Em entrevista exclusiva, presidente do IBGE defende integração dos dados oficiais, políticas preditivas para reposicionar o Estado brasileiro diante da nova era da informação e o uso de inteligência artificial própria, como forma de garantir a soberania sobre suas informações e evitar dependência de plataformas
Durante sua passagem pelo Recife para a inauguração da Casa Brasil IBGE, no campus da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco), no bairro de Casa Forte, o presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Márcio Pochmann, concedeu entrevista exclusiva ao repórter Rafael Dantas. Além de apresentar a proposta do novo espaço, ele traçou um panorama dos desafios do instituto e das políticas públicas brasileiras diante da sociedade orientada por dados.
Pochmann afirma que o Brasil ainda formula políticas públicas com base em dados do passado, um modelo que, segundo ele, já não responde à complexidade da sociedade atual. Em meio à explosão do volume de informações e ao avanço da inteligência artificial, o desafio, diz, é antecipar tendências e agir antes que os problemas se consolidem.
À frente de um processo de reconstrução institucional do IBGE, após anos de redução de quadro e de queda de recursos, ele aposta na integração de bases de dados do Estado, na modernização tecnológica e na criação de sistemas como o Singed para inaugurar uma nova lógica de gestão pública. “Quem gera dados também produz narrativa”, afirma ao defender que o País precisa garantir soberania sobre suas informações e evitar dependência de plataformas externas.
A Casa Brasil é uma estratégia do IBGE de popularizar o acesso aos dados? Qual é o objetivo principal desse projeto?
Identificamos que há segmentos da sociedade que têm acesso [a informação] não mais pelos mecanismos tradicionais de comunicação. No caso do Brasil, por exemplo, um aplicativo de mensageria é o que mais conecta a população. Então, nós precisaríamos remodelar a nossa forma de comunicação.
É o que temos procurado fazer, inclusive, com equipes de novos comunicadores. Estamos remodelando a forma de interação, feita por meio da internet, celular, rádio, televisão… Mas também pensamos que é necessária a disseminação do conhecimento e dos dados pela presença física.
O IBGE tem 560 agências distribuídas pelo País, onde ficam os nossos servidores que fazem coleta de preços e outras pesquisas. Temos 27 superintendências. Então, o IBGE está presente, mas como coletador, organizador das operações de pesquisas estatísticas. Essa conexão que nós estamos fazendo [com a Casa Brasil], a partir de parcerias diversas, é aquela que nos permite apresentar o produto do IBGE. Isso é uma interação crescente. Isso leva os estudantes e a comunidade a ficarem mais próximos do acesso à informação. Entender que a inflação não é um número mas resultado de um complexo sistema de coleta e pesquisa. Demonstrar como é feita uma pesquisa faz parte do processo de letramento digital e estatístico.

No seu pronunciamento de abertura do lançamento da Casa Brasil IBGE, o senhor mencionou a importância dos dados. O instituto, embora historicamente já tenha essa relevância social, hoje está nessa era em que os dados são o “novo petróleo”. O IBGE tem passado por uma transformação para atender às novas demandas do País?
Nós viemos de um período bem difícil na instituição. Basta dizer que, de 2016 até quando chegamos em 2023, foram sete anos em que a instituição teve cinco presidentes. Em período muito curto, o IBGE teve em média 16 meses para cada presidente. Isso fez com que a instituição fosse perdendo a capacidade de planejar e organizar suas atividades no médio e longo prazo, restringindo-se à gestão de emergências.
Esse período também teve ausência de concursos públicos. O IBGE não conseguiu renovar e ampliar sua força de trabalho. Pelo contrário, tivemos redução de servidores. Também não tivemos reajuste de salários, então perdemos quadros.
Além disso, houve contingenciamento orçamentário, o que impediu continuar a fazer pesquisas que eram feitas, como o Censo Agropecuário Florestal Aquícola, a Pesquisa de Orçamento Familiar e a Pintec, que é uma pesquisa de inovação. Não conseguíamos fazer nem as pesquisas tradicionais, nem novas pesquisas necessárias para essa nova sociedade.
