Arquivos Artigos - Página 16 De 19 - Revista Algomais - A Revista De Pernambuco

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Há feminismo no casamento real?

*Por Beatriz Braga As princesas da minha infância não tinham voz. Ora dormiam em sono eterno, ora presas numa torre, ora mudas pela maldição da bruxa. Todas à espera dos príncipes que tinham o poder de devolver-lhes a fala e a vida. Antes da família real entrar em cena, Meghan Markle era ativista, fazendo parte de organizações internacionais como a UN Women. Casou-se com o Príncipe Harry e a pergunta agora é se há vida feminista após o Castelo de Windsor. Meghan abriu mão da carreira como atriz e apagou sua presença na internet - redes sociais e seu blog The Tig, onde escrevia sobre estilo, viagens e afins. Resta o site da família britânica, na qual ela se proclama orgulhosamente feminista. O movimento reivindica que a participação de homens e mulheres seja igual na sociedade. Quando uma mulher abre mão de sua independência econômica, social e artística porque a família do cara exige uma anulação do que ela construiu até então, a luta perde um ponto. No entanto, é preciso diferenciar a estrutura macro do movimento das escolhas individuais de cada mulher. Meghan fez um caminho consciente até o altar. Lutamos, sobretudo, pelo respeito. De puta à princesa, lugar de mulher é onde ela quiser.Confesso, porém, que se retirada a pompa do conto de fadas; se fosse Recife e não Windsor; se fosse minha amiga e não a colega de Oprah e Clonney a abandonar coisas que aparentemente as faziam feliz em decorrência de um casamento; eu organizaria uma intervenção. Mas é o Royal Wedding, Elton John vai cantar, a Globo está transmitindo na TV aberta e o mundo, chorando de emoção.A verdade é que cada era tem a princesa que merece. Ariel, Rapunzel e Bela Adormecida não se encaixam na nova geração. O mundo mudou. E assim mudará, mesmo que timidamente, as grandes estruturas patriarcais que conhecemos. Agora temos a princesa que consegue dialogar com o público que passou o sábado suspirando: afrodescendente, divorciada e (ex) atriz e advogada da equidade de gênero. Se Meghan poderá e fará o esforço necessário para ir além disso - a duquesa amada pelos milleniuns que mordenizará a imagem da monarquia - ainda é incerto. Enquanto acena discretamente ao público e senta graciosamente conforme a etiqueta das mulheres da realeza, quem sabe conseguirá usar a poderosa plataforma da qual agora faz parte para ecoar sua posição política. Se “princesa” e feminista são duas qualidades contraditórias, cabe a sua conduta enquanto duquesa de Sussex revelar. Ao passo que o movimento feminista aumentou seu poder de alcance, suas pautas deixaram de ser exclusividade das mulheres que lutam e vivem de acordo com toda a cartilha do feminismo. O movimento estará, também, em versões mais fracionadas e tímidas de homens, mulheres, famílias e membros da realeza. E isso é uma boa notícia. É importante que os tentáculos do feminismo cheguem até onde nem passavam perto, mesmo que muitas vezes pareça uma afronta às “feministas raiz”. São os reflexos de sua repercussão. Cabe a cada indivíduo mostrar que não é apenas um surfista na nova onda do momento. Se for para ter contos de fadas que seja como alguém como ela a entrar na família da rainha Elizabeth II que, há pouco mais de 60 anos, foi contra ao casamento da irmã com um homem divorciado. Apesar de Harry ser um controverso cidadão (tendo aparecido fantasiado de nazista por aí), ele herdou certa dose de coragem de sua mãe, Lady Di, conhecida por quebrar padrões e casos amorosos polêmicos. Da última vez que alguém da família real britânica quis casar-se com uma americana divorciada - o tio de Harry, Eduardo VIII, em 1936 - foi obrigado a abdicar do reinado em nome da sua relação com Wallis Warfield. Sobre as tradições casamenteiras, é possível dizer que somos tão antiquados quanto o Palácio de Buckingham.Olhe em volta. Ainda temos rapazes “pedindo a mão” de suas namoradas aos pais delas; esses últimos, por sua vez, ainda entregam suas filhas no altar ao próximo homem (dono?) da sua vida; ainda jogamos buquês e brincamos o quão desesperadas as solteiras estão para pegá-los. Após a festa, o papel doméstico ainda recai sobre mulher. A gravidez ainda é uma forma de prisão feminina. Há uma passagem tão natural por esses caminhos que seguimos sem refletir, nos julgando muito distantes de Windsor. Meghan, aparentemente, esteve consciente do que estava abrindo mão. E nós, por aqui, o quão cientes somos das nossas escolhas? Dentro dos nossos relacionamentos, conseguimos ser feministas “o suficiente”? Temos o apoio necessário para isso? Ou fechamos os olhos diante de contos de fadas impossíveis? Que bom seria se o feminismo - mesmo que discretamente, para começar - chegasse às nossas vidas tão reais e abandonássemos os protocolos sem sentido que herdamos. Para que, enfim, o movimento signifique muito mais que o retrato de uma nova princesa super agradável. Que ele possa alcançar sua expressão máxima de poder: o momento que nos tornamos responsáveis – nós mesmas e não algum aparente príncipe – pelo resgate das nossas vozes tantas vezes esquecidas no dia-a-dia das nossas vidas plebeias. *Beatriz Braga é jornalista e empresária

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Tombos amorosos e o poder da amizade

