Artigos

Lição da pandemia: olharmos para o coletivo

Por Sílvia Gusmão* Recentemente presenciei uma conversa sobre o que fazer com as crianças durante as férias, neste tempo de pandemia. Eram pais preocupados com os efeitos dos meses em que seus filhos estavam trancafiados em casa. Um deles sugeriu contratar profissional especializado em atividades recreativas. Alguns consideraram a alternativa atraente. Outros reagiram demonstrando temor da aglomeração. Instaurada a polêmica, alguém sugeriu que cada família decidisse se suas crianças participariam ou não. Naquele momento, indaguei se condutas individualistas, a cargo de cada família, seriam mais adequadas do que o compartilhamento de ações que visassem à coletividade. Lembrei ainda que as crianças podem ficar assintomáticas, mas transmitir o vírus para a família, vizinhos e comunidade. Pode surpreender, mas condutas individualistas não são fatos isolados. Ao contrário, tornam-se cada dia mais comuns na contemporaneidade. Basta observar restaurantes e bares lotados de adolescentes sem respeito à importância da máscara e do distanciamento social. É compreensível o desconforto que o isolamento produz, como também o dilema dos pais para conter os filhos em casa, privados da rotina da escola e do convívio social. Como também é considerável a tensão acirrada pelo ensino à distância cansativo, exigente e pouco produtivo para muitos estudantes, o que provoca desentendimento entre pais, filhos e escola. Urge identificar alternativas para lidar com as restrições que irão perdurar. Apesar da perspectiva otimista trazida pela vacina, ainda viveremos algum tempo fazendo uso de máscara e do distanciamento social, dizem os especialistas. Considerado pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, o médico e sociólogo Nicholas Christakis afirma que a pós-pandemia se dará apenas em 2024. Em sua opinião, quando a imunidade de grupo for alcançada, ainda teremos de enfrentar impactos econômico e social trazidos pela pandemia. Segundo Christakis, epidemias não são novidade na humanidade. Ocorrem a cada 100 anos. São novas e aterrorizantes para quem as vivencia. O vírus da Covid-19 nos aproximou da morte, nos confrontou com nossa fragilidade diante das contingências da vida. Abalou as certezas e a ilusão de que controlamos nosso futuro. Além do tempo de luto e dor pelas perdas constantes de parentes, amigos, colegas de trabalho, empregos, convívio social … enfrentamos um horizonte que não sabemos qual será. Frente a essa terrível experiência, as pessoas lidam com os recursos psíquicos que dispõem. Alguns sucumbem à angústia e se paralisam. Outros se defendem negando a dimensão letal do vírus. Melhor saída seria reconhecer a vulnerabilidade da condição humana e inventar um saber fazer diante dos percalços para seguir caminhando. Afora o risco de contrair a doença, morrer ou ficar sequelado, a pandemia impõe a convivência intensa e forçada com a família, fato gerador problemas, mas também de ganhos e aprendizagens. Exercitando a paciência podemos extrair lições e aproveitar esta oportunidade para dar testemunho às crianças e aos adolescentes do valor dos ideais de fraternidade e solidariedade para a vida social na pandemia, e sempre. *Sílvia Gusmão é psicanalista e sócia da Trajeto Consultoria

Lição da pandemia: olharmos para o coletivo Read More »

Cinco habilidades que os profissionais brasileiros devem aprender em 2021

Da Udemy 2020 foi o ano em que o futuro do trabalho (com equipes virtuais, trabalho 100% remoto etc) foi acelerado de tal forma que se tornou o presente. Com a necessidade repentina de trabalhar e colaborar com os colegas de forma remota, a lição que ficou é que não é possível resistir às mudanças – e que ser capaz de se adaptar é essencial. Considerando o ano passado e com o objetivo de apontar caminhos para os profissionais da América Latina para 2021, a Udemy, o maior destino do mundo para cursos online, lançou recentemente o relatório 2021 Latin America Workplace Learning Trends. No estudo, para identificar tendências para este ano, a Udemy analisou o consumo de cursos por parte dos usuários da sua plataforma de treinamento corporativo, a Udemy for Business, na região em 2019 e 2020. O relatório é uma extensão de outro maior, o 2021 Workplace Learning Trends, em que a Udemy aponta tendências para o futuro do trabalho no mundo todo. O documento para a América Latina traz tendências de habilidades que os profissionais devem aprender para se manterem atualizados e se destacarem (para seis países: Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México e Peru), além de macrotendências de aprendizado para o mercado de trabalho (na região como um todo). Veja a seguir as cinco principais habilidades que os profissionais brasileiros devem aprender em 2021: 1- Comunicação 2- Produtividade pessoal 3- Microsoft Word 4- API Rest (tipo de interface de programação de aplicações) 5- AWS Certified Solutions Architect – Associate (exame da Amazon Web Services) Já as macrotendências para o aprendizado corporativo na América Latina são duas. A primeira são os times de tecnologia compostos por profissionais híbridos – pessoas especializadas em mais de uma área de conhecimento ao mesmo tempo, como um profissional de TI que é especialista tanto em teste de software quanto em administração de servidor. A segunda é a colaboração para as empresas que estão trabalhando de maneira remota – mesmo que a pandemia tenha acelerado a tendência, ela veio para ficar.

