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Cinco livros infantis para construir vínculos: Descobrindo a leitura bilíngue

*Por Matheus de Abreu O retorno às aulas, especialmente nas primeiras semanas do ano letivo, costuma provocar sentimentos mistos nas crianças. Como retomar a rotina após um período de horários mais flexíveis? Como reconstruir vínculos e a sensação de pertencimento à escola? Na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, esse processo exige um olhar que considere não apenas conteúdos mas, também, emoções. Nesse percurso, a parceria entre família e instituição de ensino é fundamental. Quando a leitura também se faz presente em casa, se constrói uma continuidade entre os diferentes contextos de aprendizagem. Essa articulação fortalece a segurança emocional da criança e torna a volta à escola mais acolhedora, favorecendo a escuta, a convivência e a independência. O ambiente escolar deve reafirmar seu papel como espaço de acolhimento, segurança e construção de vínculos. A readaptação acontece quando a criança percebe que sua voz e seus sentimentos importam, sendo compreendida e respeitada em seu tempo. Vivências pedagógicas intencionais permitem reorganizar expectativas, reconstruir relações e fortalecer o protagonismo infantil. É nesse cenário que a literatura assume um papel estratégico. Histórias ajudam a nomear estados emocionais, compreender mudanças e elaborar sensações típicas do período de transição de um ano para o outro. Em contextos bilíngues, os livros também aproximam idioma, emoção e experiência, construindo uma relação de afeto com a descoberta e tornando o inglês mais concreto e conectado ao cotidiano. Essa dinâmica favorece o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e cognitivas, como empatia, comunicação, autonomia, colaboração e resiliência, além de fortalecer a linguagem, a imaginação e o pensamento crítico. É a partir dessa relação afetiva com a leitura que compartilho cinco livros que atravessam meu trabalho pedagógico e que podem se transformar em belos momentos de presença e troca em família. The Very Hungry Caterpillar | Eric Carle Faixa etária: 2 a 5 anos Sempre retorno a esse livro pela forma simples e sensível com que fala sobre tempo, espera e transformação. Ao ler com as crianças, percebo como elas se reconhecem na trajetória da lagarta, celebrando pequenas conquistas e entendendo que crescer também exige paciência. Brown Bear, Brown Bear, What Do You See? | Bill Martin Jr. & Eric Carle Faixa etária: 2 a 5 anos Gosto de observar como a repetição cria segurança. As crianças rapidamente antecipam as frases, participam da leitura e ganham confiança no uso do inglês, transformando o momento em uma imersão coletiva e acolhedora. The Blue Balloon | Mick Inkpen Faixa etária: 3 a 8 anos Este é um livro que convida ao silêncio atento e à curiosidade. Costumo explorá-lo incentivando hipóteses e criações orais, permitindo que cada criança invente caminhos e significados a partir das imagens. Have You Filled a Bucket Today? | Carol McCloud Faixa etária: 4 a 8 anos Utilizo essa leitura como ponto de partida para conversas profundas sobre empatia. As crianças rapidamente relacionam a metáfora do balde às próprias atitudes, refletindo sobre como pequenas ações impactam o outro. Elmer | David McKee Faixa etária: 4 a 8 anos Elmer sempre gera identificação. Ao trabalhar essa obra, percebo como as crianças se sentem autorizadas a falar sobre diferenças, pertencimento e autoestima, em um clima leve e acolhedor. A readaptação escolar se constrói nas conexões, nas histórias compartilhadas e no espaço seguro que a escola oferece. Quando a literatura integra esse processo, os livros deixam de ser apenas recursos pedagógicos e passam a ocupar um lugar afetivo na vida da criança. Por isso, algumas perguntas se tornam essenciais: que histórias escolhemos colocar nas mãos das crianças no início do ano letivo? E, para além da escola, quanto tempo temos dedicado à leitura em família como gesto de cuidado e atenção? *Matheus de Abreu é coordenador pedagógico da Rede Maple Bear Global Schools.