*Por Beatriz Braga Há dez anos, em uma aula de francês, aprendi que a tradução para “se apaixonar” é “tomber amoureux”, sendo “tomber” o mais próximo possível do bom e velho ‘tombar’ em português. Amar é, pois, segundo o país mais romântico do mundo, um inevitável tombo. As personagens das séries que indico aqui provavelmente concordam com os franceses. A primeira é Midge, protagonista de The Marvelous Mrs Maisel (A Maravilhosa Senhora Maisel, em português, disponível na Amazon Prime Video) e Frankie e Grace, personagens centrais da produção da Netflix cujo título leva seus nomes. Midge é uma dona de casa na Nova York de 1958. Jovem, submissa e vive para o marido e filhos. Até que sofre uma desilusão amorosa e acaba se descobrindo uma talentosa comediante. A série narra sua jornada até o palco, onde usa seu papel de esposa de forma irônica e divertida. A premiada Mrs Maisel – da mesma criadora de Gilmore Girls - é a melhor dica que você vai receber nos últimos tempos. Frankie e Grace recentemente estreou sua quarta temporada. Jane Fonda e Lily Tomlin interpretam duas septuagenárias cujos maridos se revelam um par romântico e juntas vão se reerguendo. As duas séries trazem épocas emblemáticas na vida das mulheres comuns. A primeira vive os quase trinta, quando já é “obrigatório” se ter uma vida amorosa bem resolvida. O divórcio é um fracasso para Midge. Ela vive a época retratada por Betty Friedan, num dos livros precursores do movimento feminista -  A mística feminina - no qual relata o descontentamento das mulheres brancas e classe média dos anos 1950, que se descobriam infelizes dentro dos seus casamentos. As mulheres atuais podem se conectar com as angústias de Midge, afinal, o machismo não ficou preso ao passado. Já Frankie e Grace estão na idade não permitida. Envelhecer é um pecado num mundo antirrugas. Nada é bem-vindo: surpresas, amores, sexo, prazer e independência. E aqui estão elas fazendo vibradores desenhados especialmente para idosas. O que os dois roteiros têm em comum é a reinvenção após o tombo. Somos ensinadas a esperar de um relacionamento mais do que ele pode nos dar. Dizem, quando pequenas, que somos metades incompletas, panelas destampadas a procura da tampa perfeita. O outro se torna, então, nossa completude. Deve ser algo construído nas narrativas da nossa infância, quando as mocinhas e princesas tinham no centro das suas histórias a grande ambição de encontrar um amor. Enquanto o seu par lutava, corria atrás de dragões e vencia lutas impossíveis, ela esperava o seu final feliz ser conquistado por outra pessoa. O encontro era o fim e nunca o começo. Era ali, mocinha e mocinho, com os créditos subindo na tela, que a felicidade congelada simulava eternidade. E o depois? O que acontece quando o relacionamento se desgasta, falha ou não nos faz tão feliz como sonhávamos? Nos sentimos como a metade podre da laranja, muitas vezes incapazes de nos desfazer de um caso que já não dá mais certo. Lembro da linguagem amorosa francesa ao observar a rede feminina da qual faço parte. Das mulheres ao meu redor, as mais solitárias são aquelas que estão presas em relacionamentos tão desgastados e opressores que não sentem mais o peso do tombo. Como se o relacionamento fosse um contrato social com a garantia de um futuro bom, muitas vezes as promessas de “final feliz” se transformam em estagnação. O fim da busca da felicidade, do autoconhecimento, da liberdade, da independência e o pior de todos: o fim do amor próprio. Midge, Frankie e Grace são levadas ao recomeço. O outro delicioso ponto em comum das séries é que o combustível das protagonistas está em um elemento especial: a amizade com outra mulher. Enquanto a comediante em aspiração encontra força na parceria com uma funcionária de um bar de stand up comedy, Frankie e Grace tornam-se, uma para outra, a melhor das companhias. Dois novos casamentos que jamais significam o fim. A Maravilhosa Senhora Maisel e Frankie Gracie são daquelas séries que nos fazem sutilmente um carinho no coração. Nos sentimos bem ao ver a dupla de senhoras testando vibradores, dizendo não aos filhos e se libertando das pressões de uma juventude que já passou. Assim como quando assistimos Midge se descobrindo mais talentosa e inteligente que o marido, se permitindo rir da humilhação enquanto esposa traída, arrasando no palco e incomodando os machões. Deixemos que essas histórias sejam um incentivo para nós também. Sejamos velhas. Sejamos falhas. Sejamos desquitadas se for preciso. Tenhamos relacionamentos que signifiquem sempre parte do caminho e não o destino final. Tenhamos a audácia de querer mais da vida do que os planos que fizemos no passado. Tenhamos amigas-combustíveis. Tenhamos coragem de abandonar os nossos roteiros e inventar novos começos. A qualquer idade e status social. *Beatriz Braga é jornalista e empresária

