Francisco Cunha

Carmen Cardoso

Cármen para sempre

Na missa de sétimo dia de Cármen Cardoso, sócia-fundadora da TGI Consultoria, distribuímos uma publicação com diversos depoimentos espontâneos dados sobre ela, a começar pelo meu: Pois de tudo fica um pouco.Fica um pouco de teu queixono queixo de tua filha.(Carlos Drummond de Andrade) “Sim, mas o que Cármen deixa, bem mais do que a lembrança no queixo do filho André ou dos netos Artur e Sophie, é uma marca inapagável nos corações deles e daqueles que tivemos a sorte de ter convivido com ela. No da nora Tiana, companheira paciente, amorosa e competente. No meu e no dos sócios com os quais construímos a TGI Consultoria, para a qual dedicamos o melhor da nossa energia há 35 anos. No dos irmãos, irmãs, sobrinhos e sobrinhas. No de centenas de alunos, clientes e amigos fraternos que ela colecionou ao longo de sua luminosa existência, essencialmente movida pelo que o filósofo Henri Bergson chamou de elã vital, a energia criadora que inventa a vida. Além da imensa e impreenchível saudade, será essa energia a fonte do nosso compromisso de ir adiante, iluminados pelo seu generoso exemplo.” E, além do meu, quase sessenta outros depoimentos como o da maestrina do Aria Social, Rosemary Oliveira:  “Cármen foi quem me ensinou a organizar, conduzir e harmonizar pessoas. Sempre fazendo uma ponte com aquilo que é mais precioso para mim: a música. Ela me ensinava gestão como quem ensina um maestro a reger: ‘como você faria com a orquestra para ter uma harmonia?’ Era sua pergunta frequente para mim…  Assim, fui aprendendo que liderar é buscar harmonia, escuta e equilíbrio. Sonhamos, muitas vezes, em escrever um livro que unisse a gestão e a maestria, mas o tempo não nos permitiu. Ainda assim, ela escreveu esse livro dentro de mim, com seus ensinamentos, sua sabedoria e sua forma única de ver o mundo. E, por isso, ela será sempre parte da minha regência e da minha história.” Ao término da missa, eu disse o seguinte sobre a publicação distribuída e sobre nossa vida em comum de mais de 40 anos: “Tenho certeza de que se visse essa publicação, Cármen teria dito: ‘Vocês não estão exagerando, não?’ E, pela primeira vez, eu responderia com um NÃO a esse questionamento dela. Afinal, ela tinha sempre razão quando fazia essa pergunta. Era a maneira que tinha de nos fazer ver inadequações ou exageros cometidos. Diria NÃO porque fui eu mesmo que compilei esses depoimentos em meio à profusão que me foi enviada e, tenho certeza, de que, se tivesse feito uma convocação pedindo outros, teríamos que publicar um livro inteiro deles. Como o antigo Repórter Esso, sou testemunha ocular dessa história particular de mais de 40 anos. Tivemos quatro décadas inteiras de muito trabalho mas, também, de divertimento e felicidade, não só nas atividades profissionais que fizemos juntos, mas também nas viagens realizadas, nos encontros de família, nas conversas com os amigos, nas músicas que ouvimos, nos aniversários que comemoramos, nos milhares de filmes que vimos juntos… No que diz respeito ao tempo, Cármen sempre fazia questão de lembrar a passagem. Todo ano, no aniversário de nossa união, ela dizia: ‘você se deu conta de que nós estamos há (tantos anos) juntos?’ Invariavelmente eu respondia: ‘Só? Para mim parece uma eternidade…’ Ela ria mas não gostava muito da brincadeira… E, sempre que terminávamos de ver um filme, eu perguntava: ‘qual é a moral da história’. Com o tempo, ela passou a repetir o que eu havia dito centenas de vezes antes: ‘no final, o verdadeiro amor sempre vence’. Logo que começou a repetir, ela dizia: ‘no final, o amor sempre vence’ e eu completava: ‘não, o VERDADEIRO amor sempre vence’. Sim, era outra brincadeira mas, vejo hoje, mais do que nunca, era também uma premonição de que a vida imita a arte. O verdadeiro amor vence até o escandaloso absurdo da morte, como temos a prova viva disso aqui hoje. O nosso amor foi, como disse Vinícius de Moraes, infinito enquanto durou e, ao contrário do que ele admitiu, será imortal mesmo tendo sido também chama ardente. No plano terrestre, a imortalidade possível é aquela que faz com que a pessoa permaneça viva nos corações dos que foram tocados pelo amor e pelo bem-quer de quem partiu. Sob este ponto de vista, Cármen permanece, então, viva enquanto estiver presente nos nossos corações e, tenho certeza, será para sempre enquanto durarem os nossos corações.” Na última página da publicação distribuída, colocamos uma citação da escritora norte-americana Bessie Anderson Stanley, 1879-1952: “Rir muito e com frequência; ganhar o respeito das pessoas inteligentes e a afeição das crianças; merecer a consideração de críticos honestos e suportar a traição dos falsos amigos; apreciar a beleza e encontrar o melhor nos outros; deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma criança saudável, um canteiro no jardim ou uma condição social mais justa; saber que ao menos uma vida respirou mais fácil porque você existiu. Isso é ter tido sucesso.” Essa citação, frequentemente atribuída ao filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson, retrata bem o trajeto de uma vida como a de Cármen, que não foi trilhado para “parecer” virtuosa, para, como se diz hoje em dia, ser “instagramável”. Não! Aliás, ela não tinha nenhuma simpatia pelas redes sociais que considerava muito invasivas. Tudo o que ela fez foi sob a orientação do que achava que era certo, sem nenhuma razão “maior” do que o compromisso com a coerência e o que considerava justo e adequado. Não se investiu de nenhuma missão transcendente. Nunca planejou “salvar o mundo”. Tinha uma filosofia não declarada do tipo: faça o que puder, onde estiver, da melhor maneira possível. Mesmo assim, fez a diferença para tanta gente, de forma tão intensa. Como disse um amigo comum: “uma vida voltada para o bem”. E, por isso mesmo, digna de admiração e exemplo. Outra amiga, Paulina (Paula) Schmidtbauer Rocha, disse em depoimento: “Cármen Cardoso, você pensa que partiu! Nada disso! Ficará hoje conosco e continuará no futuro com os nossos netos. Deixou

