Em sua tese de doutorado defendida na USP, cientista social Marina Rego, filha de mãe pernambucana, revela que a cobertura das eleições, no período pós-redemocratização, feita por jornais da imprensa paulista, mostraram uma imagem do Nordeste associada à pobreza, à falta de instrução e à suposta irracionalidade política.
Filha de mãe pernambucana e criada em São Paulo, Marina Chaves de Macedo Rego transformou experiências pessoais – marcadas pelo estranhamento ao próprio sotaque e pela convivência com manifestações cotidianas de discriminação regional – em objeto de investigação acadêmica. O resultado é uma pesquisa robusta, construída a partir da análise de mais de mil notícias publicadas pela imprensa paulista entre 1989 e 2022, que expõe como o Nordeste é frequentemente retratado de forma depreciativa em contextos eleitorais, quase sempre associado à pobreza, à falta de instrução e à suposta irracionalidade política.
A tese de doutorado Conheço o Meu Lugar – Paulistanidade e Estigmatização Nordestina nas Eleições Presidenciais 1989-2022, defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, evidencia que a estigmatização regional não se restringe ao ambiente digital nem nasce espontaneamente em períodos de polarização. Ela é fruto de um processo histórico que ajudou a consolidar a ideia de São Paulo como símbolo do progresso nacional, em contraposição a um Nordeste frequentemente apresentado como atraso a ser superado. Essa lógica, segundo a pesquisadora, permanece viva e se atualiza a cada disputa presidencial.
Em entrevista concedida a Larissa Aguiar, Marina reflete sobre sua trajetória, explica os principais achados da tese e discute como a reprodução desses discursos impacta diretamente a democracia brasileira. Em um país onde o voto ainda é constantemente territorializado para justificar desigualdades e deslegitimar escolhas democráticas, sua tese surge como leitura indispensável para compreender como certas violências simbólicas seguem estruturando o debate público nacional.
Fale um pouco de sua trajetória acadêmica e pessoal até chegar ao tema da sua tese. Em que momento as questões sobre identidade regional e estigmatização passaram a mobilizar sua pesquisa?
Minha trajetória acadêmica e pessoal sempre esteve atravessada por esse tema. Sou filha de mãe pernambucana e pai carioca, com raízes familiares em Pernambuco, Paraíba e Minas Gerais. Embora tenha crescido em São Paulo, essa pluralidade marcou minha formação, especialmente no sotaque e nas referências culturais, o que me colocou desde cedo em contato com situações de preconceito regional, sobretudo no ambiente escolar.
Essas experiências me fizeram perceber, ainda muito jovem, que havia algo estrutural nesses discursos. Um episódio marcante foi quando a escola sugeriu à minha mãe que eu fosse levada a uma fonoaudióloga porque meu sotaque “não me levaria para frente”. Aos 17 anos, mobilizada por essas inquietações, ingressei em Ciências Sociais na USP com o objetivo de investigar essas questões. Foi ali que encontrei ferramentas teóricas para compreender como esses preconceitos estão ligados a processos históricos de desigualdade racial, econômica e regional.

Quais referências teóricas, experiências ou vivências foram decisivas para a construção do olhar crítico que orienta o trabalho Conheço o Meu Lugar?
No campo acadêmico, o ingresso nas Ciências Sociais da USP foi fundamental para transformar essas inquietações em objeto de pesquisa. Foi ali que encontrei ferramentas teóricas para compreender que essas experiências faziam parte de um processo histórico mais amplo. Entre as referências centrais, destaco a historiadora Barbara Weinstein, cuja obra foi essencial para entender como a ideia de superioridade paulista se constrói em oposição à estigmatização de outras regiões, especialmente o Nordeste.
A formação em sociologia, história social brasileira e, posteriormente, o doutorado interdisciplinar no Diversitas – Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos da USP ampliaram esse olhar, permitindo articular análise de conteúdo, estudos de mídia e análise discursiva. Esse conjunto de vivências e referências foi fundamental para consolidar a perspectiva crítica que orienta o Conheço o Meu Lugar.
“Conheço o meu lugar” é uma expressão carregada de sentidos históricos. Como esse enunciado sintetiza as relações de poder e pertencimento entre Sudeste e Nordeste no contexto das eleições presidenciais?
O título da tese sintetiza uma lógica histórica de hierarquização social e política no Brasil. A expressão “conheço o meu lugar” traduz a ideia de que determinados grupos devem ocupar posições previamente definidas dentro de uma estrutura desigual. No contexto das relações entre Sudeste e Nordeste, ela expressa a tentativa de estabelecer quem seria reconhecido como representante legítimo do progresso e da racionalidade política, e quem seria associado ao atraso e à dependência.
Na pesquisa, mostro que a ideia da superioridade paulista foi construída paralelamente à falsa noção de inferioridade nordestina. São processos inseparáveis que historicamente opõem um Sudeste identificado com desenvolvimento e modernidade a um Nordeste frequentemente retratado como espaço de precariedade. Nas eleições presidenciais, essa dicotomia reaparece quando o voto nordestino é tratado como menos legítimo ou racional.