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Edgard Filipe Segantini

Empresas familiares além do sobrenome

Por Edgard Filipe Segantini, CEO da Frosty As empresas familiares são parte essencial da economia brasileira e, ao mesmo tempo, um reflexo da nossa cultura empreendedora. De acordo com levantamento do IBGE junto ao Sebrae, cerca de 90% das empresas do país têm origem familiar, respondendo por 65% do PIB e 75% dos empregos. Esses números mostram a força desse modelo, mas também evidenciam a responsabilidade que ele carrega na formação de pessoas, na geração de oportunidades e na sustentação da economia do país. Mais do que o sobrenome que carregam, o que define a longevidade dessas empresas é a capacidade de evoluir sua gestão sem perder a essência que as originou. Ao mesmo tempo em que representam esse impacto econômico, as empresas familiares convivem com desafios estruturais importantes. Um dos mais conhecidos é o processo de sucessão. Dados do Banco Mundial mostram que apenas 30% das empresas familiares superam a primeira transição de liderança, e somente 5% chegam à terceira geração. Isso revela que o sucesso desses negócios depende menos do sobrenome e mais da capacidade de preparar pessoas, processos e estruturas para o futuro. A força de uma empresa familiar nasce, muitas vezes, do senso de pertencimento. Quando aquele negócio é um patrimônio da família, o nível de dedicação tende a ser maior, assim como a clareza sobre o impacto que cada decisão tem para o todo. A cultura costuma ser sólida, coerente e enraizada, porque cresce junto com a história das pessoas que a construíram. Esse é um diferencial importante: cultura forte gera alinhamento, constância e visão de longo prazo. Mas é preciso reconhecer que essa mesma proximidade pode se tornar um risco quando não há clareza de papéis, governança e profissionalização. Uma empresa não é a extensão da casa da família; ela precisa de processos definidos, metas, transparência e rituais que sustentem a gestão. Capacitar as novas gerações, estabelecer critérios objetivos e desenvolver competências de liderança são passos fundamentais para que a sucessão seja natural e saudável. Falo isso também a partir da minha experiência pessoal. Acompanhar, desde cedo, a trajetória da empresa ao lado do meu pai, que esteve à frente da organização por muitos anos, foi determinante na minha formação. O que me trouxe até aqui não foi apenas a expectativa de continuidade, mas o desejo genuíno de ocupar esse espaço e me preparar, com seriedade e propósito, para assumir essa responsabilidade. Um processo de sucessão só é bem-sucedido quando é construído com intenção, preparo e comprometimento, tanto de quem conduz a transição quanto de quem assume o desafio. O futuro das empresas familiares no Brasil passa por essa combinação entre origem, cuidado e profissionalização. É da união entre história e gestão que surgem negócios capazes de atravessar gerações, manter suas raízes e, ao mesmo tempo, crescer com solidez em um ambiente cada vez mais competitivo. Preservar o legado é importante, mas garantir que ele evolua é essencial para que as empresas familiares continuem sendo um dos pilares da nossa economia.

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Segurança nas academias: desmistificando os riscos e promovendo a quantidade de vida

*Por Elton Alves | Foto: Freepik O ambiente de academia é, em geral, muito mais seguro do que se pode imaginar. Quando olhamos para os dados, percebemos que as taxas de lesões graves são baixas; a maioria dos problemas é leve e, sobretudo, passível de prevenção. Os benefícios de saúde do exercício superam e muito os riscos. Estudos internacionais apontam que a maior parte das lesões é musculotendínea, concentrada em ombros e nos membros inferiores, e costuma estar associada a erros de técnica, cargas acima da capacidade do praticante ou progressão inadequada. É importante ter esses dados em mãos para dissipar a ideia de que os acidentes se resumem a falhas catastróficas de equipamentos ou outros possíveis perigos do ambiente. Há formas de mensurar a incidência de lesões e uma delas é comparar a quantidade de eventos por 1.000 horas de treino. Dentro dessa perspectiva, estudos apontam que a musculação apresenta taxa de aproximadamente 0,24 a 1 lesão para cada 1.000 horas de treino, valores comparáveis ou até menores do que os observados em muitos esportes coletivos. Mesmo modalidades mais intensas, como o CrossFit, mostram incidências próximas de 2 a 3 lesões por 1.000 horas, um resultado semelhante ao de outras atividades físicas recreativas, que cai ainda mais quando há supervisão adequada. No cenário brasileiro, as pesquisas realizadas com praticantes de musculação em academias relatam que a maior parte das pessoas não sofre episódios que exijam afastamento prolongado, e muitos eventos são dores ligadas à fadiga ou à má execução. É importante ressaltar que os principais gatilhos de lesão não são “perigos intrínsecos” da academia mas, sim, comportamentos de risco, como aumento de carga sem planejamento adequado, treinar sem orientação profissional, ignorar sinais de dor ou copiar treinos de amigos ou influenciadores digitais. Essa perspectiva é fundamental para o debate público pois mostra que a responsabilidade precisa ser compartilhada entre gestão, profissionais e usuários. Para lidar com problemas estruturais e eventos adversos, normas internacionais e nacionais regem os ambientes de treinamento. As normas internacionais para academias tratam esses espaços como ambientes de saúde e orientam triagem cardiovascular na admissão do praticante, especialmente em pessoas com maior risco. Também são recomendados planos de emergência, presença de profissionais capacitados em suporte básico de vida, DEA (desfibrilador externo automático) disponível e manutenção periódica dos equipamentos.  Outros pontos são o controle de lotação, sinalização de riscos, instruções claras de uso das máquinas e supervisão profissional ativa. No Brasil, resoluções do sistema Confef (Conselho Federal de Educação Física)/Cref (Conselho Regional de Educação Física) estabelecem anamnese e triagem de risco, limites de alunos por profissional, registro de incidentes e procedimentos de emergência. Além disso, a vigilância sanitária condiciona o funcionamento à licença específica, boas condições estruturais, responsável técnico habilitado e cumprimento das normas de segurança contra incêndio e pânico. Podendo variar entre estados e municípios, há ainda exigência de DEA e de profissionais treinados em primeiros socorros. Do ponto de vista de saúde pública, o risco de se manter sedentário é incomparavelmente maior do que o risco de frequentar uma academia. A literatura científica indica com robustez que atingir cerca de 150 minutos semanais de atividade física moderada está associado a reduções no risco de mortalidade, doenças cardiovasculares e vários tipos de câncer, com ganhos particularmente grandes em quem sai do sedentarismo.  No caso específico da musculação, estudos indicam que apenas 30 a 60 minutos semanais de atividades já podem trazer reduções de 10% a 17% em mortalidade geral, doenças cardiovasculares, câncer e diabetes, mesmo quando se controla a influência da atividade aeróbica. Isso significa que deixar de treinar por medo de um evento raro e pontual aumenta muito mais o risco de adoecer e morrer precocemente do que continuar frequentando uma academia organizada e bem supervisionada. Quando essas boas práticas são implementadas, a academia se mostra como um ambiente estruturado de promoção de saúde, no qual o risco é comparável ou inferior ao de outras atividades cotidianas que normalmente encaramos sem medos. O debate público deve se apoiar em dados como esses para mostrar que o melhor caminho não é fugir das academias mas, sim, exigir qualidade na gestão, qualificação profissional e na segurança, para que cada vez mais pessoas se tornem adeptas de uma prática que tem muito a contribuir com a sua saúde. *Elton Alves é profissional de educação física e especialista em treinamento feminino e de alta performance.

