Lojas da área central mantém clientes atraídos peo preço em conta, variedade e produtos e até pela questão afetiva da tradição de comprar nas ruas da região. Mas para retornar ao patamar de vendas de décadas atrás, é necessário melhorar a segurança, incentivar a moradia, além de digitalizar as empresas.
O comércio do Centro do Recife vive uma crise de décadas, mas resiste. Enquanto existem ruas sendo marcadas pelo fechamento de lojas, há investimentos importantes chegando nos bairros centrais. Mesmo com as queixas constantes de segurança e de ordenamento urbano, as principais vias comerciais continuam com movimento forte de consumidores. Um paradoxo que tem raízes diversas, que passam pelo e-commerce, pela multiplicação de shoppings e pela histórica redução de moradores nessa região, mas conta com um tempero cultural bem local que ainda atrai a população.
Pesquisa recém-lançada pela CDL Recife (Câmara de Dirigentes Lojistas – Recife) e pelo UniFAFIRE (Centro Universitário Frassinetti do Recife) mostrou que 65,1% dos mais de 500 entrevistados têm preferência pelo Centro na hora de fazer compras, enquanto 78,2% indicam a região como um bom local para consumir. Os maiores atrativos revelados no estudo são o preço (45,3%), o atendimento (21,5%) e as promoções (12,7%).

Além desses fatores, a variedade de produtos e mesmo a simpatia da população pela região central da cidade são fatores que aparecem nas entrevistas com quem frequenta a região. A relação de Alcione Melo com o Centro do Recife, por exemplo, começa ainda na infância e atravessa décadas. “Desde quando eu tinha meus 10 anos, eu ia com minha mãe”, relembra. Nessa época ela aprendeu a circular pelas ruas, a escolher tecidos, a observar o movimento e, de certa forma, a construir um repertório de vida na cidade. Acostumada a chegar de trem à área central, Simone guarda essas experiências como parte fundamental da sua história.

Hoje, aos 66 anos, essa conexão permanece viva e se traduz em uma rotina frequente. Moradora do bairro de San Martin, ela segue indo ao Centro toda semana. “Amo andar ali naquele comércio”, afirma. Sozinha ou encontrando conhecidos pelo caminho, Alcione percorre ruas como a das Calçadas e a de Santa Rita com familiaridade, como quem revisita um território íntimo. O gosto pelo artesanato, que inclui a produção de crochê, bolsas e almofadas, ela encontra no Centro seu principal abastecimento de vários itens e também de inspiração. A variedade sustenta sua prática de consumo.

Quem também ama passear pelas movimentadas ruas da região é a aposentada Maria da Conceição Vilela, 76 anos. Moradora da Boa Vista, ela revela uma relação afetiva especialmente com a Rua das Calçadas, frequentada por ela desde a adolescência. Sua presença no local é semanal e vai além do consumo: envolve práticas religiosas, encontros familiares e uma rotina consolidada ao longo da vida. O Centro aparece como um espaço de sociabilidade e memória. Ela inclusive chorou ao assistir o filme Retratos Fantasmas, de Kleber Mendonça Filho, ao lembrar dos cinemas que frequentou.
Do ponto de vista do consumo, Dona Conceição valoriza a diversidade de produtos e, principalmente, os preços mais acessíveis. Ela destaca a compra de itens do cotidiano, como alimentos, utensílios domésticos e roupas. A experiência de compra está associada ao hábito de “andar”, explorar e de encontrar com amigas. “Eu sou andarilha, todo dia eu vou pra rua. Além disso, o preço de lá é muito diferente dos shoppings”.
NEM TUDO SÃO FLORES
A experiência afetiva delas contrasta com as percepções de muita gente que abandonou as ruas centrais da cidade e passou a frequentar os malls e, mesmo, fazer compras online. Ambas as consumidoras relataram queixas como a desordem urbana e a limpeza, por exemplo. Mas a experiência afetiva delas faz com que até a questão da segurança não esteja muito no radar das suas queixas. “Segurança nem tanto… se tiver cuidado, não é roubada. A gente anda o dia todinho lá e nunca foi roubada”, disse Conceição.
Entre os problemas mencionados na pesquisa, porém, a segurança aparece em primeiro lugar (83%), sendo seguido pela limpeza urbana (63%) e pela organização do comércio (39,2%). A falta de estacionamentos surge como um problema menor (20,5%), visto que a maioria acessa o centro pelo transporte público (61,6%).