Cinco habilidades que os profissionais brasileiros devem aprender em 2021 Read More »

Pesquisa eleitoral e retórica – Por Maurício Costa Romão

Em 2010 o Ibope produziu extenso relatório sobre suas pesquisas em 24 estados, intitulado “Balanço das eleições de 2010”, e diz no intróito: “Neste documento podem ser observadas as intenções de voto obtidas nas pesquisas divulgadas na véspera da eleição e nas pesquisas de boca de urna comparadas aos resultados oficiais do TSE”. Depois de mostrar para cada estado da Federação o “percentual de votos previstos corretamente”, o instituto elabora um quadro resumo com o título: “Índices de acertos no 1º turno de 2010”, no qual detalha a quantidade e os percentuais de: (a) acertos de candidatos com estimativas dentro da margem de erro; (b) acertos na colocação dos candidatos, apesar de estimativas fora da margem de erro; (c) candidatos fora da margem de erro e da colocação final. A conclusão triunfante do relatório no seu quadro-resumo é a de que: “o percentual total de acerto, considerando a margem de erro ou a colocação do candidato” é de 98% para governador e 95% para senador. O que é que mudou de 2010 para cá, que não se pode mais comparar as estimativas de intenção de votos das pesquisas de véspera com os resultados das urnas e quem o faz comete uma inconcebível heresia?  Graças à sua popularização e disseminação urbi et orbi, a pesquisa tornou-se indissociável das eleições, a ponto de assumir protagonismo tal que é impensável acompanhar o processo eleitoral sem sua presença. Em virtude desse protagonismo, somado à carga emocional que transmite, a pesquisa passou a ser objeto das mais variadas críticas, até mesmo de influenciar decisões do eleitor e, em última instância, de definir eleições. O assunto é complexo e exigiria discussão mais aprofundada. Por enquanto, apenas a questão das intenções de votos das pesquisas de véspera e os resultados oficiais é abordada. É oportuno enfatizar, ab initio, que sendo a pesquisa um mero instrumento técnico de acompanhamento do processo eleitoral, que serve para apontar tendências com base em levantamentos sucessivos, não é seu propósito predizer os percentuais exatos que os candidatos obterão nas urnas.  O que a pesquisa faz é estabelecer um intervalo de variação para suas estimativas (ou prognósticos, numa conceituação mais livre e popular) dentro de certo nível estatístico de confiança, na expectativa de que os percentuais estimados de intenção de votos estejam circunscritos a esse intervalo de variação, quer dizer, à margem de erro amostral. O cientista político Jairo Nicolau sintetizou bem essa compreensão, de resto já incorporada à paisagem, popularizada na mídia e no seio do grande público: “… para avaliarmos o grau de precisão dos institutos precisamos comparar os resultados das urnas com os da última pesquisa publicada, levando em conta a margem de erro”. Devido à crescente enxurrada de críticas às pesquisas, eleição após eleição, derivada das discrepâncias entre suas estimativas de intenção de votos e os resultados das urnas, os institutos passaram a adotar a narrativa de que essa comparação é indevida (quando erram, naturalmente), elaborando malabarismos retóricos do tipo: “Uma coisa é a intenção de voto nas pesquisas, outra coisa é o comportamento do eleitor na urna, quer dizer, sua decisão de voto”; “Os levantamentos de véspera não têm função de antecipar resultados”; “O objetivo da pesquisa é contar a história da eleição até sábado”; “O que se divulga representa sempre o momento para trás, não para frente”; “Até por marketing, nós mesmos, dos institutos, tratamos esses números divulgados na véspera como prognósticos, mas, na verdade eles são diagnósticos, refletem uma realidade que já passou”… Desse contorcionismo com as palavras o que se extrai? Estimativas dentro da margem de erro, os institutos acertam [“Conseguimos prever 95% dos votos corretos do primeiro turno…” (Ibope, Congresso em Foco)], fora da margem, os institutos não erram [“Erram os que cobram precisão numérica de pesquisas encerradas na véspera da eleição, quando ainda há indecisos” (Datafolha, FSP)]. Corolário: os institutos nunca erram! Ora, se a pesquisa só olha no retrovisor e “reflete uma realidade que já passou”, por que, então, os próprios institutos alardeiam a cada eleição que acertaram tantos por cento dos resultados? Por que os seus sites continuam apresentando as pesquisas com dizeres tais como: “Pesquisa aponta vitória de fulano”. “Cicrano dispara e deve ganhar no primeiro turno”, “Beltrano pode ser eleito no domingo”, e por aí vai? Isso é “antecipar resultados” ou as palavras mudaram de significado? Ao adotarem tais narrativas ambíguas, os institutos cada vez mais se enrolam num novelo de contradições, potencializando os crescentes danos à imagem das pesquisas. O momento é de ressignificação para os institutos, que devem, sem subterfúgios: assumir o status preditivo das pesquisas; admitir que estimativa dentro da margem de erro é acerto e fora é erro; e reconhecer as dificuldades técnicas de lidar com: [a] a volatilidade do voto (o eleitor está decidindo o voto na undécima hora); [b] o comportamento errático do eleitor (cada vez mais “líquido”, despolitizado, indecifrável) e [c] a caixa preta do não-voto (brancos, nulos e indecisos) e [d] a característica “voluntária” do voto no Brasil. Maurício Costa Romão, é Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos.