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Eu não sou um homem fácil

*Por Beatriz Braga Você é homem e acorda num dia comum. Abre o guarda-roupa, põe uma calça justa o suficiente para apertar seus sacos. Hoje não é dia de vestir shorts, pois a sua perna “não está feita”. Vai ao trabalho e sua chefe - que fala de fluxo menstrual sem tabu - ignora seu trabalho e sugere troca de favores sexuais. Você é despedido por ser histérico. Sai em um encontro e a parceira reclama da perna peluda, diz que assim não dá pra ter tesão. Tudo que seu pai fala é sobre como você anda promíscuo e o relógio biológico está alarmando. O mundo está ao contrário e só você reparou. Essa é a trama de Eu não sou um homem fácil, primeira comédia francesa da Netflix. Damien sofre um acidente e acorda em um mundo onde os corpos masculinos são hipersexualizados. Mulheres são a maioria nos cargos de liderança e exercem profissões antes consideradas dignas de testosterona, como pintoras e açougueiras. Elas assobiam nas ruas, correm de peitos livres e dizem coisas como “do que você está reclamando? de ganhar presentes e mulheres carregando pesos para você?”. O filme é uma comédia francesa que acerta no tragicômico. O homem recém acordado era um machista mulherengo. Na sociedade às avessas, só aguenta as primeiras horas. No começo, acha graça das mulheres que fixam o olhar na sua bunda. Em pouco tempo, pede pra sair. Logo ele, macho alfa das arábias, torna-se “masculista” (respectivo para feminista no filme) e cheio de “mimimi”. Mulheres, vocês conhecem algum homem que aguentaria o tranco? O cara que estava noO cara que estava notopo da pirâmide, a pica das galáxias, de uma hora para outra, se encontra nafrente do espelho testando enchimento para bunda (porque rapidamente foiatingido pela pressão de ter um corpo perfeito, durinho e preenchido). O filme apela para os estereótipos. As mulheres da trama gostam de carros, futebol, arrotam e traem. Os homens são sentimentais e dependentes. Isso, no entanto, não me incomoda, porque também é uma provocação. Afinal, o mundo nos encaixa em fôrmas pré-definidas cada vez que abrimos os olhos. Dois pontos me chamaram a atenção no roteiro. O primeiro é a linguagem não verbal dos personagens. Falamos não apenas com palavras, mas nossa postura revela muito do que somos e do que achamos que merecemos ser. No filme, ao inverter os papéis, vemos mulheres mais eretas, de braços abertos, com pernas espaçadas e olhares indicando poder. A linguagem corporal implica que elas são os seres dominantes. Ao passo que vemos homens ineditamente se encolhendo, cruzando as pernas, curvando o tronco, olhando para baixo e ocupando menos lugar no sofá. O movimento que revela opressão, timidez e insegurança. As roupas que usamos estimulam essa dicotomia. Enquanto no mundo real os homens sambam em roupas confortáveis o suficiente para fazer o que quiserem com as pernas, mulheres se equilibram em saltos, saias, shorts e sutiens apertados. Além disso, estão sempre na trincheira sobre o que é vulgar, agradável, indecente e adequado. O ato dos homens abrirem as pernas no transporte público recebeu até nome: manspreading. Eles costumeiramente se expandem. As mulheres são ensinadas a se diminuírem. Na palestra “Sua linguagem corporal pode moldar quem você é”, a psicóloga americana Amy Cuddy fala sobre como a atenção às nossas posturas podem amenizar angústias. Ela cita as mulheres como mais propensas a se encolherem corporalmente, como consequência de uma sensação de inferioridade crônica. A dica dela é quase simples: moldar a linguagem corporal a nosso favor. Fingir que nos achamos poderosas até de fato convencermos a nós mesmas que somos. Mulheres, atenção: corpos erguidos, nariz pra cima e braços abertos para dizer ao mundo que sabemos do nosso valor. O outro ponto é uma lembrança. No filme, a sociedade - que tem como verdade inquestionável que Deus é uma mulher - acredita que a natureza concedeu o poder da gravidez ao sexo forte. Mulheres grávidas não são criaturas frágeis destinadas à reclusa de uma alcova, são seres ativos da sociedade. E não são mesmo? São quem aguenta a barra de gerar um ser e parir entre as suas pernas. Estejamos atentos para desmistificar a visão enraizada; afinal são elas que fazem o mundo girar; carregando no ventre a tarefa árdua de dar luz à Terra. Não vou mentir. Dá um certo prazer ver um homem branco e chauvinista ser ridicularizado porque suas angústias são consideradas exageros; ou no momento em que ele entende que assédio não é elogio, porque sentiu na pele o incômodo; e quando percebe que o problema do sexismo está em toda parte da sua vida, sem exceção. Mas a questão não é essa. Não queremos vingança. Não queremos corpos masculinos sendo tratados como objetos para o prazer feminino. Não queremos Magic Mike. Não temos inveja do papel que o homem ocupa na sociedade, nossa meta não é chegar ali. Queremos, sim, mulheres se sentindo confortáveis ao ocupar espaços. Queremos uma lista inquestionável de quereres, mas isso só será possível no meio termo de uma comunidade que reconhece e recusa suas vantagens imparciais. O filme fala de privilégios e da emergente necessidade de questionarmos as nossas posições. A lição é muito simples de entender e difícil demais para pôr em prática neste mundo piramidal: empatia. Colocar-se no lugar do outro. É assim que chegaremos ao equilíbrio. Quando eu, branca, imaginar a perspectiva do negro na rua ou no mercado de trabalho. Quando você, homem, imaginar-se acordando em um matriarcado. Calar-se diante do próximo. É pedir muito? Fica o questionamento: quem estará disposto a abrir mão do privilégio e ser ameaçado pelo desconhecido quando a contraproposta é “apenas” um mundo mais justo? Por Beatriz Braga

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Triste, louca ou má

*Por Beatriz Braga Quinta-feira passada eu estava em Belo Horizonte visitando meu irmão e fomos ao show da banda Francisco, El Hombre. Quinta-feira passada eu imergi. Afundei na multidão ao lado de desconhecidos e se você for hoje no Distrital - lugar do show - provavelmente uma parte de mim ainda está por lá. A noite estava ótima, até que ficou melhor quando a cantora da banda, Julia Strassacapa, cresceu no palco com a música Triste, louca ou má. O canto é uma alusão à expressão “sad, mad or bad” dada às mulheres que vivem sozinhas nos Estados Unidos como se, por conta disso, elas fossem uma dessas três coisas. A banda faz uma reflexão sobre as receitas de comportamento impostas às mulheres e um convite a se libertar desses nós. Júlia homenageou Marielle Franco, a vereadora “louca” assassinada covardemente nesses tempos difíceis do Brasil. Até agora, não sei explicar o que me fez chorar copiosamente quando o propósito da noite era apenas dançar até o chão. Não sei se foi porque, na minha frente, havia um grupo de quatro amigas que, assim como eu, estava curtindo o show despretensiosamente. Na hora da dita canção, foram levadas a se abraçarem. Percebi que também choravam e pude ouvir as suas declarações. ‘Eu te amo real, amiga, e isso é muito lindo”, disse uma. “Você é a pessoa mais linda que eu conheço”, declarou outra. E assim seguiram com as mãos entrelaçadas e ombros colados, dançando conforme a música. Não sei se chorei também porque estava lá com três homens importantes para mim. Meu irmão, um grande amigo e meu namorado. O primeiro, por ser gay, enquadrado entre “xs loucxs” de uma sociedade cujo dicionário social é todo errado. Sendo ele, também, um ser que contribui para a transformação do mundo em que vive. Os outros dois são dos poucos homens heteronormativos ao meu redor que estão abertos à importância do diálogo de gênero e sexo. Com eles, converso, aprendo, ensino, cresço. Não sei se chorei ainda mais porque, ao me dar conta que estava hipnotizada pela apresentação, olhei ao redor. Vi mais mulheres chorando, homens também emocionados, um público todinho prestando atenção no que aquela mulher de voz firme falava. O machismo afeta todo mundo em diversos graus e, quem sabe, Júlia estava impactando as pessoas em também diferentes níveis. O que será da vida senão uma multidão que dança em frente ao palco? Mulheres, homens, trans, negros, pardos, cis, brancos….vendo a vida ser cantada. Cada um com sua batalha, dançando conforme o ritmo que lhe é permitido. O que será do futuro se a gente não parar para ouvir o canto do outro que sofre mais do que a gente? Se a gente não entender que dar voz às letras que não são ouvidas é o único caminho para um mundo um pouco melhor? “O homem não te define. Sua casa não te define. Sua carne não te define. Você é seu próprio lar”, canta ela como um mantra. “Ela desatinou, desata os nós, vai viver só”, completa. Alguns dirão que é pauta batida, que todo mundo já entendeu, que tá bom de mimimi. Pois olho em volta e ainda vejo uma quantidade demasiada de nós. Nós em famílias, casamentos, amizades e nós com nós mesmas, com nossos corpos e nossos desejos. Somos todos, enfim, tantos nós. A música no caos da noite, não anunciada, é necessária porque nos traz tão para dentro que é possível olharmos para fora com clareza. Aliada à homenagem à Marielle, a mulher negra e lésbica que morreu na tentativa de desatar os nós de uma sociedade maluca. E a revigorante sensação de nos conectarmos àqueles que não sabemos o nome, mas que choram por motivos da mesma natureza que os nossos. A mulher da música foi viver só porque não quis a receita que a vida lhe impôs. Atenção: estar só não necessariamente quer dizer solidão. Seguir as receitas e padrões, no entanto, é a causa de muita solitude rodeada de gente igual. A companhia das boas decisões, dos caminhos trilhados com liberdade é, por outro lado, uma caminhada mais completa. Espero que para cada quatro amigas dispostas a se amarem, irmãos, namorados, relações e famílias exista sempre uma mulher que nem Júlia a cantar uma música como Triste, louca e má e um público igual ao de quinta-feira para que seja possível afundar-se e, de preferência, não emergir dali.

