Diretoras conquistam espaço em festivais e revelam nova geração de cineastas, enquanto lutam por mais acesso a recursos, editais e reconhecimento
*Por Rafael Dantas
O cinema pernambucano é reconhecido internacionalmente por obras e diretores que marcaram sua história, em sua maioria homens. Nos últimos anos, porém, as mulheres vêm conquistando mais espaço. Seja à frente da direção de curtas ou longas-metragens, nas ficções ou nos documentários, nos principais festivais ou na formação de novas cineastas, elas têm ampliado sua presença e deixado uma contribuição relevante para a renovação e o fortalecimento do audiovisual no Estado.
Não são poucas as cineastas que já têm um tempo de estrada no cinema pernambucano. Kátia Mesel começou a filmar ainda em 1968, quando praticamente não havia mulheres dirigindo. Anos depois, ela própria só descobriria que havia sido a primeira diretora pernambucana a participar de um festival nacional de cinema, três décadas depois, ao ler um artigo sobre aquela geração. Para ela, mais importante do que o pioneirismo foi mostrar que outras mulheres também poderiam estar à frente de produções da sétima arte. “Uma mulher fazendo vai mostrando às outras mulheres que é possível” (ver matéria vinculada).

Ao lado dela, nomes como Adelina Pontual, Luci Alcântara, Renata Pinheiro, Tuca Siqueira e Dea Ferraz ajudaram a escrever a história de toda uma geração de mulheres no setor. Somadas a elas, muitos nomes que passaram pelas formações locais ou estudaram no exterior também estão despontando e exibindo suas produções para o mundo.
Embora, pelos poucos recursos captados, a maioria das produções sejam curtas-metragens, já existe uma lista de longas que deixaram sua marca nessa produção feminina do Estado. O Rochedo e a Estrela (de Kátia Mesel, em 2007), Amores de Chumbo (de Tuca Siqueira, 2017), Amor, Plástico e Barulho (de Renata Pinheiro, em 2013) e Câmara de Espelhos (Dea Ferraz, 2016) integram o elenco de películas pernambucanas que rodaram festivais e conquistaram prêmios.

Para Nina Velasco, professora do curso de Cinema da UFPE, a consolidação de uma geração de diretoras ainda esbarra em desigualdades estruturais da cadeia audiovisual. Ela avalia que as cineastas pernambucanas enfrentam mais dificuldades para acessar orçamentos mais robustos, o que acaba limitando o alcance de suas produções. “A maioria das diretoras mulheres, aqui de Pernambuco, tem realmente bem menos visibilidade do que os homens, especialmente porque também tem mais dificuldade de acessar verbas maiores e, muitas vezes, trabalha com gêneros considerados menores, como documentário ou curtas-metragens”, destaca.

A diretora de arte Sephora Silva, que também atua como diretora e roteirista, observa que as mulheres têm forte presença na produção dos filmes pernambucanos, mas continuam sub-representadas na direção e no roteiro. “A maioria dos grandes filmes feitos em Pernambuco é produzida por produtoras mulheres. As áreas com menos acesso para elas é direção e roteiro. É o que eu vejo no crédito dos filmes”, constata.
ORGANIZAÇÃO PARA PROMOVER MAIS MULHERES NO CINEMA
Na tentativa de enfrentar essas desigualdades e ampliar a presença feminina no cinema surgiu, em 2016, o Movimento Mulheres no Audiovisual de Pernambuco (Mape). Segundo Milena Times, uma das integrantes da organização, o coletivo nasceu para reconhecer e fortalecer as profissionais do setor em suas diversas áreas de atuação. “As mulheres sempre estiveram presentes no cinema pernambucano, exercendo as mais variadas funções, embora nem sempre com o mesmo reconhecimento”, afirma.
Ela explica que o Mape vai além de uma rede de profissionais e também busca discutir as formas de produção do cinema pernambucano. “O movimento compreende a dimensão política que toda construção de imagem e discurso carrega e, por isso, disputa outras formas de produzir cinema, repensando processos criativos e narrativas que sejam mais diversas e representativas.”
Na avaliação de Milena, uma das principais frentes de atuação é a defesa de políticas públicas que ampliem o acesso das mulheres aos recursos de produção, um dos principais gargalos do audiovisual independente. Ela reconhece que o setor avançou nos últimos anos, com mais mulheres ocupando cargos de liderança, mas avalia que a equidade ainda está distante. Os desafios, segundo ela, passam pelo acesso à formação, aos editais, à curadoria dos festivais e também pelo reconhecimento da imprensa e da crítica especializada que, muitas vezes, ainda tratam as produções dirigidas por mulheres como um cinema de nicho.
A cineasta Dea Ferraz destaca que os avanços conquistados pelas mulheres no audiovisual pernambucano são resultado de uma construção coletiva e exigem mobilização permanente. “Eu acredito que toda conquista é resultado das lutas coletivas e nenhuma conquista é definitiva, sobretudo quando se trata dos direitos das mulheres. Não tem descanso. Aqui em Pernambuco, essa luta se dá muito a partir da atuação do Mape, um coletivo que sempre esteve no front da formação, da defesa, da articulação e da construção de políticas públicas para o audiovisual. Essa disputa por espaço, de uma ponta à outra da cadeia produtiva, só avança mais efetivamente quando nos percebemos como coletivo.”