Pesquisa eleitoral e retórica – Por Maurício Costa Romão Read More »

10 dicas para conquistar a vaga dos sonhos em 2021

O novo ano chegou como uma chance de recomeço para muita gente e um dos fatores que mais simbolizam o início de um ciclo é a conquista de uma nova oportunidade profissional. Luana Matos, Diretora de Recursos Humanos da Divisão Brasil da Arcos Dorados, maior franquia independente do McDonald’s no mundo e responsável pela operação dos restaurantes da rede em toda a América Latina e Caribe, traz dicas valiosas para quem está em busca da vaga dos sonhos! A executiva está à frente da gestão de pessoas em uma das maiores empregadoras e formadoras de mão de obra no Brasil, com cerca de 50 mil funcionários. Confira: 1. Defina seu objetivo profissional “É preciso desenvolver o autoconhecimento para ter clareza sobre o caminho profissional que te trará maior propósito e sentido de realização. Dessa forma, você trabalha com afinco suas competências técnicas e socioemocionais, que dizem respeito à prontidão para lidar com desafios e ter habilidade e empatia no relacionamento com os outros, além de competências de liderança para as posições de gestão”. 2. Adapte sua apresentação ao mercado “O currículo ainda existe para muitas vagas e deve ser claro, fácil de ler, com todas as realizações relevantes de sua vida profissional sendo descritas de forma concreta, com entregas e resultados. Também deve conter resumo de suas qualificações técnicas e competências socioemocionais, sem exageros, sem erros gramaticais e com todas as informações verdadeiras. O conteúdo do seu CV ou formulários preenchidos em sites de vagas/empresas deve estar conectado com a oportunidade que está buscando, para saltar aos olhos do recrutador e ser captado por programas de computador que geralmente são usados como primeiro filtro. Por isso, leia atentamente a descrição da vaga e veja o que pode ser enfatizado para que a conexão fique ainda mais visível. Contudo, é cada vez mais comum outras formas de apresentação, como vídeos, links para redes sociais e outras plataformas digitais.” 3. Atenção se a entrevista for virtual “É importante praticar conversas por vídeo. Uma dica é se gravar no celular, por exemplo, para observar sua forma de comunicação, pois como não haverá a interação pessoal, tudo ficará restrito a como você será percebido por vídeo. Seja pontual e teste antes o link para a entrevista virtual, para que tudo funcione bem na hora e não te cause nervosismo desnecessário.” 4.Prepare-se para a entrevista “É sempre bom ir para a entrevista sabendo ao menos um pouco da história da empresa, conquistas, desafios atuais e seus líderes. Falar com pessoas que trabalham lá, para entender melhor a cultura organizacional, também pode render dicas valiosas. Esteja preparado para narrar sua trajetória profissional na linha da situação, tarefa, ação e resultado (método STAR) e responder as perguntas de forma precisa e segura, com noção de tempo e seguindo o ritmo do entrevistador. Demonstre entusiasmo e vontade genuína de abraçar o novo projeto. 5. Espere a hora certa para questionar o salário “Dependendo do cargo e empresa, o salário já é claro desde o primeiro momento e não há dúvidas. Em outros casos, pergunta-se qual foi seu último salário e/ou pretensão salarial. Mas, é só no final do processo seletivo que o novo salário é discutido. Portanto, não aborde questões salariais durante a entrevista. Aguarde as dúvidas para quando essa etapa chegar. A oportunidade profissional em si e as possibilidades de crescimento que ela traz são mais importantes neste momento.” 6. Faça perguntas pertinentes “Geralmente, no final da entrevista há um espaço para perguntas do candidato, que devem estar relacionadas à empresa e às expectativas com relação à posição que estão contratando. Procure evitar muitas perguntas. Faça poucas e boas perguntas, na medida certa.” 7. Evite o drama “É preciso deixar de lado os conflitos de experiências anteriores que não foram questionados pelo entrevistador e que não têm relevância para a nova função. Fique atento, do ponto de vista mental e emocional, para demonstrar que está nas melhores condições de superar os desafios da vida, evitando trazer para a entrevista questões particulares que não contribuem em nada para o processo seletivo.” 8. Seja sincero “A sinceridade é muito importante em uma entrevista, inclusive, caso seja perguntado sobre pontos de desenvolvimento ou desligamento de outra empresa que te trouxeram aprendizados. Apenas evite falar qualquer coisa que seja depreciativa sobre outras empresas ou colegas com quem já tenha trabalhado. E se você não tem ainda muita bagagem profissional, demonstre a disposição de quem está começando. As empresas valorizam muito um candidato com boa atitude, alinhado aos seus valores, com mentalidade de crescimento e com perfil inovador e proativo.” 9. Controle o nervosismo “Até o mais experiente profissional pode ficar nervoso durante uma entrevista, especialmente se for em uma empresa que ele deseja muito trabalhar. Por isso, o melhor é aprender a lidar com essa emoção natural que temos quando nos sentimos pressionados em passar a melhor imagem e nossa experiência em um curto espaço de tempo. Preparar-se mentalmente antes é fundamental: boa noite de sono, boa alimentação, programar-se para evitar atrasos, pesquisar muito sobre a empresa e a oportunidade em questão, trabalhar a respiração antes da entrevista para relaxamento e escutar com calma o entrevistador são pontos valiosos. Lembre-se que você só conseguirá mostrar o melhor de si se estiver calmo.” 10. Calma para esperar o feedback da empresa “É importante ter serenidade para aguardar algumas semanas enquanto o processo estiver em andamento. Fazer contato rápido demais demonstra ansiedade.” Em resumo, prepare-se, pense positivo e demonstre abertura e entusiasmo para sua nova oportunidade de carreira.