Houve uma reversão desse cenário a partir de 2023, na transição de governo?
O que tivemos de 2023 para cá foi um processo que recupera uma parte importante desse tempo perdido. Fizemos concursos públicos. O IBGE hoje tem 2.500 novos servidores. Isso ampliou, requalificou e reconstituiu a rede de coleta [de informações] da instituição. Houve recuperação salarial e uma ampliação significativa do orçamento.
Isso permitiu retomar a Pesquisa de Orçamento Familiar, que é muito importante para mostrar a realidade da sociedade brasileira. O que consome, como consome, a qualidade dos produtos, o tempo de uso, se é livre, se estuda ou se trabalha… Um panorama muito importante.
Estamos nos preparando para realizar em 2027 o Censo Agropecuário Florestal e Aquícola, que é a segunda operação estatística mais importante do País. Atinge 5,5 milhões de estabelecimentos. Também entramos em campo para uma pesquisa de inovação, que vai oferecer um retrato das políticas públicas. Novas pesquisas, como o Censo da População em Situação de Rua, o Censo dos Brasileiros no Exterior e pesquisas sobre Violência contra a mulher são algumas novidades. Nesse sentido, houve uma recuperação da casa, que nos recoloca no patamar em que a casa se encontrava [antes de 2016]. Mas é necessário dar um salto, porque hoje temos instituições que também produzem conhecimento. Há um mercado de dados. Nesse sentido, o IBGE precisa se reposicionar.

Como está acontecendo esse reposicionamento?
Esse reposicionamento vem se dando a partir do planejamento. Introduzimos o Plano de Trabalho Anual, que a casa passou a ter e de acordo com o seu orçamento. Estamos agora definindo o Plano Geral de Informações Estatísticas e Geográficas dos anos de 2026 a 2030. Ou seja, o que o IBGE pretende fazer nesse período. E ao mesmo tempo, uma reorganização interna, por meio da discussão do estatuto da casa. É um processo que começou no ano passado e a gente espera ter uma proposta estatutária para apresentar ao Ministério do Planejamento e Gestão, até o presidente da República definir um decreto.
Isso que estamos vendo aqui [inauguração da Casa Brasil IBGE], é uma mudança da política de comunicação da casa. Também estamos modernizando a Ence (Escola Nacional de Ciências Estatísticas), que vai tentar ficar mais presente no Brasil. Enfim, uma nova situação para o IBGE poder dar conta das novas demandas que estamos tendo e que a gente estava com dificuldade de poder responder. Eu acredito que agora estamos dando um passo que reafirma a instituição preparada para os próximos anos.
O senhor informou que houve uma recuperação orçamentária. Isso aconteceu em que nível? Houve um salto?
Sim. Em 2022, o orçamento do IBGE equivalia a 0,04% do orçamento geral do Governo Federal. Em 2025, passou a 0,06%. Isso representa um crescimento de 50% na relação. Além disso, tivemos um acréscimo de R$ 1,4 bilhão entre 2023 e 2026.

E que IBGE é esse no futuro que o senhor projeta para responder às novas demandas de uma sociedade orientada por dados?
Nós estamos trabalhando com algo que me parece que vai representar um novo patamar para as políticas públicas e para as pesquisas no Brasil. Tivemos aqui na Unicap uma reunião com reitores, pesquisadores e professores discutindo aquilo que nós entendemos como sendo uma nova etapa para pesquisas, que vai possivelmente mudar a produção da ciência brasileira, especialmente a ciência que depende de dados oficiais. O que nós temos hoje é uma produção de informações setorializadas, fragmentadas.
Temos dados do mundo do trabalho. O IBGE produz uma parte, outra parte o Ministério do Trabalho. Temos dados sobre saúde, que o Ministério da Saúde oferta por meio do DataSUS. Existem dados da Receita Federal que o Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados) tem, há dados da Previdência Social, com o CadÚnico. Enfim, há uma dispersão e uma fragmentação de registros administrativos.
