* Paulo Caldas
Um sonho ruim. É assim que o escritor José Teles define o período que deu origem a estas “Crônicas Pandêmicas” — a soma do sumo do que leu e escreveu nos dias mais sombrios da covid-19. Jornalista de verve admirável, o autor vai além da agonia cotidiana e foge de um tempo de textos amargos tecidos entre a máscara e o álcool em gel.
O título já anuncia o cenário e nas cenas se desenrolam com fino senso de ironia. A narrativa em primeira pessoa provoca, inclusive, certos tiques de humor — traço característico de Teles —, mesmo numa atmosfera de lamentos e medidas drásticas diante de um governo incapaz. São inúmeros os trechos em que o tema social prevalece, e seus contornos são risíveis, como no registro da morte de Aldir Blanc, que gera a dúvida expectante: se o poeta, de fato, teria tomado o rumo do céu.
Noutros instantes — como de hábito —, o autor tece loas à cerveja, “o precioso líquido”, e a uma divina instituição chamada bar. Na sequência, critica com veemência o idioma da TV, cuja programação parida no Sudeste engessa o nosso autêntico falar: galinha de capoeira vira galinha caipira, sinal de trânsito vira semáforo, macaxeira vira aipim e até a tangerina vira mexerica. Há também momentos de contenda entre protagonistas adversários, que nem o de um crente evangélico doido em confronto com personagens de uma favela onde reina o estilo brega.
No fim, o pesadelo se dissolve em crônica — e fica a língua solta, irônica, vagamente etílica, a nos lembrar que, mesmo no caos, sempre haverá um bar aberto.
A publicação tem o selo da Bagaço Design, revisão de Carla Ribeiro Sales, concepção de capa de Deise Daiane. Os exemplares podem ser adquiridos via www.editorabagaco.com.br.
*Paulo Caldas é escritor