10 dicas para conquistar a vaga dos sonhos em 2021 Read More »

E-Commerce e seu impacto regulatório nos Shoppings Centers

Desde há muito se reconhece a importância econômica e social dos empreendimentos imobiliários estruturados e, dentre os quais, notadamente, os Shoppings Centers, tendo em vista os impactos positivos que agregam para determinada região, especialmente, por conta da geração de emprego e renda imediatos para população de seu entorno, além da esperada valorização dos imóveis circunvizinhos. O Shopping Center, assim qualificado, brevemente, como sendo um conjunto estruturado de atividades que conta com uma administração única e centralizada e que tem por finalidade congregar em um único local diversas atividades econômicas que, por conta da refletida organização deste conjunto, potencializa os resultados de seus participantes têm enfrentado e, nos últimos tempos – por conta do aumento das vendas on-line especialmente impulsionadas pela recomendável restrição de circulação devida à COVID-19 – questões relacionadas à formação da base para fins da apuração do aluguel. Estas questões são das mais variadas e todas elas orbitam em buscar responder à seguinte pergunta: a estrutura do negócio em Shopping Center de alguma forma contribuiu para a efetivação daquela venda? Dito de outra forma, o lojista se utilizou do estruturado conjunto ao qual pertence para divulgar ou, então, de qualquer maneira efetivar a venda? Afora questões relacionadas ao estabelecimento virtual e às cláusulas de raio e de exclusividade por vezes identificadas neste negócio jurídico, ao que parece no atual estágio das reflexões é que a resposta seria: se de alguma maneira restar demonstrada a utilização da estrutura concebida pelo empreendedor do Shopping Center, os valores das vendas efetivadas através das transações On-line por conta do E-commerce, deverão integrar a base de cálculo para fins de apuração e pagamento do valor devido por conta da física ocupação. O estudo e aprofundamento deste tema e as variadas particularidades de cada uma das situações fáticas ainda demandará dos juristas profundo processo de avaliação que, em qualquer circunstância, não tenderá se afastar da avaliação da essência deste relevante negócio jurídico que contribui para a geração de riquezas de caráter social e econômico. Revisar estipulações contratuais tenderá a ser uma alternativa. Marcelo Barbaresco – Doutorando e professor da FGV Direito SP – FGV Law e do Instituto Luiz Mario Moutinho <marcelo@mbarbaresco.com.br>

E-Commerce e seu impacto regulatório nos Shoppings Centers Read More »

SBPC e sua capilarização: Regional de Pernambuco rumo aos 70 anos

*Maria do Carmo F. Soares e Maria do Rosário Andrade Leitão (Secretária Regional e Secretária adjunta da SBPC-PE) A SBPC fundada em 8/7/1948 tem berço paulista, quando o seu estatuto e a eleição de sua primeira diretoria aconteceram na associação Paulista de Medicina, mas logo capilarizou-se para os demais estados do país para cumprir o que se encontrava preconizado em seus princípios descritos na ata de sua fundação. Entre seus objetivos encontra-se “apoiar e estimular o trabalho científico”, e, este objetivo não encontra barreiras sejam regionais, nacionais ou internacionais. Neste contexto no ano seguinte,1949, foi criada em Curitiba sua primeira representação regional, seguida neste mesmo ano, da representação do Rio de Janeiro. Em 1950, surgia a terceira representação em Belo Horizonte. E no ano de 1951 surgiram, concomitantemente as representações regionais de Recife e de Salvador, conforme consta na ata de reunião do Conselho e da Diretoria de 10/07/1951. Para organizá-las o próprio secretário geral, da primeira diretoria da SBPC, prof. Paulo Sawaya, viajou às duas capitais. No Recife instalou a comissão de organização, composta por: Newton da Silva Maia (professor da Escola de Engenharia); Nelson Ferreira de Castro Chaves (professor da Faculdade de Medicina); Luiz Siqueira Netto (professor da Escola de Engenharia), Aluízio Bezerra Coutinho (professor da Faculdade de Medicina), Luiz Siqueira Carneiro (professor da Escola de Veterinária) e Bento Magalhães Neto (assistente da Faculdade de Medicina e professor do Ginásio do Estado, conforme consta na Ciência e Cultura, v.3, n. 2, 1951. Foi eleito seu primeiro secretário, em 1951, o Prof. Newton da Silva Maia. Neste sentido, as regionais da SBPC dos estados de Pernambuco e da Bahia completarão neste ano de 2021, uma trajetória de 70 anos, desde a sua