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bruno

“O setor de moda vem enfrentando uma tempestade perfeita.”

O ano de 2025 foi difícil para o Polo de Confecções do Agreste que amargou queda nas vendas, segundo o integrante do Conselho Consultivo da CDL de Santa Cruz do Capibaribe. Mas o empresário afirma que o setor reage com a entrada em marketplaces, como Shopee e Mercado Livre, marcando uma transição não só do físico para o digital mas, também, do atacado para o varejo online. Em um cenário marcado por instabilidade econômica, pressão internacional e mudanças profundas no comportamento do consumidor, o Polo de Confecções do Agreste pernambucano atravessou 2025 sob tensão mas, também, revelou sinais claros de reinvenção. Trata-se de um ambiente desafiador, em que fatores macroeconômicos e transformações globais impactam diretamente o cotidiano de milhares de empreendedores. Ainda assim, o polo demonstra resiliência ao buscar alternativas para se manter competitivo em meio a um mercado cada vez mais exigente e dinâmico. O diagnóstico é de Bruno Bezerra, empreendedor e integrante do Conselho Consultivo da CDL de Santa Cruz do Capibaribe, que acompanha de perto os movimentos de um dos setores mais relevantes da economia regional. Em entrevista concedida à jornalista Larissa Aguiar, Bezerra traça um panorama detalhado do desempenho recente do polo, apontando a queda nas vendas como um dos principais sinais de alerta. Ele também chama atenção para desafios estruturais históricos que persistem e para um ambiente competitivo cada vez mais complexo, marcado pela presença de produtos importados e pela transformação dos canais de consumo. Ainda assim, o empresário destaca a capacidade adaptativa dos empreendedores locais, uma característica que, segundo ele, tem sido fundamental para garantir não apenas a sobrevivência mas, também, a contínua transformação do setor ao longo dos anos. Essa capacidade de adaptação se manifesta de diferentes formas, seja na busca por novos mercados, na incorporação de tecnologias ou na reformulação de modelos de negócio. O polo, que historicamente se destacou pela força do atacado, passa agora a dialogar com novas possibilidades, especialmente no ambiente digital. Esse movimento exige não apenas investimentos mas, também, uma mudança de mentalidade em que inovação deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade constante para acompanhar as exigências do consumidor contemporâneo. Como o senhor avalia o desempenho do setor de confecções em Santa Cruz do Capibaribe e no Agreste pernambucano ao longo de 2025?  O ano de 2025 foi muito difícil para o setor têxtil e de confecções no Brasil inteiro. No Polo de Confecções do Agreste de Pernambuco não foi diferente. Fiz um levantamento com 200 empresas nos meses da alta temporada de fim de ano e 7 em cada 10 relataram que venderam menos em 2025 em relação ao mesmo período de 2024. O setor de moda vem enfrentando uma verdadeira tempestade perfeita, que drena o caixa dos varejistas e, consequentemente, impacta fabricantes e atacadistas. Além da concorrência desleal das roupas chinesas, há também uma economia desaquecida, pressão inflacionária e renda estagnada, fatores que fazem com que roupas e acessórios percam prioridade no consumo. Ao mesmo tempo, o endividamento das famílias ultrapassa o patamar de 78%, segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Esse cenário é agravado ainda pela proliferação das apostas online, que vêm funcionando como um ralo financeiro. Em 2025, o brasileiro gastou, em média, R$ 164 por mês com esse tipo de aposta. Segundo dados do Banco Central, os gastos com apostas online chegam a cerca de R$ 30 bilhões por mês no Brasil. Esse dinheiro deixa de circular na economia real, especialmente no comércio popular. Houve crescimento real no faturamento e na produção ou o setor ainda enfrenta instabilidade pós-pandemia e oscilações econômicas recentes? No levantamento que realizei com uma amostra de 200 empresas, durante os meses da alta temporada de fim de ano, os dados revelam um cenário de retração no setor. Cerca de 7 em cada 10 empresas relataram que venderam menos em 2025 quando comparado ao mesmo período de 2024, o que evidencia uma queda significativa no desempenho geral do polo nesse intervalo. Esse resultado indica que, apesar de alguns sinais pontuais de reação, o setor ainda enfrenta instabilidade, reflexo das oscilações econômicas recentes e dos impactos que se prolongaram no pós-pandemia. Ao mesmo tempo, há uma parcela menor de empresas que conseguiu crescer: 2 em cada 10 afirmaram ter vendido mais, demonstrando que, mesmo em um cenário adverso, existem nichos ou estratégias que conseguem gerar resultados positivos. Por fim, apenas 1 em cada 10 empresas manteve o mesmo nível de vendas do ano anterior, o que reforça a percepção de um ambiente econômico desafiador e pouco estável. Esses números mostram que o setor ainda não alcançou uma recuperação consistente e segue operando sob incertezas, exigindo dos empresários maior capacidade de adaptação e planejamento diante das variações do mercado. Quais segmentos dentro do Polo de Confecções apresentaram melhor desempenho no último ano e por quê? O segmento fitness cresceu de forma expressiva no Polo de Confecções do Agreste, especialmente em Santa Cruz do Capibaribe, consolidando-se como um dos destaques recentes dentro da produção local. Esse avanço não se limita apenas ao aumento do número de empresas atuando nesse nicho, mas também se reflete na diversificação das marcas e na ampliação da presença desse tipo de produto no mercado nacional. Além da expansão quantitativa, houve também uma evolução significativa na qualidade das peças produzidas. As empresas passaram a investir mais em tecnologia têxtil, acabamento e design, buscando atender a um consumidor cada vez mais exigente. Esse aprimoramento contribuiu para fortalecer a competitividade do segmento, permitindo que os produtos do polo alcancem novos mercados e ampliem sua aceitação. Esse movimento é resultado direto da reinvenção da moda fitness que, nos últimos anos, incorporou elementos da moda casual. As peças deixaram de ser pensadas exclusivamente para a prática de atividades físicas e passaram a dialogar com tendências de estilo, comportamento e identidade, acompanhando mudanças no modo de vestir da sociedade contemporânea. Com isso, a moda fitness deixou de ser uma roupa restrita às academias e passou a ocupar um espaço mais amplo

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“O telhado verde ajuda a amenizar a temperatura, a reintroduzir biodiversidade e a reduzir a sobrecarga das galerias pluviais das cidades.”

