“Criei o instituto Marcos Hacker de Melo para preservar o legado de Marcos e ampliar oportunidades por meio da educação, da cultura e da inclusão social” 
Cida Hacker de Melo
IMG 9030

A dor da perda precoce do filho levou a empresária a criar o Instituto Marcos Hacker de Melo com o intuito oferecer educação e suporte emocional a crianças de Rio Formoso, Barreiros e Gameleira, municípios que apresentaram melhoras nas notas escolares. Com apoio do Museu da Imagem e Som (SP), a instituição também atua na área cultural com a realização de exposições artísticas.

Da dor de um luto, a empresária Cida Hacker de Melo tirou força para pensar e desenvolver um projeto de mudança social. A partir de 2020, com o falecimento precoce de seu filho, Marcos Hacker de Melo, aos 34 anos, Cida escolheu honrar o legado do herdeiro a partir da educação, cultura e cidadania e transformar a vida de milhares de jovens a partir da criação, em 2021, do Instituto Marcos Hacker de Melo.


Formada em administração de empresas e em recursos humanos, com atuação no empreendedorismo social, sua trajetória ganhou ainda mais significado a partir da criação do instituto. A pernambucana é do tipo atencioso e sensível, mas firme em suas ideias e propostas. Cida acredita piamente na força da educação, da cultura e da cidadania como instrumentos de transformação social.
Em entrevista concedida a Yuri Euzébio, Cida Hacker reflete sobre a fundação do instituto, a importância de nvestir em educação e cultura para o desenvolvimento emocional na formação de cidadãos inteligentes e capazes de transformar a realidade que os cerca.

WhatsApp Image 2026 05 12 at 11.23.03

Queria começar com a história do instituto e o porquê dessa escolha de investir em cultura e educação?


Trabalho na AACD há 27 anos. Sou do conselho consultivo. A AACD foi a minha escola de vida, tanto como empresa do terceiro setor, extremamente séria, com governança, e onde você pode investir o seu dinheiro, sabendo que vai ter resultado, porque vai ser 100% direcionado para todos os pacientes da associação. O Instituto Marcos Hacker de Melo veio de um pedido de uma funcionária nossa, depois do falecimento do meu filho. Marcos era meu único filho, o que eu fiz? A ideia era que mudássemos o nome do Instituto Veneza Social, criado por ele como braço social das empresas da gente. Meu filho desde pequenininho vivia nessa caminhada do terceiro setor comigo.


Criei o instituto para preservar o legado humano e social de Marcos e ampliar oportunidades por meio da educação, da cultura e da inclusão social em Pernambuco. Mais do que uma homenagem, o instituto nasceu como uma plataforma de transformação social.


Ele tinha esse viés muito forte pelas pessoas. É um instituto de renda social que aporta recursos para instituições que transformam realidades. Eu comecei nesse processo de mudar o nome, mas em algum momento o jurídico disse que não era possível mudar e um amigo de São Paulo encaminhou para cá, na época, o vice-presidente de uma outra instituição para conversar com a gente. E ele disse: “Olha, já que Marquinhos era uma pessoa que investia tanto no autodesenvolvimento e das pessoas, acho que se você fosse para esse viés da educação, do desenvolvimento humano, seria ser algo que fazia sentido com o perfil dele”.

WhatsApp Image 2026 05 12 at 11.29.30 2

E já iniciaram o Instituto Marcos Hacker de Melo por esse viés da educação?


Dentro do Instituto está o Projeto Ressignificar, braço educacional voltado para a educação básica. O projeto tem foco no desenvolvimento integral e atende hoje mais de quatro mil estudantes do ensino fundamental I e II, alcançando 24 escolas públicas nos municípios de Barreiros, Gameleira e Rio Formoso, na Zona da Mata Sul. Também envolvemos cerca de 250 professores e gestores escolares, promovendo uma educação mais humana e conectada com a realidade dos alunos.


O Projeto Ressignificar oferece livros customizados voltados ao autoconhecimento e ao desenvolvimento de competências socioemocionais. No contraturno escolar, os estudantes participam de oficinas formativas, atividades esportivas, ações de cidadania e aulas de música. O programa realiza ainda visitas culturais e mantém um coral formado por 30 alunos, ampliando o acesso à arte e fortalecendo vínculos de pertencimento e autoestima.


Passamos 2021 fazendo os livros de desenvolvimento de competências socioemocionais, contratamos os profissionais para isso e quando foi em março de 2022 entramos nas escolas com os livros e escolhemos o recorte: do sexto ao nono ano. Aí, fechamos parceria com as prefeituras de Rio Formoso e de Gameleira, fizemos um contrato de cooperação em que as prefeituras nos autorizam a trabalhar dentro das escolas públicas.