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Andrea Rego Barros Arquivo PCR

Por que o ano no Brasil só começa depois do Carnaval

*Por Rômulo Rampini Todo começo de ano vem carregado de promessas, planejamentos e metas ambiciosas. No papel, janeiro marca o início do ciclo. Na prática, porém, o Brasil funciona de outro jeito. Existe um consenso silencioso entre empresários, gestores e consumidores: o ano só começa de verdade depois do Carnaval. Essa percepção não é folclore nem exagero cultural. Ela se sustenta em comportamento, rotina, decisões econômicas e, principalmente, em como o marketing reage, ou erra, diante desse contexto. O Carnaval vai muito além de um feriado prolongado. Ele atua como um marco psicológico coletivo. Janeiro e fevereiro são meses de transição. Férias escolares, viagens, equipes incompletas e agendas instáveis criam um ambiente em que a atenção está dispersa e as decisões são adiadas. Antes do Carnaval, o brasileiro ainda não “virou a chave”. Depois dele, a rotina se organiza, o calendário engrena e o foco retorna. O mercado confirma esse comportamento. Leads gerados no primeiro bimestre costumam ter ciclos de resposta mais longos. Reuniões são remarcadas. Orçamentos ficam em análise. Decisões estratégicas são postergadas. Já no pós-Carnaval, a taxa de resposta aumenta, as conversões melhoram e os ciclos de venda encurtam. Não porque as campanhas ficaram melhores de repente, mas porque o público está mais disponível para decidir. Mesmo assim, muitas marcas insistem em começar o ano em alta rotação desde janeiro, como se o Brasil tivesse o mesmo ritmo de mercados que não passam por essa pausa cultural. O resultado costuma ser previsível: campanhas caras, baixo engajamento e a conclusão equivocada de que o marketing não funciona. Na maioria das vezes, o problema não está na estratégia. Está no timing. Marketing é contexto. É falar a coisa certa no momento certo. Antes do Carnaval, mensagens muito racionais ou agressivas encontram resistência. Depois, essas mesmas mensagens passam a fazer sentido. O público entra em modo de organização, crescimento e busca por previsibilidade. Por isso, o pós-Carnaval não é retomada. É largada. É quando o marketing digital ganha tração, o tráfego pago responde melhor, o conteúdo educativo converte mais e as ofertas encontram um público disposto a decidir. A leitura correta desse ciclo gera vantagem competitiva. Enquanto muitos tratam fevereiro como mês perdido, quem entende o ritmo do país usa esse período para estruturar ativos, ajustar campanhas, organizar funis e preparar a comunicação. Quando o Carnaval passa, entra forte, com clareza de mensagem e foco comercial. O ano no Brasil não começa atrasado. Ele começa no momento certo para a nossa cultura. O Carnaval não trava o mercado. Ele define quando o mercado realmente entra em movimento. Quem entende isso para de brigar contra o calendário cultural do país e passa a usá-lo a favor. No marketing digital, respeitar esse timing é o que separa frustração de resultado. Depois do Carnaval, o jogo começa. E quem entra preparado, larga na frente. *Rômulo Rampini – estrategista em marketing digital, consultor credenciado pelo SEBRAE MT e diretor da 3TRÊS

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Bernardo Peixoto Maker Midia 1 1