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O poder da mulher que goza

*Por Beatriz Braga Somos viciados em sexo. Não apenas porque a indústria pornográfica movimenta muito dinheiro, mas porque o sexo está no epicentro das nossas vidas. Sexo vende moda, produtos, arte e nos define, em muitos momentos, enquanto indivíduos. Para um mundo tão obcecado pelo tema, somos bem ignorantes quando o assunto é o prazer feminino. Existe, por um lado, séculos de pesquisa científica dominada por homens. A noção de sexualidade que temos foi definida pela visão masculina do prazer e do sexo. Não é à toa que o clitóris ainda é muito ignorado e mal interpretado. O pai da psicanálise, Freud, por exemplo, foi um dos mais ferrenhos inimigos dessa exclusividade feminina. Por outro, a religião faz da sexualidade algo perverso que deve ser regrado. Através dela, aprendemos como, quando e com quais pessoas podemos dividir nossos desejos. O nome é um tabu, seu formato é misterioso, o cheiro é um problema e ao longo da história da humanidade “satisfazer uma mulher” é tido como algo tão difícil quanto correr uma maratona. Perseguida, piu-piu, xereca, procurada, dita-cuja, bacalhau, engole-espada, casa do caralho e siririca. A linguagem não mente. O que a mulher tem no meio das pernas ora é um asco, ora é um acessório, ora é um objeto não voador não identificado. No meio desse imbróglio de desconhecimento e culpa, vem Flaira Ferro. A artista pernambucana acaba de lançar o clipe divertido e importante “Coisa mais bonita”. A “coisa” é a famigerada masturbação feminina, cantada por Flaira de maneira desmistificada. “Não tem coisa mais bonita, nem coisa mais poderosa do que uma mulher que brilha, do que uma mulher que goza”, diz a música. O clipe é uma afronta. Primeiro, à visão patriarcal do corpo feminino, que deve ser discreto e misterioso. Sempre o “outro”, nunca o sujeito. Segundo, à educação galgada no “fecha a perna, menina”, que transforma a vulva em uma parte a ser silenciada. No vídeo, oito mulheres corajosas o suficiente para se expor em um mundo tão careta são filmadas no ato da masturbação (detalhe importante: nada foi fingido). Elas fazem um chamado ao autoconhecimento e, culminam, em sintonia, no orgasmo. O vídeo já passa de 120 mil visualizações no Youtube, chegou a ser retirado da plataforma por algumas horas e recebeu uma variedade críticas positivas e negativas. Enquanto o homem passa a vida brincando com o pênis, a mulher é ensinada a ter vergonha. Esse é um aspecto tão forte da nossa cultura que a labioplastia (cirurgia plástica da vagina) virou tendência nas mulheres que não gostam do aspecto de suas vulvas. O Brasil é o líder mundial no número de procedimentos do tipo, cujo visual mais procurado pelas pacientes é um clichê: batizado de “Barbie”, o objetivo é que os grandes lábios pareçam ao de uma boneca. Sexo trata-se de diversão para o homem; para a mulher, tantas vezes, significa dor. A sociedade não apenas nos priva do autoconhecimento, como também nos divide em duas categorias: a “feita pra casar” e a puta. A mulher que tem desejos, que fala sobre eles e que vai atrás deles é sempre a vadia. A que finge não tê-los é a mulher-modelo. A prostituição abraça essa mentalidade quando o homem recorre à profissional do sexo para não “manchar” a mulher “de respeito” com seus desejos. Isso é tão forte que, mesmo dentro da segurança - ou do que deveria ser - de um relacionamento, as mulheres ainda sofrem com o sexo. A psicóloga Sara McClelland, da Universidade de Michigan, descobriu que, ao questionar mulheres sobre suas vidas sexuais, elas mediam seus níveis de satisfação pelo fato do homem ter sido satisfeito ou não no ato. Quando perguntado aos homens, a grande maioria das respostas girava em torno de seu próprio gozo. Em A mulher de 30 anos, do escritor Balzac, a personagem Júlia definiu casamento como uma “prostituição legal”. Vez ou outra lembro dela, ao escutar histórias sobre o quanto sexo pode ser ruim para uma mulher, não importa o estado civil. Uma mulher dona da sua libido é uma ameaça ao patriarcado. Ela não depende do homem para sentir prazer e sabe que, ali embaixo, tem uma poderosa fonte de criatividade, impulso e vitalidade. Flaira canta o seu recado à parcela masculina que não quiser ficar para trás: “homem de verdade enxerga a beleza na mulher que é dona do próprio tesão”. De todas as histórias do Monólogos da Vagina, de Eve Ensler, lembro-me sempre da mulher de 72 anos que, quando finalmente encontrou seu clitóris, chorou. Não é à toa: ele tem 8 mil fibras nervosas, o dobro do pênis e é único órgão humano feito apenas para dar prazer. “Quem precisa de pistola quando se tem uma semiautomática?”, pergunta Natalie Angier em "Woman: an intimate geography". Nós encaramos o sexo como mais importante para o homem do que para mulher. A verdade é que é apenas mais fácil para eles reivindicarem isso. Para nós, somos sempre muito jovens, muito velhas, muito comprometidas, muito solteiras. Sempre muito, muito ou muito.  Está aí a importância desse clipe, de Flaira e dessas outras mulheres emponderadas que transformam o proibido na coisa mais bonita. A revolução será feminina e ela vai ser - tal como essa música - poética, forte, irreverente, irresistível e enérgica. E a melhor parte:  será irreversível. Confira o clipe da pernambucana Flaira Ferro que aborda o tabu do orgasmo feminino: Animação que explica o clitóris