fundação. Portanto, desde seu início a SBPC proporcionou a abrangência de sua representatividade e o seu caráter nacional que se fortaleceu ao longo do tempo. Hoje a entidade se faz presente com 20 secretarias regionais em diversos estados brasileiros, além de uma representação oficial na Paraíba. Já chegou a possuir mais de 37 representações regionais espalhadas pelo Brasil. Uma nova forma de representatividade surgida na trajetória da entidade foi também, a afiliação das entidades científicas, atualmente somando 144 sociedades e ao todo uma média de 5 mil sócios ativos. As reuniões anuais da SBPC se constituem noutro mecanismo previsto no seu estatuto inicial, que vem ao longo do tempo acontecendo nas diversas capitais brasileiras. Não se encontrou bem delimitado o tempo que o primeiro secretário da Divisão Regional do Recife, Prof. Newton da Silva Maia, permaneceu a frente da secretaria, entretanto, quando da realização da VII Reunião Anual da SBPC, no ano de 1955, em Recife, o Prof. Nelson Chaves, encontrava-se como Conselheiro da SBPC. As reuniões anuais da SBPC, desde o início, vêm ocorrendo de forma descentralizada, em várias partes do Brasil. Com uma estruturação composta originalmente de conferências, simpósios, mesas redondas e apresentação de trabalhos. Mas, a cada reunião que foi acontecendo, de forma multidisciplinar, novas atividades surgiram e foram incorporadas na sua grande estrutura, o que tornou essa reunião no maior evento científico do país. Com o apoio da regional de Pernambuco já aconteceram 5 (cinco) reuniões anuais da SBPC na capital recifense, que foram sempre muito prestigiadas e marcadas pela receptividade e criatividade de sua gente. Desde o primeiro e bem sucedido convite, feito pelo Prof. Nelson Chaves, para que a 7ª reunião anual da SBPC acontecesse no Recife em 1955, na então Universidade do Recife, sendo a primeira do Norte/Nordeste. Foi nessa reunião onde se definiu o mês de julho para a sua realização, enquanto uma homenagem ao mês da criação da SBPC e passou a ser padrão para as demais nos anos seguintes, pois também, se aproveitava o período de férias nas universidades tornando-se mais fácil de se estruturar as reuniões dentro dos campi universitários. Essa reunião mereceu uma nota de destaque na prestigiada revista britânica Nature, mencionando a presença de cientistas britânicos no evento e a mensagem de saudações fraternais enviada pela Associação Britânica para o Progresso da Ciência, uma congênere da nossa SBPC; a presença nas principais sessões de Gilberto Freyre, conhecido sociólogo das américas e a conferência proferida pelo físico pernambucano, Mário Schenberg, em memória a Albert Einstein, falecido em abril daquele ano (Nature, n.4481, p.545-6, 17 set 1955). Assim, uma das marcas registradas das reuniões realizadas nesta capital foi a busca para incorporar algumas novidades/inovações, fomentando diálogos e incluindo o contexto da internacionalização. A segunda vez, que o Recife sediou a realização, na 26ª reunião anual, a iniciativa partiu do reitor na época, o Prof. Marcionilo de Barros Lins. Naquela ocasião, uma das novidades anunciadas foi a introdução de seminários e mesas redondas de caráter interdisciplinar. Uma chamada de capa da edição de 10/07/1974, do Jornal do Commercio anunciava a magnitude do evento: “Cientistas apresentam no Recife 1.800 trabalhos”. O programa oficial desta reunião foi publicado na íntegra na contracapa desta edição, ocupando toda a página com a chamada “Conclave da SBPC tem início a partir de hoje”. Um outro destaque desta reunião em 1974, cujo tema foi: A situação das ciências no Brasil e trouxe, como convidado, o economista Celso Furtado que se encontrava no exilio e voltava ao país, pela primeira vez, para proferir a conferência sobre o desenvolvimento brasileiro. Ele atraiu a participação e atenção dos mais jovens e da imprensa, sendo ovacionado de pé numa plateia lotada. Mais uma vez, a SBPC se posiciona como um grande palco de debates e na vanguarda do momento político. A 45ª RA no Recife em 1993 foi a terceira realizada na cidade. Foi a maior reunião, em termos de número de participantes, até então organizada pela sociedade. O Jornal do Commercio (11/07/1993) trouxe em sua matéria de capa, a imagem do campus da UFPE, anunciando que 12 mil pessoas participavam da reunião da SBPC, e se discutiria ciência e qualidade de vida. Os eventos paralelos, como a SBPC Jovem e a Expociência (mais tarde denominada, a partir da 58ª RA, com o novo nome ExpoT&C)

