*Por José Ricardo de Souza
Num dia como hoje, 29 de outubro, há exatamente 25 anos, chegava na Igreja de Santa Isabel Rainha de Portugal, na cidade do Paulista, a urna contendo o crânio do Padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro, autor da bandeira de Pernambuco e uma das lideranças da Revolução Pernambucana de 1817. O crânio do padre recebeu neste dia um sepultamento cristão num túmulo especialmente preparado para recebê-lo, 187 anos após a sua morte em 19 de maio de 1817. O translado do crânio envolveu dezenas de pessoas, entre autoridades civis e religiosas e também membros do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco (IAHGP).
Após sua morte e profanação do seu corpo, que já estava sepultado ao lado da capela de Nossa Senhora da Conceição, no Engenho Paulista, sendo inclusive esquartejado e os membros espalhados entre os caminhos que ligavam Olinda a Recife, durante alguns anos, o crânio do padre ficou exposto no pelourinho, até ser resgatado pelo francês Felix Naudin em 1819, que doou a Francisco Cavalcanti, parente do religioso. Após a morte de Francisco, Luiz da Costa Porto Carrero, solicitou a relíquia à família e a entrgeou ao IAHGP.

Durante anos este crânio ficou guardado nas dependências do IAHGP, juntamente com o do Vigário Pedro de Souza Tenório da Ilha de Itamaracá. Segundo o Direito Funerário, todo resto mortal tem direito a um destino correto, e este não deveria ser num museu, arquivo, ou instituto histórico. Foi pensando nisso que Reinaldo Carneiro Leão e Tácito Galvão, ambos do IAHGP, Demétrio Andrade, então Secretário de Turismo da Cidade do Paulista, e Valdemir José, que na época era o pároco da Paróquia de Nossa Senhora dos Prazeres de Maranguape, formaram uma coalização para trazer para Paulista o crânio do padre João Ribeiro, para que este fosse finalmente sepultado em solo sagrado e pusesse fim ao suplício imposto ao sacerdote.
O crânio foi colocado numa urna de madeira, e trazido do Recife até Paulista num carro funerário da Casa Baptista, a pelo menos 20 Km por hora, seguido de batedores da polícia e por um cortejo de automóveis. Aqui chegando, esperava por ele, membros da cavalaria, que acompanharam o cortejo até a entrada da Igreja de Santa Isabel, onde uma multidão já aguardava a chegada da urna com o crânio, que foi recebida com honras militares, incluvise tiros, antes de ser entronada dentro das dependências da igreja, onde o Padre Valdemir José celebrou uma missa para recepcionar os restos do padre revolucionário.

Estiveram presentes na ocasião, além das pessoas acima citadas, o então prefeito da cidade, Antônio Speck, o ex-prefeito Ademir Cunha, o desembargador Antônio Camarotti, e membros do IAHGP e da Maçonaria. Antes do sepultamento, o padre Valdemir concedeu o perdão eclesiástico ao padre falecido, e declarou que seus restos estavam prontos para serem sepultados no túmulo construído na lateral da igreja, projetado por Jobson Figueiredo. No túmulo foi também colocado uma cápsula contendo a História do padre e maçom que representou o clero católico no governo provisório que tomou o poder na província de Pernambuco a partir de 6 de março de 1817.
A cerimônia do translado do crânio do Padre João Ribeiro é lembrada como um dos fatos mais icônicos da história recente da cidade do Paulista, porque finalmente trouxe para a cidade, os restos de um grande herói pernambucano, que aqui viveu seus últimos dias. Vencido pela dura repressão joanina, ele preferiu se autoimolar do que ser morto pelos seus algozes. O dia de seu nascimento, 28 de fevereiro, chegou a ser feriado municipal durante alguns anos. A comenda que leva seu nome é entregue atualmente em 4 de setembro nas comemorações da emancipação da cidade.
A memória do Padre João Ribeiro, com suas múltiplas facetas (padre, maçom, desenhista, botânico, jurista, revolucionário) evoca o protagonismo pernambucano nas causas libertárias do século XVIII. Seu nome ficará para sempre registrado, inspirando os pernambucanos a sempre buscarem ideias democráticas e republicanas. É um orgulho para os paulistenses saber que na igreja que é considerada o cartão postal da cidade repousa o crânio do autor da bandeira mais bonita do Brasil.
*José Ricardo de Souza é professor da rede pública estadual de ensino, historiador e escritor. Membro da Academia de Letras e Artes da Cidade do Paulista (ALAP) e do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP). Criador do Projeto Muita História pra Contar. @josericardope01 nas principais redes sociais – Instagram, Threads, X, TikTok e Kwai.