E como superar essa fragmentação de dados que o senhor descreve?
Estamos trabalhando na construção do Singed, que é o Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados, que integra as informações de cada ministério e que permitiria o cruzamentos sobre os diferentes dados. Então, permitiria, no caso da política pública, olhar a realidade de maneira totalizante. O que tem a ver com a educação, com a saúde, com a violência, com o trabalho.
Esse salto organizativo, em termos de integração dos registros administrativos, permitiria dar às universidades e às pesquisas que são feitas uma visão mais ampla. E também ao próprio governo.
Eu imagino aqui que o secretário da Educação, ao conversar com o prefeito, ele leva os dados do censo educacional. Ele pode dizer como está a educação, mas não saberia dizer se nos locais ou nas escolas em que a educação está melhor é onde existem jovens com melhores empregos ou se há muita violência. Enfim, esse conjunto de informações dará condições aos gestores públicos para tomar decisões com mais informações.
Que impacto essa integração pode ter na formulação de políticas públicas?
Um salto de qualidade na política pública, de certa maneira, aponta para uma reforma do Estado brasileiro. O Estado moderno que nós temos foi criado a partir dos anos 1930, é um estado fragmentado por caixinhas. Ou seja, você tem o problema do analfabetismo, tem o Ministério de Educação. Tem o problema com uma doença, tem o Ministério da Saúde. O problema da mobilidade tem o Ministério do Transporte. O problema do desemprego, o Ministério do Trabalho. Então, é um Estado repartido.
Além disso, as políticas públicas são feitas de acordo com a realidade observada. Então, por exemplo, o IBGE divulgou a inflação do mês passado. Se for alta ou se for baixa, o Banco Central ou o Ministério da Fazenda vai fazer isso ou aquilo. Ou seja, partimos da ideia de que o dado da realidade do passado seria suficiente para organizar a política pública do presente e do futuro.
Nesse sentido, estamos fazendo política pública com algo que já aconteceu. Olhando para trás. Então, estamos na verdade trabalhando sobre as consequências. A inflação subiu, subiu o preço, então você tem que tomar a decisão como se o futuro fosse uma continuidade do passado. O que nós estamos falando de desafio, hoje, são políticas preditivas.
O que são políticas preditivas?
São políticas que permitiriam ao governo atuar antes que acontecesse o fato. Isso é possivel quando se avalia o que está acontecendo e se consegue fazer uma predição do que pode acontecer. Um exemplo concreto é a questão demográfica no Brasil. O IBGE fez o Censo 2022 e nós temos projeções. Por exemplo, a partir do ano 2041, a população brasileira estagnará e começará a decair porque o número de nascidos será menor do que o número de pessoas que vão morrer. Então, com essas projeções eu já sei, por exemplo, possivelmente qual será a população aqui do Recife. Posso saber até por bairros, posso saber a população dos estados do Brasil. Posso saber onde as pessoas que hoje estão com 55 anos, quando tiverem com 65 anos, em que localidades do País elas estarão. Posso saber quanto será a demanda para a educação de crianças, já que estarão nascendo menos crianças. E em que locais elas estarão? Então, isso está para acontecer.
Mas se o gestor público já tem esse dado pode tomar a iniciativa de fazer ações evitando que haja, por exemplo, um processo de envelhecimento numa determinada cidade que não vai ter nenhum equipamento para atendê-los. Então, passa a atuar de forma antecipada, antecedente nesse sentido. Isso é uma novidade em termos de políticas públicas que pode, na verdade, permitir que não se atue somente sobre as consequências, mas também sobre as suas causas.

Se hoje já é difícil mapear os dados no Brasil, como avançar para a antecipação dessas tendências?
