Reportagem da série Territórios de Valor mostra como produtores do município buscam ganhar competitividade com identificação geográfica, abertura do mercado europeu e inovação no campo.
*Por Rafael Dantas
Edis Matsumoto é um dos produtores da Coana (Cooperativa Agrícola Nova Aliança), no Vale do São Francisco. Como o foco desses cooperados é o mercado internacional, 2025 foi um ano difícil, marcado pelo tarifaço de Donald Trump. Passada a tempestade política, as expectativas dele e do setor de fruticultura de Petrolina para este ano indicam um horizonte mais favorável. O recém-firmado acordo entre o Mercosul e a União Europeia fortalece o comércio de frutas com o Velho Mundo. Além disso, a recente mobilização pela conquista do selo de identificação geográfica para uva e manga tende a fortalecer ainda mais a reputação dos produtos. Nesse terreno fértil para negócios, as novas tecnologias também estão ajudando os produtores a melhorar o desempenho no campo.

“A gente vem de um crescimento forte nos últimos anos, com aumento de área e produção, mas agora entra num cenário mais competitivo. Isso exige agregar valor e vender melhor o nosso produto, não apenas atender à demanda”, avalia o produtor, de olho no novo panorama que se forma para a fruticultura a partir deste ano.
O sucesso do polo agrícola de Petrolina não é novidade, mas os últimos anos evidenciam um novo salto de crescimento. Dados do IBGE mostram que a área plantada de uva avançou de 9,2 mil hectares em 2022 para cerca de 15,5 mil hectares em 2024. Estimativas mais recentes, ainda fora das estatísticas oficiais, já apontam para 18 mil hectares. No caso da manga, a expansão também é consistente, saindo de 16,5 mil para 21,1 mil hectares no mesmo período. O movimento indica um ciclo de investimentos em alta na região, refletindo a confiança dos produtores no potencial de crescimento do polo.

Apesar de ser responsável por apenas 6,7% da produção nacional de frutas, Pernambuco detém 41,3% da produção de uvas do País, superando o Rio Grande do Sul (com 37,7%) e de longe São Paulo (8,7%). Em relação à manga, o Estado agrega 29,4% do volume nacional da fruta, ficando atrás apenas da Bahia (45,9%), que integra também o Vale do São Francisco.
UMA REGIÃO PRIVILEGIADA NA BUSCA PELO RECONHECIMENTO
O Vale do São Francisco tem condições de solo e climáticas que favorecem a produção de frutas e, consecutivamente, o seu potencial de mercado. O próximo passo para reconhecer o valor desse território é a obtenção de um selo de Identificação Geográfica do Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial).
Segundo Roberta Andrade, a gestora do projeto de Indicação Geográfica no Sebrae Pernambuco, a IG funciona justamente como um reconhecimento oficial de que determinados produtos possuem características únicas ligadas ao território onde são produzidos, seja pelas condições naturais, seja pelo saber-fazer transmitido entre gerações. “O consumidor está cada vez mais exigente e busca conhecer a história daquilo que consome. Esses produtos carregam cultura, tradição e um processo produtivo que garante origem e qualidade”, destacou.

Os locais que conseguem ter a certificação das identificações geográficas conseguem agregar preço aos produtos e fidelizar os mercados consumidores. No Estado, além da uva e da manga, vários outros produtos estão pleiteando o reconhecimento, como o café, o mel e o queijo coalho. Esses processos de obtenção dos selos são dirigidos pelo Sebrae-PE, que tem mobilizado atores locais e fomentado a cultura associativa para garantir a execução das exigências do Inpi.

“Esse selo é um carimbo que a gente está pleiteando para uva e manga, para reconhecer as características especiais de produção da nossa região, com um padrão de qualidade excepcional, em acidez, coloração e outros atributos das frutas. Quando se leva ao consumidor essa garantia de sabor e qualidade, é inevitável agregar valor à comercialização. A expectativa é posicionar essa fruta como um produto premium e alcançar um melhor resultado de preço”, afirmou Jailson Lira, presidente da Coopexvale (Cooperativa de Produtores e Exportadores do Vale do São Francisco).
ACORDO COM A UNIÃO EUROPEIA É A GRANDE OPORTUNIDADE
Se a identificação geográfica fortalece a percepção de qualidade, o acordo comercial amplia as possibilidades de acesso ao mercado europeu. Embora o consumidor brasileiro ainda seja muito importante para o Vale do São Francisco, a região tem uma vasta tradição de exportação. O recente tratado firmado entre o Mercosul e a União Europeia tende a ampliar as vantagens de quem já tem clientes fora do Brasil, além de incentivar a novos players a apostarem em distribuir suas frutas para além das fronteiras.