SBPC e sua capilarização: Regional de Pernambuco rumo aos 70 anos Read More »

“Natal: o impossível se tornou possível”. Uma reflexão na pandemia

“A virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe chamarão Emanuel” que significa “Deus conosco”. Mateus 1:23 (Bíblia Versão Almeida sec. 21) Chegamos em Dezembro, em um ano marcante, cujas experiências também ficarão nos anais de história mundial, narrativas banhadas em muitos desafios e vitórias, mas, também, em muito sofrimento, especialmente pela morte de mais de 1.717.124 pessoas pela Covid-19. Nesta época todos os anos celebramos o Natal, cujo sentido na tradição Cristã é a Celebração do Nascimento de Jesus Cristo, o Filho de Deus, nascido como criança, se torna o Salvador da Humanidade. Esta mensagem de esperança que renasce com a vinda do Cristo entre nós, então anunciado há quase 700 anos antes, pelo Profeta Isaías (no capítulo 7.14): “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.” O Natal de Cristo se realiza inicialmente em meio a historia do povo de Israel, que é apresentada ao longo da narrativa bíblica como um povo comum que Deus deseja usar para servir aos outros povos, na demonstração do amor, cuja fonte primária é o exemplo divino, e que resgate do projeto de sociedade (Reino) diferente do tipo de sociedade que construímos ao longo dos séculos, que vê o outro apenas como objeto de uso e descarte. Apesar de todo o desvio deste objetivo do povo, afastando dessa ética pautada no amor profundo, o Natal de Cristo nos lembra que Deus é Emanuel, ou seja, ele se fez presente junto à nós. Sim, o absurdo se fez Real! Deus resolve enviar seu Filho para exemplificar esse modelo de conduta que havia se perdido, afim de que aqueles que nEle creem, encontrem a Vida que dura eternamente (aqui e para o além-tumulo). Essa mensagem até hoje, mais de 2000 anos da vinda de Cristo, continua impactando a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo. Assim como agora, o Natal de Cristo, foi uma história da vida que vence a morte, uma vez que seus pais enfrentaram o parto no meio de uma viagem, sem sequer poderem ficar hospedados em local que lhes oferecesse estrutura para recuperarem suas forças e seguirem adiante em sua jornada. Também foi um contexto de vida que vence a morte, porque eles eram inimigos do Estado, que ao invés de proteger a vida de todos, especialmente dos vulneráveis, insistiu em assassinar as crianças em busca do extermínio do novo Rei que haveria de vir. Essa mensagem de Natal, continua atual, porque reflete que Deus age na Historia humana, com intuito de resgatar nossa mente e coração o projeto de sociedade (Reino) que ele havia planejado, onde reinam a Paz, Justiça e Alegria advinda do Espirito Santo (no livro de Romanos 14.7). O impossível volta a acontecer! Deus se torna parte concreta da história humana, porque ele mesmo está para além de nossa historia, ele estava antes, durante e estará depois da história humana, e fez isso por amor que ele tem a nós. Deus age demonstrando que não há nada impossível para sua atuação (no Evangelho de Lucas 1.37), há muitos impossíveis na história de Cristo, ele foi um Rei que nasce na pobreza porque assim quis, em um contexto de morte infantil, perseguição do Estado, e falta de moradia e condições dignas de existência. O impossível se torna possível quando em uma vida de amor, o Cristo vence os impossíveis da história para que nós pudéssemos ter a Esperança de que tudo pode ser diferente, até o nascimento de Jesus (de uma virgem) demonstra que não há impossíveis para Deus. Há muitos impossíveis em nosso tempo atual, que também precisam ser vencidos para uma sociedade efetivamente mais humana, Michel Foucalt (Filósofo e Teorico Existencialista) afirma que o ser humano pós-moderno vive e é atravessado pelos mecanismos específicos da racionalidade competitiva e individualista. Não é à toa, que em tempos de pandemia, testemunhamos a efervescência do descaso com auto-cuidado, e principalmente com a saúde da coletividade, inclusive dentre os religiosos de diversas matizes de crença. Neste sentido Jesus triunfou sobre outro impossível, o de viver uma vida cuja ética se fundamenta no amor, expresso também pelo cuidado. Cristo disse que venceu o mundo (no Evangelho de João 16.33), e o fez vivendo o amor profundo que transforma a maneira de vermos o outro ser humano. Por amor, ele deu voz a quem não tinha voz (mulheres, leprosos, viúvas e órfãos), e neste mesmo amor trouxe à vida aqueles que apenas sobreviviam. Assim o Evangelho de Cristo muda a ética como nós que o seguimos interagimos com o nosso próximo e com a coletividade. O Natal de Cristo, nos lembra para sempre que Deus realiza impossíveis, agindo em nossa história, trazendo vida, paz e esperança para todos que nele creem. Feliz Natal de Cristo. *Por Jades da Cunha e Silva Junior, pastor da Igreja Batista Imperial, teológo e psicólogo clínico

