Chuvas no Sertão. Mesmo tardias, muito bem-vindas.


Aproxima-se da metade de maio e as chuvas continuavam erráticas. Na realidade, este é um mês em que os pluviômetros registram precipitações mínimas indicando o início do período seco no Sertão e o que deveria ser colhido de feijão de corda, de forragem. O acúmulo de água nos barreiros e açúdes basicamente foi consolidado e cada chuvisco deve ser comemorado como uma dádiva. É tão verdade que, em Serra Talhada, depois de um veranico de aproximadamente duas semanas, ocorreram chuvas de baixa intensidade entre 23 e 24 de abril, seguida de outra suspensão que se estendeu até o dia 8 de maio.

O mês de maio de 2026 entrou dando a entender que não decepcionaria e, como em tantos outros anos, não haveria surpresas quanto às chuvas que alterassem o previsto. Caminhava-se, no Pajeú, para mais um ano de seca, falta de alimentos para o gado a partir de junho, redução drástica dos rebanhos e descapitalização dos agricultores da região. Mas, surpreendentemente, a partir do dia 8 de maio até o dia 10, com previsão para esta quadra chuvosa estender-se até o dia 13 de maio, ocorreram 15,0, 4,4 e 22,4 mm em Serra Talhada, respectivamente. Em São José do Belmonte, a chuva do dia 10 para o dia 11 de maio totalizou 37,6 mm. Nesta quinzena, contrariando as expectativas ocorreram precipitações relevantes em parte Sertão do Pajeú e do Sertão Central resultando em um acúmulo de água nos barreiros, açudes e barragens que não se viu entre janeiro e o final de abril.

Vale uma nota para o fato de que na Chapada do Araripe, especificamente nos municípios limítrofes de Exu, em Pernambuco, e Santana do Cariri, no Ceará, as chuvas entre janeiro e o início do mês de maio excederam 700 milímetros, bem distribuídos, o que fez com que a empresa Ovo Novo houvesse organizado um dia de campo para mostrar seu plantio de milho comercial, no último dia 7 de maio, com a expectativa de produtividade em uma área superior a um mil hectare, entre 100 e 120 sacas por hectare, ou seja, entre 6 mil e 7,2 mil quilos de grãos para um público de produtores, técnicos e formuladores de políticas. Algo considerado sem precedente para o Sertão do Araripe pernambucano e cearense e admirável para as melhoras áreas do Cerrado brasileiro.

Salva uma parte da safra

Em sua maioria os comentários de quem plantou milho no Sertão do Pajeú era de mais uma safra em que a produção foi destinada à forragem. Em 2025, por exemplo, em um experimento conduzido no campus da UFRPE-UAST onde se plantou um conjunto de híbridos de milho desde 24 de janeiro, tendo a última semeadura ocorrida em 26 de março, não se conseguiu colher grão em nenhuma das épocas. A situação estava se caminhando para algo similar este ano. Devido à chegada tardia das chuvas, cinco plantios de milho foram realizados entre 3 de março e 2 de abril. Em não ocorrendo as chuvas relatadas, a partir do dia 8 de maio, a situação se repetiria e basicamente não teríamos o milho sequer para a canjica. Esta ocorrência de chuvas traz a esperança de quem aposta até o último segundo do jogo em poder colher algo.

Em se tratando de agricultura de sequeiro, ou aquela cujo aporte de água é somente advindo de precipitações pluviais, o cultivo é uma loteria. O fato de se contar com o solo úmido, considerando-se uma precipitação de 50 milímetros distribuídos nos últimos sete dias, não significa que, após a germinação e a produção das primeiras folhas, o plantio estará salvo. A época em que o milho mais necessita de água é após o pendoamento. Logo a seguir aparecem as espigas que, nesse estágio inicial, são conhecidas como bonecas, com seus cabelos róseos, que nada mais são do que o sexo feminino, tecnicamente conhecido como estigma, aptos e ansiosos para receberem o grão de pólen, produzidos nas anteras, localizadas no pendão, o que resultará, em havendo o encontro do gameta masculino como feminino no óvulo, a formação de uma nova semente ou grão, a depender de seu destino.

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Neste momento mágico da vida, o da fecundação, a planta necessita encontrar-se em um ambiente suficientemente úmido que permita a captura dos nutrientes e água do solo, sua translocação, a síntese de açúcares que eventualmente serão armazenados na forma de amido, aquele pozinho branco que se vê no preparo de uma boa papa ou em dezenas de usos industriais, variando da frutose na forma de mel à cerveja e que, quando extraído da mandioca é a matéria-prima principal para uma boa tapioca. É esse amido do milho ou do sorgo que, em conjunto com as proteínas e fibras desses grãos, resulta no tão amado cuscuz ou na ração para as vacas leiteiras ou para os frangos e galinhas poedeiras.

Este passeio pela fisiologia produtiva do milho e sua relação com a água é o que demonstra, de modo simples, quão importante é contar com uma política de manejo da água, seja em forma de uso direto pelas plantas e sua transformação em alimentos, fibras, energia; armazenada em açudes, barreiros, barragens ; escondida nos aquíferos a centenas de metros abaixo do solo ou nas rasas barragens; subterrâneas na adoção de sistemas de irrigação que reduzam as perdas de água por evapotranspiração ou em mudanças de hábitos que permitam a redução de desperdício seja nas fábricas, nos cultivos e nos lares.

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