Ajustes, cautela e desafios moldaram o comércio pernambucano em 2025

*Por Bernardo Peixoto O ano de 2025 foi um período em que a principal virtude do setor não esteve na expansão acelerada, mas na capacidade de adaptação a um ambiente econômico ainda restritivo, marcado por juros elevados, crédito caro e um consumidor mais atento ao próprio orçamento. Os números ajudam a contar essa história, mas é na leitura conjunta deles que se compreende, de fato, o que foi o ano para quem empreende em Pernambuco. Até outubro, o comércio varejista ampliado no Estado registrou crescimento acumulado de 0,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. À primeira vista, o percentual pode parecer modesto. E ele é. Mas, diante das condições macroeconômicas observadas ao longo de 2025, o resultado indica resiliência. O comércio seguiu vendendo, manteve suas portas abertas e preservou empregos, ainda que operando com margens mais apertadas e decisões cada vez mais prudentes. A trajetória mensal do varejo ao longo do ano deixa isso evidente. Houve oscilações frequentes, com avanços pontuais e recuos em sequência, reflexo direto da sensibilidade do consumo ao custo do crédito. Para o empresário, isso se traduziu em giro mais lento de estoques, maior dependência de datas comemorativas e dificuldade para planejar investimentos de médio e longo prazo. O consumo não desapareceu, mas tornou-se mais seletivo e contido. No setor de serviços, o cenário foi ainda mais desafiador. A retração acumulada de 0,1% até outubro em comparação ao mesmo período de 2024 indica um setor operando muito próximo do limite do equilíbrio. Serviços mais ligados à renda das famílias e ao consumo cotidiano sentiram primeiro os efeitos da restrição financeira, enquanto segmentos como transportes e serviços auxiliares ajudaram a amenizar o resultado geral. Na prática, isso significou empresas adiando contratações, renegociando contratos e concentrando esforços na manutenção das atividades. Em contraste com esse quadro, o turismo apresentou desempenho positivo. O crescimento de 3,7% comparado ao mesmo período de 2024 no volume das atividades turísticas ao longo de 2025 mostrou a relevância do segmento para a economia pernambucana. O turismo tem funcionado como um amortecedor importante, impulsionando as regiões com maior vocação turística. Ainda assim, é preciso reconhecer que, embora relevante, ele não é capaz de compensar sozinho a perda de dinamismo de outros segmentos. Outro ponto que merece atenção é o avanço do endividamento e da inadimplência. Com juros elevados por um período prolongado, as famílias passaram a destinar parcela maior da renda ao pagamento de dívidas, limitando o consumo e impondo restrições adicionais à atividade econômica. Para o comércio e os serviços, isso representa um sinal claro de alerta para os próximos ciclos. A expectativa para 2026 ajuda a explicar por que o crescimento observado em 2025 foi tão contido. O boletim Focus, do Banco Central, indica que, mesmo com a inflação em trajetória de desaceleração, o IPCA projetado para 2025 é de 4,33%, com recuo para 4,06% em 2026, a taxa básica de juros deve permanecer elevada. A Selic esperada para o final de 2026 subiu para 12,25%, com expectativa de manutenção em 15% no início do próximo ano. Na prática, isso significa que a economia segue operando com o freio acionado. Para o comércio, juros altos encarecem o crédito ao consumidor, reduzem compras parceladas e inibem a aquisição de bens de maior valor. Para os serviços, dificultam investimentos, expansão e geração de empregos. Mesmo no turismo, elevam custos operacionais e limitam novos projetos. Esse descompasso entre inflação em queda e juros persistentemente elevados cria um ambiente de postergação de decisões, no qual empresários preferem aguardar a assumir riscos. O balanço de 2025 mostra que o comércio pernambucano não atravessou um ano de crise, mas de contenção. O setor demonstrou capacidade de resistência, mas carece de condições mais favoráveis para voltar a crescer consistentemente. Avançar na redução do custo do crédito, fortalecer o ambiente de negócios e oferecer maior previsibilidade econômica serão fatores decisivos para 2026.  As recomendações aos empresários, no momento de crédito caro, são a parcimônia, observar oportunidades de linhas de crédito vantajosas para investimentos e expansões, além de acompanhar o ritmo do mercado de trabalho e estar atento às mudanças institucionais, principalmente no campo da Reforma Tributária. Aos consumidores, as recomendações são: planejamento do orçamento familiar e qualificação profissional. A disponibilidade fácil do crédito, muitas vezes, induz ao consumo intempestivo e sem planejamento, o que prejudica o consumo a longo prazo e, muitas vezes, retira esses consumidores do mercado de crédito. Já a qualificação profissional é o melhor indutor de incremento da produtividade e, consequentemente, de aumento da renda dos trabalhadores. *Bernardo Peixoto é presidente da Fecomércio-PE

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A dificuldade de falar “me desculpe”: como o contexto molda nosso jeito de reconhecer erros