Quais foram os principais episódios ou recortes eleitorais analisados na sua pesquisa e por que eles se mostraram centrais para compreender a estigmatização nordestina?
O principal recorte da minha pesquisa foi a análise de como a imprensa tratou as populações nordestinas em todos os períodos eleitorais presidenciais após a redemocratização, ou seja, de 1989 a 2022. Para isso, examinei a cobertura de dois dos principais jornais paulistas, a Folha de S.Paulo e o Estado de S. Paulo, rastreando todas as menções ao Nordeste em contexto eleitoral. Ao longo desse levantamento, analisei mais de mil notícias, buscando identificar padrões discursivos e compreender de que forma a região era mobilizada para interpretar ou justificar resultados políticos.
Esses recortes se mostraram centrais porque permitiram observar a permanência histórica de determinadas narrativas, independentemente do contexto específico de cada eleição. O que a pesquisa revelou foi uma recorrência significativa de associações entre o Nordeste e atributos estigmatizantes, como pobreza, seca, dependência assistencial e falta de instrução. Em cerca de metade das menções encontradas, havia associação direta ou indireta a algum desses estigmas, e em aproximadamente 70% das vezes o Nordeste aparecia vinculado ao Partido dos Trabalhadores, muitas vezes de maneira depreciativa, como se houvesse uma espécie de voto regional irracional.
Além do período pós-redemocratização, também mobilizei episódios históricos anteriores, como Canudos, a Revolução de 1932, a Semana de Arte Moderna e até a narrativa construída em torno do golpe de 1964, porque eles ajudam a mostrar que essa oposição simbólica entre São Paulo e Nordeste não nasce nas eleições recentes. Ela é parte de uma longa construção histórica que reaparece e se atualiza a cada disputa presidencial, sendo instrumentalizada para questionar a legitimidade política das populações nordestinas.
Como a ideia de “paulistanidade” é construída e mobilizada discursivamente? Ela aparece mais como identidade cultural, política ou como instrumento de diferenciação social?
Ao longo da pesquisa, a paulistanidade aparece como uma construção discursiva ideológica que, embora frequentemente apresentada como identidade cultural regional, funciona como instrumento de diferenciação social e política. Ela consolida a imagem de São Paulo como espaço da racionalidade, do progresso e da competência econômica, criando uma ideia homogênea do que seria o “tipo ideal paulista”.

Essa narrativa apaga as desigualdades internas do estado e invisibiliza o papel histórico das populações negras, indígenas e pobres em sua formação social. Ao mesmo tempo, se sustenta pela oposição ao Nordeste, frequentemente associado ao atraso, à pobreza e à suposta irracionalidade política. São processos inseparáveis.
Mais do que uma identidade regional, a paulistanidade opera como mecanismo de distinção social e legitimação de poder. Nas eleições, isso se evidencia quando o voto paulista é associado à racionalidade política, enquanto o voto nordestino é frequentemente tratado como menos legítimo ou condicionado por carências materiais.
A sua metodologia dialoga com análise de discurso, redes sociais e cobertura midiática. Como esses diferentes campos se cruzam para revelar padrões de estigmatização?
A metodologia da pesquisa é interdisciplinar porque o fenômeno analisado não pode ser compreendido a partir de um único campo. O trabalho articula análise de conteúdo, análise discursiva, estudos de mídia, sociologia histórica e reflexão sobre as dinâmicas das redes sociais para entender como narrativas sobre o Nordeste são produzidas, reproduzidas e legitimadas ao longo do tempo. Essa combinação mostra que a estigmatização regional não resulta de manifestações isoladas, mas integra uma estrutura discursiva ampla e persistente.
A análise da cobertura da Folha de S.Paulo e do Estado de S. Paulo permitiu mapear como o Nordeste é retratado nos períodos eleitorais, identificando recorrências nas associações com pobreza, dependência assistencial e suposta irracionalidade política. Já a análise de discurso revelou como essas representações constroem simbolicamente a oposição entre um ideal de modernidade atribuído a São Paulo e uma imagem depreciativa projetada sobre o Nordeste.
As redes sociais entram como espaços de circulação, amplificação e, por vezes, contestação dessas narrativas. O cruzamento desses campos evidencia a permanência e atualização desses padrões de estigmatização em diferentes contextos históricos, sempre ligados a disputas de poder e pertencimento.
Durante a pesquisa, houve algum momento ou dado que a surpreendeu ou tensionou suas hipóteses iniciais?
Eu já esperava encontrar manifestações consistentes de preconceito regional ao longo da pesquisa, porque cresci em São Paulo convivendo diretamente com esse tipo de discurso. Por isso, o fato de a cobertura midiática reproduzir estigmas sobre o Nordeste não foi exatamente uma surpresa. O que mais me chamou atenção foi a dimensão quantitativa e a recorrência dessas associações, atravessando diferentes eleições presidenciais e se mantendo relativamente estáveis ao longo de mais de três décadas.
