“Descobrimos uma nova espécie de anfíbio em Pernambuco”
Pesquisadores descobrem duas espécies de sapos, uma delas em extinção, na APA Aldeia-Beberibe, onde serão construídos o Arco Metropolitano e a Escola de Sargento do Exército. Eles fazem um alerta para a necessidade de rever o traçado desses empreendimentos para que a fauna possa ser preservada. Em um dos maiores fragmentos de Mata Atlântica, ao norte do Rio São Francisco, pesquisadores da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco), da UECE (Universidade Estadual do Ceará) e da UFC (Universidade Federal do Ceará) acabaram de descobrir algo que muda o que se sabia sobre a biodiversidade do Nordeste: a existência de uma nova espécie de anfíbio para a ciência. Batizado de Ololygon paulofreirei, o pequeno sapo, de canto parecido ao de um grilo e restrito à APA Aldeia-Beberibe, em Pernambuco, foi identificado a partir de um trabalho minucioso de campo, análise morfológica e sequenciamento genético, e já nasce sob a ameaça de desaparecer antes mesmo de ser plenamente conhecido. Nesta entrevista ao jornalista Rafael Dantas, a professora Ednilza Santos, do Departamento de Ciências Biológicas da UFRPE, e o pesquisador Rodrigo Leite, do Laboratório Interdisciplinar de Anfíbios e Répteis, explicam como a descoberta foi feita, por que ela é cientificamente tão relevante e o que ela revela sobre uma Mata Atlântica ainda pouco explorada pela ciência. Mais do que um novo nome na literatura científica, o sapo recém-descrito se transforma em um símbolo de alerta sobre a urgência de proteger um dos territórios mais biodiversos e, ao mesmo tempo, mais ameaçados de Pernambuco. Esse alerta ganha um peso ainda maior porque as populações conhecidas da nova espécie e de outro anfíbio recém-registrado no Estado, foram encontradas justamente nas áreas hoje ameaçadas por grandes empreendimentos de infraestrutura, como o Arco Metropolitano e a Escola de Sargentos do Exército. Segundo os pesquisadores, os traçados e projetos apresentados incidem diretamente sobre a Mata da Pitanga e o Campo de Instrução Marechal Newton Cavalcanti, territórios de alta sensibilidade ecológica que concentram espécies endêmicas, nascentes e fragmentos históricos de Mata Atlântica, colocando a ciência no centro de uma disputa decisiva entre desenvolvimento e preservação. Como foi o começo da pesquisa para descobrir a nova espécie de sapo, que vocês publicaram na revista científica internacional Amphibia-Reptilia? Ednilza – A gente tem um trabalho há um bom tempo chamado Programa de Pesquisa em Biodiversidade, que é nacional e financiado pela CNPQ. A gente tem um sítio desse programa na floresta de Dois Irmãos e em fragmentos dentro da APA Aldeia-Beberibe. O Parque Dois Irmãos está dentro da APA e o nosso campo de atuação no programa é a herpetofauna. A gente tem essa especialidade com os anfíbios e répteis. Ao levantar essas espécies nesse território, a gente se deparou com uma diferente. Percebemos que era uma nova descoberta para a ciência. Estou falando de Ololygon paulofreirei. É uma espécie com uma população muito pequenina. A gente considera que ela já está sob ameaça de extinção, possivelmente, vai entrar na lista de espécies ameaçadas de extinção brevemente. Ednilza – A outra espécie é uma nova ocorrência de Dendropsophus studerae. Não havia identificação dela em Pernambuco. Também achamos trabalhando na APA Aldeia. Esses achados, inclusive, foram dentro das áreas que estão com esse olhar para os grandes empreendimentos no Estado (o Arco Metropolitano e a Escola de Sargentos do Exército). Encontramos populações muito pequenas dos dois na Mata da Pitanga e no CIMNC (Campo de Instrução Marechal Newton Cavalcanti). É muito sensível isso porque quando se tratam de anfíbios são grupos muito particulares. A maioria das espécies é endêmica, ou seja, só são encontradas em determinados lugares. Então, é urgente destacar esse achado para a sociedade, principalmente por causa desses empreendimentos que vão promover uma supressão bem considerável de Mata Atlântica. Quais as características do novo anfíbio? Ednilza – Trabalho com anfíbio há cerca de 30 anos. A gente vai habituando o ouvido à escuta. Muitas vezes, a gente erra, mas muitas, a gente acerta. Durante as coletas escutei um bicho diferente, fiquei muito atenta e pensei: “Vamos atrás desse bicho para ver se realmente é diferente”. Inicialmente, o caráter decisivo foi o canto para as duas espécies. Um bicho que canta diferente do que a gente é acostumado a ouvir. No primeiro momento, a gente pegou o bicho e já percebemos que era diferente. Mas investigamos para ver se era mesmo. Aí, partimos para investigar se era diferente de outras espécies do grupo que também não são daqui de Pernambuco. E confirmamos que era diferente. Mas, para ter certeza, fizemos uma pesquisa genética e mais de uma vez confirmamos que era uma nova espécie para a ciência. São muitas características que foram juntadas como um quebra-cabeça para gente validar a espécie. O professor Igor Roberto se debruçou nessa busca genética, foi visitar os museus, que guardam as amostras de vários lugares para fazer esse mapeamento. A gente já tinha certeza, mas tínhamos que provar. Após a diagnose, que é a descrição morfológica, tinha essa parte genética. O que a gente precisa agora é achar o girino. Quais as características físicas do Ololygon paulofreirei? O que é mais visível desse anfíbio? Ednilza – Existem nas extremidades dos arteiros, dos dedinhos deles, alguns discos adesivos que são bem escuros. Isso é diferente das outras espécies do grupo. Ficou bem marcante quando a gente coletou o animal no campo. Mas existem outros elementos que identificamos na diagnose, como tamanho (que é bem pequeno), manchas na pele granulada, algumas características da colocação da íris mais discreta, entre outros. Do canto, qual foi a característica que a senhora percebeu que era diferente dos demais sapos? Ednilza – O canto é muito distinto. Inicialmente, a gente confunde com o som de um grilo. Como essa descoberta contribui para entender a biodiversidade da Mata Atlântica e do Nordeste? Ednilza – A primeira coisa é que a gente sabe pouco ainda sobre a nossa Mata Atlântica e sobre os organismos da nossa floresta. Isso é tão relevante do ponto de vista da ciência mas, ao mesmo tempo, muito
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