Gosto muito desse olhar que o filme traz para o Centro do Recife porque é importante a gente imaginar que todo o abandono foi intencionalmente efetuado, deslocando o centro econômico para outros lugares da cidade como estratégia de especulação imobiliária. Mas o Centro do Recife continua pulsando, está sempre nesse potencial de reinvenção, sabe?
Quando o filme coloca a gente dentro dessa experiência de um centro com muita vida, com esse fluxo de experiências da população, mostra o quanto isso ainda é possível. É a ideia de uma cidade democrática, em que o espaço coletivo seja valorizado e não o espaço privado, que haja uma espécie de eixo de pensamento para a experiência pública da cidade. Isso é algo que o filme, de forma indireta, consegue a partir das cenas no Centro da cidade. É uma forma também de usar o cinema como uma janela para um horizonte de possibilidades.
O cinema é uma ferramenta de imaginação, então ele permite que a gente sonhe. E quando esse sonho ganha adesão social, passa a ser possível enquanto realidade. O filme está operando nesse lugar de trazer o olhar para nossa história, para a ideia de que a cidade é viva. A gente tem que trabalhar a partir das experiências que existem e que estão vivas e ativas no Centro da cidade.
Essas experiências têm a ver também com a arte e a cultura. Se você pensar no Pagode do Didi, entendeu? Você pode pensar em como as pessoas começaram a ir para o chá mate porque está naquela cena do filme. Como as pessoas se interessam em ir no São Luiz para tirar foto como um ponto turístico? São exemplos de como o cinema pode agir pela valorização dos nossos bens culturais. E acho que o Centro da cidade é um bem cultural que é nosso.

Como está o funcionamento do cinema São Luiz?
Ainda, por enquanto, funcionamos só aos sábados e domingos, por causa da conclusão da reforma e do restauro que estão em andamento. Essa foi uma forma interessante de manter o cinema aberto. Quando um espaço, como o cinema São Luís ou qualquer espaço cultural fecha, ele não fica acessível ao público. Então foi uma forma de harmonizar isso com a conclusão das obras. A gente vai poder voltar a funcionar durante a semana, que é uma atividade importante para o Centro da cidade, porque é quando as pessoas trabalham, para que todo mundo que quiser possa ir ao cinema.
E tem um aspeto interessante que vai ser inaugurado no terceiro andar: uma pequena exposição sobre a história do cinema pernambucano, que a Fundarpe, entidade gestora do equipamento, está chamando de Centro de Referência do Audiovisual. Vai ser um lugar de visitação para a gente levar escolas para que possam ir lá e assistir um filme depois. É uma forma de impulsionar essa dimensão da valorização cultural da nossa identidade, da nossa história, e promover o os potenciais futuros realizadores e realizadoras.
A experiência em uma sala de cinema de rua, que é um cinema que é de calçada, um cinema que é de rio, é diferente da experiência de uma sala de shopping, que não tem identidade própria. São todas mais ou menos iguais. Você vai ter diferenças técnicas de projeção e tal. Quando você sai da sala de shopping, você fica diante de um cenário de consumo. É todo um ambiente privado, diferente da experiência de assistir a um filme no Cinema São Luiz ou em outro cinema de rua, porque é como se o filme permanecesse com você quando você sai da sala. Porque você caminha no espaço público, no espaço coletivo, pode conversar na calçada, pode atravessar a ponte, pode olhar o rio. É uma composição de experiências que acho muito saudável.
O que podemos esperar para o futuro do cinema pernambucano?
Poucos anos atrás, a gente tinha institucionalmente um governo de extrema direita que era contra a arte brasileira. A gente está mostrando com isso uma certa perspectiva do quão é bom a gente ter soberania cultural. Agora, veja, acho que importante ressaltar o seguinte: a trajetória de O Agente Secreto é também uma trajetória de política pública. É resultado de uma luta coletiva, de uma mobilização de muitos atores, de muitos fazedores de arte, de cultura, de muitos gestores, dos movimentos culturais, para que a gente tivesse políticas públicas que permitissem e que permitam que Kleber se aprimore no seu ofício.