Isso tem a ver com o salto tecnológico que estamos vivendo. Tem a ver com a ciência de dados, tem a ver com inteligência artificial que permite antecipar por meio de uma nova modelagem estatística. Obviamente tudo isso com questões técnicas. Nós estamos em parceria com as Nações Unidas, por exemplo, para internalizar metodologias que permitam inclusive antecipar possíveis efeitos climáticos. Por exemplo, nós estamos acompanhando que a temperatura no mundo está subindo. Há o degelo das calotas polares, há elevação do nível do mar. A continuar isso, qual a parte, por hipótese, do Recife, que vai ficar submersa?
Quais os efeitos aconteceriam, porventura, no Semiárido? É possível antecipar, não é garantido que você vai ter, mas dá a possibilidade para quem quer atuar. Obviamente que vai atuando, vai vendo se dá certo ou não dá certo.
Isso nos permitiria, na verdade, enfrentar o problema do subdesenvolvimento do Brasil de nova forma, porque no passado a gente fazia as políticas olhando um pouco a experiência internacional e hoje nós podemos fazer calcada na nossa própria realidade. Agora, uma política de inovação tecnológica, de uso de inteligência artificial pressupõe, digamos assim, a questão da soberania dos dados.
Qual a sua preocupação nesse sentido da relação entre a inteligência artificial e a soberania dos dados?

O IBGE, por exemplo, para usar inteligência artificial, teria que ser a nossa inteligência artificial, porque se for a inteligência artificial que está aí disponível, seria o mesmo que dar informação sigilosa que o IBGE tem. Então, não podemos utilizá-la, precisamos criar a nossa própria inteligência artificial.
Isso foi o que o senhor antecipou na sua fala de abertura da Casa Brasil. Esse debate já é uma discussão séria no País ou isso ainda está sendo pioneiro no IBGE?
Como há uma uma rapidez nas transformações, nem sempre se consegue perceber o que está em curso, porque, de certa maneira, o Brasil também perdeu a capacidade de planejar. O que se percebe também é uma espécie de gestão das emergências, que vai cobrindo a agenda do prefeito, do secretário, do ministro, do governador, do presidente. Então, nós temos feito um esforço, justamente, para dizer que é possível fazer políticas com outros critérios, outro paradigma nesse sentido. A gente percebe isso também, há um movimento nas universidades e ele talvez não seja tão forte como deveria ser.
Nós temos procurado, inclusive, temos feito essa conexão com as universidades porque entendemos que elas são importantes junto com os Institutos de Pesquisas que possam dar um sentido diferente do que temos atualmente.

O que está em jogo para o País neste momento de transição para uma sociedade orientada por dados?
Penso que o Brasil está vivendo uma mudança de época muito importante. Não dá para nós continuarmos fazendo política pública com base numa realidade que é muito própria do passado. Nós precisamos ter agilidade para fornecer melhores informações para quem quer tomar decisões.
O primeiro Censo Demográfico no Brasil foi feito em 1872. Seus dados foram divulgados quatro anos depois. O IBGE fez o Censo Demográfico em 2022. Nós estamos em 2026. Em quatro anos não divulgamos tudo ainda. Ou seja, a gente precisa ter clareza que hoje a população e os governantes precisam de dados mais rápidos. Isso não significa abandonar a qualidade e a consistência. Mas nós precisamos utilizar novas tecnologias, porque do contrário, corremos o risco das big techs ultrapassarem e serem na verdade as operadoras, porque a questão básica, a meu modo de ver, é que quem gera dados também produz narrativa.
Isso é um pouco a disputa que nós estamos vendo hoje, com gente questionando o IBGE. Mas isso não é só no Brasil, também ocorre em outros países. Tivemos a mesma situação na disputa eleitoral do Biden [nos Estados Unidos]. Há questionamentos de muitos dados, porque, na verdade, a estatística mostra cientificamente a realidade e essa realidade nem sempre é favorável para uns ou para outros. O IBGE é uma instituição de Estado. Ele produz conhecimento.