Para Dea Ferraz, o reconhecimento internacional que o cinema local está alcançando é importante, mas não pode esconder o caminho percorrido até ele. Segundo ela, cada diretora que ocupa espaço em festivais representa uma trajetória construída coletivamente e por décadas de luta por formação, financiamento e políticas públicas. “O glamour é consequência, não objetivo. Fazer cinema é entrega, mergulho, dedicação e luta.”
Embora reconheça avanços nas políticas afirmativas para o audiovisual, Sephora Silva avalia que essas iniciativas ainda não foram suficientes para equilibrar a presença feminina na direção dos filmes. Segundo a cineasta, mesmo os mecanismos de incentivo alcançam uma parcela menor de mulheres. “Existem entre 15% e 20% das mulheres aqui em Pernambuco que conseguem aprovar e realizar seus projetos. É uma taxa muito baixa ainda, pensando que 80% dos projetos são feitos por homens. As políticas públicas de alguma forma tentam incluir mais mulheres, mas, mesmo assim, as estatísticas são muito baixas”, lamenta.

CRESCIMENTO DAS MULHERES NO CINEMA VEIO NA SUPERAÇÃO
Se hoje as mulheres ocupam mais espaço na direção de filmes em Pernambuco, essa mudança foi construída ao longo de décadas. Tuca Siqueira, que atua há mais de 20 anos como diretora e roteirista, lembra que iniciou a carreira em um ambiente predominantemente masculino, no qual poucas mulheres conseguiam dirigir. Para ela, ver outras cineastas assinando filmes – como Luciana Murat, Laís Bodanzky e Anna Muylaert – foi fundamental para que novas realizadoras acreditassem que aquele também poderia ser o seu lugar.
“É muito importante para quem está começando ter nortes de outras mulheres fazendo isso, porque encoraja, faz com que a gente possa sonhar com essa possibilidade”, justifica Tuca. Ela também destaca que as políticas públicas voltadas ao audiovisual ampliaram as oportunidades para as diretoras, mas avalia que elas ainda acessam orçamentos menores do que os necessários para desenvolver seus projetos.

A persistência aparece como um dos traços comuns na trajetória dessas profissionais. Uma das palavras mais repetidas pelas cineastas entrevistadas para esta reportagem foi “teimosia”. Mesmo diante de recursos escassos, atrasos em financiamentos e dificuldades para distribuir seus filmes, elas seguiram produzindo. “A gente faz porque não quer perder espaço, porque quer avançar. Se você não batalhar para que esse direito permaneça, você perde”, resume Tuca Siqueira.
A atriz Fabiana Pirro observa que essa transformação foi construída por mulheres que desafiaram um ambiente historicamente masculino. “As mulheres do cinema pernambucano sempre estiveram em produção, figurino, direção de arte, entre outras atividades essenciais para se fazer um filme… mas o machismo nordestino fechava as portas para que elas dirigissem e contassem suas próprias histórias”, afirma.

Segundo Fabiana, pioneiras como Adelina Pontual, Kátia Mesel, Renata Pinheiro e Dea Ferraz enfrentaram os desafios de fazer esses limites e abriram caminho para uma nova geração de realizadoras. “Hoje, há muitas outras mulheres que se espelham nelas; estudam, praticam e se desafiam como cineastas. O cinema mundial ganha novas histórias, principalmente com personagens femininas protagonizando com suas vivências de quem sempre segurou os pilares do mundo”, destaca.
NOVA GERAÇÃO ULTRAPASSA FRONTEIRAS
Mesmo a nova geração de cineastas pernambucanas está ganhando seu espaço inclusive no cenário internacional. Formada em Cinema pela University of Southern California (USC), nos Estados Unidos, a atriz e diretora Vitória Vasconcellos voltou ao Brasil, há quatro anos, e encontrou no cinema independente pernambucano o ambiente para construir sua carreira como realizadora. Desde então, passou a compreender os mecanismos de produção do audiovisual nacional, dos editais às redes de colaboração entre cineastas.
“Aprender a fazer cinema independente foi entender como escrever editais, acessar os mecanismos de financiamento e conhecer a galera que gosta de fazer o cinema que eu busco. Esses quatro anos foram muito sobre aprender a produzir filmes cada vez mais ambiciosos”, conta Vitória.