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O primeiro Mocó Filosófico

*Por Francisco Cunha Anos atrás, conversando com Marcílio de Pádua, proprietário do restaurante Mocó Bistrô, então sediado na Rua Jacobina nas Graças, aventamos a hipótese da criação de um espaço que permitisse ampliar a discussão, entre as pessoas que gostavam do Recife, sobre a nossa cidade, tão carente desse tipo de iniciativa. Desde esta nossa antiga conversa, é possível dizer que o Recife mudou, no meu entendimento, para melhor, ainda que com bastante coisa para consertar e aperfeiçoar. Passamos a ter um plano de longo prazo (o plano Recife 500 Anos), o plano urbanístico mais importante e criativo da história do Recife (o Parque Capibaribe), o primeiro plano estratégico de longo prazo para o centro da cidade (o Centro do Recife na Rota do Futuro), um plano criativo para incentivo ao retrofit habitacional no Bairro de Santo Antônio (o Distrito Guararapes), vários projetos de recuperação predial no Bairro do Recife e adjacências (como, por exemplo, o retrofit do Moinho Recife, ao norte, e o complexo Hotel Marina/Centro de Convenções em Santa Rita, ao sul), novos parques e praças de porte expressivo (como o Parque das Graças na beira-rio, o Jardim do Poço da Panela, o Parque da Tamarineira que já vai para a sua segunda etapa). Apesar desses avanços, a lacuna relativa a um espaço para discutir a cidade e, sobretudo, conversar sobre alternativas para enfrentar os problemas e torná-la melhor e menos injusta, ainda continua existente e, mesmo, é muito grande. Foi então que, com esse sentimento de falta incomodando, conversamos mais recentemente, agora na companhia do professor e urbanista Roberto Montezuma e da designer e editora Deborah Echeverria, e resolvemos que estava, de fato, na hora de retomar a ideia e criar o espaço para conversar lúdica e produtivamente sobre futuro do Recife. O nome, Mocó Filosófico, já pensado lá atrás, veio quase que naturalmente à tona, juntando a seriedade do que se pretendia com um pouco de gréia como é bem do estilo recifense, competentemente incorporados à marca pelo designer Daniel Dobbin. Daí para o convite a Silvio Meira, foi um pulo. Convidamos, ele aceitou, para nossa surpresa, dada sua agenda carregadíssima, para um dia bem próximo. Mesmo com pouco tempo, divulgamos como podíamos e o Mocó Bistrô, agora na Rua das Graças, lotou para ouvi-lo e conversar sobre a provocação: “O Recife tem jeito?”.Sim, era uma provocação porque sabemos, os que gostamos da cidade, desde sempre, que o Recife tem jeito, sim! E o jeito, como reforçou Sílvio, começa pela conversa aberta e criativa com as pessoas de boa vontade que têm em comum o gosto pela nossa magnífica cidade. A conversa justamente com aquelas pessoas que se deram ao trabalho de ir ao evento para ouvir, comentar e perguntar. Fiz a apresentação de Sílvio dizendo que o conheço praticamente desde a pós-adolescência (há cerca de 55 anos) e sempre me impressionou nele, desde as mais priscas eras, a sua atenção para com o futuro, a ponto de ter cunhado a frase de que “o futuro não vem do passado, mas do próprio futuro”. Em sendo assim, ninguém melhor do que ele para ajudar a dar o primeiro passo nessa caminhada que pretendemos longa sobre como tornar a nossa cidade melhor, conversando e agindo coletivamente para orientá-la em direção a um futuro promissor. O papo que se seguiu foi animadíssimo e só terminou porque Sílvio Meira pediu para concluir por conta da voz que já começava a ratear para uma palestra que ele iria dar de manhã logo cedo no dia seguinte. Mas o gosto de “quero mais” foi logo abrandado pela informação dada por Marcílio de que próximo convidado, para logo depois do carnaval, será o músico Cannibal da banda Devotos, originária do Alto José do Pinho e Patrimônio Imaterial do Recife. Ele deve falar sobre como integrar as duas cidades que convivem no mesmo município: aquela da planície e do asfalto e a outra dos morros e alagados. Pois, sem essa inevitável integração, não teremos uma cidade unida e vibrante mas duas separadas e desconfiadas uma da outra. Por fim, saí satisfeito do encontro, com a certeza de que nossa intuição estava correta: o tema do futuro da cidade é mobilizador e tem pessoas de boa vontade querendo conversar civilizadamente sobre as alternativas benignas para o Recife. Vamos lá! Que venham os próximos Mocós Filosóficos! O Recife precisa e merece!

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Transnordestina 2025

Transnordestina: Para Pecém tudo, para Suape nada! Por quê?

