“O projeto do Moinho Recife demonstrou que não há dúvida sobre a viabilidade de investir no Centro”
Arquitetos responsáveis pelo retrofit do Moinho do Recife, Bruno Ferraz e Roberto Montezuma falam do pioneirismo do projeto que converteu uma edificação industrial no Centro Histórico para uso empresarial, habitacional e de lazer com a participação da iniciativa privada. Eles esperam que outros players sigam o exemplo e que a região central seja moradia para pessoas de classes sociais diversas. (Foto: Thiago Medeiros) O retrofit que transformou as instalações do antigo Moinho Recife numa construção voltada para uso residencial, empresarial e de lazer quebrou paradigmas. O projeto é o primeiro que se tem conhecimento em converter uma edificação industrial em moradia com essa dimensão e complexidade. A participação da iniciativa privada é um outro aspecto pioneiro que tem incentivado outras empresas a retrofitar imóveis na capital pernambucana. Mais: o Moinho Recife Business & Life também é vanguarda ao demonstrar a viabilidade econômica de se investir na recuperação de imóveis antigos do Centro Histórico. É o que comprova o fato de não haver mais salas disponíveis para locação da área empresarial e todas as unidades para habitação terem sido vendidas. Hoje a Revitalis Incorporações – que tem como sócios empresários dos grupos Moura, Tavares de Melo, Paes Mendonça e Petribu – colhe o êxito de ter apostado no projeto inovador dos arquitetos Bruno Ferraz e Roberto Montezuma (que também é coordenador geral do projeto Recife Cidade Parque) quando adquiriram o antigo moinho em leilão privado. O empreendimento contou ainda com a parceria da Moura Dubeux Engenharia, responsável pela execução dos residenciais Silo 215 e Silo 240 concluídos recentemente. Ferraz e Montezuma, nesta entrevista a Cláudia Santos, falam do conceito do projeto (que valoriza a preservação da memória), dos desafios que enfrentaram para realizar o retrofit e ressaltam o caminho aberto por esse pioneirismo de envolver o setor privado na recuperação de um imóvel do Centro Histórico e convertê-lo em uso residencial, empresarial e de lazer. “Essa experiência do Moinho Recife, vem concreta porque é a iniciativa privada que entra nessa aliança de encontrar o caminho operacional e empresarialmente válido para resgatar o Centro. No final constatou-se que essa foi uma decisão que funcionou e teve sucesso do ponto de vista econômico”, analisa Roberto Montezuma. “A gente torce para que [essa ideia] seja disseminada, porque é possível. Invista, procure, reforme, leve para o Centro”, incentiva Bruno Ferraz. Como se deu a construção do Moinho Recife? Bruno – Em 2018, um grupo de empresários arrematou num leilão privado o imóvel e tinham dúvidas sobre que uso dar a ele. Foi feita uma concorrência, que foi vencida por nós porque conceitualmente a proposta que fazia mais sentido era a nossa. Antecipamos tendências e movimentos. Hoje o tema retrofit, ocupação do Centro e de edificações pré-existentes é atual, mas não se falava disso naquela época. A ideia do nosso projeto era pensar a origem da cidade, o resgate de uma estrutura ociosa, a transformação de um uso. O imóvel não era tombado, mas estava inserido em uma zona de preservação. Do ponto de vista da legislação municipal, aquela é uma zona mais flexível. Quando visitamos o prédio, saímos de lá encantados, achamos fantástico! Era uma fábrica, mas, por incrível que pareça, não tinha características fabris porque era uma construção vertical utilizada para a moagem do trigo. Na relação construtiva que chamamos de “cheio vazio” assemelhava-se mais a um escritório do que a uma fábrica. A construção estava há muito tempo sem uso. O moinho encerrou suas atividades em 2009. Fizemos vários estudos para conceber o projeto, tudo muito técnico, considerando-se custos e benefícios. A tese que vingou foi teoricamente o trinômio trabalho, moradia e lazer. É uma ideia de sucesso. O empreendimento está cada vez mais vivo, estão sendo implantados restaurantes, bares e outras atividades. A parte empresarial está 100% ocupada, é voltada para locação corporativa. A parte residencial também foi completamente vendida. Roberto – Nossa proposta de retrofit também surgiu atrelada ao projeto Recife Cidade Parque e à ideia de reestruturar o Centro Histórico por meio de articulação entre as iniciativas pública e privada. Por uma série de razões, os centros históricos no mundo passaram por um processo de autofagia. Ou seja, um empobrecimento, uma transformação com a modernidade. No caso do Recife, com a criação da Av. Agamenon Magalhães, houve uma ligação direta para Boa Viagem e isso provocou uma nova dinâmica da cidade, que aliada a outras mudanças, de certa forma, fez com que fosse drenado o Centro Histórico. Isso aconteceu em vários lugares do mundo, e o processo de revisar e restaurar esses centros também é mundial. No projeto do Moinho Recife, temos uma visão de futuro de que o papel do Centro Histórico é fundamental. A partir dessa demanda de empresas, nossa proposta já foi articulada a esse processo histórico. Esse grupo que arrematou o Moinho, apostou e entendeu que havia um potencial ali. Mas é um processo complexo. É o primeiro empreendimento nessa perspectiva da iniciativa privada, porque é diferente dos restauros e das ações que incorporam a decisão pública. O Sesc Pompeia é um grande exemplo brasileiro de retrofit, mas ele é público. No caso do Moinho, foi uma costura muito complexa com as empresas e até com quem locou o empresarial para perceber que determinadas coisas precisam ser preservadas. É um contínuo jogo educativo. Em que consiste essa educação continuada na preservação? Bruno – É fazer uma espécie de catequese com todos pela natureza da obra. Com o investidor, para que entenda, por exemplo, que determinada parede vai ficar bruta como registro. Com os operários para que eles entendam que uma parede bruta não é uma parede malfeita. A catequese acontece também com os técnicos e até com consumidor final. Não é fácil, há diversos conflitos e desafios para se reformar um prédio centenário e chegar a um resultado como esse. Roberto – É preciso entender que a sofisticação de um projeto como esse é diferente daquela ostentada em muitos edifícios com uma arquitetura mais generalizada. O Moinho Recife tem memória, tem patrimônio. É um objeto









