Com novas oportunidades para o agronegócio, a indústria e a atração de investimentos, o Estado ganha acesso a um mercado de 450 milhões de consumidores, mas enfrenta o desafio de se preparar para competir com os europeus. *Por Rafael Dantas A porta está aberta. Com a aprovação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, Pernambuco passa a ter acesso facilitado a um dos maiores mercados consumidores do mundo, em um momento em que o multilateralismo global é posto à prova. Do outro lado, há oportunidades, investimentos e novos parceiros. Mas atravessar essa porta não será simples. Nem todos estão prontos. Além disso, a chegada de concorrentes do Velho Mundo tende a redesenhar o jogo econômico nos próximos anos. A exemplo do que se projeta no cenário nacional, o agronegócio tende a ser um dos grandes beneficiados pelo acordo. Em Pernambuco, o polo de fruticultura irrigada do Vale do São Francisco desponta como destaque. Fora do campo, o Estado também vislumbra um avanço mais qualificado em setores de maior valor agregado, como a indústria de alimentos processados e bebidas, bem como a produção petroquímica, de plásticos e resinas de Suape. Soma-se a isso o potencial de atração de investimentos europeus em energia renovável, indústria verde e infraestrutura, apontados por especialistas como vetores estratégicos de crescimento de longo prazo. “A assinatura do Acordo Mercosul–União Europeia tende a trazer impactos positivos e relevantes para o crescimento econômico do Estado de Pernambuco, especialmente quando analisada à luz do comércio exterior e da economia internacional. Em primeira instância, destaca-se a ampliação do acesso ao mercado europeu, um bloco que reúne mais de 450 milhões de consumidores e responde por cerca de 15% do PIB mundial”, destacou o economista Demorval dos Santos. Os dados são da Eurostat, o Serviço de Estatísticas da União Europeia. O economista aponta que diante da redução ou eliminação de tarifas, nossos produtos de maior vantagem competitiva são açúcar, frutas tropicais (uva, manga), sucos e derivados do agronegócio. Esses ganham ainda mais competitividade. “Além dos produtos da agricultura, Pernambuco tem sido destaque na exportação de combustíveis minerais, lubrificantes, máquinas e equipamentos de transporte, produtos químicos e animais vivos. Atualmente, a União Europeia já figura entre os principais destinos das exportações pernambucanas, e o acordo tende a ampliar esse fluxo, reduzindo custos e barreiras comerciais”. EXPECTATIVAS DO CAMPO No Vale do São Francisco, principal vitrine do agronegócio pernambucano no mercado internacional, as expectativas são positivas. José Gualberto, presidente da Valexport, destaca que algumas frutas da região já têm forte inserção externa, especialmente a uva. No caso da manga, a vantagem competitiva já existe. “A manga já não paga nada para entrar na Europa. Somos o maior exportador de manga do mundo para a Europa”, afirma. Segundo ele, a expectativa é de expansão dos volumes, acompanhando a tendência mundial de aumento do consumo de frutas. A uva, por sua vez, aparece como o produto que mais deve sentir os efeitos diretos do acordo. Hoje, explica Gualberto, a tributação varia conforme a época do ano, entre 8% e 12%, o que pesa sobre a rentabilidade do setor. “A uva é muito importante no São Francisco. Aí teremos um ganho grande”, afirmou o empresário, ao apontar que a eliminação dessas tarifas representa uma diferença expressiva para a eficiência e a remuneração da cadeia produtiva. Ele ressalta, no entanto, que essa abertura não será exclusiva do Brasil, já que outros países também terão acesso facilitado ao mercado europeu. Para Gualberto, mais do que ampliar mercados, a inserção internacional impõe um padrão mais elevado de produção. “A vantagem de ter inserção em mercados internacionais é que obriga a melhorar qualidade, eficiência, produtividade e a cadeia produtiva de forma geral”. Esse processo envolve certificações e compromissos sociais, ambientais e trabalhistas. O principal gargalo, segundo ele, está no crédito: a fruticultura irrigada exige investimentos altos e de maturação longa. “Precisamos crescer, aumentar áreas, para aproveitar esse acordo, mas hoje não temos linhas de crédito adequadas”, diz, destacando que juros elevados e a falta de políticas específicas limitam a expansão da produção. OPORTUNIDADES E AMEAÇAS NA INDÚSTRIA Se no campo o acordo tende a abrir novos mercados, na indústria o movimento funciona mais como um limiar a ser atravessado. Para Maurício Laranjeira, gerente de Política Industrial da Fiepe, o tratado entre Mercosul e União Europeia não representa um ponto de chegada mas o início de um percurso. “O acordo não é um evento; é um processo”, adverte. Do lado industrial, os ganhos devem se concentrar nos segmentos que já chegam a essa porta com maior preparo competitivo, capacidade de inovação e inserção em cadeias globais. Pernambuco possui ativos relevantes para tentar essa travessia. Além dos setores já mencionados, alimentos e bebidas processados, química e petroquímica, há grandes oportunidades para o Complexo de Suape e para as atividades ligadas à transição energética e à indústria verde. Ainda assim, Laranjeira ressalta que o tratado apenas destrava o acesso formal. “O acordo cria a porta. Atravessar ou não vai depender muito da preparação e da coordenação regional”, observa. O economista Demorval dos Santos avalia que o acordo fortalece o papel do Complexo Industrial Portuário de Suape como ativo estratégico. “Em 2025, por exemplo, o porto movimentou mais de 23 milhões de toneladas, com crescimento consistente no comércio exterior. A intensificação das relações comerciais com a Europa tende a consolidar Suape como hub logístico internacional, atraindo novas rotas marítimas, operadores logísticos e empresas exportadoras”. O acordo também amplia o potencial de atração de investimentos estrangeiros diretos vindos da União Europeia, segundo o economista. Ao reduzir incertezas e oferecer maior previsibilidade regulatória, Pernambuco passa a se posicionar como uma plataforma estratégica para empresas europeias interessadas em acessar o mercado brasileiro e sul-americano. A tendência é de maior interesse em setores como indústria, energia, química, farmacêutica e infraestrutura logística, nos quais escala produtiva, localização e integração regional são fatores decisivos. Para parte do parque industrial, porém, a abertura da porta também expõe fragilidades. Segmentos menos internacionalizados e com menor valor agregado devem sentir primeiro