Não é o primeiro filme de Kleber, é um filme que demonstra a maturidade que ele desenvolveu, porque ele conseguiu fazer os filmes anteriores e isso é que é importante pensar na continuidade das políticas públicas, enquanto uma dimensão de políticas de Estado, para que a gente possa, sim, num futuro próximo, ter outros realizadores que vão conseguir outros feitos. É o resultado de um esforço coletivo também, sabe? Porque a política pública, ela é feita coletivamente. Ela parte em geral, no campo da arte e da cultura, da sociedade, que exige a implanação dessas políticas porque entende a função social da arte e que tem também um viés econômico importante.
É uma forma de economia que gera isso, além de emprego, renda, tecnologia, um conhecimento sobre o País e que só faz bem, não é poluente. Permite uma exportação desses bens culturais e permite, talvez, uma forma de reflexão crítica sobre a nossa realidade. Vejo que o cinema pernambucano construiu uma trajetória que vai se transformando, que vai ampliando os seus impactos, mas que isso tudo depende de uma mobilização permanente porque o cinema brasileiro está sempre em risco.
Existem interesses econômicos de grandes corporações. O que está acontecendo agora na discussão da regulação do streaming é terrível, porque há um lobby gigantesco das megacorporações que estão influenciando o Congresso Nacional para um projeto que é ridículo do ponto de vista do desenvolvimento do audiovisual brasileiro. O cinema pernambucano é inventivo, é artesanal e, agora, está mostrando que é um cinema do grande público e que tem reconhecimento. É internacional, mas isso não é: “o jogo não está ganho”, saca? A gente tem que permanecer nessa construção e cada vez mais tentando se comunicar com a sociedade sobre essas dimensões das políticas públicas para a cultura, para que quando elas venham a ser atacadas, a gente possa se defender coletivamente, que a sociedade entenda que o cinema brasileiro não é bom só para quem faz cinema, é bom para toda a sociedade brasileira.

Como você vê o cenário do cinema pernambucano atual? Qual a importância das políticas públicas para esse fomento?
O que está acontecendo hoje com o cinema pernambucano é resultado de uma longa caminhada coletiva. As sementes foram plantadas há mais de 100 anos com o Ciclo do Recife, mas a terra foi reinventada a cada geração de cineastas que sonhou com um mundo próprio de imagens. Só há essa noção de cinema pernambucano graças à ousadia de fazer filmes com nosso sotaque, com nossas ideias, com nossas vidas individuais e plurais.
Fazer cinema não é só fazer filmes, mas sim, fazer formação, fazer cineclubismo, fazer pesquisa, distribuição e políticas públicas. É esse ecossistema, uma espécie de ecologia das imagens, que nos fortalece e promove um bem-estar, uma saúde imagética. Os tantos tipos de filmes que são feitos aqui têm força crítica e imaginativa. Isso só existem porque há políticas públicas para a cultura. E esses mecanismos de fomento são estratégicos porque promovem o desenvolvimento econômico e social.
As políticas públicas só fazem sentido com a participação social nessa formulação e aprimoramento permanente. Estamos colhendo frutos importantes com filmes de sucesso de público e de crítica como O Agente Secreto, mas há também uma pequena revolução ocorrendo com produções que acontecem nas periferias e no interior do Estado. Mas as políticas públicas para a arte e a cultura estão sempre em risco. Quanto mais caminharmos no sentido de políticas de Estado, que independem da alternância de governos, mais resultados positivos iremos colher. Para isso, é fundamental que a sociedade conheça cada vez mais o cinema brasileiro. Esse engajamento é fundamental para a manutenção da democracia, para a preservação da nossa memória coletiva e para a projeção de um futuro mais igualitário para toda a população brasileira.