*Por Isabela Thalia Quando falamos em orgulho e humildade, percebemos como a cultura ocidental tende a atribuir essas atitudes a características internas ou traços fixos de personalidade. Assim, quem tem facilidade em pedir desculpas costuma ser visto como uma pessoa humilde, enquanto quem evita reconhecer erros ou apresenta dificuldade em se desculpar é frequentemente considerado orgulhoso. No entanto, é necessário olhar para o ambiente em que o sujeito está inserido, compreendendo-o como um espaço que envolve sua história, cultura e formas de aprendizado. É a partir desse contexto que conseguimos descrever os comportamentos observados, identificar os antecedentes que os evocam e as consequências que os mantêm. Dessa forma, obtemos um panorama que permite entender em quais condições o orgulho se torna um obstáculo e de que maneira a humildade pode ser desenvolvida como repertório comportamental, favorecendo o convívio social. Considerando isso, chamaremos de orgulho as situações em que o sujeito comete um erro, seja em relações pessoais ou profissionais, mas apresenta dificuldade em assumir a responsabilidade, atribuindo culpa a terceiros, evitando iniciar conversas sobre o ocorrido ou desviando o assunto sempre que alguém tenta falar a respeito. Tais respostas podem ser entendidas como comportamentos de esquiva, que trazem consequências como receio de críticas, perda de status ou punições sociais. Como efeito, os conflitos se mantêm e o fortalecimento de vínculos se torna de difícil acesso, o que nos leva a refletir sobre a ausência de habilidades de comunicação assertiva. Quando a dificuldade em se desculpar se repete com frequência, podemos considerar que uma das possibilidades esteja relacionada a questões emocionais de difícil acesso para a pessoa, bem como à forma como aprendeu a se comunicar ao longo da vida. Nota-se, então, uma resistência em admitir falhas, mesmo em situações pequenas, acompanhada de reações desproporcionais diante de críticas, o que leva à repetição do comportamento em diferentes contextos. Provavelmente, o sujeito não teve acesso a modelos de comunicação assertiva que favorecessem a instalação do repertório de desculpar-se, ou foi exposto a ambientes coercitivos nos quais assumir erros resultava em perdas significativas. Esse histórico contribui para o estabelecimento de um padrão rígido de esquiva em situações que demandam esse comportamento. Diante disso, é importante diferenciar quando a resistência em pedir desculpas cumpre uma função adaptativa e quando está ligada ao “orgulho excessivo”. Avaliamos que o ato de recusar-se a pedir desculpas pode ser saudável quando há uma análise crítica da situação, sustentada por evidências, evitando assumir culpas indevidas. Já o orgulho excessivo se manifesta em um comportamento inflexível de não pedir desculpas mesmo diante de provas do erro. Nesse caso, o comportamento exerce outras funções, como evitar o contato com o desconforto. O treino de habilidades sociais pode ser uma estratégia prática para desenvolver um repertório de comunicação mais efetivo, incluindo o ato de pedir desculpas. Quando o ambiente valoriza de forma genuína o reconhecimento de erros, favorece-se o processo de modelagem desse comportamento. Além disso, a exposição gradual a situações de baixo risco reduz a função aversiva de admitir falhas. Práticas baseadas em aceitação e mindfulness permitem que a pessoa entre em contato com sentimentos desconfortáveis, facilitando a mudança. Dessa forma, tanto o orgulho quanto a humildade para pedir desculpas podem ser compreendidos como padrões de resposta mantidos por contextos específicos. O objetivo não é eliminar o orgulho, mas ampliar o repertório para que a pessoa consiga agir de maneira mais flexível, preservando vínculos sociais e favorecendo relações mais saudáveis. *Isabela Thalia é psicóloga e professora de Psicologia da Wyden

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Digitalizar para crescer, sem desumanizar: o maior desafio dos negócios familiares brasileiros

