*Por Francisco Cunha
Como acontece na indústria fashion, tanto na masculina como, sobretudo, na feminina (cujo mercado é muito maior), a chamada “Ciência da Administração” ou da “Gestão Empresarial” sofre permanente e periodicamente a influência das “tendências da moda”.
No que diz respeito ao fashionismo masculino, sobre o qual tenho um pouco mais de conhecimento do que sobre o feminino que, aliás, é nenhum, vivemos sob pressão de colocar, por exemplo, lapela de paletó grossa no lugar da fina, gravata larga no lugar da gravata fina, paletó “jaquetão” no lugar do paletó de dois ou três botões, calça baggy no lugar da calça skinny; camisa social de colarinho “inglês” (fechado) no lugar do colarinho “italiano” (aberto) e assim por diante…

É fácil entender a razão pela qual isto acontece: mercado. Sem isso, ninguém compraria roupa nova ou, pelo menos, diminuiria bastante a compra e, então, o mercado colapsaria.
Algo parecido acontece com a “indústria” da consultoria. E quem faz o papel de trendsetters (criadores de tendência), à semelhança do que acontece na indústria fashion, são as grandes empresas mundiais de consultoria. A partir de suas matrizes, dão os comandos em termos de tendências e, sobretudo, produtos a serem oferecidos aos clientes, e esses comandos descem pela cadeia até as consultorias nacionais e locais, inclusive chegam às franquias de consultorias internacionais, a nova moda em termos de modelo de negócios no setor de consultoria local.
Neste contexto, uma moda da indústria de consultoria, já há algum tempo em cartaz, é a implantação ou aperfeiçoamento da “governança corporativa” nas empresas. Como no âmbito local, as poucas empresas de maior porte existentes, de alguma forma, já o fizeram, restam as empresas de porte médio, já que as de pequeno porte estão, pelo tamanho, excluídas. E é, justamente, sobre as médias que recai a ação de mercado das consultorias locais sintonizadas com os modismos, em especial a das franquias de consultorias internacionais, inclusive em busca, com certeza, de gerar receitas capazes de ressarcir as taxas de adesão despendidas.

Tudo estaria bem, afinal a governança é inquestionavelmente necessária, inclusive nas empresas de porte médio, se as abordagens adotadas para isso não fossem equivocadas. Afinal, não dá para tentar vestir uma empresa de porte médio, geralmente de origem familiar, com o modelito de governança desenhado para as empresas de grande porte, geralmente sociedades anônimas.
E, infelizmente, é isso que está sendo feito pelos copiadores acríticos dos modelos estandardizados que, geralmente, preconizam a implantação de conselhos de administração e outros penduricalhos copiados como a pedra filosofal da governança. Nada mais equivocado! Aliás, um equívoco muitíssimo comumente amplificado por advogados desavisados, ávidos pela formalização, por intermédio de elaborados e pouco úteis instrumentos jurídicos, dos erros de projeto perpetrados pelas consultorias maquiladoras.
Mal comparando, receitar conselhos de administração para empresas que ainda estão muito longe de ter, por exemplo, balanços auditados, é como tentar vestir paletós de lã número 58 em manequins tropicais tamanho 42. O resultado será uma marmota. É a impressão que tenho quando vejo determinadas proposições feitas, a maioria, felizmente, projetadas mas não usadas. Menos mau, nestes casos em que o prejuízo é “só” financeiro, com o dinheiro sendo jogado fora “apenas” com o pagamento das consultorias inadequadas.

A experiência prática de quatro décadas de trabalho customizado com centenas de empresas de porte médio locais recomenda vivamente a abordagem tailor made (feita sob medida), considerando cada situação como um caso que precisa de atenção e abordagem específicas. Para usar a metáfora fashion, cada caso deve ser tratado mais como objeto de haute couture (alta costura) do que prêt-à-porter (pronto para vestir). É mais caso de estilismo individual do que de produtos de prateleira que servem ilusoriamente para qualquer um.
Governança corporativa para empresas de porte médio, sim! “Macaquear a sintaxe” estrangeira, como disse o imortal poeta recifense Manuel Bandeira (que, aliás, foi universal sem nunca deixar de ter sido do Recife), não! Afinal, as empresas médias locais requerem e merecem cuidado e respeito!
*Francisco Cunha é consultor empresarial e sócio da TGI