Manu Siqueira
Depois dos 40, a gente descobre que programa bom não é necessariamente o mais badalado. É aquele que faz sentido. Um livro que prende do começo ao fim, uma série que dá vontade de rever, um filme que continua emocionante mesmo depois de tantos anos ou um café onde a conversa dura mais do que o relógio planejava.
Tenho percebido que meu consumo de cultura mudou. Hoje escolho muito mais pela experiência do que pela novidade ou agito. E resolvi compartilhar algumas dicas que têm feito parte das minhas descobertas e redescobertas culturais.
Livro
Há um tempo, li “Eu Me Lembro”, autobiografia de Selton Mello, e terminei a leitura com aquela sensação boa de ter conhecido alguém de verdade.

O livro fala sobre memórias, paixões, família, trabalho e amadurecimento. O mais bonito é perceber como Selton deixa o personagem de lado para mostrar o homem que existe por trás do artista. E é apaixonante! Ele fala das próprias vulnerabilidades, dos medos, do diagnóstico de Alzheimer da mãe, e dos seus afetos com uma honestidade que aproxima a gente. É uma leitura que emociona e despertou em mim uma vontade imensa de viver, de sonhar e de me entregar, verdadeiramente, à vida.
Séries
Tenho algumas séries que ocupam um lugar especial no meu coração.
Desperate Housewives foi a primeira série que assisti quando assinei a Netflix, há um tempão. Até hoje lembro de como aquelas vizinhas viviam levando bolos, tortas e outras delícias umas para as outras. Pode parecer um detalhe, mas aquilo me inspirou. Passei a olhar a cozinha também como um jeito de demonstrar gentileza e carinho.
Já Sex and the City dispensa apresentações. É um dos meus maiores xodós e já virou assunto nesta coluna outras vezes. Continuo me divertindo com Carrie, Charlotte, Miranda e Samantha. Cada vez que revejo a série encontro uma conversa diferente com a mulher que sou hoje.

No momento, embarquei em uma boa dose de nostalgia e comecei a rever Barrados no Baile (Beverly Hills, 90210). A série que marcou uma geração continua rendendo boas reflexões. Prometo voltar aqui em breve para falar dela.
Filmes
Ultimamente tenho revisto grandes clássicos do cinema e confesso que a experiência tem sido melhor do que assistir a muitos lançamentos.
“As Pontes de Madison” continua sendo um dos meus filmes favoritos da vida. Fala sobre um amor que não conseguiu ser vivido em toda a sua plenitude, e por causa disso, é belíssimo. Meryl Streep e Clint Eastwood entregam interpretações que atravessam o tempo e a alma da gente.
Também revi “Tomates Verdes Fritos”. Eu lembrava muito pouco da história e fui surpreendida por um filme delicado, profundo e cheio de reflexões sobre amizade e coragem.
Outro clássico que ganhou um novo significado para mim foi Thelma & Louise. Dias atrás li uma frase sobre o final das protagonistas que achei linda. Diz que elas não caíram. Elas voaram. Depois dessa leitura, nunca mais consegui enxergar aquele desfecho da mesma maneira.
E quando tudo o que quero é rir e revisitar a adolescência, minha lista é quase obrigatória. A Garota de Rosa Shocking, Curtindo a Vida Adoidado, Gatinhas e Gatões, Clube dos Cinco e Minha Mãe é uma Sereia, com Cher e Winona Ryder, continuam funcionando como um abraço cheio de nostalgia, com o sabor da Sessão da Tarde.
Rolês no Recife
Recife e Olinda são o cenário perfeito para um roteiro inspirado em Comer, Rezar, Amar, reunindo ótima comida, bons encontros e a beleza das igrejas históricas da Cidade Alta.
Em Olinda, meu lugar preferido é a Casa Estação da Luz. O casarão histórico reúne uma curadoria musical voltada para a música brasileira e um público que, como eu, prefere aproveitar um bom show sem precisar virar a madrugada. Gosto da atmosfera do lugar, das mesas espalhadas pelo jardim, da boa comida, das bebidas e, principalmente, da programação, que já me proporcionou noites memoráveis ao som de Alceu Valença, Martins e tantos outros artistas. Na chegada ou na saída, quase todo mundo faz uma parada na escadaria da casa. Ela virou um dos cartões-postais afetivos de quem frequenta o espaço. Eu, claro, já tenho algumas fotos por lá.

Na Zona Sul do Recife, quando a programação é colocar a conversa em dia com as amigas, gosto do Tooka Sushi. Além da comida impecável, o rooftop é perfeito para passar horas aproveitando a bela vista. Outra ótima pedida é o Hiro, em Setúbal. Recém-inaugurado, tem um excelente custo-benefício para quem gosta de culinária asiática.

Já na Zona Norte, dificilmente recuso um convite para o Ca-já. O quintal é um charme e a gastronomia sempre consegue me surpreender. A casa tem um astral gostoso, e conta com um sambinha à tarde, todos os sábados. Uma delícia!

E, no Centro do Recife, meu destino sempre certo é o Restaurante São Pedro, no Pátio de São Pedro. Ali encontro, na minha opinião, o melhor sururu defumado da cidade, servido na compota de azeite e batata-doce, acompanhado de pão caseiro tostado. A torta densa de chocolate com sorvete caseiro de amendoim também é uma opção que não consigo dispensar.
No fim das contas, acho que a maturidade nos dá um presente raro. Ela ensina que se alimentar de bons momentos não é luxo nem passatempo. É uma forma de cuidar da gente, de permanecer curiosa sobre a vida e de criar memórias que valem muito mais do que qualquer tendência do momento.
Ah! Sim, precisa de grana para isso, mas há opções gratuitas super gostosas também como simplesmente sentar na areia e apreciar um fim de tarde na praia de Boa Viagem. Dar uma voltinha pelo Recife Antigo, tomar um sorvete na Feira da Aurora ou dar uma caminhada no Parque da Jaqueira já vai te reenergizar pra a semana de trabalho que começa toda segunda-feira.
*Manu Siqueira é jornalista