Paisagista e engenheiro analisa o alcance da legislação que estimula e, em alguns casos, determina a instalação de coberturas com vegetação em novas construções no Recife. Ele também ressalta os benefícios que essas estruturas proporcionam à cidade e à população, especialmente diante do avanço das consequências das mudanças climáticas no espaço urbano. Em meio a ruas asfaltadas, edifícios verticais e poucas áreas vegetadas das cidades, soluções baseadas na natureza ganham espaço no planejamento urbano contemporâneo. Entre elas, os telhados verdes (estruturas que integram vegetação às coberturas de edifícios) surgem como alternativa capaz de reduzir temperaturas, reter água da chuva e melhorar a qualidade de vida da população. A discussão sobre esse tipo de solução ganha relevância em um contexto de mudanças climáticas. A predominância de superfícies impermeáveis, como concreto e asfalto, contribui para o fenômeno das ilhas de calor e para o alagamento das vias em dias de chuva. Nesse cenário, iniciativas que reintroduzem áreas verdes no ambiente construído passam a ser vistas não apenas como recursos estéticos ou paisagísticos, mas como estratégias de infraestrutura ambiental capazes de tornar as cidades mais resilientes. No Recife, a legislação municipal, que incentiva e em alguns casos determina a adoção desse tipo de cobertura em novos empreendimentos, impulsionou a presença dos telhados verdes e ampliou o debate sobre o papel das soluções ambientais na arquitetura. Em entrevista concedida à repórter Larissa Aguiar, o engenheiro agrônomo, paisagista e mestre em engenharia ambiental, Marcelo Kozmhinsky, analisa os avanços dessa tecnologia no Brasil, especialmente após a criação de legislações urbanísticas que incentivam sua adoção. Considerado uma das principais referências no tema em Pernambuco, Kozmhinsky acompanha há mais de duas décadas o desenvolvimento dos telhados verdes e defende que, além de inovação ambiental, eles representam uma mudança cultural na forma de pensar as cidades. Como o senhor avalia o cumprimento da legislação que incentiva ou determina a adoção de telhados verdes em áreas urbanas? De modo geral, a legislação tem sido cumprida, especialmente nos novos empreendimentos. A partir do momento em que a exigência passa a fazer parte das normas urbanísticas e do processo de licenciamento, as construtoras acabam incorporando essa solução aos projetos arquitetônicos. Com o tempo, o que era visto apenas como uma obrigação legal também passou a ser percebido como um diferencial de qualidade ambiental e de valorização dos empreendimentos. Hoje, muitos projetos incluem áreas verdes nas coberturas ou em lajes de estacionamento, além de espaços de convivência associados a essas áreas, como rooftops e jardins elevados. Os principais desafios não estão necessariamente ligados à resistência das empresas, mas a questões práticas de implantação. Em muitos casos, a dificuldade está no acesso às áreas onde o telhado verde será instalado, sobretudo quando se tratam de lajes amplas ou edificações que não foram originalmente projetadas para receber esse tipo de intervenção. O transporte de materiais, como terra, substrato, plantas e sistemas de drenagem, pode exigir soluções logísticas específicas, especialmente quando não há acesso fácil por elevadores ou escadas adequadas. Ainda assim, esses obstáculos costumam ser superados à medida que o setor ganha mais experiência técnica na execução desse tipo de projeto. Outro ponto importante diz respeito ao processo de adaptação cultural dentro do setor da construção civil. Toda inovação demanda um período de aprendizado e assimilação. No início, havia dúvidas sobre custos, manutenção e riscos estruturais, como infiltrações. Com o avanço das pesquisas, da experiência prática e da divulgação de projetos bem-sucedidos, essas preocupações foram sendo esclarecidas. Hoje já existe uma compreensão maior sobre os benefícios ambientais e urbanos dos telhados verdes, o que tem contribuído para consolidar essa prática como parte das estratégias de construção mais sustentáveis nas cidades. Quais são os benefícios ambientais que os telhados verdes trazem para cidades? Telhados verdes trazem uma série de benefícios ambientais especialmente relevantes para cidades densamente urbanizadas como o Recife, onde a presença de áreas verdes naturais é cada vez mais reduzida. Um dos impactos mais imediatos é a redução da temperatura urbana. Em ambientes com grande concentração de concreto, asfalto e edificações, o calor tende a se acumular, intensificando o fenômeno conhecido como ilhas de calor. Ao introduzir vegetação nas coberturas dos edifícios, os telhados verdes ajudam a amenizar esse efeito, contribuindo para a redução da temperatura do ambiente e para o aumento da umidade relativa do ar. Outro benefício está relacionado à gestão das águas pluviais. A camada de terra e vegetação presente no telhado verde funciona como um sistema natural de retenção da água da chuva, absorvendo parte desse volume antes que ele seja direcionado para a rede de drenagem urbana. Em cidades que enfrentam episódios frequentes de chuvas intensas e alagamentos, essa retenção contribui para reduzir a sobrecarga das galerias pluviais e diminuir a velocidade com que a água chega às ruas. Além disso, ao transformar superfícies antes impermeáveis em áreas com vegetação, os telhados verdes também ajudam a reintroduzir biodiversidade no ambiente urbano, criando pequenos habitats que podem atrair pássaros, insetos e outros organismos. Que impactos os telhados verdes podem gerar na qualidade de vida urbana? Um dos efeitos mais perceptíveis está relacionado ao conforto térmico dentro das edificações. A vegetação e a camada de substrato funcionam como uma espécie de isolante natural, reduzindo a incidência direta do sol sobre a laje. Com isso, os ambientes internos tendem a permanecer mais frescos, diminuindo a necessidade de climatização artificial e o consumo de energia elétrica. Outro aspecto importante é o bem-estar visual e psicológico proporcionado pela presença de áreas verdes. Em muitos edifícios, moradores e trabalhadores convivem diariamente com paisagens dominadas por concreto e estruturas rígidas. Quando um telhado verde é implantado, esse cenário se transforma, oferecendo uma vista mais agradável e natural. Essas coberturas também podem se tornar espaços de convivência quando integradas a áreas de lazer ou rooftops, funcionando como ambientes de descanso, encontros e atividades ao ar livre, e contribuindo para tornar os espaços urbanos mais humanos e acolhedores. Quais as principais dificuldades para a implantação de telhados verdes em edifícios já existentes? Do ponto de vista técnico,

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Christiana Cruz

“A afetividade é um pilar muito forte que norteia o trabalho pedagógico  do Colégio Madre de Deus.”