Uma das organizações que têm alta expectativa é a Coana, que direciona 60% da produção para o exterior. “Esse acordo começou a valer no dia 1º de maio. Isso impacta os nossos negócios, pois o segmento de uva pagava entre 8% a 14% de impostos, a depender do período. Isso caiu a 0%, trazendo vantagens absurdas para nós, em termos de exportação para a comunidade europeia”, explicou Edis Matsumoto.
Com um faturamento de R$ 200 milhões no ano passado e um volume de produção de 13 mil toneladas de uva, a Coana espera crescer entre 10% e 15% em 2026 nesses dois indicadores. “É um cenário que nos estimula a exportar mais”, avaliou o presidente da cooperativa. Em relação ao mercado para a manga, o acordo também beneficiará os produtores, mas de forma escalonada. A cada ano haverá uma redução de 1% dos impostos pagos para que as frutas entrem no sólido mercado europeu.
Segundo dados da Abrafrutas (Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados), Pernambuco exportou 42,6 mil toneladas de uva e 149,7 mil toneladas de manga em 2025. Apesar das oscilações registradas ao longo dos últimos anos, os embarques de uva acumulam crescimento de 19,3% entre 2022 e 2025. Já as exportações de manga tiveram avanço ainda mais expressivo no período, com alta de 43,5%.

NOVA COOPERATIVA DE MANGAS PROMETE QUALIFICAR O SEGMENTO
Embora ocupe uma área maior do Vale do São Francisco, o segmento de manga tem menos faturamento e menor experiência de exportações que o da uva. Para aproveitar as oportunidades e fortalecer esse outro braço do polo de fruticultura da região, está nascendo a CooperManga (Cooperativa dos Produtores de Manga do Vale do São Francisco). A organização nasce com 84 produtores de 7 municípios da região, entre os estados de Pernambuco e da Bahia, ocupando uma área de 1.030 hectares.

“Enfrentamos nos últimos anos uma desvalorização da manga, pela falta de organização dos produtores. A cooperativa tem a finalidade de organizar o segmento para ganhar mercado”, afirmou o presidente Rodrigo Rodrigues, que tem sua produção na cidade de Petrolina. Os cooperados devem entrar nas gôndolas dos supermercados com a marca Coopermangas. Outro movimento será ganhar expertise para entrar também no mercado internacional com mais valor agregado. “Hoje quem exporta são as grandes fazendas. Elas abrem mercados para depois plantar. Os pequenos plantam para depois procurar o comprador. Isso nos atinge de forma negativa. Há muita plantação de manga desordenada sem saber vender. A cooperativa vem para ganhar essa fatia do mercado e evitar as especulações”.

O produtor afirma que parte dessa produção ainda chega às redes de mercado nacionais e internacionais por meio de atravessadores entre quem produz e quem compra. Essa dinâmica reduz o valor agregado da fruta na origem e diminui a rentabilidade dos produtores locais.
Ainda em fase de implementação, a nova cooperativa chega no momento de aproveitar a dupla oportunidade de atingir os padrões do selo de identificação geográfica e ter menos barreiras tarifárias para chegar ao mercado europeu. “Hoje nossa comercialização é mais nacional, pois poucos tem certificações exigidas para exportação. Estamos numa fase de conscientização dos produtores em relação à qualidade da fruta e à padronização da nossa produção”, afirmou o presidente.
POLO AVANÇA NO USO DE TECNOLOGIAS
A era do uso de drones e de inteligência artificial para dar suporte à produção agrícola já é uma realidade no Vale do São Francisco. Os produtores afirmam ser comum a presença de drones nas fazendas para realizar a pulverização de fertilizantes e dos defensivos agrícolas. Também há o uso de câmeras com inteligência artificial para filmar os cachos de uvas, contar os frutos e até estimar o peso. “O setor tem feito uso com mais intensidade dessas tecnologias de monitoramento da produção”, ressaltou Edis Matsumoto.
Outro uso da inteligência artificial é para identificar a população dos insetos que atacam a uva. A partir das fotografias, a tecnologia consegue identificar o avanço das pragas e os locais de risco de infestação. “O Vale do São Francisco já é bem conhecido por conta do uso de tecnologias, das mais variadas, passando também pelas análises de solos e de folhas. Ferramentas bem avançadas”, destacou Rodrigo Rodrigues.
ADENSAMENTO DA CADEIA PRODUTIVA AINDA TÍMIDO
Com exceção do segmento de vinícolas, que inclusive estimula o enoturismo na região, a produção do Vale do São Francisco é muito focada em frutas de mesa, para consumo in natura. A região ainda tem um grande campo para avançar no processamento da produção que não atinge o padrão para estar nas prateleiras do varejo.

O presidente da Coopexvale menciona que alguns produtores buscam a produção de suco, por exemplo, para processar as frutas que não tenham atingido o padrão de qualidade para serem vendidas como fruta de mesa. “Ainda não é um fator de crescimento significativo, mas alguns produtores já pensam em fazer algo nesse sentido. Mas é um campo ainda incipiente, a não ser das polpas de fruta”, destacou Jailson Lira.
No segmento das mangas, Rodrigo Rodrigues, explica que lidar com o “refugo” é justamente um dos desafios do segmento. Isso porque as frutas que não têm a estética almejada para as gôndolas de supermercados acabam entrando no varejo com valores muito baixos. “Quando essa manga alimenta o comércio, bagunça o preço do produto. Mas ela tem qualidade de polpa e pode ser direcionada para um processamento e ter também um valor agregado maior. No futuro, podemos estudar essa possibilidade”.
As margens do São Francisco seguem férteis para a fruticultura brasileira. Mas, além da água e do solo, o que move agora o polo é a busca por diferenciação. Entre drones, certificações e novos mercados internacionais, produtores da região tentam transformar tradição agrícola em uma marca de valor reconhecida dentro e fora do País.
*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)