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A todas as mulheres

*Por Beatriz Braga Somos o resultado do que ouvimos e vivemos. Hoje tenho cuidado com o que falo na frente de uma criança porque me dei conta, já adulta, da influência do que absorvi na infância. Quando uma tia aconselhou-me a jamais colocar uma amiga dentro de casa “porque ela vai roubar seu marido”, entendi que mulheres são rivais. Aprendi que “ser bonita” é uma obrigação feminina quando li de um dos meus escritores preferidos da adolescência, Vinícius, um pedido de desculpas às feias. Afinal, “beleza é fundamental”. Marina Morena, Maria Chiquinha e Amélia me ensinaram que a maquiagem pode irritar o homem, que é proibido sair no mato sozinha e que mulher de verdade não tem vaidade. Você pode dizer que são apenas músicas inocentes, eu digo que é a visão do mundo sobre o papel que ocupamos nele. Essa semana é mais um ano no qual 8 de março, dia internacional da mulher, significa, para mim, algo muito além de receber parabéns rasos ou de celebrar as lutas passadas que, hoje, nos deram o direito ao voto e a melhores condições de trabalho. Não me tornei feminista por moda ou questão estética. Tornei-me feminista porque vi necessidade. Porque estou cansada de enxugar lágrimas de mulheres causadas por homens que se acham donos dos seus corpos e suas liberdades. Ou porque passei a vida ouvindo histórias de mulheres brilhantes que não ganham salários justos, que são diminuídas, mortas, estranguladas por conta de seu gênero. Tornei-me feminista porque aprendi a ser consciente dos meus privilégios, enquanto branca e classe média, e o movimento é interseccional. Tornei-me feminista porque, por mais que a bolha em que vivo seja cruel, além dela a situação é pior e é preciso continuar lutando. Ao crescer, podemos descartar as influências ruins e enxergar, a nossa volta, a força que nos rodeia. No meu caso, havia a minha mãe que, desde que me entendo por gente, repete o mesmo conselho: “jamais dependa de homem nenhum, minha filha”. Sou feminista, também, porque cansei de ver homens sofrendo por não se encaixarem no mito do macho-alfa. Tornei porque me coloquei, já faz um tempo, a ler muito e ouvir o quanto posso o que outras mulheres - negras, brancas, cis, lésbicas, trans - têm a dizer. E essa tem sido a minha maior revolução pessoal. Tornei-me feminista ao desconstruir a noção tola de rivalidade, ganhei a beleza da sororidade. Com elas, aprendi que sairemos em florestas infinitas sozinhas, nos pintaremos se assim quisermos, mostraremos nossos corpos se for nossa vontade. Renunciarei à Amélia de Maro Lago, seguirei com Lya, Simone, Luzilá, Allende, Clarice, Chimmamanda, Margaret, Alice Walker, Virginia, Angela, Nélida, Dickinson e quem mais encontrar pelo caminho. Continuarei feminista para matar meus próprios machismos de cada dia. Não me sentirei distante das operárias russas que fizeram greve no século passado e que nos deram o 8 de março, porque o feminismo ainda tem uma longa jornada pela frente ao lutar contra os milhares de costumes que fazem da mulher um ser submisso. A minha tia Benise - uma mulher sábia de cabelos brancos e mente em paz - me ligou, dia desses, para lembrar que o importante - apesar da minha raiva desse mundo torto - é não esquecer de ser feliz.  Digo, pois, que justamente por isso seguirei feminista. Para garantir a minha liberdade em construir meu próprio conceito de plenitude. Que ele não dependa do mercado, do meu corpo ou de um casamento bem sucedido. Que viver seja, até o derradeiro momento, criar uma alma mais livre, a melhor versão de mim mesma. Afinal, tornei-me feminista porque o movimento significa dar à mulher opções e não imposições. Nesta semana de relembrar as conquistas do passado e a importância das pautas do presente, a todas as mulheres brasileiras e de todo o planeta, as de sutiãs aposentados ou não, as pintadas, as naturais, as donas do lar, as empregadas, as chefes, as com útero ou as que nasceram sem, as mães e as não maternais, meu desejo é um mundo no qual todas possam ser felizes. E que isto signifique dizer: verdadeiramente donas de suas próprias felicidades.

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Respeitem os seios caídos (por Beatriz Braga)

*Por Beatriz Braga Bruna Marquezine colocou os peitos de fora e a internet se chocou. O corpo natural feminino, esse famigerado inquilino do mundo. O susto veio do fato de que a atriz - que está longe de não se encaixar nos padrões de beleza - ter “seios caídos”. A verdade é que ela apenas não tem silicone e que aparentemente estamos desaprendendo o que é um corpo natural. Impressiona-me que para milhares de pessoas, quando uma mulher mostra os seios, eles tem que ser turbinados, plastificados, empinados e todos os “ados” que o mercado nos ensinou a chamar de atraente. Até quando vamos acreditar que o que se mostra na mídia é algo tangível? E até quando ficaremos de sentinela sobre os efeitos da gravidade ou do bisturi no corpo da mulher? É carnaval e eu não queria falar dos peitos de Bruna Marquezine. Queria falar do carnaval que eu vi - dos últimos dias, da brincadeira, da rua cheia de gente misturada. Queria falar do senhor de cabelos brancos que conheci esperando a orquestra do bloco Nem Sempre Lily Toca Flauta ressoar no Recife Antigo. “São 54 carnavais com minha mulher”, disse sorridente. E o segredo? “A parceria”, revelou no auge dos seus 79 anos. A esposa não demorou a chegar, rodeada de amigas que fizeram a alegria da minha sexta de abertura. “Olhe, menina, a verdade é essa: envelhecer é uma merda. Cai tudo. Mas em compensação a cabeça fica livre”, disse uma das colegas do casal. “É verdade, hoje a minha cabeça é livre”, repetiu outra senhora de 63 anos, com um sorriso de orelha à orelha, o enfeite grande e verde na cabeça, desfilando no carnaval de rua. Aprendemos a nos odiar, a exigir o inalcançável até que, quem sabe, a vida por sua natureza simplesmente nos diz: pare de tentar, é impossível. E, então, quiçá, nos daremos a permissão de sermos livres. Estamos divididas entre o que é ser desejável ao homem - a mulher objeto de seio turbinado - e o corpo que serve ao filho - a mãe, vaca leiteira, cujo destino há de ser apenas isso. O nosso papel, neste mundo masculino, será sempre o de servir, garantido por essa eterna vigilância para que cumpramos nossos deveres. Como dizia um cartaz que vi no carnaval: “não peça desculpas por ser esse mulherão da porra”. Vamos parar de nos culpar pela natureza dos nossos corpos e por estarmos começando a entender o que é nos aceitar por completo. Este carnaval teve o de sempre. Teve, por exemplo, homem pegando na minha bunda sem permissão porque, para ele, um corpo não coberto é domínio público. Assim como tive, também, a oportunidade de distribuir as tatuagens da campanha “não é não” (contra assédio no carnaval) para as mulheres que encontrei. Eu sei que, para você aí, talvez esse gesto não signifique nada. Mas eis o que sinto: quando mulheres se conectam, uma rede poderosa começa a surgir dentro e fora da gente. E quando uma mulher desafia - mesmo que minimamente - os padrões impostos pelo mercado, é resistência. Assim como sempre que uma mulher liberta sua mente é o mundo ficando um pouco melhor, como me disseram minhas amigas foliãs lá de cima. Há que se respeitar os cabelos brancos. Melhor dizendo: há que se respeitar os seios caídos.