Por Tiago Portella Nos últimos anos, tenho visto um movimento curioso, e perigoso, no empreendedorismo brasileiro: a corrida pela digitalização a qualquer custo. Muita gente acredita que tecnologia é sinônimo de modernização automática. Não é. E aprendi isso dentro da minha própria história. Venho de uma empresa familiar construída pelo meu pai, Jorge, com o que hoje considero o maior ativo que um negócio pode ter: relacionamento humano genuíno. Antes de dashboards, CRMs e automação, o que movia a JA Portella era a confiança construída olho no olho, no corredor do supermercado, no balcão do atacado, nos anos de estrada onde reputação valia mais do que qualquer métrica. Quando decidi deixar a carreira corporativa para me juntar a ele, eu tinha uma convicção — precisávamos modernizar a operação. Mas também carregava um medo: como profissionalizar sem apagar a essência?Digitalizar, sim. Desumanizar, jamais. A tecnologia que aproxima pode ser a mesma que afasta A transição não foi sobre comprar sistemas, mas sobre mudar mentalidades. Implementamos automação de pedidos, indicadores de desempenho, reorganização comercial, definição clara de metas e um modelo de gestão orientado por dados. Crescemos. Escalamos. Nos tornamos mais competitivos no setor alimentício, que é um dos mais desafiadores do país. Mas no meio desse processo, ficou evidente uma verdade que muita gente ignora:tecnologia não substitui relacionamento; ela só amplifica o que já existe. Se o negócio tem vínculos fracos, a digitalização só evidencia isso.Se o negócio tem vínculos fortes, a tecnologia potencializa. O que fizemos foi garantir que cada melhoria tecnológica estivesse ali para dar velocidade, precisão e controle, sem bloquear o que sempre sustentou nossa operação: a proximidade com o cliente. Em vez de trocar o “bom dia” por um chatbot, usamos o chatbot para que o bom dia chegasse mais rápido. Parece simples, mas essa é a fronteira que muitos negócios têm atravessado sem perceber. Profissionalizar sem romper: um desafio silencioso nas empresas familiares Outro risco comum é acreditar que profissionalização exige ruptura. Não exige.Eu e meu pai sempre dividimos responsabilidades com clareza: ele segue como referência comercial e institucional; eu assumi gestão, tecnologia e estratégia. Isso reduziu conflitos e criou um ambiente favorável à inovação. E é aqui que mora outro ponto crucial da digitalização:não basta instalar sistemas; é preciso alinhar expectativas, papéis e decisões.Processos só funcionam quando as pessoas sabem para onde estão indo. Empresas familiares quebram não por falta de tecnologia, mas por falta de comunicação. A armadilha de confundir modernização com descarte Digitalizar não significa apagar a história.Digitalizar não significa automatizar o que deveria ser humano.E, principalmente, digitalizar não significa trocar relacionamento por escala. A verdadeira modernização acontece quando tradição e inovação caminham juntas.O velho e o novo não são inimigos — são complementares. Na JA Portella, manter o vínculo humano foi escolha estratégica. A tecnologia entrou para dar inteligência ao processo; o coração continuou sendo o contato direto. E é justamente isso que tem nos diferenciado em um mercado onde tudo está ficando igual, acelerado e impessoal. A digitalização será o maior divisor de águas do empreendedorismo brasileiro — para o bem ou para o mal Tenho acompanhado de perto o varejo, a indústria e as tendências nos principais eventos do setor, como ABAD e APAS. Todos dizem a mesma coisa: quem não digitalizar, fica para trás.Eu acrescento: quem digitalizar errado, fica para trás do mesmo jeito. Estamos entrando em uma fase sobre quem consegue usar dados sem perder sensibilidade; quem consegue escalar sem perder voz; quem consegue operar com precisão sem perder o toque pessoal. A pergunta não é mais se você deve digitalizar. A pergunta é: você conseguirá digitalizar sem desumanizar? Se eu pudesse resumir tudo em uma única frase, seria esta: “A tecnologia pode guiar o processo, mas é o relacionamento que sustenta o negócio.” A trajetória da minha família é prova disso. E acredito que esse será o caminho mais saudável , e mais competitivo , para o futuro das empresas brasileiras. *Tiago Portella é administrador e sócio da JA Portella Publicado por Rafael Dantas

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Lorena Botelho

Do Score ao Smart Credit: a revolução silenciosa do crédito na era da inteligência artificial

*Por Lorena Botelho Durante décadas, o crédito foi concedido com base em modelos rígidos, centrados em dados financeiros tradicionais e históricos. O conhecido credit score — que atribui uma pontuação a cada consumidor — tornou-se o símbolo desse sistema. Contudo, a lógica da nova economia está impondo uma transformação profunda: o crédito deixa de ser uma fotografia do passado e passa a se comportar como um organismo vivo, alimentado por dados em tempo real, inteligência artificial e uma compreensão muito mais ampla do comportamento humano. Surge, assim, o conceito de smart credit. Essa evolução não é apenas tecnológica, mas também cultural e ética. O uso de algoritmos e de dados alternativos — como histórico de pagamentos de contas, comportamento digital ou até padrões de consumo — redefine a forma como as instituições financeiras avaliam risco, preço e potencial. Se bem utilizada, essa inteligência tem o poder de reduzir a assimetria informacional, ampliar o acesso a financiamentos e tornar o crédito uma verdadeira ferramenta de inclusão e desenvolvimento econômico. Ao mesmo tempo, a revolução do crédito inteligente traz novos dilemas. A expansão do uso de dados exige governança algorítmica, curadoria ética e transparência sobre os critérios de decisão automatizada. A inteligência artificial só é legítima quando explica suas escolhas — e quando a supervisão humana continua a existir como instância de responsabilidade e revisão. A confiança, portanto, torna-se o novo ativo central do mercado de crédito. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) ocupa papel estratégico nesse contexto. Seus princípios de finalidade, necessidade e não discriminação formam a base jurídica e ética para o uso responsável de dados pessoais. A convergência entre a agenda da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e as diretrizes do Banco Central indica que o Brasil caminha para um modelo de supervisão que valoriza a inovação, mas exige prestação de contas e mitigação de riscos. Esse movimento dialoga diretamente com o que ocorre no exterior, em especial com o AI Act europeu, que estabelece padrões de segurança e governança para sistemas de inteligência artificial de alto risco. A nova economia do crédito é também uma economia de interoperabilidade. Iniciativas como o open finance, a identidade digital e a tokenização de dados estão permitindo que o histórico financeiro do consumidor seja compartilhado com consentimento e segurança, rompendo as barreiras entre instituições e criando um ecossistema de crédito mais ágil e personalizado. Nesse cenário, as instituições financeiras passam de simples provedoras de capital para orquestradoras de ecossistemas de confiança — responsáveis por garantir que a tecnologia sirva ao propósito humano e social do crédito. A transição do score para o smart credit é, portanto, uma revolução silenciosa. Ela desloca o eixo da análise de crédito do passado para o presente contínuo, em que o comportamento, a reputação digital e o contexto econômico se tornam variáveis vivas. A inovação, no entanto, só será sustentável se estiver ancorada na ética e na transparência. Um modelo de crédito inteligente que não seja também um modelo de crédito justo tende a perder legitimidade — e, com ela, o próprio valor econômico que pretende gerar. No fim, o que está em jogo não é apenas o futuro do crédito, mas o contrato social de confiança que sustenta o sistema financeiro. A inteligência artificial e os dados podem — e devem — ser aliados da inclusão, da eficiência e da justiça econômica. O crédito do futuro não será apenas mais rápido ou mais preciso: será mais humano. *Lorena Botelho é advogada da área da tecnologia e da informação e sócia do Urbano Vitalino Advogados