*Por Francisco Cunha Desde o redesenho, em 2003, do antigo traçado da ferrovia Transnordestina, com a criação do que se chamou de “Nova Transnordestina”, partindo de Eliseu Martins, no Piauí, e bifurcando em Salgueiro para os portos de Pecém (Ceará) e Suape (Pernambuco), que sinto cheiro de queimado em relação à contemplação dos interesses de Pernambuco. Nunca entendi, por exemplo, o porquê de a construção começar do interior para o Porto de Suape e, não, do porto para o interior como seria o mais lógico. Afinal, se fosse do porto para o interior, ela poderia ir sendo logo operada com o transporte de carga, tanto de importação quando de exportação ou, mesmo, distribuição interna, como era o caso de combustíveis cuja demanda é enorme, em especial após a instalação da Refinaria Abreu e Lima. Depois, informaram que a bitola de Salgueiro para Pecém seria mista e a de Salgueiro para Suape larga, o que conferia ao trecho cearense muito mais competitividade. Sem falar do abandono pela concessionária da malha métrica centenária que interligava os portos do Nordeste Oriental (RN/PB/PE/AL) entre si e, eles, com o interior, além da criação de uma outra empresa que tratou de desativar progressivamente todos os trechos dessa região.  E o cheiro de queimado só fazia aumentar ao longo do tempo até que as labaredas surgiram, aos 45 minutos do segundo tempo do Governo Bolsonaro, entre o Natal e o Ano Novo em 2022, com a exclusão do trecho pernambucano do contrato de concessão. Aí, ficou explícita a urdidura nefasta de beneficiar Pecém em detrimento de Suape.  Depois de uma mobilização pernambucana, da qual fez parte ativa a Revista Algomais, conseguiu-se fazer com que o trecho eliminado do contrato de concessão fosse assumido pelo Governo Lula e passasse a fazer parte do novo PAC, com a previsão de um valor correspondente a 10% do custo estimado do trecho a ser concluído entre Custódia e Suape (algo em torno de R$ 400 milhões). Enquanto isso, a Sudene, por determinação do Ministério da Casa Civil, liberou R$ 5,6 bilhões dos Fundos de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE) e de Investimentos do Nordeste (Finor) e já assegurou até 2026 mais R$ 2,6 bilhões, praticamente a totalidade do FDNE até lá, para o trecho do Ceará. Comparando os números e fazendo uma conta elementar, é possível concluir que, enquanto o Ceará já anuncia o começo do funcionamento do seu trecho para 2026, o pernambucano levará na melhor das hipóteses, 10 anos para ser concluído (se forem garantidos recursos anuais equivalentes a 10% do valor total, como ocorrido em 2025).  Isso, sem falar das dúvidas técnicas que remanescem para o trecho de Custódia a Suape considerando que a sua mera retirada do contrato de concessão tem implicações que levam, na prática, à necessidade de uma reconfiguração do próprio projeto. Por exemplo: como não mais será transportado minério de ferro para Suape desde o interior do Piauí (que só irá para Pecém), tem sentido manter a bitola larga nesse trecho já que ela requer um investimento bem maior e, por conseguinte, uma tarifa mais cara para cargas leves? Em sendo assim, o traçado deve permanecer o mesmo? Não seria o caso de implantar, pelo menos a bitola mista? Além dessas, pelo que dá a entender da opinião de técnicos independentes, muitas outras questões são cabíveis, o que aponta para a necessidade de rediscussão da própria configuração da ferrovia. Todavia, o que se tem visto é a licitação para reinício da construção a partir de Custódia com as mesmas especificações técnicas do projeto original. Para quem está na janela, como é o meu caso, observando as questões estratégicas relativas a Pernambuco há quase cinco décadas, salta aos olhos a atual falta de densidade política para tratar a questão da Transnordestina, um eixo logístico de fundamental importância para o desenvolvimento estadual. Quando se compara, então, com a mobilização que está sendo feita pelo estado do Ceará, chega a ser humilhante o vazio da articulação pernambucana. Desde que Pernambuco perdeu importância nacional pela mudança do centro de gravidade da economia nordestina para à do Sudeste e pela brutal perda da maioria do seu território como represália à Revolução Pernambucana de 1817 e à Confederação do Equador de 1824 (Comarca das Alagoas e Comarca do São Francisco, respectivamente), observou-se a permanência de uma forte representação política com bancadas federais e estaduais expressivas e aguerridas. Fazendo um hiper-resumo histórico desse período, pode-se dizer que Pernambuco virou, no contexto nacional, um estado fraco do ponto de vista econômico, mas permaneceu politicamente forte, inclusive finalizando o Século 20 com a ascensão à Vice-Presidência da República de um natural do Estado (Marco Maciel) e iniciando o Século 21 com outro chegando à própria Presidência (Lula). Mas nos dias que correm, a apatia em relação à garantia do trecho pernambucano da Transnordestina nas condições em que o Porto de Suape precisa é impressionante. Sem ele, o porto perde um requisito fundamental para a sua competitividade que é a retaguarda ferroviária. Não existe nenhum porto competitivo no mundo que não a tenha. Pelo andar devagar quase parando da maria fumaça pernambucana e pelo que estou pressentindo daqui a pouco o processo de retomada vai ser interrompido por causa de indefinições técnicas e/ou falta de recursos, enquanto o trem-bala cearense vai chegar desembestado no Porto de Pecém. Parece que Pernambuco virou uma espécie de gato maracajá do semiárido nordestino em expansão. Um destino muito triste para quem já foi considerado o Leão do Norte! Talvez só nos reste orar pela proteção do Padrinho Padre Cícero mesmo sabendo que ele era cearense…

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RIO CAIBARIBE

“Quando percebi, o Rio Capibaribe não estava morto”

*Por Francisco Cunha Como natural do Recife, nascido e criado em bairros que não eram contíguos ao Rio Capibaribe (Prado e Espinheiro), minha relação com o principal curso d’água da cidade sempre foi meio protocolar, admirando-o desde o Cais da Jaqueira, do Centro da Cidade ou de cima das pontes, praticamente os únicos locais de onde poderia ser visto à distância. Isso porque, ao longo do seu percurso de quase 15 quilômetros dentro do Recife, ele estava oculto no fundo dos lotes e das quadras, passando quase imperceptível para quem trafegava pelas ruas e avenidas da cidade. Claro que havia uma exceção: quando das chamadas “cheias”, o rio saia do seu leito e invadia a planície do Recife, transformando a área inundada numa grande lagoa cheia de prédios meio submersos. Uma espécie de Veneza em tempo de super maré. Mas, então, já não era mais o Capibaribe senão uma versão superinflacionada e irreconhecível. Quando comecei a me interessar pela história da cidade, não conseguia entender o porquê deste percurso oculto já que, durante uma boa parte da existência do Recife, a crônica histórica dava conta de que o rio tinha sido a sua principal via, restando às estradas de terra (de João de Barros, do Encanamento, das Ubaias, de Dois Irmãos, do Arraial e várias outras) o papel secundário para o trânsito de animais e pessoas a pé ou, eventualmente, puxando carroças. Depois, me aprofundando mais ainda no estudo da história, entendi que essa dinâmica começou a mudar com a chegada dos trilhos à cidade, na segunda metade do Século 19, com o pioneiro trem urbano a vapor, a Maxambomba (corruptela da expressão inglesa machine punp). Com o trem passando pelas principais vias da cidade, em seguida, com os bondes (inicialmente puxados a burro, depois elétricos) e, mais em seguida ainda, com a chegada dos carros e do calçamento, o principal ponto de atração passou a ser o antigo “fundos” dos imóveis onde, agora, passavam os bondes e os veículos automotores, com os pedestres relegados às bordas da via (as “calçadas”). Com isso, o Rio, como antiga via, passou para os fundos dos lotes e “desapareceu” da cidade. E como todo desaparecido, foi virando progressivamente local do indesejável, de onde se colocar esgoto e lixo, sem “ser visto”. O resultado foi que, ao longo do Século 20, o Capibaribe foi ficando cada vez mais invisibilizado e “sujo”, a ponto de se implantar o entendimento de que o Capibaribe estava “morto”, sufocado pela poluição de todo tipo. Pois bem, tinha essa ideia formada na minha cabeça quando, há quase duas décadas, comecei a fazer caminhadas sistemáticas pela cidade. E dentre as inúmeras revelações que tive, sem dúvida a principal foi a redescoberta do Capibaribe. Fui encontrando com ele no fim das ruas e no fundo das quadras, sem conseguir passar para o outro lado. Então, com uma diferença de antes: encontrei as margens vegetadas pelo mangue, coisa que não existia antes quando elas eram completamente “nuas”, sem qualquer vegetação. Mas, para todos os efeitos, o rio estava “morto”, cheio de esgoto e lixo, uma vez que nem as capivaras tinham aparecido ainda. Com as caminhadas, uma das descobertas que eu tinha feito foi a do Baobá de Ponte D’Uchoa, encurralado por um muro na beira do Rio, um monumento vegetal que não entendia porque ainda não tinha sido incorporado à cidade, já que muito pouca gente sabia de sua existência. Por conta disso, toda as vezes que passava pela Avenida Rui Barbosa, fazia questão de visitá-lo e apresentá-lo a quem estava comigo. Numa dessas vezes, cedo da manhã, chegando perto da beira do Rio, vimos, no final da rua sem calçamento, o que nos pareceu ser uma tartaruga, com certeza fugida de algum quintal das redondezas. Mas, qual não foi a surpresa, com a nossa aproximação e com as fotos que fizemos, o bicho se espantou e “correu” para a margem, em busca do Rio, despencou do barranco que existe no local e ficou de cabeça para baixo. Descemos, viramos a tartaruga que, quando se viu novamente sobre as quatro patas, partiu célere e mergulhou no Rio, justamente no local de onde existia um cano jogando esgoto em profusão. Voltamos um tanto espantados com o ocorrido e encontramos no lugar, onde o bicho estava, um buraco que deu a impressão de ter sido feito para colocação de ovos. Depois, consultado especialistas descobrimos que não se tratava de uma tartaruga mas de um cágado d’água que tinha escolhido o local para fazer sua desova. Mas, mais importante do que tudo, tivemos uma prova concreta de que o Rio não estava “morto”. Pesquisando um pouco mais descobrimos que o fato de a água salgada do mar entrar, quando da maré cheia, duas vezes ao dia na planície, indo até o bairro da Várzea, isso promove uma espécie de “tratamento” da água do Rio, diminuindo a poluição e aumentando a oxigenação. Isso torna o Rio “vivo” na planície recifense. De fato, depois desta descoberta, começamos a perceber que a vegetação das margens tinha criado uma espécie de “corredor ecológico” desde a floresta do oeste até a foz no leste. E começamos a “ver” capivaras, pássaros estranhos, peixes, jacarés e, até, uma jiboia como citado na reportagem de capa desta edição da revista Algomais. Essa “descoberta” turbinada pelo estudo realizado pela pesquisa Parque Capibaribe e pela ocupação urbanizada das margens (como o Jardim do Baobá, a Praça Otávio de Freitas no Derby, o Parque das Graças, o Cais da Vila Vintém), propiciou a ampliação da visão e da pertinência do Capibaribe na vida dos recifenses. Falta agora uma ampla campanha para despoluir o Rio, retirando o esgoto e o lixo dele para que a sua vida seja potencializada e, quem sabe, até o aniversário de 500 anos do Recife em 2037, possamos voltar a tomar banho nele, como os recifenses faziam até quando os veículos sobre trilhos e motorizados começaram a passar no fundo dos lotes… *Francisco Cunha é consultor e sócio da TGI

