Compositor festeja os 70 anos da canção que tornou a Capital do Agreste famosa ao enaltecer a feira da cidade, onde “de tudo que há no mundo, nela tem pra vendê”. Ele fala das comemorações desse marco, da sua trajetória, da inspiração que teve para criar a música e como Luiz Gonzaga
Há 70 anos ficou impossível dissociar a história de Caruaru com a sua feira, a partir do lançamento de A Feira de Caruaru pelo cantor e compositor Onildo Almeida. A canção se tornou um dos principais símbolos da cidade, da cultura nordestina e referência da metrópole do Agreste no imaginário coletivo dos pernambucanos. Onildo era um jovem apresentador de programas de auditório, na então Rádio Difusora de Caruaru, quando lançou a música em 1956.
Foi ainda na década de 1950 que o rei do baião Luiz Gonzaga escutou a música pelos corredores da rádio e pediu imediatamente para conhecer o autor, já com a intenção de gravá-la. A música deu a Luiz Gonzaga o seu primeiro disco de ouro da carreira, 100 mil cópias em apenas dois meses. Foi o início de uma parceria produtiva e de sucessos. Com mais de 500 canções gravadas, Onildo Almeida é um dos grandes compositores que ajudaram a desenvolver a cultura nordestina por meio da música. É dele clássicos na voz não só de Luiz Gonzaga, como também de Marinês, Jackson do Pandeiro, Jacinto Silva, Gilberto Gil, Chico Buarque, Banda de Pífanos de Caruaru dos irmãos Biano, entre tantos outros.
No auge dos seus 98 anos, Onildo Almeida segue compondo e fazendo parcerias com artistas de diferentes gerações. No ano em que comemora as sete décadas da canção, uma série de homenagens estão programadas. Em entrevista concedida a Yuri Euzébio, Onildo Almeida reflete sobre a composição de A Feira de Caruaru, a parceria com Gonzagão, a situação dos profissionais da música, sua carreira de cantor e compositor, as homenagens que tem recebido e a importância da canção em sua vida.

Para começar, eu queria saber se quando compôs A Feira de Caruaru, o senhor imaginava que 70 anos depois ela ainda estaria sendo celebrada?
Eu costumo dizer que toda feira é igual. Mas, a de Caruaru é diferente porque ela é uma feira que não se prende só em vender mantimentos alimentícios. Ela vende de tudo, vende até automóveis. Tem dia que eu chego no pátio da feira e tem dois, três carros para vender. Então, é diferente das outras. Isto porque Caruaru é uma cidade moderna, centrada exatamente numa região em que as outras cidades ao seu redor dependem dela, as pessoas não precisam ir ao Recife, porque Caruaru tornou-se uma metrópole no interior.
E muitas cidades dependem de Caruaru. Até pela situação geográfica. Você veja, a distância de Caruaru para uma cidade é a mesma para outra ao seu redor. Quer dizer, todas dependem de Caruaru até Garanhuns, que é a outra metrópole da região. Porque ao redor de Caruaru tem outras cidades, outras populações. Então, isso fez com que Caruaru crescesse e se tornasse a Capital do Agreste.
A canção surgiu quando eu ia para a feira com minha mãe. Nós íamos todo sábado e um dia eu observei que a feira vendia coisas que não era para vender em feira, por exemplo, bordados, roupas prontas. Quer dizer, o que você botar na feira de Caruaru vende. Então, fui anotando essas coisas e pensei: vou botar isso numa música. Aí, eu fiz a música na própria Feira de Caruaru, dizendo o que ela tem, inclusive não existia música nenhuma falando em feira. Eu fiz a primeira e o povo aceitou, achou engraçado e o mais interessante é que as próprias pessoas não sabiam o que era que a feira tinha para vender. Acho até que isso foi o motivo para que a feira ficasse conhecida, e daí o sucesso até hoje.
E o senhor continua visitando a feira todo sábado?
Continuo. Eu vou à feira sempre. A feira é o maior comércio do interior de Pernambuco, da região em que eu moro, porque tem sempre uma novidade. Continuo encontrando de tudo na feira. Ela tem um comércio de confecções importantíssimo que abastece a região, uma mercadoria que não era para vender em feira, né? A primeira feira, que nasceu há 30 ou 40 anos, era para comprar mantimento e alimentação. Com o tempo, isso foi mudando e, tem uma coisa: Caruaru, por não ter muita indústria, a feira é e sempre foi muito importante. Portanto, o crescimento de Caruaru aconteceu impulsionado pela feira.
E foi aumentando tanto que a feira saiu de dentro da principal rua, que era a Rua do Comércio, e se criou uma feira ao lado. Hoje, esse lado da feira já está no Centro da Cidade, porque a cidade cresceu do lado da feira, foi crescendo ao redor dela.