“Natal: o impossível se tornou possível”. Uma reflexão na pandemia Read More »

Fragmentos da eleição proporcional no Recife

*Por Maurício Costa Romão Pandemia e quociente eleitoral Com o uso da urna eletrônica no Brasil, a partir do ano 2000, a evolução do quociente eleitoral (QE) tornou-se mais estável, no geral. Nas últimas três eleições do Recife, por exemplo, o QE teve variações apenas marginais: 22.756; 22.531 e 22.063, em 2008, 2012 e 2016, respectivamente. Neste ano, principalmente devido à abstenção ao redor de 20%, os votos válidos diminuíram e o QE teve oscilação mais abrupta, baixando para 20.826 votos. Sobras de voto A democratização das sobras de voto determinada pela legislação eleitoral de 2017, segundo a qual todos os partidos podem participar da distribuição de sobras mesmo que não tenham atingido o QE não beneficiou nenhuma sigla em 2020 no Recife. De fato, para usufruir da abertura propiciada pela legislação, os partidos teriam que ter votação: (a) relativamente elevada, mais próxima possível do QE (condição necessária) e (b) entre as maiores médias nas rodadas de distribuição de sobras (condição suficiente). Dentre os partidos que não alcançaram o QE o PDT teve razoáveis 14.108 votos, mas que não foram suficientes para figura entre as maiores médias (vide Tabelas do Apêndice). QE continua imperando Com o advento da democratização das sobras de voto qualquer partido pode ascender ao Legislativo sem atingir o QE (satisfeitas as condições necessária e suficiente). Então o QE deixou de ser uma barreira à entrada no Parlamento para se tornar um parâmetro de referência. Mas, se não houver votações expressivas no pelotão de baixo do QE como, por exemplo, no caso deste ano no Recife, o parâmetro se transforma numa barreira à entrada. Partidos e fim das coligações Estimativas preliminares de antes das eleições proporcionais de 2020 apontavam a possibilidade de 50% dos partidos que concorressem a Câmara Municipal do Recife não fizessem nenhum vereador, reproduzindo o resultado de 2016. O percentual foi bem menor, cerca de 38%. Foram 10 partidos que ficaram de fora, em 26 que concorreram (contra 34 em 2016). O grande teste do fim das coligações, todavia, dar-se-á em 2022. Para deputado federal e estadual em Pernambuco, por exemplo, os partidos individualmente têm que cabalar votos na faixa de 173 mil votos para eleger um parlamentar federal e 92 mil votos para fazer um estadual. Abaixo dessas votações, correm o sério risco de ficar de fora do Legislativo. Cláusula de desempenho individual De acordo com a Lei 13.165/15, só ascendem ao Legislativo candidatos com votação igual ou superior a 10% do QE. Embora o sarrafo seja baixo (apenas 10% do QE), a eleição de 2018 para deputado federal em São Paulo chamou à atenção da classe política. Na ocasião, o PSL, na esteira da candidatura Bolsonaro, saiu em vôo solo e fez 17 deputados, mas só 10 assumiram o mandato, já que o restante não alcançou individualmente a cláusula de desempenho. No pleito de 2020 no Recife nenhum candidato eleito foi preterido pela aplicação da lei. O menos votado foi o candidato Doduel Varela do PSL, eleito com 2.302 votos (o sarrafo foi 2082 votos, uma diferença de 220 votos). Regra da quota A literatura especializada assevera que um método justo de repartição proporcional, conhecido como regra da quota, é o que consegue distribuir cadeiras legislativas entre partidos em quantidades iguais ao quociente partidário (QP) mínimo ou máximo. O método D’Hondt, ou das maiores médias, viola a regra da quota, não obedecendo esse critério e favorecendo as grandes votações. Vê-se na primeira Tabela do Apêndice que o PSB teve a expressiva votação de 202.018 votos, o que gerou um QP de 9,7003. Pela regra da quota o PSB deveria ter elegido no mínimo 9 ou no máximo 10 vereadores. Elegeu 12, graças à sua boa votação e à benevolência do método D’Hondt. (Nem pensar em trocar o método D’Hondt por outro qualquer! Existe uma maldição nos métodos de divisão proporcional. Não há nenhum perfeito, justo, ideal, conforme demonstrado por dois matemáticos americanos, M. Balinsky e H. Young, o que ficou conhecido como “Teorema da Impossibilidade de Balinsky e Young”). PSB e os vereadores com mandato O PSB elegeu 8 vereadores em 2016 mas, devido à sua força político- centrífuga, logo incorporou mais 10 (4 antes da janela partidária e 6 durante). Tinha então o desafio de eleger 18 vereadores de mandato em 2020. Para isso, e contando com o beneplácito do método D’Hondt, o partido teria que ter o mínimo de 312 mil votos, caso em que elegeria 15 pelo QP e eventualmente 3 por sobras. Não deu. Teve uma votação alta, de 202 mil votos, mas apenas o suficiente para eleger 12 dos 18. Poucos votos importam O PCdoB, com 32.008 votos, o Republicanos, com 31.604 votos, e o Democratas, com 31.464 votos, tiveram votações muito próximas umas das outras, com diferenças de 404 votos do segundo para o primeiro, de 544 votos do terceiro para o primeiro. Quando se observam os QP dessas siglas os resultados são praticamente iguais, diferindo em centésimos e milésimos (vide Tabela). Além de ser meio que intuitivo inferir, pode-se, também, demonstrar matematicamente que se dois ou mais partidos tiverem a mesma parte inteira do QP, aquele que apresentar a maior parte fracionária obterá a maior média na distribuição das sobras. De fato, nas rodadas de distribuição das sobras, o PCdoB ficou com a maior média (a última de todos os cálculos, vide Tabela): 16.004 votos, maior do que a do Republicanos (15.802 votos) e do que a do Democratas (15.732 votos). Assim, o PCdoB ganhou uma cadeira adicional àquela conquistada pelo QP. Renovação coincidente Na eleição de 2016 para a edilidade recifense, 17 novos vereadores foram eleitos, resultando numa taxa de renovação de 43,5%. Neste pleito agora de 2020, a taxa foi a mesma. Votações campeãs Entre as mulheres, a vereadora Michele Collins (PP), com 15.357 votos, em 2016, segue sendo a mais votada desde a redemocratização, na história da Câmara Municipal do Recife, tanto em termos absolutos, quanto em relativos (1,78% dos votos válidos). Irmã Aimeé (PSB), também em 2016, com 14.338 votos,