Colégio Madre de Deus inovou ao implantar, há mais de 50 anos, uma pedagogia baseada em Maria Montessori, que defendia o respeito à singularidade e à autonomia do aluno. Filha da fundadora Marlúcia Sá, e hoje à frente da gestão juntamente com o irmão, Christiana Cruz afirma adaptar-se às novas demandas contemporâneas, sem perder os valores da instituição que há cinco décadas vem formando gerações Com 53 anos de história, o Colégio Madre de Deus consolida um modelo de empresa familiar na educação, combinando tradição pedagógica, gestão profissionalizada e formação integral de alunos. O colégio constrói uma trajetória educacional que ultrapassa o ambiente escolar e se insere na própria história de muitas famílias pernambucanas. Fundada pela educadora Marlúcia Sá, a instituição nasceu com a proposta de oferecer uma abordagem pedagógica diferenciada, inspirada nos princípios da educadora italiana Maria Montessori, valorizando a individualidade da criança, a afetividade no processo de aprendizagem e o respeito ao ritmo de cada estudante.  Hoje, a escola segue sendo conduzida pela família fundadora. A direção é compartilhada entre Christiana Cruz e seu irmão, Gerez Figueiredo, enquanto a terceira geração já começa a se integrar à rotina da instituição. Nesse percurso, o colégio se expandiu para quatro unidades e passou a oferecer serviços da educação infantil ao ensino médio.   Em entrevista concedida a Larissa Aguiar, Christiana Cruz reflete sobre o desafio de administrar uma empresa familiar no setor educacional, fala sobre sucessão, profissionalização da gestão e os caminhos para manter a identidade pedagógica em um mercado cada vez mais competitivo. Como surgiu o Colégio Madre de Deus e qual era o propósito inicial da instituição? O Madre de Deus surgiu há 53 anos a partir da inquietação da sua fundadora, Marlúcia Sá, que desejava construir uma proposta educacional diferente daquela que predominava nas escolas da época. O projeto nasceu de uma convicção muito clara: era possível educar de outra forma, com mais atenção ao desenvolvimento da criança, ao vínculo afetivo e à construção de um ambiente de aprendizagem mais humano. Foi a partir dessa visão que começou a ser estruturado o que viria a se tornar o Colégio Madre de Deus. No início, a escola foi pensada como um espaço onde o processo educativo respeitasse o tempo e a individualidade de cada aluno. Inspirada pela metodologia desenvolvida por Maria Montessori, Marlúcia Sá buscou criar um ambiente pedagógico que valorizasse a autonomia da criança e estimulasse a curiosidade natural pelo aprendizado. A abordagem montessoriana foi escolhida justamente por trazer uma perspectiva inovadora para aquele momento histórico, ao reconhecer a criança como protagonista do próprio desenvolvimento e não apenas como receptora de conteúdos. Maria Montessori, que foi a primeira mulher italiana a se tornar médica, desenvolveu sua metodologia a partir de observações científicas sobre o comportamento e o processo de aprendizagem infantil. Ao perceber que as crianças aprendiam melhor em ambientes preparados e estimulantes, ela propôs uma reorganização da própria estrutura da sala de aula, com mobiliário adaptado à altura das crianças e atividades que incentivavam a exploração, a autonomia e a concentração. Esses princípios serviram como inspiração direta para a construção do projeto pedagógico do Madre de Deus. Assim, desde sua origem, a escola foi pensada como um espaço em que o cuidado com a formação humana caminhasse junto com o desenvolvimento acadêmico. O objetivo não era apenas transmitir conteúdos, mas formar crianças capazes de pensar, se expressar e desenvolver suas potencialidades. Esse olhar atento para o aluno e para suas particularidades marcou profundamente os primeiros passos da instituição e ajudou a consolidar sua identidade educacional. Com o passar dos anos, a escola cresceu e ampliou sua atuação mas manteve os fundamentos que deram origem ao projeto inicial. A proposta montessoriana continuou sendo uma referência importante, ainda que novas abordagens pedagógicas tenham sido incorporadas ao longo do tempo. Mesmo diante das transformações do mundo contemporâneo, como as mudanças tecnológicas e as novas demandas educacionais, o princípio que orientou a criação do colégio permanece vivo: oferecer uma educação que respeite a individualidade da criança, valorize a afetividade e contribua para a formação integral de cada aluno. Quais foram os maiores desafios enfrentados pela família nos primeiros anos da escola? Todo começo é desafiador. Construir uma escola com uma proposta pedagógica diferenciada exige coragem e muita dedicação. O primeiro grande desafio foi consolidar a metodologia e mostrar às famílias que aquele modelo de educação faria diferença na formação das crianças. A base do nosso trabalho sempre foi acreditar que cada aluno é único. Quando se parte desse princípio, o compromisso se torna ainda maior porque a escola precisa oferecer um ambiente que respeite essas singularidades.  Com o tempo, os alicerces da instituição foram se fortalecendo. O trabalho pedagógico consistente de excelência e resultados foi gerando confiança nas famílias e permitindo que a escola crescesse. Hoje temos quatro unidades e continuamos enfrentando desafios porque as crianças e as famílias mudaram muito ao longo dessas cinco décadas. Em empresas familiares, valores e princípios costumam atravessar gerações. Quais são os pilares inegociáveis da gestão do colégio?  Os valores são absolutamente inegociáveis. O respeito é um deles. Respeito ao aluno, à família, aos professores e à singularidade de cada pessoa que convive dentro da escola. É a partir desse princípio que se constrói um ambiente de confiança, diálogo e formação, no qual cada estudante é incentivado a desenvolver seu potencial e crescer com responsabilidade, caráter e compromisso com o outro.  Esses valores também vêm do contexto familiar que deu origem à instituição. Nós fomos criados dentro desse ambiente e absorvemos naturalmente esses princípios. A educação não se faz apenas com conteúdo acadêmico mas, também, com formação humana.  Por isso, a afetividade é um pilar muito forte aqui dentro. Maria Montessori dizia que todo conhecimento passa primeiro pelo coração. Essa ideia continua extremamente atual e norteia nosso trabalho pedagógico.  Quando os valores são sólidos, a instituição consegue se adaptar às mudanças sem perder sua identidade. Ao longo dos 53 anos, fomos incorporando novas práticas pedagógicas, tecnologias e metodologias. Hoje trabalhamos com metodologias ativas e

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Secretário de Habitação do Recife, Felipe Cury

“Não basta produzir habitação popular. É preciso garantir que as pessoas morem perto de onde vivem e trabalham”

Recife aposta em habitação integrada à cidade, com moradias próximas a serviços, urbanização de comunidades e reocupação do Centro para enfrentar o déficit habitacional. A política de habitação popular do Recife vive uma inflexão. Depois de décadas marcadas por conjuntos erguidos em áreas periféricas, distantes de trabalho, serviços e redes de sociabilidade, a gestão municipal aposta na integração urbana como eixo estruturante. À frente da Secretaria de Habitação, Felipe Cury afirma que o foco deixou de ser apenas a produção de unidades e passou a incorporar urbanização, infraestrutura e gestão sociocondominial. Em entrevista concedida a Larissa Aguiar, ele detalha números, desafios e inovações que, segundo a prefeitura, configuram a maior política habitacional da história da cidade. O contexto é complexo. Com déficit estimado em cerca de 54 mil moradias, a capital pernambucana enfrenta limitações históricas: escassez de terrenos públicos, solo de baixa capacidade estrutural, imóveis ociosos no Centro e desigualdades territoriais profundas. Entre recursos federais do programa Minha Casa Minha Vida, financiamento internacional via Banco Interamericano de Desenvolvimento e investimentos próprios, a gestão diz ter iniciado quase duas mil unidades apenas nos últimos seis meses, e destaca o papel de programas como o ProMorar e à primeira PPP habitacional do Centro. Além da ampliação quantitativa, a estratégia municipal também busca responder a um problema estrutural: a desconexão entre moradia e cidade. A proposta é produzir habitação em áreas consolidadas ou em processo de requalificação, próximas a corredores de transporte, equipamentos públicos e oportunidades de emprego, reduzindo custos indiretos para as famílias e evitando a reprodução de vazios urbanos. Nesse desenho, a habitação deixa de ser tratada como política setorial isolada e passa a integrar uma agenda mais ampla de desenvolvimento urbano, reocupação do Centro e enfrentamento das desigualdades socioespaciais que historicamente moldaram o crescimento do Recife. Durante anos, um dos principais problemas da habitação popular no Brasil foi a construção de conjuntos distantes de serviços essenciais. Como a Prefeitura do Recife tem enfrentado essa questão para garantir que os novos empreendimentos estejam integrados a escolas, transporte público, equipamentos de saúde e oportunidades de trabalho? Você tocou no ponto essencial. Não basta produzir habitação popular; é preciso garantir que ela esteja próxima de onde as pessoas vivem e trabalham. Historicamente, o Recife e o Brasil erraram ao deslocar famílias para áreas distantes da sua rede de sociabilidade e renda. Um exemplo foi o Casarão do Cordeiro, que retirou famílias de Brasília Teimosa e as levou para outra região, rompendo vínculos de trabalho e convivência. Hoje a lógica é outra. Toda a produção da prefeitura é feita pelo Minha Casa Minha Vida, priorizando terrenos inseridos na malha urbana consolidada. O programa exige proximidade de transporte público, escolas e unidades de saúde e nós adotamos isso como critério central. Nenhum empreendimento pode estar a mais de um quilômetro do local de origem das famílias. Mais do que construir, estamos fazendo urbanização social: pavimentação, drenagem, esgotamento sanitário, áreas de lazer e equipamentos públicos. A moradia vem integrada ao território. No caso específico de empreendimentos como o Caranguejo Tabaiares, nos bairros de Afogados e Ilha do Retiro, quais critérios urbanísticos orientaram a escolha do terreno e de que forma o projeto dialoga com a malha urbana já existente? Para atingir o nível máximo de financiamento federal, o terreno já precisa ter serviços públicos disponíveis. Avaliamos transporte, saúde, educação e saneamento. Quando não há esgotamento sanitário, por exemplo, a prefeitura executa o sistema. No Caranguejo Tabaiares e em outros projetos, priorizamos áreas já ocupadas historicamente, evitando deslocamentos longos. O diálogo com a malha urbana se dá pela integração viária, pela manutenção de vínculos de vizinhança e pela inserção em áreas com oferta de serviços. Qual é hoje o peso do Programa Minha Casa Minha Vida, retomado pelo Governo Federal, na política habitacional do Recife? Hoje, toda a produção de novas unidades da Secretaria está vinculada ao Minha Casa Minha Vida. O programa é estruturante. Mas há desafios burocráticos. Um exemplo é a exigência de procuração específica para beneficiários que não sabem assinar, documento que pode custar cerca de R$ 300, valor elevado para famílias em vulnerabilidade. Além disso, o programa define critérios de prioridade, mas não estabelece pesos. Por isso, criamos um sistema próprio de ranqueamento. A Prefeitura também tem recorrido a recursos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Como se estrutura esse modelo de financiamento internacional e que tipo de contrapartida ou exigência ele impõe ao município?O financiamento internacional está vinculado ao ProMorar, estruturado com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Ele não trata apenas de habitação, mas de urbanização ampla: drenagem, contenção de encostas, infraestrutura. As exigências são técnicas e de governança: metas, prazos, prestação de contas rigorosa e acompanhamento permanente. O diferencial é o volume de recursos, que permite intervenções estruturantes em diversas comunidades. Dos R$ 350 milhões investidos nas 1.961 unidades iniciadas nos últimos seis meses, há recursos próprios, federais e internacionais? Esse modelo é sustentável no médio e longo prazo? Há uma combinação de fontes: recursos federais via Minha Casa Minha Vida, financiamento internacional pelo BID e contrapartidas municipais. A sustentabilidade depende da continuidade das parcerias e da capacidade de captação. Sozinho, o município não teria como executar nesse ritmo. Empreendimentos como São José, no Coque, e Comunidade do Bem 1 e 2, na Imbiribeira, estão associados a projetos de urbanização mais amplos. Como a política habitacional tem sido articulada com intervenções de infraestrutura e regularização fundiária nessas áreas? Empreendimentos como o Conjunto Habitacional São José, no Coque, e a Comunidade do Bem 1 e 2, na Imbiribeira, não foram concebidos como iniciativas isoladas de produção de moradia, mas como parte de projetos estruturantes de urbanização integrada. A Comunidade do Bem é apresentada pela gestão como um exemplo de transformação social em escala territorial. No local, quatro comunidades foram integradas em um único projeto urbano que contempla pavimentação, implantação de redes de saneamento, melhoria da infraestrutura viária, criação de equipamentos públicos e a construção de 560 unidades habitacionais. A lógica adotada prioriza a permanência das famílias no próprio território. As