Como começou seu interesse pela música?
Meu pai era um comerciante grande aqui em Caruaru, mas também era músico, tocava piano, tocava bandolim, violão. E eu tenho uma irmã que, na época, estava estudando piano. Na minha casa tinha três pianos, cada irmã minha tinha um. E eu nasci e cresci nesse meio. Hoje eu posso dizer que a música me projetou de tal maneira que eu sou conhecido em grande parte do mundo por causa da música.
Tem música que você grava e não é sucesso. E tem música que você nem espera que ela faça sucesso e ela faz, o povo gosta. Então, cada música que a gente grava e o povo canta, você se realiza. Porque a música foi feita para ser ouvida e cantada.

Como é que começou sua carreira?
Rapaz, não tenho assim um marco para explicar. Eu trabalhei na empresa Jornal do Commércio por 10 anos. Quando saí da empresa, porque não podia completar 10 anos, com 9 anos e 9 meses eu fui dispensado da empresa. Eu tinha uma loja no Centro da Cidade, fui cuidar da minha loja. Aí, surgiu a Rádio Cultura nas mãos de um deputado, Fernando Lyra. Ele não entendia de rádio e ofereceu a rádio a meu irmão, que disse: “Eu não entendo de rádio, eu só vou se Onildo for”.
Veio para mim. Eu fui olhar a estação de rádio, fui examinar. Gostei. Então, assumimos a Rádio Cultura, ainda precariamente. Com dois anos, nós compramos a emissora porque o deputado que era dono da rádio, não queria saber dela, já tinha sido eleito, e não precisava mais dela. Até hoje, nós enfrentamos e concorremos com as rádios importantes de Caruaru, como a Difusora, da empresa Jornal do Commércio. Mas, não tinha como comparar as instalações da nossa rádio com as da Rádio Difusora. Então, o que fizemos? Fomos fazer o rádio de rua. Colocamos a equipe no meio da rua para entrevistar o povo. E a rádio foi ficando conhecida e o povo foi gostando, respondendo às entrevistas e a Cultura ficou muito popular.
Foi aí onde a Rádio Cultura cresceu e se equiparou justamente com a Difusora. É uma rádio importante. Surgiu uma terceira rádio, que foi a Liberdade nas mesmas condições. Então, Caruaru é uma cidade que tem três importantes estações de rádio.
Você era apresentador do programa? E já fazia música nessa época?]
Eu tinha o quarteto vocal. Eu fazia música e a gente se apresentava como banda. Depois, quando eu me tornei proprietário da Rádio Cultura, eu deixei o conjunto, os vocalistas e cantores e fui cuidar da estação como proprietário, não mais como locutor, cantor, tudo isso eu fazia na necessidade. Na direção da Rádio Cultura, coloquei meu irmão, José Almeida. E até hoje, nós temos uma Rádio Cultura que é muito reconhecida na região.

Foi dessa época que o senhor conheceu Luiz Gonzaga?
Eu conheci Gonzagão, quando ainda trabalhava na Difusora. Depois que nós assumimos a Rádio Cultura, Gonzagão veio, passou por Caruaru e nos visitou. E começou a me pedir música, eu comecei a soltar música para ele. Ele ouviu A Feira de Caruaru e achou interessante. Me procurou: “Eu quero gravar essa música”, eu disse: “Pode gravar”. E gravou, aí, tornou-se nacional, porque a minha gravação foi só aqui para o Nordeste. E com o Gonzaga foi para o País inteiro e até para outros países. Gonzaga realmente foi o responsável pelo sucesso dessa música.

Você ganhou o mundo sem sair de Caruaru, isso não é comum, né? Como é que se sente?
Exatamente! Porque não era fácil, né? Para você ser conhecido lá fora, você tinha que sair. Eu não fui, eu fiquei em Caruaru. Até porque eu tinha os meus compromissos com a rádio, toda uma vida aqui. A música é que foi para o mundo. Antigamente, para fazer sucesso tinha que ir para o Rio de Janeiro, lançar a música por lá. E não era fácil, porque lá a concorrência é grande.
Lá tem muitos compositores fazendo música boa, fazendo samba que é a música do sul do País. O baião já é um negócio que o sulista olha assim bem atravessado porque não é a música dele. Só depois de Luiz Gonzaga é que o baião virou forró e o forró hoje é uma música que está igual ao samba no País inteiro. Tanto faz samba como forró.
E olha que o forró está indo lá na frente. Fiz sucesso escrevendo as coisas da terra. E, com isso, a gente divulgou muito o que é o Nordeste. É tanto que se desperta no sulista a vontade de vir conhecer o Nordeste.
E aqui quando eles chegam em Garanhuns, em Caruaru, em Limoeiro, no Recife e dizem: “Ah, rapaz, o Nordeste é bem desenvolvido, tem cidades importantes, grandes cidades”. Foi a nossa música que levou essa mensagem. Luiz Gonzaga principalmente que abriu esse caminho.

