Grupo fundado mantém pesquisa em matriz afroindígena, forma novas gerações e amplia circulação nacional e internacional com linguagem cênica própria. *Por Rafael Dantas O que começou como um grupo especializado em iluminação cênica se transformou, ao longo de duas décadas, em um dos mais importantes núcleos de teatro negro, pesquisa artística e formação de jovens no Recife. Criado em 2004, o Grupo O Poste Soluções Luminosas hoje é empresa formalizada, escola, espaço cultural e referência de ações afirmativas no campo das artes. Fundado por Naná Sodré, atriz, diretora, pesquisadora e professora de Artes Cênicas da UFPE, o grupo desenvolve uma pesquisa continuada de matriz afroindígena e sustenta práticas cênicas que deslocam o eurocentrismo de suas estruturas. Da luz à cena: uma transição natural Quando surgiu, o Poste realizava projetos de iluminação de espetáculos. Montava refletores, acompanhava ensaios, dialogava com equipes de figurino e maquiagem. Mas, como lembra Naná Sodré, a vocação artística do grupo já apontava para outro caminho. A partir de 2008, o coletivo assume definitivamente sua identidade como grupo de teatro de pesquisa, ampliando repertórios, métodos e linguagens. Hoje, o grupo desenvolve dramaturgia, direção, sonoplastia, dança, cinema, formação continuada e ações comunitárias. Com sede no Recife e formado atualmente por Naná Sodré, Agrinez Melo e Samuel Santos, O Poste direciona suas criações para ações afirmativas voltadas à negritude. A metodologia própria — construída na pesquisa “O Corpo Ancestral dentro da Cena Contemporânea” — articula movimentações dos Orixás do Candomblé e guias da Umbanda/Jurema. A prática reafirma a busca por um corpo cênico ancestral e atualizado, conectando linguagens, espiritualidades e memórias da diáspora africana. Um quilombo urbano no centro do Recife O espaço físico do grupo, no centro da cidade, abriga a Escola O Poste de Antropologia Teatral, que funciona como principal base financeira e pedagógica. São cursos de 6 a 8 meses com professores, pesquisadores e mestres ligados a práticas negras, afro-indígenas e populares, como capoeira, cavalo-marinho, caboclinho e terreiros de matriz africana. Naná define o espaço como um quilombo urbano: aberto a crianças, jovens, adultos e idosos; a pessoas de múltiplos gêneros; e estruturado para acolher diversidade e promover autonomia. “Nós somos um quilombo urbano.” Teatro negro como projeto político e estético O Poste assume-se como grupo de teatro negro, com estética e narrativas ancoradas em vivências afro-indígenas. Trabalha pesquisas como “o corpo ancestral na cena contemporânea”, desenvolvida em terreiros do Recife, e atua para fortalecer representatividade, identidade e letramento racial no campo artístico. “Estar em cena enquanto pessoa negra, dizendo textos que dialogam com a nossa realidade, muda estruturas”, afirma Naná. O grupo também se inspira na trajetória de artistas e pensadores como Abdias Nascimento e Solano Trindade, figuras que, para Naná, abriram caminhos estéticos e políticos que hoje sustentam a cena negra no país. Ao reconhecer-se como “sementes” desses criadores, O Poste inscreve sua prática em uma linhagem que atravessa o Teatro Experimental do Negro, a poesia de terreiro, as performatividades afroindígenas e os processos de contracolonização que antecedem e orientam a pesquisa contemporânea do coletivo. Formação de jovens e construção de futuros Além das próprias produções, o Poste mantém o Postinho, núcleo formado por quatro jovens entre 20 e 22 anos que passaram por uma formação de dois anos e meio. Eles já assinam projetos, conquistam editais e desenvolvem seus próprios espetáculos. A formação inclui estética, história, processos de criação e também temas como elaboração de projetos, emissão de nota fiscal, contratos, direitos trabalhistas e organização financeira — preparando-os para autonomia e liderança. “Queremos que eles ocupem espaços de poder. Que uma dessas jovens esteja no futuro na cadeira da Cultura da Prefeitura do Recife, por exemplo”, diz Naná. Impacto social: arte que chega onde nunca houve teatro Ao longo dos anos, o grupo levou espetáculos a cidades sem teatros ou equipamentos culturais, viajando pelo rio São Francisco, passando por municípios de Minas e Bahia, e circulando também por localidades periféricas de Pernambuco. O objetivo é simples e profundo: garantir fruição estética a quem nunca teve acesso. Como resume Naná Sodré: “A gente sempre gosta de desaguar nossas artes em lugares onde a fruição estética e artística precisa de uma força. Escolhemos cidades em que as pessoas nunca tinham assistido teatro na vida. Se não tinha teatro, era justamente pra lá que a gente ia.” O Poste também tem atuado diretamente na construção de pautas estruturantes para o setor cultural. A partir de discussões promovidas pelo grupo e de sua participação ativa na cena artística pernambucana, políticas de incentivo passaram a incorporar perspectivas raciais e de representatividade. Um dos resultados mais significativos desse processo foi a inclusão de critérios de cotas e ações afirmativas no Funcultura, medida que ampliou o acesso de artistas negros aos mecanismos públicos de fomento e reposicionou o debate sobre equidade no ambiente cultural do Estado. Afroempreendedorismo como mudança de paradigma Para Naná, o afroempreendedorismo vai além de “negros empreendendo”: é um movimento de transformação estrutural. O grupo defende que o protagonismo negro no teatro, na gestão, na formação e nos espaços de decisão gera impacto direto em políticas públicas, modelos de ensino, representatividade e justiça simbólica — especialmente para crianças e jovens que se reconhecem em artistas, pesquisadores e gestores negros. “Nós sabemos que o racismo não vai acabar de uma hora para outra. Então pensamos como sementes. O que fazemos agora é para florescer no futuro”, afirma. Experiência internacional A trajetória internacional de O Poste também se consolidou nos últimos anos, ampliando o alcance da pesquisa afroindígena do grupo. Após a pandemia, a companhia integrou a Mostra Lusófona, no Piauí, apresentando Ombela — espetáculo que dialoga em português e em umbundo, língua tradicional angolana. Foi ali, em uma rodada de negócios promovida pelo Sebrae, que o grupo estabeleceu conexões com curadores de diversos países, o que abriu portas para novas circulações. Além dessa experiência, o coletivo já levou seus trabalhos à Dinamarca, Uruguai e Portugal, em ações independentes que reforçam a presença transnacional da companhia e ampliam o diálogo do teatro negro produzido no Recife com outras