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rogerio guerreiros passo

“A gente nunca deu um passo para trás, mas um passo para dentro da história do frevo”

Depois de “incendiar” o Festival de Cannes, ao levar o frevo para o tapete vermelho, Guerreiros do Passo ganhou os jornais e as redes sociais ao redor do mundo, recebeu o título de Patrimônio Cultural do Recife e convite para apresentação no Louvre. Apesar do sucesso, Eduardo Araújo ressalva que enfrenta desafios para divulgar e manter a tradição do ritmo pernambucano. A frase, dita com a serenidade de quem sabe que o trabalho é lento, exige paciência e só dá frutos com persistência diária, sintetiza bem a trajetória do Guerreiros do Passo, coletivo de dança fundado no Recife em 2005 e que, quase duas décadas depois, se consolidou como uma das principais referências na salvaguarda e na reinvenção do frevo de rua. Formado inicialmente a partir de um projeto desenvolvido na Praça do Hipódromo, no bairro de Campo Grande, o grupo foi, aos poucos, construindo uma estética própria e reconhecível, marcada por figurinos, sombrinhas grandes e uma coreografia que procura dialogar com imagens antigas do Carnaval das décadas de 1930 e 1940, recuperando gestos, posturas e atmosferas que remetem a outras épocas da festa. O reconhecimento internacional, impulsionado pela participação no filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, exibido no Festival de Cannes, projetou o Guerreiros do Passo para além das fronteiras do Estado e do País, abrindo novas portas. Depois disso, vieram homenagens oficiais, convites para festivais, apresentações em palcos fora do Brasil, exibições em museus europeus e a construção de um novo lugar simbólico no imaginário cultural recifense, onde o coletivo passou a ser visto como representante de uma tradição profundamente ligada à cidade. No entanto, por trás do brilho dos holofotes e das imagens que circularam pelo mundo, continuam presentes os desafios estruturais que atravessam a cena cultural pernambucana: a instabilidade das políticas públicas, a dependência constante de editais, a sazonalidade imposta pelo calendário do Carnaval e a luta cotidiana para manter projetos de formação, pesquisa e difusão ativos ao longo de todo o ano. Na entrevista concedida a Larissa Aguiar, um dos fundadores do grupo, Eduardo Araújo revisita as origens do Guerreiros do Passo, comenta com detalhes a experiência em Cannes, explica o trabalho de pesquisa histórica que sustenta as criações coreográficas e reflete sobre os caminhos possíveis para o futuro do frevo em Pernambuco.  Qual é a proposta do Guerreiros do Passo e de que forma o grupo se diferencia de outras iniciativas voltadas ao frevo em Pernambuco? Nosso principal interesse é manter a formação, porque ela é essencial para que o frevo continue existindo na rua de maneira orgânica, viva e contínua, passando de geração em geração. Hoje, estimamos que grande parte dos passistas em atuação na cidade foi formada diretamente pelo projeto ou por discípulos que passaram por ele ao longo dos anos, o que mostra o alcance desse trabalho silencioso, mas profundo, feito ao longo de quase duas décadas. A gente acredita muito na educação como base para formar novos passistas profissionais, mas também para alcançar pessoas que não pretendem seguir carreira artística e, ainda assim, precisam conhecer a cultura, compreender que o frevo é parte da nossa identidade e reconhecer que hoje ele é patrimônio do Brasil e do mundo.  Ao longo desse percurso, estruturamos uma metodologia própria de ensino, que organiza passos, sequências e princípios técnicos sem engessar a criatividade individual. O processo formativo valoriza disciplina, consciência corporal e escuta musical, ao mesmo tempo em que incentiva cada aluno a desenvolver sua identidade na dança. Essa sistematização contribui para dar continuidade ao frevo com qualidade e coerência, respeitando suas bases históricas e fortalecendo sua transmissão de maneira consistente. Nossa missão é manter o grupo ativo, captar recursos por meio de editais e seguir com esse trabalho cotidiano, muitas vezes longe dos holofotes, mas fundamental para sustentar a cena cultural. Nosso diferencial é preservar o frevo de rua tradicional, o chamado “frevo raiz”. Ao longo do tempo, com a ida para o palco, a dança passou por adaptações e perdeu elementos importantes. Por isso, desenvolvemos projetos como o Laboratório do Passo, que pesquisa e reintroduz movimentos pouco praticados, resgatando gestos e referências históricas. É um frevo conectado com o povo e com a rua, que homenageia o Carnaval popular do Recife e de Pernambuco. Mais do que reproduzir passos, buscamos manter viva uma memória coletiva, entendendo que tradição é algo que se constrói diariamente, no encontro entre quem ensina, quem aprende, quem pesquisa e quem dança. Que serviços o grupo oferece? Oferecemos aulas gratuitas de formação contínua, realizadas regularmente, além de oficinas em escolas, comunidades e outros espaços educativos, com ações pedagógicas voltadas a diferentes faixas etárias. As atividades são destinadas a quem deseja se aproximar da dança por interesse cultural ou identidade local. Também desenvolvemos um trabalho de conserto e reaproveitamento das sombrinhas de frevo, ensinando os alunos a recuperar o material, prolongar sua vida útil e reduzir desperdícios e impactos ambientais. Além disso, atuamos fortemente na preservação da memória e da identidade cultural, contando a história do Carnaval e do Recife, explicando a origem e a transformação dos passos e sua relação com a música, os blocos e as manifestações de rua. O próprio espetáculo assume esse caráter pedagógico e informativo. O frevo, apesar de ser Patrimônio Cultural da Humanidade, ainda enfrenta desafios para se manter vivo no cotidiano das pessoas. Quais são, na avaliação de vocês, as principais dificuldades hoje? A visibilidade que surge em alguns momentos é pontual e não reflete a realidade cotidiana da maioria dos grupos culturais do Estado. Faltam incentivo estrutural, políticas públicas consistentes e, sobretudo, financiamento continuado para que os projetos se mantenham ao longo do ano, e não apenas em períodos específicos. Muitos coletivos dependem quase exclusivamente de editais que, embora importantes, não contemplam todos nem garantem a regularidade necessária. No nosso caso, só tivemos dois projetos aprovados após 11 anos sem apoio institucional, evidenciando longos períodos de incerteza. Durante a pandemia, prêmios emergenciais ajudaram a atravessar a crise, mas o cenário segue difícil, especialmente para quem atua fora dos