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Meninos não serão mais meninos

*Por Beatriz Braga Um amigo disse-me: “Estou com medo de paquerar, de as garotas acharem que é assédio”. Percebi a grande distância entre nós, homens e mulheres. A razão do receio não é do atual “radicalismo” feminista que “censura o homem” (aspas, obrigada). A culpa tem nome: cultura do estupro, pela qual não ensinamos os limites claros do respeito aos meninos. E dizemos às meninas que é normal ser assediada, traída, desrespeitada... afinal “boys will be boys”. Vamos, então, ao be-a-bá. Depois do Manifesto escrito por um grupo de francesas, entre elas Catherine Deneuve, incomodado com a avalanche de denúncias de assédio no mundo, que elas classificam como uma afronta à liberdade sexual, milhares de pessoas foram à internet explicar a diferença (nada sutil) entre assédio e flerte. Obrigada às mulheres que apresentaram o que é (ou deveria ser) óbvio ululante. Adiciono alguns lembretes à aula nível básico: NEM SEMPRE O ASSÉDIO VEM DEPOIS DO NÃO “Não é não”, lição número um. Porém, muitas vezes, a mulher não tem a chance de negar a investida. É preciso entender que o termômetro do assédio é o incômodo. Por via de regra, o assédio sempre sucede a um algum tipo de poder. E precede a sensação de inferioridade de quem sofre. Quando, em uma saída para um bar com a equipe, um chefe passou a mão na minha coxa sem permissão, ele sabia que, por algum motivo, eu não o faria passar vexame. Eu não desejava a carícia e aquele “inofensivo” toque no “joelho” mudou a forma como eu me enxergava no trabalho. Toda vez que caminhamos na rua e um homem nos “seca” de maneira “nada discreta” e nos impele a sensação de querer não estar ali, também é assédio. Mão boba, olhar depreciativo, um “gostosa” na rua, isso tudo é a ponta do iceberg. Nesses momentos ninguém se sente mais bonita. Nessas horas lembramos o espaço que ocupamos: inferiores aos homens seja pelo cargo, força, contexto (uma rua vazia, por exemplo) ou fama. Esses homens não estão necessariamente em busca de sexo. Estão fazendo uso do seu poder, como estão habituados. MULHERES TAMBÉM SÃO MACHISTAS - E SE BENEFICIAM DO STATUS QUO Ser mulher não é prefixo de feminista, afinal todos nascemos do mesmo berço patriarcal. Há o claro privilégio de ser homem na nossa sociedade e também o de ser mulher em determinadas situações. Quando se é branca, classe média, com acesso à educação de qualidade, você desfruta de vantagens que lhe mantém, em certas situações, no topo da pirâmide. Muito embora, admitir o privilégio não seja  negar o peso concedido ao gênero. Simone de Beauvoir disse que tomou consciência do feminismo quando percebeu que gozava das vantagens de ser uma “intelectual”, vinda de família progressista. Quando refletiu que uma secretária não poderia fazer as mesmas coisas que ela (escrever, viajar sozinha, debater ao lado de homens e estudar), entendeu que deveria lutar por quem não tinha voz. Quando mulheres dizem que basta de assédio e suas vozes surtem efeitos avassaladores, o status quo é ameaçado. Incomoda não apenas aos homens, mas também a muitas mulheres beneficiadas pelo establishment. São justamente essas, cujas vozes ecoam, que deveriam sair de suas zonas de segurança em nome das que não tiveram a mesma sorte. O MOVIMENTO NÃO É UMA AFRONTA À LIBERDADE SEXUAL A Marcha das Vadias começou no Canadá em 2011 e virou um dos símbolos do feminismo no mundo, para dizer que a forma como nos vestimos não é um convite, nem nos classifica. Assim como para cravar a nossa liberdade em ser o que quisermos, onde quisermos. Se você não entende que esse é o pilar da nova onda feminista, você não está lendo direito. A premissa básica é “lugar de mulher é onde ela quiser”, desde que esse lugar não seja uma imposição social e sim a sua escolha. Seja para ser dona do lar, empresária, recatada ou poligâmica. Quando um homem insiste em uma cantada inconveniente ou passa a mão na bunda de uma colega de trabalho não é liberdade sexual. É, sim, a liberdade que o homem tem de colocar o seu sexo acima de tudo com a certeza de que sairá impune. A INTERNET É PERIGOSA Em um item pude concordar com Deneuve e suas colegas: o julgamento na internet é perigoso. Vivemos na era em que é muito fácil estragar a vida de uma pessoa com um post no Facebook. Por outro lado, ainda vivemos em um mundo onde milhares de pessoas têm suas vidas marcadas, em decorrência de milhares de estupradores que agem tranquilamente. Será preciso, de uma forma ainda desconhecida, achar a temperatura ideal entre um e outro. Mas um fato é certo: quando mudamos quem é ouvido, mudamos o status quo. Agora, o momento é de escutar o que, finalmente, mulheres ao redor do mundo criaram a coragem de dizer.  O basta está apenas começando e ninguém vai pedir desculpas aos homens que foram demitidos depois da onda de acusações de assédio, sejam eles quem forem. BOYS WILL BE BOYS Temos essa mania irritante de desculpar as atitudes masculinas.  Há alguns dias, minha mãe via uma comédia romântica na Netflix e, em 10 minutos que sentei junto a ela, ouvi a frase “é que eu sou homem” duas vezes para explicar um desrespeito com a mocinha do filme.   Justificamos os erros dos homens pela sua natureza biológica, à mesma medida que castigamos as mulheres pelo mesmo motivo. Para as signatárias do Manifesto, o movimento feminista estaria colocando todos os homens no mesmo saco. Na verdade, a história é outra: estamos começando a pensar que toda mulher poderá ser ouvida, não importa de quem ela vai falar. O Manifesto não foi um desserviço ao feminismo, é mais um exemplo de que ele está incomodando (lê-se também: funcionando.) Não nos cansaremos, voltaremos ao be-a-bá. Melhor: inventaremos o be-a-bá. A paquera saudável não morrerá quando o assédio cair em extinção. Se mudarmos nossas atitudes agora, daqui a algumas gerações, nasceremos melhores.