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recife cidade

Sobre a nova lei de parcelamento, uso e ocupação do solo do Recife

*Por Francisco Cunha Desde os bancos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde me graduei em Arquitetura e Urbanismo, que achava esquisito o contraste entre a quantidade de leis urbanísticas existentes no País e a má qualidade da urbanização das cidades brasileiras. Depois que me formei, tomei outro rumo profissional, comprei um carro, entrei nele e passei 25 anos “fora da cidade” (isso porque, mais adiante entendi, que quem só se locomove de carro fica fora da cidade mesmo que continue morando nela). A coisa continuou assim até que decidi ilustrar um livro que estava escrevendo sobre a história de Pernambuco com fotos do Recife contemporâneo baseado no entendimento de que “O Recife é o museu vivo da história de Pernambuco”, frase do historiador Leonardo Dantas Silva. Fazendo, de dentro do carro, o registro dos locais para o estudo fotográfico, me dei conta de que não conseguia ver tudo e decidi que, terminado o livro, iria caminhar pela cidade para tentar descobrir o que não estava conseguindo de forma motorizada. 15 anos depois dessa decisão e após ter caminhado cerca de 50 mil quilômetros dentro do Recife (mais do que a circunferência da Terra, o que me faz dizer que “circulei o mundo inteiro sem sair do Recife”), uma realidade completamente nova se abriu para mim. Mergulhei no estudo do Urbanismo que havia deixado na faculdade (tão profundamente que hoje me considero “pós-graduado em Urbanismo pelos pés”) para entender o mal-estar que havia me causado o retorno pedestre à cidade. A conclusão a que cheguei, depois de muito estudar, caminhar e refletir, inclusive refletir caminhando, foi a de que o Recife, após ter estado, até a década de 1940, na vanguarda da discussão urbanística nacional (e, mesmo, mundial), a partir de então foi vitimado por um duplo “atropelamento”: (1) populacional (a população passou de cerca de 500 mil habitantes em 1950 para 1 milhão em 1970); e (2) automobilístico (a frota passou de alguns raros veículos para cerca de 800 mil atualmente, caminhando rapidamente para atingir em breve o recorde de 1 milhão, quase um por habitante). O resultado foi que o controle urbanístico restou na prática perdido e a cidade se transformou no que passei a chamar de “quebra-cabeças desmontado”, uma espécie de “colcha de retalhos” de loteamentos acrescentados ao tecido urbano sob a regulação de uma legislação profusa, confusa e, em boa medida, contraditória, com a completa perda das visões de modelo de organização urbanística e estratégica de longo prazo. As antigas estradas (de João de Barros, de Dois Irmãos, do Arraial, das Ubaias, do Encanamento, de Água Fria, de Beberibe, de Pau D’Álho, de Limoeiro etc., onde só transitavam pessoas a pé, de cavalo ou de carroça) se viram transformadas em avenidas de quatro faixas de rolamento, cheias de carros que passaram a ocupar todos os espaços públicos disponíveis, inclusive as calçadas para estacionamento. Em consequência, o Recife passou a aparecer nas pesquisas e nas manchetes como uma das mais engarrafadas do país e, mesmo, do mundo. Para piorar, no início do Século 21, o Recife começa a despontar no noticiário nacional como a capital mais violenta do País. Foi então que um grupo de pessoas que militava na cidadania empresarial resolveu, em 2008, criar o Observatório do Recife para tentar entender, via indicadores, o que estava acontecendo. Como eu já fazia caminhadas em pequenos grupos, recebi o convite do Observatório para guiar as caminhadas temáticas Olhe Pelo Recife e, antes da campanha eleitoral de 2012, coordenar o projeto O Recife que Precisamos. Essas duas iniciativas possibilitaram, após a escuta de especialistas e da população, a construção de uma proposta que enfatizava cinco prioridades: (1) Retomada do Planejamento de Longo Prazo; (2) Retomada do Controle Urbano; (3) Destravamento da Mobilidade; (4) Recuperação do Centro da Cidade; e (5) Revitalização do Rio Capibaribe. Essas prioridades foram apresentadas a todos os candidatos a prefeito e amplamente discutidas na campanha, a ponto de serem incluídas no programa de governo da chapa vencedora (Geraldo Julio / Luciano Siqueira). Como consequência, desde então (já que o projeto foi renovado e reapresentado a cada eleição subsequente): já estamos na segunda edição do Plano Recife 500 Anos (durante as discussões, descobrimos que o Recife será a primeira capital brasileira a completar 500 anos em 2037); os outros modos de deslocamento sustentáveis que não o motorizado (a pé, de bicicleta, por transporte coletivo) foram ampliados com melhores calçadas, maior malha cicloviária e faixas azuis para o transporte público; foi criado o programa Recentro com um gabinete do Centro do Recife e um plano de longo prazo chamado O Centro do Recife na Rota do Futuro; e, por último mas não menos importante, o Parque Capibaribe, resultado de uma pioneira pesquisa (que durou sete anos), aplicada de urbanismo, realizada pela Prefeitura do Recife e a UFPE. No meio de todo este percurso foi ficando ainda mais evidente o emaranhado legal, incluído o resultante de um plano diretor mal feito e mal revisado (com uma pandemia pelo meio), leis superpostas, com dispositivos conflitantes e desatualizadas, numa verdadeira barafunda jurídica, apenas sobressaindo-se, como exceção “benigna”, a chamada Lei dos 12 Bairros (Lei Ordinária Nº 16.719 de 2001) que definiu parâmetros urbanísticos mais “civilizados” para os 12 bairros lindeiros ao Rio Capibaribe pela sua margem esquerda (Derby, Espinheiro, Graças, Aflitos, Jaqueira, Parnamirim, Santana, Casa Forte, Poço da Panela, Monteiro, Apipucos e parte do bairro Tamarineira). Por conta deste reconhecimento tive, inclusive, a oportunidade e a satisfação de escrever um livro, em parceria com Luiz Helvécio, Norma Lacerda e Paulo Reynaldo, sobre a importância da Lei dos 12 Bairros para o Recife. Esta situação de confusão legal perdurou até que, na atual gestão municipal, o secretário de Desenvolvimento Urbano, Felipe Matos, liderou, em boa hora, a equipe do Instituto Pelópidas Silveira (a instituição responsável pelo planejamento urbano da cidade) na revisão da legislação defasada e na construção participativa de uma nova Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo do Recife (LPUOS) que dirimisse as contradições e dotasse a