O dado que mais ampliou minhas hipóteses foi perceber que classificar determinados comportamentos políticos como “nordestinos” funciona como uma estratégia de delimitação simbólica dentro do próprio estado de São Paulo. Ao associar posições progressistas ao Nordeste, o discurso conservador não apenas desqualifica a região mas, também, estabelece fronteiras sobre o que pode ser considerado legitimamente paulista. Esse foi o grande achado da pesquisa: compreender que a estigmatização nordestina serve tanto para inferiorizar o outro quanto para disciplinar comportamentos e reafirmar um ideal político conservador, algo que ajuda a entender narrativas mobilizadas em processos recentes, como o golpe institucional de 2016.
De que forma a mídia tradicional e as plataformas digitais contribuem, direta ou indiretamente, para reforçar ou contestar esses estigmas regionais?
A relação da mídia tradicional e das plataformas digitais com esses estigmas regionais é ambígua, já que ambos os espaços podem tanto reproduzir quanto contestar essas narrativas. No entanto, a pesquisa mostra que, historicamente, o reforço desses preconceitos tem sido mais recorrente, especialmente quando veículos associam o Nordeste, durante períodos eleitorais, a imagens de pobreza, dependência assistencial e suposta irracionalidade política.
Nas redes sociais, essas narrativas ganham velocidade e alcance, impulsionadas por lógicas algorítmicas que favorecem conteúdos polarizadores. Ao mesmo tempo, esses espaços também abriram brechas importantes para resistência, com jornalistas, pesquisadores e comunicadores independentes denunciando esses estigmas. Ainda assim, trata-se de uma disputa desigual, em que o peso estrutural segue majoritariamente do lado da reprodução desses preconceitos.
Como você analisa o papel político de Pernambuco e do Nordeste dentro do imaginário nacional construído nas eleições?
Pernambuco ocupa um lugar particular nesse imaginário político sobre o Nordeste. Nas narrativas eleitorais, a região costuma ser mobilizada como uma alteridade política, frequentemente associada à dependência, ao atraso ou à irracionalidade eleitoral, como se houvesse homogeneidade entre seus nove estados. Essa simplificação serve para deslegitimar escolhas eleitorais e reforçar hierarquias sobre quem teria legitimidade para definir os rumos do País.
No caso pernambucano, há uma complexidade adicional por seu papel central na construção histórica da ideia de Nordeste e por sua associação a uma certa intelectualidade regional. Ainda assim, mesmo com essas especificidades, Pernambuco permanece inserido no processo mais amplo de estigmatização. A pesquisa mostra que o Nordeste segue sendo acionado, eleição após eleição, como território simbólico sobre o qual se projetam disputas nacionais, revelando que seu papel no imaginário político está mais ligado a disputas de poder do que à sua realidade concreta.

Sua pesquisa aponta diferenças na forma como o preconceito se manifesta entre distintas classes sociais ou níveis de escolaridade?
Sim. A pesquisa mostra que o preconceito regional se manifesta de formas diferentes conforme a classe social e a posição ocupada pelos grupos dentro da estrutura social. O principal alvo costuma ser a população pobre e racializada, frequentemente associada a estigmas como ignorância, dependência e suposta incapacidade política.
No caso das elites nordestinas, a desqualificação assume outra forma: elas costumam ser retratadas como arcaicas, coronelistas ou decadentes. Ou seja, muda o enquadramento, mas permanece a lógica de associar o Nordeste a algo que precisaria ser superado.
Também é importante destacar que esse preconceito não está restrito a pessoas com menor escolaridade. Ele circula inclusive em espaços altamente escolarizados, como a mídia e a academia, muitas vezes de forma mais sofisticada e velada, o que evidencia seu caráter estrutural.
Pensando no cenário político recente, a senhora acredita que esse tipo de estigmatização tende a se intensificar, transformar-se ou perder força nas próximas eleições?
Minha percepção é que esse tipo de estigmatização tende a continuar presente e pode até se intensificar nas próximas eleições, sobretudo em um cenário de forte polarização política. Não acredito que seja um fenômeno que desapareça no curto prazo porque está ancorado em estruturas históricas profundas da sociedade brasileira e costuma se reativar sempre que disputas eleitorais acirram antagonismos políticos e regionais.
Ao mesmo tempo, esses discursos têm passado por transformações. Hoje há maior constrangimento social para manifestações explicitamente preconceituosas, resultado da resistência das populações nordestinas e da ampliação do debate público sobre discriminação regional. Isso não significa redução do preconceito, mas sua reformulação em formas mais veladas e sofisticadas. Assim, a tendência é de intensificação acompanhada de transformação, em um cenário marcado pelo tensionamento entre reprodução e resistência.