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Sergio Leal Credito Acervo Pessoal fotor 20260209211722

“Uma localidade onde a qualidade de vida não é elevada dificilmente poderá oferecer uma experiência turística positiva”

Diante do impacto do turismo de massa no litoral, professor da UFPE aponta que a ausência de políticas urbanas nos destinos afeta moradores, visitantes e meio ambiente. Ele propõe um planejamento turístico realizado juntamente com o ordenamento urbano, e investimentos em educação ambiental e na capacitação dos trabalhadores. Neste verão, o litoral de Pernambuco e de boa parte do Brasil estampou o noticiário e as redes sociais com notícias que não tinham como foco suas belezas naturais, mas os impactos provocados pelo turismo de massa. Para o professor do Departamento de Hotelaria e Turismo da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Sérgio Rodrigues Leal, as praias, ao longo das décadas transformaram-se em vitrines econômicas, territórios disputados pelo mercado imobiliário e espaços de lazer cada vez mais pressionados por fluxos intensos de visitantes. O crescimento acelerado, muitas vezes dissociado do planejamento urbano, ampliou conflitos cotidianos, como a ocupação irregular da orla, a poluição sonora, o acúmulo de resíduos, a inflação local e a precarização de serviços. Nesse cenário, a atividade turística permanece estratégica para a economia regional mas enfrenta o desafio de se reinventar para não comprometer os próprios atributos que a sustentam: paisagem, sociabilidade, cultura e qualidade ambiental. Em Pernambuco, onde praias urbanas convivem com destinos de alto valor ecológico e histórico, o debate sobre ordenamento territorial, regulação de serviços e participação comunitária tornou-se incontornável. Sérgio Rodrigues Leal é docente do Programa de Pós-Graduação na área e atual vice-coordenador do Bacharelado em Turismo, além de pesquisador do planejamento turístico e das dinâmicas socioeconômicas associadas à atividade. Nesta entrevista a Larissa Aguiar, ele analisa como o turismo de massa se consolidou no litoral brasileiro, de que forma a ausência de políticas urbanas afeta moradores e visitantes, quais são os impactos ambientais e culturais do crescimento desordenado das áreas costeiras e por que a regulação dos espaços públicos se tornou tema sensível. Como o turismo de massa se consolidou no litoral brasileiro e quais fatores históricos e econômicos contribuíram para esse modelo? Desde a segunda metade do Século 20, houve uma priorização do turismo de sol e praia no Brasil. Esse processo ocorreu por diversos motivos. Um deles foi a difusão internacional do próprio modelo de turismo de massa, que já vinha se estruturando havia décadas na Europa e em outros países. Soma-se a isso o desenvolvimento histórico do Brasil, marcado por maior concentração populacional e infraestrutura no litoral, em comparação com o interior. Também pesaram as características físicas dessas regiões, como o clima e a presença de extensas faixas de areia, capazes de atrair visitantes de diferentes partes do País e do exterior. Houve ainda investimentos privados em hotéis, resorts e condomínios, além de uma decisão política de promover o Nordeste brasileiro como destino tropical, com potencial para rivalizar com o México e outros polos do Caribe. Todos esses fatores, combinados, ajudaram a consolidar o modelo atual. De que forma a ausência do ordenamento urbano impacta diretamente a experiência turística e a qualidade de vida das comunidades locais? O turista deve ser encarado como um morador temporário. Por isso, grande parte dos problemas urbanos que afligem a população local também acaba afetando quem visita à cidade. Como dizia Caio Luiz de Carvalho, ex-presidente da Embratur, nos anos 1990, um bom destino para o turista é, também, uma boa cidade para o cidadão. Nesse sentido, a experiência turística sofre impactos diretos quando não há ordenamento urbano. Uma localidade onde a qualidade de vida não é elevada dificilmente poderá oferecer uma vivência positiva, exceto quando essa experiência se dá dentro de uma espécie de “bolha”, em que o visitante tem acesso a serviços e produtos desvinculados da realidade local. Isso não é uma solução estrutural mas, apenas, uma maquiagem para esconder problemas persistentes. O ordenamento urbano, quando bem conduzido, pode trazer ganhos tanto para turistas, quanto para comunidades residentes. O crescimento desordenado das áreas litorâneas pode ser considerado hoje o principal gargalo para a sustentabilidade do turismo de praia? Por quê? O turismo sustentável, seja em áreas costeiras ou em outros contextos, baseia-se em três pilares: meio ambiente, cultura e sociedade, e economia. A complexidade da atividade impossibilita tratar esses elementos de forma isolada, já que cada um influencia e é influenciado pelos demais. Dentro desse quadro, o crescimento desordenado traz impactos evidentes para os três campos. A especulação imobiliária, muitas vezes, leva à destruição de áreas de preservação para dar lugar a empreendimentos, provocando danos ambientais, mudanças nos modos de vida e nos meios de subsistência da população e concentração de renda em pequenos grupos, frequentemente compostos por investidores externos. Por isso, esse tipo de expansão é incompatível com o desenvolvimento sustentável do turismo. O uso de caixas de som em alto volume nas praias tem se tornado uma das maiores fontes de conflito. O que essa prática revela sobre a falta de regulação e fiscalização dos espaços públicos? A ausência de regulação nas praias é um problema antigo. Os frequentadores que utilizam caixas de som em volumes elevados sabem que dificilmente serão legalmente impedidos. Quando não há proibição clara ou punição efetiva, o espaço público tende a se transformar em um território sem regras, no qual cada um faz o que quer, sem considerar os demais usuários. Isso não se resume à fiscalização: envolve também educação básica e respeito ao próximo. Campanhas de conscientização são necessárias, assim como ações mais amplas, que incluam educação para o turismo nas escolas, palestras com comerciantes locais e sinalização visível sobre o que é ou não permitido. Conjuntos de medidas desse tipo podem ajudar a minimizar conflitos recorrentes. Quais são os impactos ambientais, sociais e culturais do turismo de massa quando não há planejamento adequado nas praias? O turismo sempre gera impactos, tanto positivos quanto negativos. Quando não há planejamento, os efeitos tendem a ser mais prejudiciais para a localidade. Entre eles estão o acúmulo de lixo na areia, construções irregulares, conflitos entre visitantes e moradores e a descaracterização de práticas culturais. Existe uma percepção simplificada de que o turismo é sempre positivo para a

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Pedro Xavier

“No Memorial da Democracia a memória é uma prevenção à violência”

