Geraldo Eugênio: “O sol, a energia e a atração de investimentos”

O valor das coisas está em sua utilidade. Um caso a merecer consideração, em se tratando do Semiárido, é o sol. Os quadros, os painéis, os livros, as crônicas, as músicas, ao longo de séculos, passaram a imagem de um sol abrasador, vermelho, cuspindo fogo e como o castigo que incidia sobre o Sertão para redimir os miseráveis dos pecados cometidos.

O rei sol trazia sofrimento, fome, miséria, migração, perdas da colheita e do gado, doenças e rugas na pele, sardas, cegueira, envelhecimento precoce. Era quase como se dissesse que as gravuras que a Igreja Católica distribuía, demonstrando o que era o inferno, tivesse no Sertão sua tradução literal. Em aproximadamente duas décadas esse conceito foi totalmente alterado e, hoje, já não se consegue imaginar o País sem contar com o concurso da energia eólica e solar. À medida que a possibilidade de instalação de usinas hidroelétricas foi diminuindo, as dificuldades de cunho técnico, sociais e ambientais foram crescendo, além de uma incipiente produção de energia nuclear, o Brasil passou a contar com o vento e o sol para atender a sua crescente demanda por energia doméstica, industrial e, para a agricultura.

A eficiência da conversão da energia recebida pelas placas solares chega nas unidades mais eficientes ao valor de 22%, podendo ir um pouco além. Houve um crescimento substantivo na eficiência desse processo ao longo das últimas décadas. Um outro fator que mudou o mercado mundial de energia fotovoltaica foi a entrada da China no processo industrial de produção de placas e componentes, barateando o valor de cada watt produzido e democratizando o uso da energia fotovoltaica em todos os continentes. Ela conseguiu superar as indústrias tradicionais instaladas na Alemanha e Estados Unidos, tornando-se a principal fornecedora de equipamentos, em particular as placas fotovoltaicas, inclusive para esses países.

O interessante é que o sonho do uso da energia solar se deu a partir da conversão desta energia em energia química por meio da fotossíntese, um dos capítulos mais marcantes na evolução do reino vegetal. Acontece que, enquanto no processo fotossintético a conversão varia entre 3% e 5%, na geração via placas, esse valor consegue ser multiplicado entre 6 e 8 vezes, podendo, ao longo dos próximos anos, chegar a níveis maiores.

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E ENERGIA SOLAR FOI CONQUISTANDO TERRENO

Como marco legal da geração distribuída, uma legislação criada no rasto do mais importante programa de acesso à energia elétrica no Brasil, iniciado em Pernambuco no segundo mandato do governador Miguel Arraes, o crescimento da produção da energia solar tem sido quase exponencial, alcançando 52 gigawatts de energia gerada em 2025, ou equivalente a quatro hidrelétricas de Itaipu, para se ter uma ideia.

O acesso ao crédito, a capacitação de centenas de pequenas e médias empresas e um cenário favorável fizeram com que a energia fotovoltaica chegasse a se constituir na segunda fonte mais importante de energia elétrica no País, sendo superada apenas pela geração hidroelétrica. Apesar de alguns solavancos – reais e fantasiosos – o uso cresce de forma contínua, em especial pela conquista do mercado urbano, seja residencial ou nas unidades de serviço e no comércio.

Até o presente são poucos, caso existam, os clientes que optaram pela instalação de suas unidades conectadas (on grid), isoladas (off grid) ou híbridas que não apresentem redução substancial no custo e uma recuperação de investimento em um prazo que raramente supera três anos. Em se tratando dos principais municípios geradores de energia solar em Pernambuco, como é caso de São José do Belmonte e Flores, os investimentos continuam se fazendo presentes por meio da expansão das unidades existentes ou da instalação de novas unidades fotovoltaicas, conhecidas como UFVs.

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Usina de energia solar em Belmonte – PE

AS OPERAÇÕES AGRÍCOLAS E INDUSTRIAIS

]No setor agrícola, a energia fotovoltaica tem viabilizado milhares de microáreas irrigadas, assegurando a presença da água na produção de forragem, de alimentos, como é o caso do milho e do feijão e, em especial, quando se tratam de frutas e hortaliças. Até pouco tempo atrás a agricultura irrigada no Nordeste era tratada como algo inerente às margens do Rio São Francisco e totalmente conectada à eficiência e capacidade de distribuição da Companhia Hidroelétrica do São Francisco e de empresas como a Equatorial, a Neoenergia e outras que adquiriram a maioria das empresas estaduais do setor.

Hoje, o que se vê é a expansão das áreas irrigadas entre Itacuruba e Jatobá por médios e grandes empreendedores que optaram por se instalar em Pernambuco, a exemplo da Fazenda Mississipi, entre Floresta e Petrolândia. Pela distância do polo Petrolina-Juazeiro não poderão depender das indústrias de processamento de frutas lá instaladas e, com isso, são várias as plantas industriais que estão em processo de projeto e construção. Chamando-se a atenção para o fato de que essa nova onda está quase ou totalmente desacoplada com a multinacional Neoenergia, substituta da Celpe, antiga Companhia Energética de Pernambuco, e contando com a economia no custo de energia por meio da instalação de unidades fotovoltaicas de forma que viabilizem suas operações.

Neste quesito não se deve desprezar a importância da presença do governo no crescimento da produção e distribuição das energias renováveis. Nelas está assentada a futura tendência de aproveitamento eficiente da água em todas as microbacias e onde se conta com água disponível, inclusive as mais salobras que serão objeto do processo de dessalinização a preço significativamente reduzido ao se comparar com a energia hidroelétrica.

Geraldo Eugênio é professor titular da UFRPE-UAST.

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