Filme de Kléber Mendonça Filho mobiliza memória, identidade cultural e símbolos locais que dialogam profundamente com o público *Por Josefina Campos Sendo “O Agente Secreto”, de Kléber Mendonça Filho, um filme tão plural na oferta de imagens e significados, qualquer análise sobre sua repercussão no público exige observar elementos centrais de suas cenas e de sua narrativa. Ambientada nos anos 1970, a obra propõe desde o título uma provocação: afinal, quem é o agente secreto da história? A pergunta atravessa toda a trama. Seria o protagonista Armando/Marcelo, pesquisador foragido que tenta escapar de eventos traumáticos do passado? Ou seriam aqueles que lhe oferecem abrigo e proteção, como Dona Sebastiana, Elza e o Sr. Alexandre? A própria ideia de “agente secreto” se abre para múltiplas interpretações. Em determinado plano simbólico, até mesmo a Perna Cabeluda, figura lendária do imaginário recifense, surge como metáfora. Uma presença misteriosa que ecoa o clima de vigilância e medo da época. Nesse sentido, a expressão poderia remeter também aos agentes da repressão da ditadura, militares ou aliados do poder econômico, que operavam nas sombras em defesa da chamada “ordem”. O título do filme, portanto, já nasce como uma metáfora aberta. Outro aspecto marcante da obra é o paradoxo entre ação e silêncio. Embora tenha elementos de thriller político, o filme se constrói com muitas pausas, lacunas e zonas de obscuridade. Em diversos momentos, a narrativa flerta com o onírico, povoada por simbolismos e ambiguidades. Os personagens falam pouco, mas expressam muito por meio de gestos, olhares e silêncios. Esse tipo de construção convida o espectador a preencher sentidos e mobiliza camadas profundas da experiência emocional. Para compreender esse processo de envolvimento psíquico, é possível recorrer a um conceito da psicologia analítica de Carl Gustav Jung: a chamada função transcendente. Trata-se de um movimento psíquico no qual conteúdos inconscientes são tocados, emergem e se tornam disponíveis à consciência, favorecendo uma maior integração da personalidade. A arte frequentemente produz esse efeito, ampliando o senso de si mesmo. O “O Agente Secreto”, pela densidade de suas imagens e lacunas narrativas, parece estimular esse processo com especial intensidade. Um dos eixos centrais da trama é a questão da identidade. Personagens precisam ocultar quem são para sobreviver, adotando nomes falsos. Armando busca pistas sobre sua origem materna. Já Fernando, o médico, carrega marcas profundas em seu próprio processo de formação identitária, atravessado pela ausência dos pais. Paralelamente, jovens pesquisadoras investigam conexões que permitam compreender melhor a memória sociopolítica daquele período. Em meio a apagamentos e silêncios, típicos das ditaduras, há também aqueles que, simbolicamente, “dão o sangue” para preservar a memória. A dimensão da identidade também se expressa com força no plano cultural e geográfico. O filme está profundamente enraizado no território de Recife e de Pernambuco, algo que gera forte identificação com o público local. Elementos simbólicos da cultura regional aparecem de forma orgânica ao longo da narrativa: o Cinema São Luiz, verdadeiro protagonista geográfico do filme; a referência aos ataques de tubarão na capital pernambucana; a presença da La Ursa, figura tradicional do carnaval; e a citação da mangaba, fruta típica da região. A trilha sonora também reforça essa identidade cultural. Em uma cena emblemática de suspense, surge a música “A Briga do Cachorro com a Onça”, executada pela Banda de Pífanos de Caruaru, referência incontornável da cultura musical pernambucana. Um dos momentos mais impactantes do filme ocorre durante o carnaval em frente ao Cinema São Luiz. Na cena, alegria e tensão se entrelaçam, vida e morte convivem, e os paradoxos do enredo se condensam em uma sequência visualmente poderosa. O frevo toma conta da rua, com participação dos Guerreiros do Passo, grupo reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Recife. O resultado é um clímax emocional que mistura memória afetiva, festa popular e drama histórico. Essa forte presença de símbolos locais também provoca uma reação coletiva entre os recifenses. Ao ver sua cidade, seus costumes e sua cultura projetados para o mundo, parte do público reage com orgulho e entusiasmo, algo que já se apresenta em manifestações populares como bonecos gigantes representando Kléber Mendonça Filho e Wagner Moura, além de blocos carnavalescos inspirados no filme e até a presença da lendária Perna Cabeluda no Galo da Madrugada. É o orgulho recifense, como se costuma dizer, “em linha reta”. Os personagens também contribuem para esse retrato simbólico da cultura nordestina. Dona Sebastiana aparece como a clássica “mainha” que resolve qualquer problema, seja um conflito doméstico ou um embate com a autoridade. O Sr. Fernando surge como o trabalhador bonachão, apaixonado por futebol e pelos rituais simples da vida cotidiana. Já o delegado Euclides encarna uma figura ambígua de poder, mistura de cordialidade e autoritarismo, lembrando os velhos “capitães do mato” da história brasileira. São personagens que ecoam tipos sociais reconhecíveis no imaginário coletivo da região. No plano nacional, o impacto do filme também passa por dois fatores importantes. O primeiro é a revisitação de um período histórico marcado pela repressão da ditadura militar. Ao trazer à tona experiências vividas entre silêncios, mentiras e violência institucional, o filme funciona como um lembrete: isso aconteceu com o país. A narrativa revela o alcance da vigilância estatal ao mostrar que a perseguição não recaía apenas sobre militantes políticos, mas também sobre cidadãos comuns, como o protagonista, um pesquisador acadêmico. Recontar essa história tem um valor simbólico profundo. A ausência de memória histórica consistente pode gerar, no imaginário coletivo, uma espécie de dissonância psíquica. Uma lacuna entre realidade e narrativa oficial. Recuperar essas experiências ajuda a recompor esse tecido simbólico e fortalece a consciência coletiva sobre o passado. O segundo fator é o reconhecimento internacional do filme. “O Agente Secreto” vem acumulando prêmios e projeção em festivais ao redor do mundo, ampliando o prestígio do cinema brasileiro contemporâneo. Na corrida pelo Oscar, a produção conquistou quatro indicações importantes: Melhor Filme, Melhor Ator para Wagner Moura, Melhor Filme Internacional e Melhor Direção de Elenco. Agora, resta ao público brasileiro acompanhar e torcer. Mais do que uma disputa por estatuetas, o sucesso do filme reforça