Fragmentos da eleição proporcional no Recife Read More »

Eleição no Recife: estrutura, pesquisas e volatilidade

A candidatura vitoriosa de João Campos a prefeito pelo PSB no Recife foi embalada por uma mega estrutura de apoiamento, que consistiu de 12 partidos coligados, 40% do tempo de rádio e TV, uma base de 33 dos 39 vereadores da Câmara Municipal, de 15 deputados federais em uma bancada de 25, de 29 deputados estaduais, dos 49 da Assembléia Legislativa, de volumosos recursos financeiros do fundo eleitoral e de duas máquinas de governo comandadas pelo seu partido, a estadual e a municipal. O aparato da coligação fez lembrar de 2018, na corrida presidencial, quando boa parte dos analistas políticos prescrevia a reedição da antiga polarização PT versus PSDB pela sétima vez consecutiva, em face das estruturas que catapultavam as candidaturas destas duas agremiações. A aliança do PSDB, por exemplo, com mais oito partidos, gerou uma super engrenagem de captar votos, espraiada pelo País afora: 30% dos governadores, 54% dos prefeitos, 52% dos deputados federais, 41% dos deputados estaduais, 49% dos vereadores, 40% dos senadores, 48% do fundo eleitoral e 44% do tempo de rádio e TV. Na ocasião, como se sabe, esse “voto de estrutura”, não funcionou, o que não aconteceu agora no Recife. Aí se configurou uma importante vitória do candidato pessebista, mantendo a hegemonia do partido no estado e no município, bem como reforçando o domínio político da família Campos, além de pavimentar caminhos para o governo estadual em 2022. Apesar da estrutura e de seus méritos pessoais, o percurso de campanha do prefeito eleito não foi de todo tranqüilo, o que serve de alerta para o futuro, já que a população lhe emprestou confiança, mas de forma numericamente crítica. De fato, ainda que João tenha sempre liderado as pesquisas no primeiro turno, recebeu nas urnas uma votação aquém da esperada e registrou apenas 1,2% de diferença de votos válidos para a segunda colocada, sua concorrente de segundo turno, Marília Arraes (PT), e de somente 4,1% para o terceiro colocado, Mendonça Filho, do DEM. O segundo turno se iniciou com as seis primeiras pesquisas [Ibope (2), Datafolha (2), Ipespe e Big Data] mostrando a permanência de dificuldades no mencionado percurso e exibindo Marília à frente nas intenções de voto, exceto em um dos levantamentos do Ibope. Na reta final, no entanto, os dois postulantes se emparelharam em intenções de voto, e as quatro últimas pesquisas, realizadas entre sexta e sábado, vésperas do pleito, desfilaram algo inusitado em eleições: cravaram rigoroso empate numérico entre eles, 50% a 50% (Ipespe, Big Data, Ibope e Datafolha). O desfecho se afigurava imprevisível, projetando-se que a contenda seria decidida no photochart. Os resultados das urnas, todavia, foram bem diferentes dos levantamentos de véspera: João Campos teve 56,3% dos votos válidos e Marília Arraes ficou com 43,7%, números bem fora das margens de erro. Os candidatos restaram separados por nada menos que 12,5 pontos de percentagem. Há dois possíveis fatores explicativos para essa discrepância não captada pelos institutos. O primeiro é a elevada alienação eleitoral (abstenção + votos brancos e nulos), de cerca de 34%, com destaque para a abstenção no entorno de 21% (20% no primeiro turno). Nas pesquisas, uma proxy para esta variável é a quantidade de indecisos que, na média dos quatros levantamentos mencionados, registrou apenas 3%. O segundo é volatilidade do voto: os eleitores estão deixando para decidir em quem votar nos momentos finais do pleito, muitas vezes no próprio dia da votação. Isso se tem repetido eleição após eleição e, naturalmente, impõe dificuldades aos institutos, já que as pesquisas imediatamente anteriores ao dia do pleito têm dificuldade de apreender esse fenômeno. De fato, na primeira pesquisa do segundo turno no Recife o Datafolha detectou que 9% dos eleitores decidiram seu voto na véspera da eleição e 15% o fizeram no próprio dia (19% entre os eleitores de baixa renda). Uma parte dessa volatilidade deve-se à mudança de preferência do eleitor: dias antes na entrevista ele declina intenção de voto em determinado candidato e na hora da votação decide por outro. O grande desafio das pesquisas, então, é empreender esforços técnicos no sentido de aprimorar a coleta e o tratamento de informações, mediante refinamento de perguntas específicas nos questionários, cruzamentos, levantamentos qualitativos, etc., de sorte a captar alguns sinais do pensamento do eleitor que se mantém reticente em decidir seu voto antecedentemente ao dia do pleito. Enfim, o mais jovem prefeito do Brasil, de consagradora vitória, tem no desafio de administrar uma cidade complexa como a do Recife, com suas carências de infraestrutura e suas enormes desigualdades sócio-econômicas, a oportunidade de validar a confiança que lhe concedeu o eleitor.

Eleição no Recife: estrutura, pesquisas e volatilidade Read More »

O ano letivo de 2020 pode ser um ano considerado perdido?

O ano de 2020 não começou bem para a humanidade. A Austrália enfrentou a pior temporada de incêndios de sua história, a escalada de tensão entre os EUA e o Irã, e no Brasil, destacamos o baixo crescimento do PIB do país, as enchentes no Sudeste e o Estado do Paraná enfrentando a pior estiagem de sua história. Mas sem dúvida alguma, dentre alguns dos principais fatos que marcaram o corrente ano até agora, a chegada da covid-19 trouxe inúmeros desafios em todas as áreas, pois mudamos drasticamente nosso estilo de vida e rotina em pouquíssimo tempo. Absolutamente tudo mudou, a nossa forma de realizar compras, trabalhar, encontrar com amigos e familiares e com os estudos não seria diferente. Praticamente do dia para a noite, várias instituições precisaram fechar para respeitarmos o isolamento social recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e profissionais da saúde. A escola foi uma dessas instituições que precisou ser fechada, pais, alunos e professores passaram a vivenciar um cenário completamente desconhecido. De um lado temos famílias trabalhando em home office com seus filhos em tempo integral em casa, precisando auxiliá-los em todas as atividades, inclusive nas tarefas escolares, sendo estas muitas vezes desconhecidas pelos pais. As crianças também foram muito afetadas, uma vez que perderam sua rotina escolar, sem saber expressar essa necessidade de rotina (horários adequados para acordar, comer, brincar, estudar, dormir, entre outros) aumentam seu nível de irritabilidade e stress, ficando mais chorosas. Do outro lado temos os professores, que foram desafiados a se reinventar, criar uma nova metodologia para alcançar seus alunos e transmitir o conhecimento. Uma das soluções encontradas para a educação foi o ensino a distância, popularmente conhecido como EaD, porém para este tipo de ensino é necessário obter conexão com internet. Por outro lado, o especialista em tecnologia na educação Nelson Pretto afirma que “a pandemia pode ser uma oportunidade para repensar estratégias para a educação a partir de agora”. Secretários de Educação de várias regiões traçaram inúmeras estratégias para levar educação até seus estudantes, lançando atividades pela internet, aulas pela TV aberta e distribuição de atividades impressas para aqueles que não tem acesso a internet. Sem dúvida, a pandemia trouxe vários desafios, porém o que podemos concluir é que tivemos inúmeros aprendizados em diversas áreas, e estamos conseguindo superá-los no dia a dia. Encontramos novas soluções e descobrimos novas ferramentas educacionais que antes não eram exploradas. Outra evidência a ser ressaltada é que o número grandioso de “lives” de diversas áreas do conhecimento vêm contribuindo para a formação de muitos profissionais, pois as barreiras físicas estão sendo diluídas neste novo formato que a sociedade encontrou como “solução” temporária. Desta forma é possível concluir que o ano de 2020 está longe de ser considerado um ano perdido. *Por Camila Andretta Martins é mestre em Educação e professora da Área de Educação do Centro Universitário Internacional Uninter.

O ano letivo de 2020 pode ser um ano considerado perdido? Read More »