Por que mulheres como Ana Paula Renault, do BBB 26, ainda incomodam tanto?
Por Manu Siqueira Ana Paula Renault não entrou no BBB 26 apenas para disputar um prêmio. Ela entrou carregando algo muito maior. A coragem de ser quem é. E isso ainda assusta muita gente. Jornalista, comunicadora, 44 anos, Ana Paula é uma mulher branca, que nasceu cercada de privilégios e que poderia ter escolhido a zona confortável da neutralidade. Mas não. Ela escolheu pensar, se posicionar. Escolheu defender a liberdade das mulheres de existirem como quiserem. Inclusive a liberdade de decidir se querem ou não ser mães sem precisar se explicar para uma sociedade que ainda insiste em vigiar corpos e escolhas alheias. Ela entende seus privilégios e isso não a faz menor. Isso a faz mais humana. Porque reconhecer de onde se parte é o primeiro passo para não fingir que as injustiças não existem. Dentro da casa do BBB26, uma das coisas mais bonitas foi ver sua amizade nascendo com a Milena, uma mulher de 26 anos, que foi criada em um abrigo e começou a ser babá quando tinha apenas 10 anos. Uma amizade real, sem hierarquia social, sem performance, e com muita troca. E é muito comovente ver duas mulheres se reconhecendo como apenas como gente. Mas isso também incomodou. Porque ainda causa estranheza ver uma mulher instruída tratando outra mulher apenas como igual. Ser inteligente e sagaz, porém, não protege ninguém das dores de amor. E Ana Paula também conhece essas cicatrizes. Já confiou e se machucou. Casou acreditando em um amor e acabou abandonada, tendo que reorganizar não só o coração, mas também as dívidas que ficaram. Depois acreditou novamente e descobriu que estava envolvida com um homem casado, que mentia, que tinha outra vida, outra família, uma esposa. Quando a verdade apareceu, ela não silenciou e expôs o mentiroso na internet. Mas a sociedade parece sempre estar mais interessada em julgar a mulher que não aceita uma mentira do que o homem que mente. E isso aconteceu com ela. Para mim, existe algo de profundamente emocionante em ver uma mulher que não abaixa a cabeça para homens. Que não finge não ouvir. Que mantém o olhar em linha reta. Que não engole desaforo para parecer equilibrada. Ver Ana Paula responder machismo com inteligência, etarismo com posicionamento, misoginia com ironia e desrespeito com firmeza tem algo de reparação histórica para todas nós. Algo que toca em feridas antigas e que reacende, muitas vezes, cenas que já vimos ou passamos na pele. Quantas vezes ficamos caladas para evitar conflitos? Quantas vezes sorrimos para não mostrar que estávamos destruídas por dentro? Quantas vezes engolimos a resposta perfeita que só veio horas depois, no silêncio, enquanto ruminamos a falta de respeito no nosso quarto. Ana Paula não engole. E talvez por isso tantas mulheres se reconheçam nela. Eu me reconheço. Descobri que tenho muito da Ana Paula Renault em mim. Em muitos momentos eu teria reagido igual a ela. Com a maturidade, temos a tendência de ter mais inteligência emocional nos embates, mas claro, que isso não é regra. Adoro agir com ironia e um pouco de deboche também, nas discussões, mas acima de tudo, com coragem. A diferença é que ela disputa um prêmio milionário. Nós disputamos todos os dias algo muito mais básico. O direito de existir sem medo. O direito de falar sem sermos punidas. O direito de reagir sem que isso custe nossa vida. Existe uma violência silenciosa que acompanha mulheres que não se calam. Uma tensão constante. Uma linha invisível entre ser admirada e ser atacada. Mas mesmo assim a gente continua. Mulheres como Ana Paula não incomodam porque exageram. Incomodam porque não romantizam desrespeito. Porque não se dobram para caber em lugar algum. E talvez o que mais emocione não seja a força dela. Seja a humanidade. Porque por trás da mulher firme existe alguém que chorou escondida em um programa para que seus adversários não a vissem em um momento de vulnerabilidade. Existe ainda uma mulher que já se decepcionou, que já teve medo, que já teve que se reconstruir pedaço por pedaço, inúmeras vezes. Talvez seja por isso que a presença dela toque tantas mulheres de forma tão profunda. Porque não é apenas sobre um reality. É sobre se reconhecer. Sobre ver na tela uma mulher real, que sente, que ama, que se revolta, que briga, que se quebra e se remenda. Talvez por isso, seja tão significativo ela ganhar essa edição, enquanto o Brasil sofre uma epidemia tenebrosa de feminicídios. Porque quando uma mulher decide não se calar, ela nunca fala só por ela. Ela fala por muitas. *Manu Siqueira é jornalista
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