O empresário Paulus Haluli, sócio-diretor da tradicional loja Irmãos Haluli, repetiu a percepção dos três principais problemas mencionados na pesquisa. Apesar de notar uma pequena melhoria na segurança, com a presença policial, as transformações nos últimos anos ainda é muito insuficiente para motivar a vinda de novos consumidores ao Centro. Além desses problemas mais gritantes, ele afirma que após a pandemia houve um aumento grande de população de rua nos bairros centrais. “Trabalho desde 1999, transpiro isso aqui desde pequeno. Infelizmente, vemos um esquecimento do poder público. Temos boas ideias, mas sem poder financeiro e de decisão. O Centro ainda não é amigo para quem trabalha e para quem vem visitar”, reclama o empresário.

CONCORRÊNCIA AUMENTOU MUITO
Além das razões urbanas que são muito visíveis aos olhos de moradores da RMR e turistas que frequentam a região central, há fatores econômicos e tecnológicos que diluíram o público consumidor. A implantação de vários shoppings nas últimas décadas, o fortalecimento dos centros comerciais nas periferias – a exemplo de Beberibe, Casa Amarela ou Água Fria – gerou uma concorrência ao comércio de roupas, sapatos, eletrodomésticos, entre outras. Muitos estabelecimentos que tinham suas sedes em São José ou Santo Antônio, passaram a seguir para essas outras centralidades.
O e-commerce é o outro fator crítico, visto que a concorrência nesse caso pode partir de vendedores de qualquer lugar do Brasil e até do mundo. Embora o comércio digital seja também uma oportunidade para os pernambucanos, há uma baixa adesão dos comerciantes às ferramentas digitais.
Entre os consumidores mapeados pela pesquisa da CDL Recife/UniFAFIRE, por exemplo, 59,9% sequer acompanham estabelecimentos do Centro nas redes sociais. Quando o tema é a compra efetiva, o cenário é ainda mais desfavorável: 70,7% afirmam nunca ter realizado uma aquisição online nesses pontos comerciais, mesmo já tendo familiaridade com eles.

Paulo Monteiro, diretor institucional da CDL Recife, avalia que o e-commerce tem impacto direto sobre o comércio do Centro, especialmente por atrair o público mais jovem. Os consumidores entre 17 e 34 anos têm baixa presença nas compras presenciais e recorrem mais às plataformas digitais pois priorizam comodidade e facilidade de acesso.
Nesse cenário, Paulo avalia que a disputa com o e-commerce não se dá apenas pelo valor dos produtos, mas principalmente pela facilidade e rapidez nessa jornada de compra. “O público que compra no Centro está acima dos 35 anos. Abaixo disso, é uma fatia pequena. O comércio do Centro físico precisa se tornar digital. Ele tem que entrar no mundo tecnológico”, avaliou o dirigente.
Em razão de a maioria dos cinemas do Centro ter fechado, da baixa oferta de entretenimento na região e do fato de a diversão da nova geração ser também nos shoppings, a conexão do público mais jovem com essa área da cidade não tem a carga emocional dos mais velhos. Sem esse tempero de afetividade, a disputa passa a ser essencialmente pragmática de compra, tornando mais crítica a concorrência.
“A gente vai ter que renovar esse público, senão vai ser complicado. É preciso criar ações que levem os jovens para o Centro. As lojas precisam desenvolver o digital para atrair esses clientes”, afirmou o coordenador da pesquisa, Eduardo da Costa Aguiar, especialista em gestão estratégica de marketing e coordenador dos cursos da área de negócios e gestão do UniFAFIRE.

DIGITALIZAÇÃO NO CAMINHO
Alguns estabelecimentos já investem fortemente na experiência digital do usuário, uma decisão que tem contribuído para manter o negócio em crescimento. Esse ambiente online se tornou decisivo para a sustentabilidade da New Bike Recife, por exemplo. Com 20 anos de atuação, a empresa presenciou a queda no fluxo de pedestres no Centro do Recife. “Se esperar quem passa na rua, ninguém aguenta. Sem o digital, teríamos fechado”, afirma o empresário Gilberto Lopes.