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O que se pode esperar da nova ferrovia Transnordestina

O porto que marcou a retomada do desenvolvimento pernambucano vive um momento decisivo, pressionado por gargalos logísticos e pela reconfiguração da ferrovia. *Por Geraldo Eugênio Um bom começo, Suape O Porto de Suape, localizado entre os municípios de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho, foi uma das iniciativas mais ousadas do Governo do Estado de Pernambuco. Sua pedra fundamental foi instalada em 1974 pelo então governador Eraldo Gueiros Leite, depois de ao menos 20 anos de estudos técnicos que identificariam a região como a mais adequada a um empreendimento dessa magnitude. Este ano o porto completou 51 anos desde seu início. Ele representou o despertar de Pernambuco de um longo período de decadência do Estado.  O Recife, de terceira cidade mais importante no País, começou a ceder espaços para outras, sendo ultrapassada por Salvador e Fortaleza e se contentando em ser a terceira cidade da região. Passaram-se nada menos do que 38 anos até quando, no primeiro Governo Lula, em uma decisão dos governos do Brasil e da Venezuela, bateu-se o martelo para a instalação da Refinaria de petróleo Abreu e Lima no Complexo Industrial Portuário de Suape. Poucos pernambucanos têm ideia do que representou a escolha do presidente Hugo Chávez tomando como base um fato histórico, pouco comemorado por aqui, que foi a participação do General Abreu e Lima nas guerras de libertação de vários países da América do Sul, sob a liderança de Simón Bolívar. Uma segunda decisão estratégica tomada pelo presidente Lula foi a escolha de Goiana como sede da empresa Stellantis, base de fabricação dos veículos Toro, da Fiat e dos SUVs da marca Jeep. Portanto, Suape, a Refinaria Abreu e Lima e a fábrica da Stellantis representam os três pilares nos quais está assentada a nova política industrial de Pernambuco. Suape – Salgueiro, um plano de risco Alguns condicionantes foram negociados para que a obra se tornasse completa. Primeiro, a construção de uma ferrovia ligando a região de minérios, no estado do Piauí, e a construção do Arco Metropolitano, ligando a cidade de Goiana ao Porto de Suape. O primeiro, após 20 anos de discussão, decidiu-se pela construção da alça sul, que conecta a BR-232, mas – que se diga em bom tom – não atende ao que havia sido negociado. Este semiarco não resolve o problema do congestionamento do transporte de automóveis de Goiana ao porto. Quanto à alça norte do projeto, desencontros, pressões, timidez nas decisões governamentais impedem que se continue com o traçado que atravessa uma área de reserva florestal comprometida com as invasões de classe média que dela se apropriou. Não são poucos os países do mundo em que ferroviais, rodovias, canais, arcos metropolitanos foram construídos em áreas de reserva, obedecendo-se às exigências ambientais de cada nação ou comunidade. Chama-se a atenção que na cidade de Hyderabad, sul da Índia (um país sete vezes mais populoso que o Brasil e com 40% da área), foi possível a construção de um arco metropolitano de 156 quilômetros, com oito faixas de rolamento e quatro adicionadas, quando da aproximação de vilas e comunidades em um período de 15 anos. Um outro fato que merece um comentário nada apropriado é o fato de que o arco metropolitano da cidade de São Paulo, com uma dimensão aproximada do de Hyderabad, demandou 46 anos para sua conclusão. O segundo condicionante estratégico para a plena integração do Complexo Industrial Portuário de Suape com o interior do Estado, com as áreas de mineração do oeste de Pernambuco e do Piauí e com o cerrado brasileiro era a ferrovia Transnordestina em seu traçado inicial que se inicia em Suape e iria até Eliseu Martins, no estado do Piauí. Considerando-se que uma ferrovia com aproximadamente 1.124 quilômetros, não poderia deixar de ser construída a partir do porto. Mas foi o que aconteceu, fazendo com que essa obra permaneça inacabada após investimentos vultosos tenham sido comprometidos. A construção foi tocada sem a devida atenção e acompanhamento por parte do Estado que mais necessita dela, Pernambuco. Até que em 22 de dezembro de 2022 o Governo Federal renegociou com a concessionária um novo traçado para ferrovia, alijando o que seria seu trajeto principal. Salgueiro-Suape foi substituído pelo traçado que priorizava o Porto de Pecém, no estado do Ceará e que se encontra próximo de ser concluído. Anos de descaso e a pá de cal Merece o registro da falta de reação por parte das lideranças políticas e empresariais do Estado para com esse anúncio, o que definitivamente limitaria o Porto de Suape a um hub secundário. Até hoje não há como se entender este misto de passividade e descaso. O problema é que entre Salgueiro e o município de Custódia haviam sido instalados 170 quilômetros de trilhos que há 10 anos seguem em processo de deterioração irreversível. Ainda em relação ao fator estratégico para Pernambuco pouco se deu atenção ao fato de que a ligação do Estado com um dos principais polos agropecuários passou despercebido, mesmo para a indústria de gesso, instalada na região Oeste do Estado, a principal beneficiária a partir de sua aproximação com as áreas agrícolas do Brasil Central. Isso porque o gesso agrícola é produzido a partir do minério da gipsita, cujas jazidas estão localizadas no Sertão do Araripe, e sua utilização pode melhorar a produtividade do solo do Cerrado brasileiro. Recomeço sem a devida atenção Em 2023 o Governo Federal decide pela retomada do trecho original e há duas semanas lança-se o edital para o reinício das obras de ligação entre o hub Salgueiro e Suape. Mesmo tendo consciência do valor estratégico dessa obra e do que representa para o futuro de Suape, o projeto foi tocado sem a devida atenção e agora se depara com duas situações que merecem uma atenção mais que especial. A primeira é quanto à bitola dos trilhos. Entre Salgueiro e Pecém a ferrovia pode receber comboios de bitola estreita, para cargas mais leves e de bitola larga, demandada para cargas de alta densidade, tal qual minérios de ferro e derivados. Já