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2018, que venha mais um ano feminista

*Por Beatriz Braga Em 2017, “feminismo” foi eleita a palavra do ano pelo dicionário Merriam-Webster, devido ao aumento de 70% nas buscas pelo termo em relação a 2016. O ano que passou não foi fácil. Perdemos Mirella, Remís e outras milhares de anônimas silenciadas. Foi o ano que ouvi de uma amiga o relato doloroso de um estupro. Foi também o que chorei junto a outra grande mulher que amo e que teve o seu corpo invadido e sua liberdade violada por um homem. Dentro de um carro fechado, fizemos nossa alcova e olhamos, pequenas, o mundo. Mais homens impunes, mais mulheres tornando-se estatísticas. Sentimos raiva. Como não sentir raiva de cada homem que passa na rua? Que me olha com desrespeito, que tenta minimizar meu pequeno espaço no asfalto? Como não me irritar a cada machismo velado? A cada sinal de que o mundo não é bom lugar para ser mulher? Como não permanecer irritada, quando mulheres perdem vidas e energia porque os homens ao seu redor são legitimados pelo poder do seu sexo? Eu poderia me ater às dores, mas em 2017 entendi o que é ser mulher. As mulheres que eu conheço transformam dor em pilastras. Quiseram cortar os seus caules, mas elas são sementes de raízes profundas. São furacões e tempestades. São fênix e são muralhas. No ano passado, o presidente eleito dos Estados Unidos foi um homem que faz apologia ao estupro. Mas também em 2017, houve um dos maiores protestos femininos da história. A Marcha das Mulheres reuniu mais de 670 manifestações em mais de 20 países para dizer que Trump não é bem-vindo. Se a era é da hashtag, tivemos: #BalanceTonPorc (delete seu porco, em francês); #NiUnaAMenos (nenhuma a menos, em espanhol); #NãoÉNão #MexeuComUmaMexeuComTodas, #NãoSejaUmPorquê, #MeuMotoristaAbusador e #MeToo (eu também, em inglês). Essa última foi compartilhada mais de 6 milhões de vezes por mulheres relatando seus contos de assédio em vários lugares do planeta. A série da Netflix com 53 indicações ao Emmy, House of Cards, foi cancelada pelas acusações de abuso sobre seu ator principal. A máscara caiu para Kevin Spacey, Harvey Weinstein, Brett Ratner, Louis C.K, James Toback, George Takei, Adam Venit, Ben Aflleck, Dustin Hoffman, Jose Mayer e uma lista que só faz crescer. As mulheres e homens que os delataram foram eleitos “a personalidade do ano” pela revista Times. O movimento culminou, neste janeiro, em um The Golden Globes de luto, com mulheres vestidas de preto, alertando que o abuso e a desigualdade não serão mais tolerados. Na índia, a ministra da Mulher, inspirada pelo que acontece nos Estados Unidos, enviou uma carta a 25 diretores e atores pedindo respeito às profissionais de Bollywood. Na Arábia Saudita, as mulheres finalmente conquistaram o direito de dirigir veículos, proibição que era símbolo do machismo no país. Começamos o mês com a Islândia se tornando o primeiro país do mundo a colocar em vigor uma lei que legaliza a igualdade de salário entre homens e mulheres. Feminismo é a palavra do ano porque foi um dos assuntos mais comentados. O termo tem se tornado mais acessível. Estamos discutindo se Anitta é feminista ou não em roda de bares, simplesmente porque agora podemos. “Girlpower” é o novo “Ramones” e emponderamento feminino tem vendido bastante camiseta. Obviamente nem tudo é perfeito, muita coisa é lucro. O mais importante é que os grandes passos acontecem no cotidiano. Cada “não” é uma revolução. Em 2018 me comprometo a criticar menos e defender mais mulheres. Afinal, cada julgamento é uma contribuição para minha própria falta de liberdade, sou eu impondo a mim mesma uma lista de proibições. Comprometo-me a usar a tática de uma amiga e responderei com um “boa tarde” a cada cantada e olhada na rua. Perguntarei “estou fazendo isso porque eu quero?” cada vez que decidir ir a um salão de beleza. Tentarei olhar no espelho e ser mais gentil com meu corpo. Lerei livros escritos por mulheres. Verei filmes dirigidos por mulheres. Lerei mais poetisas. Escutarei mais cantoras. Ouvirei mais vozes femininas. Essa será o meu grande movimento. Enquanto empresária, me comprometo a jamais enxergar um útero como prejuízo. Usarei menos sutiens desconfortáveis e sapatos cruéis simplesmente porque não sou obrigada. A nada. Eu vou às ruas este ano, marchar ao lado de outras mulheres e revigorar o sentido de sororidade que tenho aprendido. Seguirei lendo as péssimas notícias de jornal e provavelmente terei conversas tão difíceis como as passadas. Mas estamos vivendo um momento importante para a posição da mulher no mundo. Segundo o Merriam-Webster, a busca pela palavra feminismo alcança picos relacionados aos acontecimentos na vida real, desde hashtags como o #MeToo a lançamentos de séries como The Handmaid´s Tale. Tudo importa para o que o movimento crie novos ninhos. Do mais importante comprometimento comigo mesma, escolho esse: permanecerei com raiva. Por enquanto, em tempos como esse, essa é a única resposta possível às estatísticas, aos fatos e ao quebra-cabeça do qual fazemos parte. Raiva é o que me conecta às milhares de mulheres ao redor do mundo, de todas línguas, classes, raças e idades. É o que fará de 2018 mais um ano feminista. Que venham os próximos doze meses e todas as pequenas e grandes revoluções que neles couberem.