Pedro Xavier, gestor do espaço situado no Sítio Trindade, no Recife, explica como o local resgata a história de pessoas vítimas da ditadura militar, fala do conteúdo exposto no local, que abrange períodos de lutas de Pernambuco, e ressalta a importância de mostrar as atrocidades cometidas pelo estado de exceção para que esses tempos não retornem. Quem visitar o Memorial da Democracia de Pernambuco Fernando Vasconcellos Coelho, no Sítio Trindade, no Recife, perceberá que uma de suas áreas mais impactantes é a dedicada ao período da ditadura militar. Ao som de tiros vindos de vídeos, o visitante se depara com fotografias de 51 pessoas mortas e desaparecidas em Pernambuco durante o regime de exceção. No meio da sala, há uma bolsa. Ela pertenceu a Anatália de Souza Melo Alves, presa e violentada em série por vários militares. Eles a mataram, queimaram seu corpo da cintura para baixo, (para não deixar vestígio da atrocidade)e a esganaram. Pelos relatos oficiais dos seus algozes, ela cometeu suicídio, enfocando-se com a alça da bolsa exposta. A história verídica de Anatália foi revelada pela Comissão da Memória e Verdade Dom Helder Câmara que, no seu relatório final em 2012, recomendou a criação do Memorial. A finalidade do espaço é trazer a veracidade de casos como o de Anatália e dar voz às vítimas por meio de documentos, mas principalmente de relatos.  Como Pernambuco tem uma longa tradição de lutas, o Memorial não se limita ao golpe de 1964 mas abarca toda a trajetória insurgente do Estado, desde a Revolução de 1817, e dá voz aos movimentos contemporâneos como o da defesa da reforma agrária, as pautas feministas, LGBTQIA+ e por direitos étnico-raciais. Vinculada à Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Prevenção à Violência, o Memorial, segundo seu gestor Pedro Xavier – e como o próprio nome do órgão sugere – promove a memória como forma prevenir a violência. Nesta entrevista a Cláudia Santos, ele aborda os objetivos do espaço, fala do seu acervo e a importância dedicada às artes.  “Há uma produção artística (…) que é de uma criação de rememoração, como se houvesse uma ferida aberta e essa obra de arte fosse um curativo”, compara Xavier. Um processo que temos presenciado com o sucesso de filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, que trouxeram à tona a voz de vítimas da ditadura e a memória de um tempo de crueldade e ausência de direitos que não devem ser esquecidos para que não retornem. Como surgiu o Memorial da Democracia de Pernambuco Fernando Vasconcellos Coelho? O Memorial da Democracia surge como uma recomendação da Comissão da Memória e Verdade Dom Helder Câmara que investigou os crimes em Pernambuco na ditadura iniciada em 1964. Em seu relatório final, a comissão recomenda que o Estado deveria criar este espaço, que está sob a Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Prevenção à Violência. Então, no Memorial da Democracia, a memória é uma prevenção à violência.  Em 2012, uma lei cria o Memorial que é, de fato, instituído em dezembro de 2022, quando a comissão encerra seu trabalho. Mas ele, na verdade, continua. Parte da comissão foi incorporada ao conselho do Memorial e a gente recebeu, há pouco tempo, os arquivos de Gregório Bezerra foram doados ao Memorial pela família dele, e esse grupo está investigando esses arquivos para organizar, publicizar, incorporar e trabalhar esse material. Então, o Memorial é um processo de continuidade histórica, de missão e de ética desta Comissão. Ressalte-se que, proporcionalmente, Pernambuco é o estado brasileiro com mais mortos e desaparecidos durante a ditadura. E isso nos dá uma missão também de continuidade. Outra recomendação da Comissão foi a refacção da escultura Torre Cinética, de Abelardo da Hora, que foi demolida, na época, pelos militares e que hoje se encontra aqui na frente do Memorial. Por que teve essa recomendação? Qual a importância dessa escultura? A Torre Cinética foi executada nos anos 1960, num contexto em que Abelardo da Hora cuidava das praças e parques públicos da cidade. Ele fez muitas esculturas com temas populares. Na Praça Treze de Maio, por exemplo, está a obra Os Violeiros. Mas na Praça da Torre, ele traz uma escultura abstrata, em ferro, que conforme o vento vai passando por ela, algumas partes da obra se movimentam. Só que quando veio o golpe civil militar de 64, os militares questionaram que com esse movimento produzido pela Torre, mensagens eram enviadas para a União Soviética. A gente pode ficar se questionando se eles acreditaram mesmo nisso ou se só queriam maltratar o artista que tinha executado a obra e que era tão ligado aos processos sociais e vinculado ao Partido Comunista.  Em resposta, Abelardo solta a frase: “Mande prender o vento”, porque é o vento que roda as pás da escultura. Os militares, então, derrubam a obra e a arrastam pelo bairro da Torre. Essa escultura é toda destroçada, vai para um galpão, fica enferrujada. Ela é refeita em 2022 por Jobson Figueiredo e está instalada aqui. O próprio Jobson também doa para o Memorial uma outra obra sua, Você Me Prende Vivo e Eu Escapo Morto, verso que faz parte daquela música Pesadelo, que ficou muito famosa com o MPB4. Há uma terceira obra, recomendada pela Prefeitura do Recife, A Cabeça de Gregório Bezerra, que está próxima à Torre Cinética. Gregório Bezerra é uma figura importante por ter lutado, desde a Era Vargas, até 1964, pelos direitos.  Por que o Memorial está no Sítio da Trindade? Qual a simbologia desse local? Por uma série de camadas históricas. Esse chalé, nos anos 1960, foi a sede do MCP (Movimento de Cultura Popular), quando Paulo Freire, Germano Coelho, entre outros, fizeram desta casa um centro de união entre cultura, arte e educação. A semente das escolas municipais do Recife está nesse movimento. Em 1964, a sede do MCP foi fechada por dois tanques de guerra. Isso torna essa casa única entre outros memoriais do Brasil porque é um espaço de educação, de memória positiva e, não, um lugar

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THIAGO MEDEIROS ROBERTO E BRUNO

“O projeto do Moinho Recife demonstrou que não há dúvida sobre a viabilidade de investir no Centro”