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Quando o letramento racial é urgente mesmo em escolas onde ninguém se considera racista

*Por Gabriela Camarotti Em muitos ambientes, incluindo escolas particulares do Brasil, o racismo parece um tema distante. Ninguém se declara preconceituoso, todos acreditam na igualdade, e é justamente aí onde mora o perigo. Basta um olhar mais atento para perceber que as cores que ocupam as salas de aula e os cargos de liderança raramente são as mesmas que estão na portaria, na cozinha ou na limpeza. Essa diferença não é obra do acaso nem resultado de intenções individuais. Ela é o reflexo de uma estrutura social que atravessa séculos e que segue organizando o Brasil de forma desigual. É por isso que é exatamente nas escolas onde o racismo parece não existir que o letramento racial se faz mais urgente. Porque nas escolas de maioria branca e economicamente privilegiada, o desafio é romper o ciclo da invisibilidade. Quando as crianças crescem sem conviver com pessoas negras em posições de prestígio, poder ou saber, aprendem, mesmo sem perceber, a associar cor a valor. É um aprendizado silencioso, mas profundamente formador. Por isso, o papel da escola e das famílias precisa ir além do discurso da igualdade. É preciso criar convivência simbólica e afetiva com a negritude viva, potente e criadora. Na escola, isso começa na escolha dos livros, nas imagens que circulam, nos exemplos citados em sala de aula. Mas essa ação também precisa acontecer em casa. Famílias brancas, socialmente privilegiadas, podem, e devem, fazer muito mais do que “ensinar a não ter preconceito”. Podem mostrar aos filhos que há negros brilhantes, inspiradores e protagonistas de histórias de sucesso. Que o Brasil é um país majoritariamente negro, mas que, por questões históricas, as pessoas não ocupam os mesmos espaços. O primeiro passo é trazer outras presenças para dentro do cotidiano. Podemos apresentar artistas e intelectuais negros, e aqui eu vou citar alguém que é do Recife, cuja obra admiro muito: Jeff Alan, que pinta suas origens e memórias afro-brasileiras com cores intensas e um olhar cheio de orgulho. Quantas crianças conhecem o trabalho dele? Quantas já viram uma arte que fala de pertencimento, educação, beleza e ancestralidade com tanto vigor? Podemos também oferecer referências positivas: princesas negras, escritores, cientistas, professores e médicos negros. Deixar que nossas crianças os vejam como parte natural do que é ser brasileiro. Podemos ainda frequentar espaços onde a negritude é protagonista: exposições, feiras de arte, rodas de capoeira, blocos afro, apresentações culturais. E, acima de tudo, podemos conversar sobre o que não vemos. Explicar que a ausência não é natural, é resultado de um país que se organizou para manter as pessoas em lugares diferentes. Como lembra Djamila Ribeiro, o racismo vive também na norma, no que é visto como natural. E é justamente esse”natural” que precisamos aprender a questionar. O letramento racial não é sobre culpa, é sobre consciência. Não é sobre o passado, é sobre o presente que estamos formando agora, diante dos olhos das crianças. Quando uma escola branca decide se letrar racialmente, ela está dizendo às suas crianças que o mundo é muito maior do que o que cabe dentro dos muros da escola. Está mostrando que há muitas formas de ser, de existir e de vencer, e que reconhecer a beleza e a força da negritude é parte essencial da nossa história, da nossa humanidade. O letramento racial é, antes de tudo, um gesto de amor e de justiça. *Gabriela Camarotti é diretora pedagógica do Ensino Fundamental da Escola Vila Aprendiz

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