Chegando na escola, constatamos que a realidade era mais complexa, porque só com os livros não ia ter o resultado almejado. Precisávamos envolver outras pessoas. Então, me mudei para Rio Formoso. Aluguei uma casa, pagava R$ 500 de aluguel por mês, tomava banho de cuia e fui sentir a dor do professor, do aluno, do gestor da escola, dos pais para entender como é que a gente podia transformar aquela realidade.


Eu era a primeira a chegar na escola e a última a sair. Um belo dia, tive um insight, eu disse: preciso de um ajudante de professor, porque quando o professor não vier, tem esse ajudante que vai estar em sala de aula. Os alunos não vão ficar na rua, na vulnerabilidade social. Eles vão poder se manter dentro da escola. E aí, ofereci na época R$ 500 por mês [para realizar essa função]. Para minha surpresa e para a dor do meu coração, a falta de possibilidades para você fazer sua própria oportunidade é tão grande que em vez de 17 currículos, eu tive 46 currículos para ganhar esse valor.
E os resultados têm sido muito positivos e refletem diretamente no avanço significativo nas notas do Saepe (Sistema de Avaliação Educacional de Pernambuco) e do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) dos municípios.

Nossa primeira turma, acompanhada desde o 6º ano, hoje, já está no 1º ano do ensino médio. A turma que estava no 9º ano quando iniciamos o programa, alguns estudantes já foram aprovados em vestibulares e atualmente estão cursando a graduação. Nesses anos, já são 19 instituições educativas atendidas nesses 3 municípios com 679 alunos impactados.

WhatsApp Image 2026 05 14 at 11.53.30 2 1

Como funciona esse trabalho de monitoria/facilitação?


Temos um time de mais 150 facilitadores e monitores. Há um facilitador e um monitor em cada sala de aula. Eles são treinados uma vez por semana e frequentam a faculdade. Alguns são também mães, aquelas mães que iam levar os meninos na escola e ficavam ali, pegavam uma vassourinha para varrer a escola e esperando para levar seu filho de volta. Elas começaram a ser treinadas e entraram para trabalhar.


Começamos a transformar essa realidade e hoje Rio Formoso está entre os 10 primeiros lugares em ensino fundamental anos iniciais, com alfabetização certa na idade certa, porque enfrentamos também uma realidade: lá meninos de 9 anos não sabiam ler. Então, decidimos que tínhamos que pegar os pequenininhos para quando chegarem ao 6º ano, os meninos já chegam lendo”.


Trabalhamos no turno que a aula acontece. A gente vai para o contraturno quando há o horário integral. Temos monitores que trabalham quatro horas por dia e temos monitores que trabalham oito, por dia e em cada escola temos supervisores e uma coordenadora que é a líder de todo esse time, que fica também no interior.


A construção dos livros é feita com a colaboração de pedagogos e psicólogos e, inclusive, está acontecendo neste momento uma atualização no conteúdo pela psicóloga Adriana Morais para a próxima edição 2027.

Quanto à criação desse espaço cultural em Boa Viagem? Como se deu?


Eu já tinha visto esse prédio [onde está localizado o instituto]. Pensei: vou fazer a estrutura dele, em um estilo de ferro, aço e vidro. Isso parece muito com a gente: temos o ferro, a força dentro da gente, e temos a fragilidade do vidro. Com essa estrutura, pensei em fazer salas para alugar, coworking. No andar térreo, ter um café, para alugar e ter recursos para as escolas.
Começamos a construir o prédio com esse propósito e de repente as coisas começaram a acontecer. O MIS, que é o Museu de Imagem e Som, de São Paulo, fechou uma parceria com a gente no primeiro andar, para que todas as exposições que aqui estivessem viessem com curadoria dele. Pensei: “Meu Deus do céu, não sei nada de cultura, mas chancelado pela curadoria do MIS, não tenho mais com que me preocupar”.


Inauguramos em junho de 2025. Esse espaço foi pensado como um polo de cultura, desenvolvimento humano, arte e gastronomia. O local abriga auditório e teatro, rooftop, café e uma programação permanente de exposições de música e fotografia, além de uma lojinha solidária onde são vendidos artesanatos produzidos pelos responsáveis das crianças atendidas pelo Projeto Ressignificar. Toda a renda arrecadada é destinada à manutenção e à expansão das ações educacionais do instituto.