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geopolitica

É a geopolítica, estúpido!

*Por Francisco Cunha Conta a lenda política internacional que, quando da postulação eleitoral de Bill Clinton, em 1992, havia uma disputa entre os estrategistas sobre qual deveria ser o mote da campanha, se a guerra do Kuwait ou a economia. Foi quando o consultor James Carville escreveu no quadro de avisos do comitê central, em letras garrafais, a frase: “É a economia, estúpido!” Carville ganhou a discussão, foi dado foco na economia e Clinton ganhou a eleição. Bem, isso foi em 1992, quando da então recente queda do Muro de Berlim, do desmoronamento da União Soviética com o consequente fim da Guerra Fria. Então, pensava-se que a história tinha “acabado” e os EUA seriam a única potência hegemônica para todo o sempre. Ledo engano! A China já estava amolando os cascos para galgar a vice-liderança econômica mundial e ameaçar a hegemonia dos EUA. Desde então, o que se viu foi a ascensão da nova potência asiática com uma reconfiguração gradual da geoeconomia e da geopolítica internacionais. Em menos de três décadas, a situação mudou completamente da Guerra Fria original (capitalismo mundial, liderado pelo EUA, versus comunismo internacional, liderado pela União Soviética) para o que alguns autores chamam de Guerra Fria 2.0. Agora, colocando em contraposição, de um lado, os EUA com todo o aparato multilateral montado depois da Segunda Guerra Mundial e que considerava o mundo bipolar do meio século seguinte e, de outro, a China com o seu “capitalismo de estado”, praticamente monopolizando o comercio mundial. Esta situação é ilustrada com clareza desconcertante quando se observam os dois mapas-múndi acima divulgados pela revista The Economist, que mostram em azul os países do mundo que têm os EUA como principal parceiro comercial e em laranja os que têm a China com destaque para a comparação entre os anos 2000 e 2020. Com base no que se vê nos mapas, é legítimo inferir que toda essa confusão que o novo governo Trump está fazendo com as tarifas alfandegárias tem como objetivo primeiro atingir o seu principal rival comercial, atual e para o futuro, que é a China. Isso porque os EUA sabem mais do que ninguém que quem domina o comércio, termina por dominar a política, a diplomacia e, ao fim e ao cabo, as finanças internacionais. Daí, ser possível compreender a fúria de Trump contra os Brics e mais especialmente contra o Brasil. Afinal, dentre os constituintes originais do bloco (Brasil, Rússia, China e Índia que formaram, inclusive, o acrônimo BRIC), o mais “frágil” ou mais “fácil” de atacar diretamente é o Brasil. Se não, vejamos: a Rússia tem o maior arsenal atômico, herdado da União Soviética, talvez até maior em número de ogivas do que o dos EUA; a China é a potência rival com a qual não convém bater logo de frente; e a Índia, além de possuir também a bomba atômica, têm, nos dias atuais, a maior população do mundo. Quem sobra para efeito demonstração? O Brasil que, além de estar no mesmo continente (no “quintal” da América Latina como se referiram autoridades norte-americanas), ainda é o maior país latino-americano e na posição de liderança pelo tamanho populacional, econômico e institucional que têm. Não é à toa que circula informalmente no âmbito da diplomacia internacional a máxima de que “para onde o Brasil for, a América Latina vai também”. Diante deste quadro, essa história de supertarifação do Brasil por conta do julgamento “injusto” do ex-presidente Jair Bolsonaro tem toda a cara de pretexto para ocultar a razão principal (passar um claro recado aos demais Brics: “quem manda nessa joça ainda sou eu!”) ou, na mais psicanalítica das hipóteses complementares, para acusar de ilegítimo um rito processual democrático que se aplicado ao próprio Trump já o teria condenado. Em outras palavras: se a invasão do Capitólio que ele incentivou e, em linhas gerais, comandou, tivesse sido no Brasil, existem poucas dúvidas de que já estaria julgado e preso. Em suma, enquanto Bill Clinton podia, em 1992, assumir que o tema da campanha era a economia norte-americana interna, hoje, para entender o interconectado e conturbado quadro mundial, teríamos que pedir a Carville que redefinisse o slogan. Certamente ele diria: “É a geoeconomia, estúpido!”. Afinal, como disse muito apropriadamente Camões, há quase 500 anos: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

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ferrovia pernambuco montagem