Como é que o senhor vê a cena do forró hoje?
É uma música que continua valorizando o nosso trabalho. O povo gosta de forró. Forró hoje é uma música que não é só nordestina, é uma música brasileira que está em todos os estados e em vários países do mundo, como música brasileira. Não é mais só o samba, antigamente era samba, hoje não. O forró está no mundo inteiro por causa do sucesso que ele faz, inclusive aqui no Brasil.

Como é que o senhor se sente sendo hoje o maior representante da Feira de Caruaru?
Olhe, eu me sinto muito realizado, porque não é fácil você conquistar a opinião pública. A opinião pública é muito difícil, porque um procura ver de um modo, outro vê de outra maneira e as opiniões são diferentes em muitos setores. E a gente tem que ouvir, ver e tirar exatamente as conclusões para administrar essa opinião popular, o que não é fácil. A opinião do povo, quando o povo passa para um lado, é difícil você manter e enfrentar.
Mas, eu fui agraciado com a aceitação do povo naquilo que eu fazia. Depois d’A Feira de Caruaru, toda música que eu lançava era sucesso, porque eu já tinha enraizado uma opinião de bom autor, de compositor, de música popular para o povo. E, não foi fácil, mas depois que Gonzagão gravou A Feira, as coisas caminharam muito mais facéis do que antes. Ele foi o grande responsável.

Este ano terá uma série de comemorações pelos 70 anos da música. Como vai ser? Vai ter show?
Olha, está surgindo muita coisa, muitos eventos. E eu estou topando tudo. Vai ter livro do José Teles, comemorando os 70 anos d’A Feira, vai ter show especial em Caruaru e o lançamento da primeira versão [remasterizada]. Porque A Feira de Caruaru, hoje, eu diria que é o hino de Caruaru. O povo tem a Feira como a música que representa a cidade. E quando eu fiz nunca pensei nisso. A gente faz música porque é músico. A impressão é a seguinte: nós fazemos para gravar, e às vezes a gente grava a música e a música não acontece. Tem música que eu gravei. O povo diz: “É de Onildo, é? Então, ouve.” Mas, mesmo meu nome sendo muito prestigiado, não foi sucesso porque a música não prestava.
O povo é quem faz o sucesso na música. E daí, depende da opinião pública. Por isso, quando você botar a letra de uma música, você tem que escolher um assunto que o povo reconheça que a música está falando daquilo que o povo vive. Eu tenho esse cuidado. O assunto de uma letra de uma música tem que dizer alguma coisa que o povo vive, gosta e usa. Então, quando isso acontece, a música já é sucesso.
O senhor continua fazendo show?
Sim. E estou com 98 anos. É! 98! Eu não esperei viver tanto. Mas, estou indo para muitos shows, inclusive no Recife. Toda semana eu estou no Recife, fazendo música. Eu tenho viajado bastante. Sou saudável e realizado. Com muita saúde, graças a Deus, eu não tenho doença nenhuma.

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E o que que essa música lhe proporcionou?
Todos os artistas que vêm aqui para Caruaru, geralmente, me visitam, pedem música e querem me conhecer. Porque eu tenho um nome muito famoso nas gravadoras do Rio, de São Paulo. Sim. Isso, eu sem sair de Caruaru, eu saí para visitar, mas para ficar por lá, não. Aqui eu tenho negócio, tenho minhas empresas e não posso deixar a casa.
Onde eu chego, sou conhecido. Meu nome está em todo canto aí. Os cantores, eles me procuram, pedem música. Eu é que não vou atrás de ninguém. E depois de um certo tempo, você que fez a música não é mais o dono dela, é o povo. O povo é que canta, grava e regrava.
Como o senhor vê hoje a tecnologia utilizada para gravar e ouvir música?
Hoje é mais fácil gravar. Antigamente, você dependia do diretor de uma gravadora para lhe ouvir, para lhe censurar, para saber o que é que você canta, o que é que você faz. E hoje não. Hoje tem um celular nas suas mãos. Você se comunica com a direção da gravadora sem sair de casa. O celular quebrou muitos imprevistos que se tinha para chegar a um diretor de uma gravadora de disco. Hoje, a coisa está muito fácil. Você grava no celular e até manda daqui mesmo, lá para a gravadora, sem precisar ir lá.

O senhor sentiu o tempo passar? Passou rápido?
Continua passando. E A Feira de Caruaru continua sendo regravada, entendeu? É uma música que está presente. Ela veio para ficar. Ela ficou no imaginário, não só daqui da região, mas do País inteiro.