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Uma lista incrível de livros escritos por mulheres

*Por Beatriz Braga Faltam duas semanas para 2017 acabar e percebo que ao caminhar em direção ao novo ano que bate na porta, carrego comigo as leituras fortes que fiz de mulheres poderosas nos últimos 12 meses. Suas palavras me colocaram para frente e me causaram pequenas e grandes revoluções pessoais. Com o suporte delas, fiz as pazes com meu corpo; com minhas celulites e “imperfeições”; aprendi a aceitar a minha biologia; tenho entendido que existe ganhos em ver o tempo se esvair das minhas mãos; e estou tentando reconhecer as origens e raízes machistas que me circundam, sendo esse o primeiro passo para transformá-las. Busco inspiração em livros escritos por mulheres e acredito que o ano que chega será melhor pelos frutos que colhi desses encontros. Deixo aqui, pois, a minha lista de obras que li e revisitei em 2017 e levarei na bagagem para um novo ciclo mais empoderado. Aproveitando o timing do fim de ano para, quem sabe, inspirar algum presente legal por aí. 1) PERDAS E GANHOS | Lya Luft A minha frase preferida do livro é essa aqui: “A felicidade é assim: cada um, a cada dia, aceita a que o mercado lhe oferece… ou determina a sua”. A citação fica mais poderosa depois da leitura que nos traz a sugestão deliciosa de receber a passagem do tempo de forma mais tranquila e sábia. Entender que a vida, a cada ano que passa, apesar das perdas, também significa uma sucessão de vantagens. A felicidade, para Lya, é possível quando aceitamos que ela também contempla a dor, a  crueldade e  a maldade ao nosso redor. Uma passagem autobiográfica, de reflexões, desabafos e conselhos. 2) LUA VERMELHA | Miranda Gray Me indicaram esse livro na Benção do Útero e é uma ótima fonte de autoconhecimento. Somos também o que acontece dentro de nós, sangue, ciclo e natureza. O livro nos ajuda a desmistificar os estigmas que recebemos ao longo da vida sobre nós mesmas: histéricas; a menstruação vista como tabu; vergonha, pudor e etc. Miranda Gray, a criadora da Benção - movimento que acontece durante a lua cheia no mundo inteiro - explora arquétipos do ciclo menstrual e nos oferece uma visão mais plena para enxergarmos a nós e outras mulheres. Aquela sábia conclusão de que uma mulher que se conhece é imbatível. 3) TOMATES VERDES FRITOS | Fannie Flagg Esse romance clássico foi meu grande companheiro em 2017. Leve, inspirador e uma delícia de ler. O livro conta a história do encontro de Evelyn, uma dona de casa frustrada, e Ninny, uma senhora falante que mora num lar para idosos. Juntas, elas vão revivendo histórias do passado de Ninny, que giram em volta da vida de uma casal de mulheres,  Idgie e Ruth, e o café do qual são proprietárias. O livro trata, com doses de leveza e melancolia, questões pesadas, como assédio, racismo, machismo e família. Daquelas leituras de dar saudade e uma ótima fonte de inspiração para avançar por cima dos padrões impostos pelo mundo. 4) A SHORT HISTORY OF WOMEN | Kate Walbert Comprei esse livro em uma viagem aos Estados Unidos e não encontrei indicações da versão traduzida para português na internet. “A short history of women” traz crônicas sobre cinco gerações de mulheres da mesma família, levando em conta os diferentes cenários que cada uma se encontrava, desde do ano de 1914 até o começo dos anos 2000. Amei a narrativa, pois me deu mais uma noção do que venho me deparando nas conversas feministas que tenho por aí: o poder da nossa ancestralidade. Somos também o legado das mulheres que vieram antes de nós, seus traumas, dores e conquistas. O livro começa com a história de uma mulher que morreu após fazer greve de fome em nome da causa sufragista e vai mostrando o quanto o eco de suas escolhas influenciaram a vida das mulheres da sua linhagem. Mãe e filhas, esse poderoso vínculo de fortaleza. 5) O SEGUNDO SEXO | Simone de Beauvoir Se você é mulher, em algum momento sente ou entende que o seu lugar do mundo é definido pela forma que o homem enxerga a sociedade. Somos julgadas e vistas através do olhar masculino sobre o que é feminilidade, poder e mundo. Entender, estudar e buscar as pistas dessa relação da mulher com a vida ao seu redor é munição necessária para começarmos a mudar o cenário. É exatamente o que esse livro de Simone de Beauvoir é: necessário. 6) VAGINA, UMA BIOGRAFIA| Naomi Wolf O livro Vagina, de Naomi Wolf, foi alvo de muitas polêmicas quando foi lançado. O objetivo principal da obra é reformular a forma pela qual a vagina é entendida na sociedade machista. Cérebro e vagina estão plenamente conectados no corpo da mulher e é preciso levar isso em conta, uma vez que a vagina tem importância fundamental na consciência feminina. A obra é baseada em estudos científicos e na própria vida da autora.  Além disso, outros assuntos entram em jogo como a pornografia e suas consequências, sexo tântrico, estupro e etc. Vale muito a pena ler e fazer uma viagem (sem volta) para dentro. 7) MONÓLOGOS DA VAGINA | Eve Ensler Um livro leve que você vai devorar em uma semana. A obra super reproduzida nos teatros do mundo inteiro traz crônicas baseadas em histórias reais emocionantes, trágicas, hilárias e simplesmente femininas. Dar voz às mulheres em suas diferentes peles e sensações. A vagina ocupa papel de origem e central na narrativa que nos leva a refletir sobre a maneira como ela é vista e tratada no mundo inteiro. Divertido, instigante e comovente. 8) UM TETO TODO SEU Virginia Woolf buscou entender porque as bibliotecas estavam abarrotadas de livros escritos por homens e a visão da mulher sobre o mundo era escassa. Neste livro, baseado em suas palestras em universidades, Virginia discorre sobre o quanto a posição das mulheres no mundo influencia na sua capacidade de trabalhar e escrever. Uma das comparações famosas que ela faz na obra é o que

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