Pernambuco não é capacho do Ceará

*Por Francisco Cunha A  mais recente novidade acerca do melodrama relativo ao trecho pernambucano da ferrovia Transnordestina dá conta de que o governador e a bancada parlamentar do Ceará estão fazendo enorme pressão sobre o ministro da Casa Civil, o ex-governador baiano Rui Costa, pela demissão do superintendente da Sudene, Danilo Cabral, por ele supostamente não estar “facilitando” a vida do trecho cearense da ferrovia.  Isso depois de a Sudene já ter liberado R$ 5,6 bilhões dos Fundos de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE) e de Investimentos do Nordeste (Finor), e de já ter assegurado até 2026 mais R$ 2,6 bilhões, praticamente a totalidade do FDNE até lá, para o trecho do Ceará. E mais: depois do trecho pernambucano (de Salgueiro a Suape) ter misteriosamente desaparecido do contrato de concessão entre o Natal e o Ano Novo de 2022. E mais ainda: depois de a concessionária da malha métrica do Nordeste Oriental (Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte), – sucessora da concessionária do trecho cearense da Transnordestina que articulava há mais de um século os portos de Maceió, Suape, João Pessoa e Natal – ameaçar abandonar a concessão desses trechos e devolver à União a malha amplamente sucateada e totalmente inoperante. Isso após longos anos de abandono e de desmonte revoltantes. A pancada foi tão grande que o trecho pernambucano da Transnordestina só voltou para o mapa por determinação do presidente Lula, passando a ser incluído no Orçamento da União e no PAC, ainda que com recursos ínfimos se comparados com os destinados ao trecho cearense (menos de 5% até agora), depois de uma ampla mobilização social, empresarial e política.  Em resumo, foram deflagradas, de caso pensado, ações diretas e indiretas perpetradas com o objetivo de minar e, no limite, impedir o desenvolvimento, não só de Pernambuco como de todo Nordeste Oriental, posto que não existe competitividade portuária e, por extensão, regional, sem o suporte de uma malha ferroviária robusta. Basta observar o que acontece com todos os portos competitivos ao redor do planeta.  Essas ações combinadas, se não forem corajosamente enfrentas e revertidas, redundarão, na prática, na exclusão do Nordeste Oriental, para sempre, da malha ferroviária nacional. Isso quando já se projeta, com apoio decisivo (financeiro e técnico) da China, a ferrovia bioceânica (Atlântico-Pacífico), saindo de Ilhéus (não por acaso na Bahia) até o porto de Chancay no Peru. Se eu fosse adepto da teoria da conspiração seria levado a acreditar que está sendo urdido um plano para golpear covardemente as perspectivas de desenvolvimento dos estados do Nordeste Oriental, deixando-os literalmente a ver navios, passando do Ceará à Bahia e vice-versa, porque nenhum deles vai ancorar em portos sem retaguarda ferroviária. Ou seja, que se está deliberadamente planejando um sanduiche perpétuo de subdesenvolvimento para toda essa região do saliente nordestino. Ainda bem que não sou paranoico… Aproveito e lanço um repto aos cearenses: vamos fazer os dois trechos da ferrovia e deixar que a competência competitiva de cada estado se exerça. Por que não? Não é isso que se advoga modernamente? Meritocracia competitiva? Muito melhor do que procedimentos politicamente mesquinhos, do que tentativas de reduzir um estado inteiro a capacho de interesses subalternos.  Afinal, só existe uma palavra para classificar tudo isto que está sendo urdido há tempos, inclusive a atual e desleal pressão pela demissão do Danilo Cabral que vem imprimindo um dinamismo há muito não visto na autarquia de desenvolvimento: simplesmente INACEITÁVEL!  Pernambuco não é capacho de nenhum estado, muito menos do Ceará! 

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Olinda tem que ser também patrimônio de Pernambuco