Seu curta Esconde-Esconde, uma coprodução entre Pernambuco e Rio Grande do Norte ambientada em São Paulo, estreou em festivais na França e em Tiradentes, passou pelo CinePE, Curta Cinema e Festival de Edimburgo e será exibido pelo Canal Brasil. Agora, Vitória foi a única brasileira selecionada para a Filmmakers Academy do Festival de Locarno, na Suíça, um dos principais programas de formação para jovens realizadores do cinema mundial.
Para Vitória, o atual momento de projeção internacional do cinema pernambucano tem produzido um efeito importante dentro do próprio Estado. A disputa do Oscar e a participação em festivais, como o de Cannes, despertam o interesse do público pelos filmes locais e abre espaço para uma nova geração de realizadoras. “Só de pensar, vêm à minha cabeça várias mulheres da minha geração, não só mulheres cis, mas mulheres trans também. A presença feminina no cinema pernambucano é crescente. A melhor coisa desse momento é o pernambucano ter mais interesse em conhecer seu cinema, ver as salas mais cheias. O cinema é coletivo, tanto quando a gente faz, quanto quando assiste”.
Para Nina Velasco, essa renovação já aparece também em nomes como Maiara Santana e Rosa Fernanda, representantes de uma geração formada na UFPE, marcada por maior diversidade de gênero e raça e pela presença das políticas afirmativas.
NOVAS VOZES FEMININAS NA PERIFERIA
Além da questão de gênero, o cinema pernambucano ainda apresenta um desequilíbrio racial, como ressalta a pesquisadora Nina Velasco. “A gente também sempre teve cineastas negros, mas se a gente fizer o recorte de mulheres negras, aí é que elas são menos visibilizadas”.
Quem conhece essa realidade é a cineasta periférica do bairro do Totó, Yane Mendes . Ela é coordenadora da Coalizão de Mídias Periféricas, Faveladas, Quilombolas e Indígenas e da Rede Tumulto. Após 15 anos de atuação no audiovisual, ela representa uma geração que amplia as fronteiras do cinema pernambucano ao colocar no centro das narrativas as vivências das periferias e das mulheres negras.

Para Yane, os avanços conquistados pelo audiovisual nos últimos anos são inegáveis, especialmente com a ampliação das políticas de fomento. Ela, no entanto, avalia que esses instrumentos ainda não garantem igualdade de oportunidades para quem historicamente esteve à margem do setor. “As políticas públicas têm acontecido, mas ainda numa velocidade que faz com que o cinema pernambucano não aproveite tantas potencialidades que existem dentro da periferia. A gente precisa pensar em ferramentas para além dos editais”, defende.
Entre os principais desafios, a cineasta aponta a burocracia dos processos de seleção e a dificuldade enfrentada por realizadores que precisam conciliar a produção audiovisual com outros empregos. “Como mulher preta periférica e cineasta formada na prática, eu sinto que a burocracia do edital exclui as pessoas. Muita gente já faz cinema há anos e continua sem conseguir produzir com recursos públicos”, afirma. Para ela, além da ampliação das ações afirmativas, é necessário criar espaços permanentes de formação, laboratórios de desenvolvimento de projetos e mecanismos que favoreçam a renovação dos realizadores contemplados.
Ela já produziu curtas como A Live Delas, realizado com recursos do Instituto Moreira Salles, e o episódio No Sábado Eu Dou Autógrafo, da série Ancestrais do Futuro, viabilizado pela Fundação Tide Setubal. Quinze anos depois de iniciar sua trajetória no audiovisual, Yane Mendes viveu um dos momentos mais simbólicos da carreira. Em uma sessão comemorativa no Cinema São Luiz, celebrou sua produção ao lado de parceiros, familiares e do público que acompanha seu trabalho. “Ter meu nome estampado naquele letreiro foi muito reenergizador”, conta, emocionada. Para a diretora, a homenagem confirmou que o cinema produzido a partir das periferias também pode e deve ocupar os espaços mais tradicionais de exibição.
FALTA A CHEGADA DA INICIATIVA PRIVADA
Uma unanimidade no diagnóstico do setor em Pernambuco e da cena do cinema independente é uma dependência muito forte pelo financiamento público. A participação do Estado no suporte à essa linguagem artística não é exclusividade brasileira, porém é muito sentida a ausência da iniciativa privada para o desenvolvimento dessa produção.
A cineasta Luci Alcântara, que está desenvolvendo o filme O Melhor Documentário do Mundo chama a atenção para essa luta que, inclusive, não é restrita às mulheres. “A participação das mulheres no cinema cresceu devido às cotas nos editais, que aumentaram, porém ainda são insuficientes. Mas falta incentivo da iniciativa privada”, sentenciou.

Ela avalia que “para o cinema se transformar em uma indústria, tem que ser patrocinado também pela iniciativa privada”. O caminho de incentivos privados avançou nos esportes, mas ainda é muito escasso na sétima arte. Para viabilizar seu longa, ela está na fase de captação da segunda parte de gravações, antes de entrar na pós-produção. Luci planeja gravar em todas as regiões de Pernambuco, inclusive voltando a atuar, antes de entrar na ilha de edição.
Apesar dos desafios relacionados ao financiamento, à distribuição e ao acesso a grandes orçamentos, as cineastas ouvidas pela reportagem concordam que o momento representa um avanço para a presença feminina no audiovisual pernambucano. O caminho aberto pelas pioneiras permitiu o surgimento de uma nova geração de realizadoras, protagonistas que ampliam as narrativas e os olhares sobre o Estado. Para Tuca Siqueira, porém, essa conquista exige vigilância permanente. “Qualquer direito, se você não batalhar para que ele permaneça, você perde.” A frase revela o espírito de uma geração que transformou a persistência em ferramenta para continuar ocupando as telas.
*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)