WhatsApp Image 2026 05 12 at 11.29.30

Fale um pouco mais dessas exposições, por favor


A que está em cartaz agora é a A alma humana, você e o universo de Jung, que são instalações criadas para dialogar com o público de maneira pedagógica, sensorial e provocativa, explicando conceitos e despertando reflexões a partir da obra de Jung.É um convite ao autoconhecimento e um mergulho no universo dos conceitos criados pelo psicanalista, que, em 2025, comemoraria os 150 anos de seu nascimento.


Já tivemos a exposição Encontros, da fotógrafa baiana Thereza Eugênia, que retratava nomes consagrados da música brasileira, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia, em momentos íntimos. Também tivemos a instalação audiovisual John Lennon, 85 anos , que foi desenvolvida especialmente pelo MIS para o Instituto e celebrava a trajetória artística do ex-Beatle com projeções, trilha sonora envolvente e imagens em movimento.

WhatsApp Image 2026 05 12 at 11.21.02 2

Por que investir em cultura?


Como eu lhe falei, fui construindo e caminhando. Hoje entendo que arte é vida. Cultura e educação caminham de mãos dadas. Pernambuco é um berço riquíssimo cultural. Eu gostaria que, cada vez mais, o pernambucano visitasse museus daqui. E que a gente acabe com essa coisa de eu vou para o exterior e para São Paulo para visitar museu, e por que não aqui? Temos uma diversidade de museus e de centros culturais que não ficam devendo pra nenhum lugar.


Eu botei o pé e as coisas aconteceram. Acho que inspirei as pessoas a estarem junto comigo na construção de tudo isso. Eu convidei e as pessoas foram se apaixonando também e foram embarcando nessa comigo. Hoje eu posso morrer, e o Instituto Marcos Hacker de Melo Centro Cultural e Desenvolvimento, estará aí, não depende de mim para sobreviver.
Por que você escolheu o Recife para ser a sede do instituto?


Sou pernambucana. Amo minha terra, eu digo sempre que eu devo florescer onde Deus me plantou. Nasci em Vitória de Santo Antão, mas minha família é mais da zona da Mata Sul de Pernambuco, onde fui criada. A primeira escola nasceu em Rio Formoso, porque foi onde meu filho quis nascer. Moro atualmente em São Paulo. O Recife é onde moramos a vida inteira, sempre com essa visão de buscar São Paulo para expandir nossos negócios. Lá em casa, às vezes, sempre a gente comentava: “Vai comprar uma bolsa, ou qualquer outra coisa, tem lá no Recife.Vamos comprar lá”. Porque a gente vai gerar emprego, vai gerar renda para nosso Estado, para nossa cidade.


Cada vez mais vejo a importância de morar em São Paulo, porque é lá onde eu tenho mais condições de captar recursos. Lá é o nosso centro econômico. E eu faço eventos, várias marcas se reúnem e 15% doam para instituição.

WhatsApp Image 2026 05 14 at 11.53.26 3

Como é o financiamento do Instituto?

Tanto o Programa, quanto o instituto funcionam com doações e a partir de captação de recursos de empresas. Nós captamos doadores, e no site do Instituto, você pode doar R$ 10, R$ 5, quanto você quiser. Temos financiamento via lei de incentivo fiscal, via Lei Rouanet, as empresas e as pessoas também podem contribuir com o Imposto de Renda, e temos um projeto aprovado que via Ministério de esporte, porque oferecemos também esporte nas escolas, bambolê, a frescobol, xadrez. Eu pensei em esportes que não precisam de quadra poliesportiva.

WhatsApp Image 2026 05 12 at 11.29.31 1

Para o futuro, o que você tem planejado?

Eu digo o seguinte: enquanto estiver nascendo bebê no mundo, continuo acreditando na humanidade, sabe? Acredito na geração dessas crianças que estão vindo, que elas possam ter um melhor desenvolvimento, uma melhor formação. Para que possam viver de uma forma mais colaborativa e menos competitiva. E o futuro da instituição, penso em cada vez mais atuar nas escolas públicas. Só saio desses três municípios quando eu povoar todas as escolas. Porque aí, sim, você vai poder fazer uma transformação naquela realidade.
Eu invisto no nosso Estado, porque isso sempre foi importante. Quando você pensar em diminuir desigualdade no Brasil, você tem que sempre pensar em diminuir a desigualdade que existe entre Sul e Sudeste, Norte e Nordeste. Aí sim, nós vamos ter um País inclusivo, mais humano, mais justo, entendeu?

Deixe seu comentário

Assine nossa Newsletter

No ononno ono ononononono ononono onononononononononnon