*Por Francisco Cunha Depois de uma longa convivência com a Olinda histórica, cheguei à conclusão de que, embora ela seja patrimônio da humanidade, infelizmente não é patrimônio de Pernambuco e só tem salvação se vier a sê-lo, inclusive com uma rubrica permanente no orçamento do Estado. Até me tornar um jovem adulto, não conhecia Olinda direito. Praticamente só ia por lá na época do Carnaval ou como resultado de uma ou outra ida furtiva, sempre dentro de um automóvel. De dia, ao Alto da Sé ou, à noite, ao Cantinho da Sé e ao saudoso bar Relicário onde hoje funciona o Museu de Arte Sacra, antigo Palácio Episcopal, e nada mais. Isso, até que tive que comparecer, quando cursava a faculdade de arquitetura, num dia normal de semana, a uma aula de campo de história, marcada pelo inesquecível professor José Luiz Mota Menezes, a ser dada na igreja de Nossa Senhora da Graça, uma das mais antigas do Brasil, junto ao Seminário, no ponto mais alto da colina histórica. Saí de casa, no Bairro do Espinheiro, de ônibus, depois do almoço, saltei no Varadouro e subi a pé, bem devagar, a ladeira Quinze de Novembro quando a tarde já ia quase pelo meio. Então, de súbito, comecei a ser arrebatado pela beleza da velha Marim dos Caetés. Primeiro, a uniformidade das casas de porta e janela, de um lado e do outro da ladeira, depois a chegada na Rua de São Bento, junto à prefeitura, antigo Palácio dos Governadores. Uma parada para respirar e duas visões arrebatadoras: ao sul, o Recife no fundo, já visto parcialmente do alto; e, a leste, a bela igreja do Convento de São Bento, ambos emoldurados pelo casario histórico. Segui pela rua olhando de ambos os lados os sobrados, alguns com mais de 300 anos, passei pela casa de Ivaldevan e Sônia Calheiros, sede do bloco carnavalesco Eu Acho é Pouco, até chegar no Mercado da Ribeira, na frente do qual um pedaço de muro do antigo Senado de Olinda registra, escrito numa estrela de mármore, o pioneiro “grito da república” dado entre nós por Bernardo Vieira de Melo, em 1710, durante as escaramuças da chamada Guerra dos Mascates, conforme citado no hino de Pernambuco: A República é filha de Olinda Alva estrela que fulge e não finda De esplender com seus raios de luz Liberdade! Um teu filho proclama! Dos escravos o peito se inflama Ante o Sol dessa terra da Cruz! Continuando meu percurso, desço a ladeira, chego aos Quanto Cantos, aquele mesmo citado na famosa música de J. Michilis, imortalizada por Alceu Valença pelos carnavais afora (Me Segura Senão Eu Caio):  Nos quatro cantos cheguei E todo mundo chegou Descendo ladeira Fazendo poeira Atiçando o calor… Embalado pela lembrança dos frevos rasgados que já tinha ouvido por ali, resolvi enfrentar a fatídica Ladeira da Misericórdia. No meio da subida, mesmo com falta de ar, olhando para os lados, me veio à cabeça o belíssimo poema Olinda do grande Joaquim Cardozo que fala de calçadas “cascateado nas ladeiras”: Olinda, Das perspectivas estranhas, Dos imprevistos horizontes, Das ladeiras, dos conventos e do mar. (…) Muros que brincam de esconder nas moitas, Calçadas que descem cascateando nas ladeiras. Chego resfolegante ao topo, do lado da Igreja da Misericórdia e defronte da Academia Santa Gertrudes, no local onde o Capitão Temudo opôs a última resistência olindense aos holandeses na invasão de 1630. Quando me viro, a vista do Recife funciona melhor do que um balão de oxigênio. Refeito do esforço, sigo pela primeira rua de Olinda, no topo da colina, passo pelo Observatório (aquele citado no poema de Cardozo: “Sábio silêncio do Observatório / Quando à noite as estrelas passam sobre Olinda”) e pela caixa d’água de 1936, primeira construção modernista daquela altura no Brasil, até chegar na frente da Catedral da Sé, antiga Igreja do São Salvador do Mundo, construída pelo nosso primeiro capitão hereditário, Duarte Coelho Pereira. No largo, restabelecido da subida da Misericórdia, me deparo com a vista, esta sim de tirar o fôlego, do Recife e não tenho como não lembrar dos versos de Carlos Pena Filho: De limpeza e claridade é a paisagem defronte. Tão limpa que se dissolve a linha do horizonte. As paisagens muito claras não são paisagens, são lentes. São íris, sol, aguaverde ou claridade somente. Olinda é só para os olhos, não se apalpa, é só desejo. Ninguém diz: é lá que eu moro. Diz somente: é lá que eu vejo. Em seguida, enfrento, como obstáculo final, a ladeira do Seminário para chegar a meu destino, a igreja onde seria ministrada a aula de campo. Trata-se de um belo exemplar da arquitetura colonial-maneirista, na época recém-restaurada, com uma singela nave na qual, sentados nos bancos, assistimos a extraordinária aula de José Luiz. Terminadas as obrigações acadêmicas, descemos a ladeira do Seminário e paramos no Cantinho da Sé para brindar com algumas cervejas geladas o final da tarde e a descoberta de uma Olinda paisagística e histórica até então insuspeitada. Terminamos, como no poema de Cardozo, presenciando o momento em que “as estrelas passam sobre Olinda”. Esse episódio que classifico, à moda do poeta Manuel Bandeira, de “meu primeiro alumbramento” olindense se deu antes da elevação de Olinda, em 1982, pela Unesco, a patrimônio da humanidade como resultado de uma iniciativa liderada pelo renomado designer pernambucano Aloísio Magalhães, na época secretário de Cultura do MEC. Depois, passei a ir regularmente à cidade até que resolvi escrever um livro sobre o Recife e entendi que deveria começar por Olinda já que acreditava, como ensinou Gilberto Freyre, ser a velha Marim dos Caetés a “mãe do Recife” (assim como Igarassu pode ser considerada a “avó”). Na verdade, atirei no que vi e acertei no que não tinha visto. Inicialmente pensei em dedicar um fim de semana para percorrer o sítio histórico mas fiquei, junto com o amigo de infância Plínio Santos, quase um ano frequentando a área todos os domingos e, no final, terminamos por escrever um guia (Um

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TANCREDO NEVES

Tancredo Neves: o melhor presidente que o Brasil não teve

Quarenta anos após sua morte, o político mineiro permanece como símbolo da transição democrática frustrada *Por Francisco Cunha Há uma espécie de entendimento socialmente compartilhado no Brasil de que o melhor presidente da história republicana foi Juscelino Kubitscheck de Oliveira, o nosso JK. O que é perfeitamente compreensível, dadas as características pessoais do personagem (otimismo, alegria, obstinação, elegância, charme pessoal) somadas com as da época histórica em que governou: desenvolvimentismo, industrialização, “50 anos em 5”, Sudene, arquitetura brasileira “falando para o mundo”, construção de Brasília, campeonato mundial de futebol, Bossa Nova, Cinema Novo etc. Todavia, um outro personagem, mineiro como JK e seu companheiro de geração, que passou a vida política inteira se preparando e articulando para assumir a suprema magistratura nacional, estando eleito e a um passo da Presidência, foi abatido pela tragédia pessoal e morreu sem tomar posse do cargo por tanto tempo cobiçado. Falo de Tancredo de Almeida Neves que, em 21 de abril passado, completou 40 anos de falecido aos 75 anos de idade. Entrei na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPE em 1976, em plena ditadura, e, desde então, acompanho atentamente a vida política nacional, participando do movimento estudantil e da sociedade civil da época pelo restabelecimento da democracia. E, desde lá, procurava quem poderia liderar a transição de um regime autoritário para um regime onde fossem reinstaladas as garantias democráticas. Nesta procura, desde cedo, comecei a prestar atenção em Tancredo, então deputado federal por Minas Gerais, depois de ter sido ministro da Justiça de Getúlio Vargas e primeiro-ministro do breve regime parlamentarista instalado após a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961. Depois, Tancredo foi eleito senador e governador de Minas, tornando-se um dos líderes da luta pela redemocratização, inclusive do turbilhão em que se transformaram os movimentos Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, Diretas Já e Quero Votar para Presidente levando milhões de pessoas às ruas do País. Com a frustração dos movimentos pela eleição direta, Tancredo fez uma grande negociação com os políticos, a sociedade civil organizada e os militares, tornando-se candidato indireto à Presidência, concorrendo e ganhando no Colégio Eleitoral do Congresso Nacional contra o oponente Paulo Maluf, candidato das forças que apoiavam a ditadura. Acompanhei tudo isso atentamente, fazendo, inclusive, campanha ostensiva para Tancredo por acreditar ser ele o único líder político capaz de conduzir a transição pacífica da qual o País tanto precisava depois de mais de 20 anos de ditadura. Ele, inclusive, foi o único candidato a qualquer cargo eletivo, ainda que no caso indireto, que teve um adesivo em meu carro. Além disso, eu andava com o botton de Tancredo para todos os lugares, até no casamento (neste caso, por dentro do paletó, considerando que ainda estávamos em pleno regime autoritário) de um amigo que teve como padrinhos Maluf e o próprio Tancredo, sendo esta, talvez, a única vez em que estiveram num mesmo ambiente público durante a campanha eleitoral, já que não havia ainda debates entre candidatos a presidente. Assisti emocionado o seu discurso, logo após a vitória no Colégio Eleitoral: “Não vamos nos dispersar. Continuemos reunidos, como nas praças públicas, com a mesma emoção, a mesma dignidade e a mesma decisão. Se todos quisermos, dizia-nos, há quase duzentos anos, Tiradentes, aquele herói enlouquecido de esperança, podemos fazer deste país uma grande nação. Vamos fazê-la!” Então, qual não foi meu espanto quando, chegando em casa, na noite anterior à posse, vindo de uma comemoração antecipada, ligo a TV e vejo o noticiário dando conta de que o presidente eleito havia sido internado para uma operação de emergência. Depois da internação e do espanto, se sucederam a angústia e a tristeza no acompanhamento da via crucis de 38 dias pelas mãos de médicos incompetentes, hospitais e cirurgias. Até hoje, sou acometido de uma ponta de angústia quando ouço a música Coração de Estudante cantada por Milton Nascimento e transformada no hino do martírio e da morte de Tancredo. Minha maior frustração nessa história toda foi termos perdido a oportunidade do exercício da presidência de uma pessoa que teve uma trajetória política maiúscula e se preparou a vida inteira para ocupá-la como uma espécie de expoente de uma geração de grandes políticos da estirpe de Ulisses Guimarães, Franco Montoro, Teotônio Vilela, Mário Covas, José Serra, Fernando Henrique Cardoso e outros de grande valor, impossíveis de comparar com os da atualidade. Penso que toda a geração daqueles que lutamos e torcemos pelo fim da ditadura e pela transição pacífica para a democracia perderam a chance de ter Tancredo como presidente no lugar de ter-se transformado no melhor presidente que o Brasil não teve. Uma grande frustração e a concordância com a frase que ele teria dito na UTI: “Eu não merecia isso”. Não merecia mesmo! Nem ele nem nós!  *Francisco Cunha é consultor e sócio da TGI