Arquitetos responsáveis pelo retrofit do Moinho do Recife, Bruno Ferraz e Roberto Montezuma falam do pioneirismo do projeto que converteu uma edificação industrial no Centro Histórico para uso empresarial, habitacional e de lazer com a participação da iniciativa privada. Eles esperam que outros players sigam o exemplo e que a região central seja moradia para pessoas de classes sociais diversas. (Foto: Thiago Medeiros) O retrofit que transformou as instalações do antigo Moinho Recife numa construção voltada para uso residencial, empresarial e de lazer quebrou paradigmas. O projeto é o primeiro que se tem conhecimento em converter uma edificação industrial em moradia com essa dimensão e complexidade. A participação da iniciativa privada é um outro aspecto pioneiro que tem incentivado outras empresas a retrofitar imóveis na capital pernambucana. Mais: o Moinho Recife Business & Life também é vanguarda ao demonstrar a viabilidade econômica de se investir na recuperação de imóveis antigos do Centro Histórico. É o que comprova o fato de não haver mais salas disponíveis para locação da área empresarial e todas as unidades para habitação terem sido vendidas.  Hoje a Revitalis Incorporações – que tem como sócios empresários dos grupos Moura, Tavares de Melo, Paes Mendonça e Petribu – colhe o êxito de ter apostado no projeto inovador dos arquitetos Bruno Ferraz e Roberto Montezuma (que também é coordenador geral do projeto Recife Cidade Parque) quando adquiriram o antigo moinho em leilão privado. O empreendimento contou ainda com a parceria da Moura Dubeux Engenharia, responsável pela execução dos residenciais Silo 215 e Silo 240 concluídos recentemente. Ferraz e Montezuma, nesta entrevista a Cláudia Santos, falam do conceito do projeto (que valoriza a preservação da memória), dos desafios que enfrentaram para realizar o retrofit e ressaltam o caminho aberto por esse pioneirismo de envolver o setor privado na recuperação de um imóvel do Centro Histórico e convertê-lo em uso residencial, empresarial e de lazer. “Essa experiência do Moinho Recife, vem concreta porque é a iniciativa privada que entra nessa aliança de encontrar o caminho operacional e empresarialmente válido para resgatar o Centro. No final constatou-se que essa foi uma decisão que funcionou e teve sucesso do ponto de vista econômico”, analisa Roberto Montezuma. “A gente torce para que [essa ideia] seja disseminada, porque é possível. Invista, procure, reforme, leve para o Centro”, incentiva Bruno Ferraz.   Como se deu a construção do Moinho Recife?  Bruno – Em 2018, um grupo de empresários arrematou num leilão privado o imóvel e tinham dúvidas sobre que uso dar a ele. Foi feita uma concorrência, que foi vencida por nós porque conceitualmente a proposta que fazia mais sentido era a nossa. Antecipamos tendências e movimentos. Hoje o tema retrofit, ocupação do Centro e de edificações pré-existentes é atual, mas não se falava disso naquela época. A ideia do nosso projeto era pensar a origem da cidade, o resgate de uma estrutura ociosa, a transformação de um uso.  O imóvel não era tombado, mas estava inserido em uma zona de preservação. Do ponto de vista da legislação municipal, aquela é uma zona mais flexível. Quando visitamos o prédio, saímos de lá encantados, achamos fantástico! Era uma fábrica, mas, por incrível que pareça, não tinha características fabris porque era uma construção vertical utilizada para a moagem do trigo. Na relação construtiva que chamamos de “cheio vazio” assemelhava-se mais a um escritório do que a uma fábrica. A construção estava há muito tempo sem uso. O moinho encerrou suas atividades em 2009. Fizemos vários estudos para conceber o projeto, tudo muito técnico, considerando-se custos e benefícios. A tese que vingou foi teoricamente o trinômio trabalho, moradia e lazer. É uma ideia de sucesso. O empreendimento está cada vez mais vivo, estão sendo implantados restaurantes, bares e outras atividades. A parte empresarial está 100% ocupada, é voltada para locação corporativa. A parte residencial também foi completamente vendida. Roberto – Nossa proposta de retrofit também surgiu atrelada ao projeto Recife Cidade Parque e à ideia de reestruturar o Centro Histórico por meio de articulação entre as iniciativas pública e privada.  Por uma série de razões, os centros históricos no mundo passaram por um processo de autofagia. Ou seja, um empobrecimento, uma transformação com a modernidade. No caso do Recife, com a criação da Av. Agamenon Magalhães, houve uma ligação direta para Boa Viagem e isso provocou uma nova dinâmica da cidade, que aliada a outras mudanças, de certa forma, fez com que fosse drenado o Centro Histórico. Isso aconteceu em vários lugares do mundo, e o processo de revisar e restaurar esses centros também é mundial.  No projeto do Moinho Recife, temos uma visão de futuro de que o papel do Centro Histórico é fundamental. A partir dessa demanda de empresas, nossa proposta já foi articulada a esse processo histórico. Esse grupo que arrematou o Moinho, apostou e entendeu que havia um potencial ali. Mas é um processo complexo. É o primeiro empreendimento nessa perspectiva da iniciativa privada, porque é diferente dos restauros e das ações que incorporam a decisão pública. O Sesc Pompeia é um grande exemplo brasileiro de retrofit, mas ele é público. No caso do Moinho, foi uma costura muito complexa com as empresas e até com quem locou o empresarial para perceber que determinadas coisas precisam ser preservadas. É um contínuo jogo educativo.  Em que consiste essa educação continuada na preservação?  Bruno – É fazer uma espécie de catequese com todos pela natureza da obra. Com o investidor, para que entenda, por exemplo, que determinada parede vai ficar bruta como registro. Com os operários para que eles entendam que uma parede bruta não é uma parede malfeita.  A catequese acontece também com os técnicos e até com consumidor final. Não é fácil, há diversos conflitos e desafios para se reformar um prédio centenário e chegar a um resultado como esse.  Roberto – É preciso entender que a sofisticação de um projeto como esse é diferente daquela ostentada em muitos edifícios com uma arquitetura mais generalizada. O Moinho Recife tem memória, tem patrimônio. É um objeto

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Pesquisadores Easy Resize.com

“Descobrimos uma nova espécie de anfíbio em Pernambuco”

Pesquisadores descobrem duas espécies de sapos, uma delas em extinção, na APA Aldeia-Beberibe, onde serão construídos o Arco Metropolitano e a Escola de Sargento do Exército. Eles fazem um alerta para a necessidade de rever o traçado desses empreendimentos para que a fauna possa ser preservada. Em um dos maiores fragmentos de Mata Atlântica, ao norte do Rio São Francisco, pesquisadores da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco), da UECE (Universidade Estadual do Ceará) e da UFC (Universidade Federal do Ceará) acabaram de descobrir algo que muda o que se sabia sobre a biodiversidade do Nordeste: a existência de uma nova espécie de anfíbio para a ciência. Batizado de Ololygon paulofreirei, o pequeno sapo, de canto parecido ao de um grilo e restrito à APA Aldeia-Beberibe, em Pernambuco, foi identificado a partir de um trabalho minucioso de campo, análise morfológica e sequenciamento genético, e já nasce sob a ameaça de desaparecer antes mesmo de ser plenamente conhecido. Nesta entrevista ao jornalista Rafael Dantas, a professora Ednilza Santos, do Departamento de Ciências Biológicas da UFRPE, e o pesquisador Rodrigo Leite, do Laboratório Interdisciplinar de Anfíbios e Répteis, explicam como a descoberta foi feita, por que ela é cientificamente tão relevante e o que ela revela sobre uma Mata Atlântica ainda pouco explorada pela ciência. Mais do que um novo nome na literatura científica, o sapo recém-descrito se transforma em um símbolo de alerta sobre a urgência de proteger um dos territórios mais biodiversos e, ao mesmo tempo, mais ameaçados de Pernambuco. Esse alerta ganha um peso ainda maior porque as populações conhecidas da nova espécie e de outro anfíbio recém-registrado no Estado, foram encontradas justamente nas áreas hoje ameaçadas por grandes empreendimentos de infraestrutura, como o Arco Metropolitano e a Escola de Sargentos do Exército. Segundo os pesquisadores, os traçados e projetos apresentados incidem diretamente sobre a Mata da Pitanga e o Campo de Instrução Marechal Newton Cavalcanti, territórios de alta sensibilidade ecológica que concentram espécies endêmicas, nascentes e fragmentos históricos de Mata Atlântica, colocando a ciência no centro de uma disputa decisiva entre desenvolvimento e preservação. Como foi o começo da pesquisa para descobrir a nova espécie de sapo, que vocês publicaram na revista científica internacional Amphibia-Reptilia? Ednilza – A gente tem um trabalho há um bom tempo chamado Programa de Pesquisa em Biodiversidade, que é nacional e financiado pela CNPQ. A gente tem um sítio desse programa na floresta de Dois Irmãos e em fragmentos dentro da APA Aldeia-Beberibe. O Parque Dois Irmãos está dentro da APA e o nosso campo de atuação no programa é a herpetofauna. A gente tem essa especialidade com os anfíbios e répteis. Ao levantar essas espécies nesse território, a gente se deparou com uma diferente. Percebemos que era uma nova descoberta para a ciência. Estou falando de Ololygon paulofreirei. É uma espécie com uma população muito pequenina. A gente considera que ela já está sob ameaça de extinção, possivelmente, vai entrar na lista de espécies ameaçadas de extinção brevemente. Ednilza – A outra espécie é uma nova ocorrência de Dendropsophus studerae. Não havia identificação dela em Pernambuco. Também achamos trabalhando na APA Aldeia. Esses achados, inclusive, foram dentro das áreas que estão com esse olhar para os grandes empreendimentos no Estado (o Arco Metropolitano e a Escola de Sargentos do Exército). Encontramos populações muito pequenas dos dois na Mata da Pitanga e no CIMNC (Campo de Instrução Marechal Newton Cavalcanti). É muito sensível isso porque quando se tratam de anfíbios são grupos muito particulares. A maioria das espécies é endêmica, ou seja, só são encontradas em determinados lugares. Então, é urgente destacar esse achado para a sociedade, principalmente por causa desses empreendimentos que vão promover uma supressão bem considerável de Mata Atlântica.  Quais as características do novo anfíbio? Ednilza – Trabalho com anfíbio há cerca de 30 anos. A gente vai habituando o ouvido à escuta. Muitas vezes, a gente erra, mas muitas, a gente acerta. Durante as coletas escutei um bicho diferente, fiquei muito atenta e pensei: “Vamos atrás desse bicho para ver se realmente é diferente”. Inicialmente, o caráter decisivo foi o canto para as duas espécies. Um bicho que canta diferente do que a gente é acostumado a ouvir. No primeiro momento, a gente pegou o bicho e já percebemos que era diferente. Mas investigamos para ver se era mesmo. Aí, partimos para investigar se era diferente de outras espécies do grupo que também não são daqui de Pernambuco. E confirmamos que era diferente. Mas, para ter certeza, fizemos uma pesquisa genética e mais de uma vez confirmamos que era uma nova espécie para a ciência. São muitas características que foram juntadas como um quebra-cabeça para gente validar a espécie. O professor Igor Roberto se debruçou nessa busca genética, foi visitar os museus, que guardam as amostras de vários lugares para fazer esse mapeamento. A gente já tinha certeza, mas tínhamos que provar. Após a diagnose, que é a descrição morfológica, tinha essa parte genética. O que a gente precisa agora é achar o girino. Quais as características físicas do Ololygon paulofreirei? O que é mais visível desse anfíbio? Ednilza – Existem nas extremidades dos arteiros, dos dedinhos deles, alguns discos adesivos que são bem escuros. Isso é diferente das outras espécies do grupo. Ficou bem marcante quando a gente coletou o animal no campo. Mas existem outros elementos que identificamos na diagnose, como tamanho (que é bem pequeno), manchas na pele granulada, algumas características da colocação da íris mais discreta, entre outros. Do canto, qual foi a característica que a senhora percebeu que era diferente dos demais sapos? Ednilza – O canto é muito distinto. Inicialmente, a gente confunde com o som de um grilo. Como essa descoberta contribui para entender a biodiversidade da Mata Atlântica e do Nordeste? Ednilza – A primeira coisa é que a gente sabe pouco ainda sobre a nossa Mata Atlântica e sobre os organismos da nossa floresta. Isso é tão relevante do ponto de vista da ciência mas, ao mesmo tempo, muito