A empresa passou a apostar com mais intensidade em canais como Instagram, site e YouTube, utilizando essas plataformas para atrair clientes e direcioná-los ao atendimento via WhatsApp. No aplicativo de mensagens, o relacionamento se estreita e muitos desses consumidores acabam indo até a loja física para fazer um test drive ou conhecer melhor os produtos. Ele revela que, atualmente, 50% do público que chega às unidades iniciou o atendimento no ambiente online.
Para Gilberto Lopes, essa virada foi determinante para o negócio. O modelo deixou de depender de quem passa pela calçada e passou a ser mais ativo na captação e no relacionamento. “Infelizmente, há muitos estabelecimentos fechando, seja pelos impostos altos, pela dificuldade de contratar ou pelos custos operacionais elevados. Mas o ponto principal é a facilidade de adquirir produtos pela internet. Temos mostrado ao cliente que lá pode até ser mais barato, mas não há pós-venda nem assistência técnica.” Uma transformação que impulsionou a marca, que hoje conta com três unidades, incluindo uma na Rua da Imperatriz.
Na mesma direção, Paulus, dos Irmãos Haluli, também percebeu o impacto da digitalização e precisou se adaptar. Segundo ele, a empresa já vinha se inserindo no ambiente online desde 2014, o que ajudou a enfrentar a pressão intensificada após a pandemia. Hoje, cerca de 20% do faturamento já vem dos canais digitais, especialmente marketplaces como Amazon e Shopee. “É uma concorrência forte, mas também uma oportunidade. É um canal de venda que precisamos aproveitar”, afirma.
Apesar dos avanços, ele ressalta que a operação digital ainda é complexa e burocrática, exigindo logística e adaptação constantes, como o envio de mercadorias para centros de distribuição. Ainda assim, a expectativa é de crescimento da participação do online nos resultados. “Hoje já é expressivo, e a tendência é crescer. Talvez seja questão de tempo vivermos mais do virtual do que do presencial”, avalia.
INTERVENÇÕES E PLANOS DO PODER MUNICIPAL
Há um conjunto de estratégias nos planos em execução pelo Gabinete do Recentro, da Prefeitura do Recife, para reativar o comércio desses bairros e reposicionar a área como um polo econômico e de convivência. Segundo a secretária Ana Paula Vilaça, as ações da pasta têm se concentrado em três frentes principais: fomento direto ao comércio (com eventos, campanhas promocionais e capacitação de lojistas para o ambiente digital); melhoria da experiência urbana (com intervenções em mobilidade, segurança, zeladoria e criação de espaços de convivência); e requalificação estrutural, com forte aposta na moradia como vetor de revitalização.
Um dos principais desafios identificados pelos lojistas e na pesquisa da CDL Recife/UniFAFIRE é a sensação de insegurança. Segundo a gestora, esse fator não corresponde integralmente aos dados objetivos de criminalidade, mas está associado a fatores urbanos, como imóveis abandonados e degradação visual. O avanço dos incentivos municipais aos retrofits, por exemplo, atua nessa direção.

Ana Paula reforça que o Centro mantém uma vocação forte para o comércio popular, baseada em diversidade e preços competitivos, e que o desafio é tornar essa experiência mais atrativa e integrada ao novo perfil de consumo. “O que a gente quer é tornar melhor essa experiência de compra. A gente precisa também tirar esse estigma de que o Centro está abandonado. Quando a gente realiza eventos, a gente quer trazer as pessoas de volta e mostrar que o Centro é seguro.”
As ações mais estruturais de enfrentamento à degradação, porém de prazo mais longo, são de incentivo à moradia nos bairros centrais. A secretária avalia que esse é o principal vetor de transformação, ao garantir fluxo contínuo de pessoas e sustentar uma dinâmica urbana mais permanente. “O futuro do Centro passa pela moradia”, afirma Ana Paula, ao defender que o modelo de uso misto será capaz de manter o território ativo “todos os dias da semana, todos os horários”. Ela aponta que a presença de moradores atrai novos tipos de comércio e serviços, como padarias, cafés e academias, e reduz a concentração de movimento apenas no horário comercial.
Enquanto Alcione e Conceição seguem caminhando pelas mesmas ruas de décadas atrás, o Centro do Recife tenta redesenhar seu próprio caminho. Entre lembranças, vitrines e desafios, a região continua sendo mais do que um espaço de consumo: é território de encontros, histórias e identidade. O futuro ainda é incerto, mas a vitalidade que persiste nas calçadas indica que o Centro tem muitos potenciais para resistir.
*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)