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Rua Nova 2

O plano mais importante desde Maurício de Nassau

*Por Francisco Cunha Discurso feito no lançamento do plano estratégico O Centro do Recife na Rota do Futuro, dia 09/04/25 Quando do lançamento da “ordem de serviço” do Plano do Centro, aqui mesmo neste Moinho retrofitado, só que lá no quarto andar, cheguei a dizer que aquele era um dos dias mais importantes de minha vida. O mesmo digo hoje. E por que eu falo da importância desses dias? Quando criança, adolescente e jovem adulto, o Centro da cidade era o meu centro das atenções e, porque não dizer, também, meu “parque de diversões”, como também, de milhares de outras pessoas: Quis o destino, todavia, que após viver o apogeu do Centro do Recife, eu fosse testemunha ocular e angustiada de um longo e sofrido processo de decadência que já está por completar cinco séculos de lenta e continuada agonia. Mas quis o destino também que eu tivesse a felicidade de, desde o ano 2000, dar consultoria à CDL Recife e, lá, dedicar-me, junto com os diretores, à frente deles Fred Leal, a buscar alternativas para reverter a decadência. Infelizmente sem sucesso, muito embora tenhamos tentado de tudo. Talvez tenhamos conseguido, no máximo, reduzir um pouco o ritmo da queda mas, sem nem de longe, sequer, conseguir interrompê-la. Depois de muito esmurrar a ponta da faca, entendemos que nenhum processo efetivo de reversão seria possível sem que o Poder Público Municipal se tornasse o principal protagonista da recuperação. E foi com essa certeza que acompanhamos com entusiasmo a decisão corajosa do prefeito João Campos de assumir o Centro como uma das prioridades da sua gestão. E, aí, mais uma vez, o destino me encontrou na presidência do Conselho da Aries – Agência Recife para Inovação e Estratégia e, nessa condição, podendo ajudar a viabilizar a elaboração do Plano Estratégico de Longo Prazo do Centro do Recife que estamos tendo a grande satisfação de entregar hoje. Nesta jornada tive também a muito grata satisfação de estreitar relações com a competente Ana Paula Vilaça que, hoje, considero uma amiga que ganhei do Recentro. Daí, eu gostar de dizer que o Recentro é feito de coragem e competência. Pude me aproximar também de Washington Fajardo, um urbanista de mão cheia, sensível ao apelo humanizado dos afetos como vetor de recuperação das cidades. Sem falar de Sérgio Buarque, consultor competente e sensível além de amigo de longa data. Desde o início da empreitada do plano que fiz questão de alertar a competente equipe da Aries comandada por Mariana Pontes que devíamos evitar duas armadilhas: (1) o plano perfeito; e (2) o plano unânime. Cinquenta anos de experiência cotidiana com o planejamento (desde o primeiro dia da faculdade de arquitetura e urbanismo) me ensinaram que assim como “não existe vento favorável para quem não sabe para aonde quer ir”, também não há mapa infalível do caminho. O mapa vai se redesenhando ao caminhar. Ele ajuda, orienta, mostra a direção, mas não é perfeito. O melhor plano sempre será o próximo. A experiência também ensina que não há plano unânime, sempre existirão os que não concordarão com ele, uns por vaidade, outros por desconhecimento, outros mais por não se sentirem contemplados. O fundamental é ter feito todo o esforço possível para contemplar todas as facetas como, tenho certeza, foi feito com este que está sendo entregue hoje. O primeiro plano de fato estratégico do centro desde que Maurício de Nassau sonhou fazer da Mauriciópolis a capital do Brasil Holandês, traçando para ela o primeiro plano urbanístico renascentista do continente americano. São praticamente os contornos da Cidade Maurícia que se transformaram no Centro atual do Recife e da sua região metropolitana, uma das principais do País. E é, justamente, este contorno que é objeto do plano que está sendo entregue hoje. Não é corriqueira a missão de recuperar o Centro degradado da capital mais antiga do Brasil, uma das cidades coloniais mais antigas do continente. Porque esse Centro Histórico é, aprendi depois de caminhar centenas de quilômetros por ele, um museu vivo da história de Pernambuco e, mais do que isso, da história do Brasil. Portando, a missão é tão grande quanto desafiadora só que, agora, com o plano, ou seja, com um norte e um roteiro amplamente validado. Meu agradecimento em nome pessoal e da cidade, ao prefeito João Campo; ao vice-prefeito Victor Marques; ao secretário Felipe Matos e equipe; à chefe do escritório do Centro, Ana Paula Vilaça e equipe; aos consultores especiais Sérgio Buarque e Whashington Fajardo; a Mariana Pontes e Ciro Pedrosa no comando da competente equipe da Aries; aos colaboradores e colaboradoras do plano; bem como aos integrantes da governança do Centro. O nosso desafio se reforça hoje com o plano O Centro na Rota do Futuro mas, tenho certeza, que este dia já está inscrito na história da cidade e de que em 12 de março de 2037, quando do aniversário de 500 anos do Recife, a foto estará lá, na linha do tempo da exposição comemorativa. Espero que todos aqui estejamos lá também comemorando os avanços conseguidos e a recuperação tornada irreversível do nosso Centro. Muito obrigado pela atenção!

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