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Debora Compaz

“Precisamos de uma biblioteca inclusiva, abrangendo pessoas que não sabem ler”

Gerente da Rede de Bibliotecas pela Paz, da PCR, Deborah Echeverria fala sobre o trabalho de transformar esses espaços de leitura em ambientes vivos, abertos a várias modalidades artísticas e a pessoas de diferentes faixas etárias e sociais. Uma mudança que repercute no desenvolvimento do prazer de ler e na redução da violência. Quem visita um dos espaços da Rede de Bibliotecas Pela Paz, no Recife, pode, num primeiro momento, ser tomado pela surpresa. O ambiente em nada lembra o recinto sisudo e silencioso das bibliotecas tradicionais: muita cor na decoração, crianças ouvindo contação de histórias, bebês brincado e explorando alegremente objetos, jovens escrevendo poemas em formato de cordel, idosos em rodas de conversa fazendo atividades artesanais. Não por acaso, elas foram apelidadas de “bibliotecas vivas”.  A gerente da rede, Deborah Echeverria, defende que no Brasil o modelo convencional de biblioteca não funciona, porque é elitista. Nesta entrevista a Cláudia Santos, Deborah, que também é proprietária de Editora Cubzac, explica que esses espaços são inspirados nas bibliotecas-parque de Medellín e fazem parte das políticas de prevenção à violência da Secretaria de Cidadania e Cultura de Paz do Recife. Definindo-se como uma militante em prol do aumento de leitores no País, ela afirma que o papel da sociedade e, em especial dos gestores públicos, nessa causa é fundamental. “Afinal de contas, nossa cultura passa de geração a geração, século a século, muito através do que está escrito”, ressalta. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024, aponta que 53% dos entrevistados não leram nem mesmo parte de uma obra nos três meses anteriores à enquete. Por que você acha que o brasileiro lê tão pouco? Acho que o fator principal é a concorrência que os livros enfrentam com as tecnologias, com vídeos, com os textos curtos das redes sociais. Crianças e os jovens passam muito tempo com o celular na mão. Além disso, a pandemia teve um grande impacto, com escolas fechadas por muito tempo, com programas de leitura sendo cancelados.   Para reverter essa realidade da leitura no Brasil é preciso um esforço conjunto, tanto das secretarias e Ministério da Cultura, como das secretarias e Ministério da Educação para valorizar a biblioteca escolar e incentivar a criança a gostar de ler. Eu organizo um seminário de biblioteca nas escolas para sensibilizar gestores públicos a formar professores para atuarem na biblioteca. Isso é uma política que vem sendo reforçada no Governo Lula. Sempre ressalto a importância de valorizar, não só as bibliotecas das escolas públicas, como das escolas privadas.  Um aspecto importante é a existência do PNLD Literário (Programa Nacional do Livro Didático Literário), um programa de compra de livros para bibliotecas públicas escolares, o maior do mundo em venda de livros. Então, há uma grande quantidade de obras literárias destinadas aos estudantes. Em 2025, pela primeira vez, os livros do PNLD passaram a ser distribuídos nas bibliotecas públicas e nas comunitárias, por intermédio de uma parceria entre o Ministério da Cultura e o MEC. Cada biblioteca recebeu 600 títulos infantis.  Além das bibliotecas escolares, os pais ainda exercem influência na formação de leitores?  Até a penúltima pesquisa Retratos da Leitura do Brasil, quando se perguntava: “quem mais influencia a leitura?” a resposta mais frequente era a mãe. Na de 2024, a maioria dos entrevistados indicou a escola, os professores. Isso é resultado da política de aquisição e democratização do acesso ao livro. Vale reforçar a importância das bibliotecas nas escolas e as bibliotecas públicas como um espaço de formação do leitor. Crianças, adultos ou jovens que chegam nesses espaços, muitas vezes, não foram formados como leitores, e precisamos atraí-los e transformar essas bibliotecas em espaços que os aproxime da leitura.  Nas bibliotecas municipais que gerencio, que é a Rede de Bibliotecas Pela Paz, há várias atividades para crianças, jovens, adultos e idosos que começam sempre com o livro e depois podem envolver artesanato, dança, cinema. Isso é uma forma de criar vínculo e autonomia para que a pessoa passe a frequentar a biblioteca com as próprias pernas, não só porque a escola leva. Uma criança que frequenta uma biblioteca desde os 6 anos de idade ou até antes, no início da vida, será diferente da que nunca frequentou. Essa formação do leitor também é importante para a sobrevivência das editoras e é uma função da sociedade como um todo.  A Rede de Bibliotecas Pela Paz está subordinada à Secretaria de Cidadania e Cultura de Paz. Qual a relação das bibliotecas com a prevenção à violência? As Redes de Biblioteca Pela Paz da Prefeitura do Recife, assim como os Compaz, que contam com bibliotecas, nasceram da necessidade de prevenir a violência. São espaços inspirados nas bibliotecas-parque de Medellín (Colômbia). A ideia é fazer com que a criança nem entre no campo da violência porque já passou por outros espaços que a levaram a outros caminhos. Aplicamos, nas bibliotecas do Recife, uma formação em círculos de cultura de paz, usando uma metodologia potente criada por uma americana na prevenção à violência.  É um momento de escuta, pessoas são reunidas em círculo e começam a se colocar. Nossa ligação com a Secretaria de Cidadania e Cultura de Paz está relacionada à nossa missão de prevenção à violência. Nesses espaços, temos vários exemplos de pessoas que, graças ao do gosto pela leitura, transformaram suas vidas. Há uma criança que começou a frequentar uma dessas bibliotecas enquanto o pai vendia água mineral no sinal. E, como passava quase o dia inteiro entre livros, foi tomando gosto pela leitura.  Também temos o caso de um adolescente que vendia pipoca no sinal, frequentava muito a biblioteca e foi contratado como recepcionista pelo Compaz. Hoje é músico e ainda trabalha na biblioteca. Também temos o exemplo de uma mãe que tinha cinco filhos, dois deles foram assassinados pelo tráfico e um foi preso. Os outros dois que frequentavam a biblioteca do Alto Santa Terezinha, desde criança, hoje, já estão no Ensino Médio, preparando-se para o Enem e um deles é estagiário na biblioteca.  Você citou círculos

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